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23 outubro, 2015

A Cozinha

(de Warsan Shire. Teaching my mother how to give birth. Tradução: Fabiana Jardim)

Meio papaia e uma palma de óleo de gergelim;
 ultimamente, a cabeça do seu marido tem estado em outro lugar.

Tâmaras, leite de cabra;
 você quer abrandar o inchaço de sal.

Coco e ghee;
 ele beija atrás do seu pescoço no fogão.

Pimenta caiena e alecrim;
 você não pergunta a ele o nome dela.

Folhas de uva e azeitonas;
 você deixa que ele te levante pela cintura.

Canela e tamarindo;
 te deite na bancada da cozinha.

Amêndoas mergulhadas em água de rosas;
 seu marido está faminto.

Mangas maduras e limão com açúcar;
 ele tinha esquecido o seu gosto.

Pão doce e cominho;
 mas ela não consegue fazê-lo comer, como você.

06 março, 2015

quaresma

jejuar, nessa vida sem ritos, apenas nos dias de exame. um jejum tão sem ritmo que arrisca acordar e esquecer do compromisso – e aí toca recomeçar a contagem no dia seguinte: no mínimo doze, no máximo quatorze horas. um breve intervalo para que o sangue colhido revele seus mistérios ao invés de ocultá-los.
na sala de espera, espero. acostumados à distração da fome no correr dos dias, o mau-humor vai se instalando cada vez mais depressa nesses instantes ociosos, ritmados pela campainha a chamar o próximo de uma fila que parece, ela sim, constantemente alimentada.
é uma fome que nem chega a ser fome, claro. é somente um acordar dos músculos do estômago, que se inquietam num vazio ácido.
penso na simplicidade de uma torrada com manteiga e tomates, um pouquinho de sal. café da manhã estranho, aprendido com a amiga querida. penso no cremoso de um café com leite, temperado com uma colher de chá de extrato de baunilha. o leite gordo, a produzir natas e bigodes. penso num suco fresco de laranjas doces.
entre a irritação com a demora e os pensamentos que idealizam um café raramente possível no cotidiano não sobra espaço para nada. o livro, fechado, depois de diversas tentativas de conferir sentido àquelas letras enfileiradas. concentração nenhuma. será que algo no exame de sangue explicará essa incapacidade? ou ela se deve a essa situação momentânea?
na quaresma, o único jejum era o de carne, às sextas-feiras. de vez em quando, o embate com o corpo mais agudo, a suspensão dos doces pelos quarenta dias. atravessar o deserto, sem a ajuda do açúcar: enfrentar-se com o vazio e o seco, sem conforto algum. do outro lado, a alegria de dobrar a própria vontade.
um nome é chamado na área de exames e faz o coração quase parar. é o nome e sobrenome dela e estico o pescoço e os olhos, mesmo sem querer. mesmo sabendo que ela está morta há vinte anos. o nome, que era o dela, abrindo uma fresta de possibilidade de tudo ter sido um engano, um engodo. e então eu a encontraria, finalmente envelhecida, não mais congelada naquele corpo de dezessete anos. me sinto boba e frágil ao ter me assustado. é um nome comum, afinal.
procurando por ela, nem vejo sua homônima. não saberia reconhece-la, se o que procuro é essa outra, ainda aos dezessete anos, o corpo alto e esguio de bailarina como antes da doença. antes da travessia pelo deserto. na quaresma daquele ano, será que abri mão dos chocolates e dos doces, barganhando: um sacrifício por um milagre? minha memória me trai. só me lembro de ter ofertado a ela chocolates.
finalmente a minha vez, e a enfermeira erra a veia, me machucando. quantas marcas, um corpo hospitalizado? não deveria mais pensar nisso, mas penso. agora é só no que penso: nela, em seu corpo frágil (como o meu); nela, e no frio que sentia (e que também me provoca arrepios); nela e no tanto de amor em volta dela, ainda que insuficiente para amarrá-la a esta vida. foi depois da morte dela que jejuar deixou de fazer sentido – a urgência atravessando o tempo e fazendo do deserto, cidade de luzes e desejos.

meu braço está roxo. em casa não há tomates nem laranjas. pego na geladeira o leite: uma xícara na leiteira e outra na vasilha branca. enquanto o leite esquenta e o café passa, derramo ainda um ovo, uma colher de óleo, uma colher de fermento químico e uma xícara de farinha de trigo na vasilha onde só havia leite. uma pitada de sal e uma colher de açúcar. mexo bem e começo a cozinhar: panquecas, redondas e grossas. um improviso, mas nem parece. na primeira garfada trituro pequenos pedaços e percebo que deixei parte da casca dos ovos cair na massa. finalmente começar o dia, no esforço em chegar ao fim de mais uma travessia – a  memória da areia entre os dentes.

24 maio, 2014

suspiro


primeiro eu achava que era da ordem da tessitura: esse trabalho de ir ligando os panos, cuidando de encontrar a medida certa de força pra agulha construir amparos ao invés de esgarçar a trama. numa sala de aula nova, ciclicamente nova, a fala e os gestos como essa agulha que se lança pra tecer afetos, sentidos, elos entre passado e presente. sempre bonita essa imagem do tecido, não é à toa que já quase puída. mas é que exata também. que nem no poema do joão cabral. que pra mim remete mesmo ao próprio ato de ensinar como partilha do sabido – a voz do mario chamie nos conduzindo com firmeza na compreensão do avesso perfeito de um poema, para que aprendêssemos além da costura, o corte.
depois achava que era da ordem da performance. de encarnar uma espécie de personagem, deixar-se tomar pelo roteiro de uma reflexão, de um conjunto de autores, deixando espaço pra algum improviso. algo meio entre o teatro e o rito. especialmente nos lapsos em que uma aula é menos protocolo e mais revelação. o pensamento que, proferido, arrepia, leva lágrimas aos olhos: mistura a terra ao céu. às vezes; com sorte; se as condições permitem. um lampejo de pequena glória.
ainda por um tempo achei que era da ordem do encontro. mau ou bom, mas sempre encontro. a sala de aula como espaço trágico, onde algo pode ser rompido (ou algo de inesperado pode irromper). o amigo um dia me disse: é um tatame, onde a gente deve se jogar. tanta intensidade. tanta dureza também, aprender a aceitar a provisoriedade desses encontros: a gente fixo entre constelações cambiantes de pessoas girando, girando suas infinitas espirais.
ultimamente, tem sido no registro do cozinhar. a gente separa os ingredientes, verifica se está conforme a receita e vê no que vai dar. a cada vez faz igual, mas sai diferente. e às vezes faz tudo diferente, e acaba no igual. como cozinhar, educar é insistência. a gente testa, tenta, erra, perde tempo. às vezes se mete à besta de inventar alguma coisa e vive a angústia de não saber no que vai dar (ou vive o frio na espinha da ansiedade de não saber no que vai dar). como quem quebra os ovos, um a um, separando as claras e as gemas e reserva as gemas para uma receita outra. num continente de cerâmica, as claras ganham uma primeira forma – como as pessoas, aleatoriamente reunidas no espaço que também as quer conter, indicando na mobília o lugar que lhes cabe e que devem ocupar. e então, nessa versão da metáfora, ensinar é exercício de vontade no bater das claras. os desencontros e os não-entendidos e os mal-entendidos: choques entre cerâmica e metal. necessários ao processo por meio do qual o que era transparência e viscosidade ganha corpo e se transmuda em espuma e ar. as raspas de limão, a colher de extrato de baunilha, o açúcar polvilhado a cada aula - partes do esforço de temperar o que, não fosse isso, seria somente nuvem, utilidade que não alimenta. precisa saber o truque pra cozer as coisas por dentro, evitando a casca dura a guardar um interior mole demais. o ponto certo meio cercado de mistério – o cozinheiro-professor ignorante mesmo do segredo alquímico. é bom quando funciona e o resultado final sabe bem. terrível quando queima, desanda ou simplesmente não dá ponto de jeito algum.
quando pesa demais a responsabilidade da tessitura, a coerção da performance ou a intensidade do encontro, resta ainda essa forma delicada de preparar aulas como quem prepara doçuras, inserindo no que podia ser afirmação enfática e certeza dura, o quebradiço dos suspiros.

16 abril, 2014

vórtice, brinquedo, promessa*


sabe,  eu tinha um sonho quando pequena de ter um autorama. nas férias que a gente passava na casa dos meus avós, eu adorava brincar com o autorama antigo, que era descido de um armário bem alto quando filhos e netos todos reunidos. a ideia nem era divertir a meninada – era mesmo pros meus tios voltarem a ser crianças. que nem acontecia com a minha tia quando, ciumenta, tirava de dentro de uma cômoda de brinquedo as roupinhas de sua susie para provocar nossa vontade.
o que eu gostava do autorama era da emoção das curvas, das pequenas faíscas, da falta de pressa de todas aquelas demoradas voltas no infinito. os ciclos, sempre eles, dobrando-se sobre si mesmos uma, duas, quantas vezes o desejo. engraçado lembrar disso agora. agora, enquanto olho pra você e penso que eu queria mesmo era convidar você pra brincar comigo, pra se juntar a mim nos passeios por esses trechos que eu armei há tanto tempo e dei o nome de “minha vida”. lembrei dessa história boba e infantil – quem sabe freud explicasse – pois pensar essas coisas todas só porque nos encontramos me faz sentir exatamente boba e infantil.
meu prato predileto quando estou triste é feito de batatas cozidas até o ponto de desmanchar, misturadas com manteiga, sal e leite: um purê sem muita densidade, quentinho, onde o garfo ara finos sulcos, onde o feijão fresco e rescendendo a louro pode escorrer. se ainda um refogado de tomates e cebolas em caçarola de ferro, onde se derramem umas ervilhas debulhadas, onde se quebre um ovo caipira e se espere a gema endurecer e empalidecer... o mundo restaura a ordem que teve uma vez durante a infância: em volta da mesa, o invólucro uterino de cuidado e proteção. estou falando demais, eu sei, talvez muito mais do que você gostava de ouvir. as palavras desgovernadas, teimando em descarrilar.
quando assisti central do brasil, lembro de ter achado tão bonito e duro e de ter especialmente gostado da honestidade quase brutal da dora em sempre enunciar os fatos crus. mas lembro de também ter achado bonita a rendição dela a uma espécie de pensamento mágico infantil, que aposta todas as fichas no encontro e na esperança. todo o contrário da monotonia do ir e vir nos trilhos nesse desvio de abrir espaço pra acreditar.
queria dizer pra você que também abro esse espaço; veja bem que enquanto falo vou abrindo picadas em tudo o que até ontem era uma selva de improbabilidade. enquanto falo vou me esquecendo de que cresci, só pra rearticular os trilhos de modo que caiba você; vou me esquecendo que cresci, e então posso tirar as calhas já montadas logo à frente e tatear outros destinos; vou me esquecendo que cresci e então nem bobagem, nem infância – agarro com força esse sentimento que me desencaminha do infinito ciclo.
esboço o gesto, ainda que sem o engate da coragem que me conduziria à conclusão:

* título a la Nuno Ramos.

07 abril, 2014

dia de visita

quando as noites de sono inquieto e frágil e os dias cheios de pausas e suspiros ela sabia bem que nome dar àquele nó – meio expectativa, meio resignação. flor de ir embora. o nome tirado de uma música antiga. música que doía um pouco, assim como a falta de ar provocada por aquela flor nascida por dentro, à revelia da ausência de sol e de terra. flor que adivinha roxa, na memória de tantas quaresmas a encobrir os santos, a aprofundar as culpas, a volta e meia cutucar bem funda a dor – até que o sábado amanheça, trazendo a festa da vida nova. a flor que traz em si é roxa, disso está certa, e quando dá de abrir, abre num repente: faz engasgar o todo-dia e pesa o peso do botão recém-aberto, a cabeça pensa no caule temerariamente fino.

pôs então a toalha de chita sobre a mesa e também dois pratos de louça branca, garfos e facas, duas xícaras de chá. os guardanapos de pano vermelho – a bainha costurada por ela numa das vezes em que a flor nascera. inebriava a todos durante aquelas florações: a vontade de liberdade, a aflição em despetalar as palavras todas, abrindo picada pelos caminhos da garganta. às vezes ocupando excessivamente as mãos para esperar o que nasceu crescer, envelhecer e morrer. insuportáveis estes ciclos, pensa.

e enquanto pensa vai amassando farinha, manteiga, iogurte e água. é quase com violência que abre a massa – o cilindro alisando e esticando o que até há pouco era só nó. coloca a massa sobre a forma, coloca a forma dentro do forno. e espera.

enquanto espera, abre o shimeji e derrete a manteiga e sente o cheiro forte e bom do acinzentado refogando: uma pequena alegria, a floração nascida no úmido e escuro se transformando em intensidade e maciez. rouba um bocadinho com os dedos, mistura à cebolinha picada. e reserva. que agora é hora de bater os ovos às natas, também um pouco de sal e noz moscada. finalmente mistura tudo e derrama sobre a massa, dourada e fofa. então devolve tudo ao útero quente do fogão.

na leiteira, derrama o leite e o pedacinho de uma fava de baunilha. a fúria do leite fervendo espumas contrasta com o entalo de sua flor, imóvel. adivinha o gosto e a textura do leite morninho a descer pela garganta, carregando consigo qualquer resquício de caule e pétalas, inaugurando um outono.

hoje não tem café preto. só o leite amansando e umedecendo a baunilha um pouco ressequida – tanto tempo desde que. a casa vazia, a mesa vazia. pra pôr o ciclo em movimento é sempre este misto de espera e ação. pensa nele e o medo e a esperança se pororocam numa única saliva, carregando finalmente aquela flor dolorida corpo adentro. o espaço, enfim, liberado. a porta destrancada por dentro.

na hora certa, toca a campainha e ela, menina antiga, só tem tempo de pensar alto: quem vem lá? como se já não soubesse. como se pega de surpresa. como se não tivesse sido ela mesma a mandar o convite.

27 fevereiro, 2014

a dupla chama

para j.



entre a surpresa e a preguiça, a amiga notou que precisava muita paciência pra fazer aquela comida. pra ser sincera nem entendi direito a observação: era só deixar ferver o litro de água e depois baixar o fogo e jogar o hondashi e finalmente ir dissolvendo, pouco a pouco, o missô. pensando bem, beirava a meditação o cuidado em passar a colher de um lado para o outro sobre o missô depositado na concha. dava para ler o futuro nos desenhos que se desprendiam da massa de soja e se misturavam ao hondashi – mais grosso, a gravidade rápida em leva-lo ao fundo da panela. não era difícil, nem elaborado, mas exigia uma espécie de transe. um tipo de paciência. o respeito aos mistérios das coisas que se cozinham lentas. aquelas que não adianta apressar.
uma vez, um amor, quando jovem. daqueles em que tudo erra, mas não encerra e aí o amor fica ali, cozinhando lento, feito batata doce que a gente enrola no alumínio com casca e tudo e esquece no fundo do forno enquanto assa um suflê de abobrinhas ou um pão. só pra depois encontrar o alumínio escurecido e se surpreender com a doçura escorrendo morna, o cozimento completo sem que ninguém tenha programado o timer ou se dado conta daquela prontidão se instalando devagar. a distração dos outros cheiros e sabores alimentando o esquecimento. preparando o tempo da rememoração e do reencontro. foi de lá, desse amor cru e colhido verde, que eu trouxe esse fogo brando.
e essa paciência infinita pra esperar o tempo de cada coisa. o tempo de cada um.
e também uma espécie de medo da morte – do fogo tão baixo que se apaga sem que a gente se dê conta.
nem tudo porém se coze em fogo brando – só o que é duro demais, o que é sem gosto demais, aquilo em que é preciso matar a semente pra melhor saborear o grão.
a lição vem tardia? os dentes de alho separados, protegidos pela casca roxa. na panela, a xícara de água fervendo com a xícara e meia de açúcar. e aí os alhos borbulhando em festa, a chama viva, a falta de tampa. a umidade evaporando para ceder lugar ao que é doce, cada vez mais doce.
essa receita só me é possível enquanto envelheço: deixar a água secar assim, quase ao ponto da incineração; flertar de tão perto com a queimadura; chegar a sentir o cheiro e o gosto do carvão. e então interromper – a meia xícara de aceto balsâmico: avinagrando a fervura só para logo se misturar às blandícias do açúcar. o caramelo fresco a envolver o que um dia foi rosa e roxo; a ternura a abraçar o que outrora somente acidez e olor.
não, nem tudo se coze em fogo brando. tem o que valha a pena que se prepara assim: o fogo temerariamente alto, a calda perigosamente grossa. tecendo o agridoce de estar vivo com diligência. reservando a paciência para a fruição de espremer um a um os dentes de alho sobre o pão fresco. abandonando-a de novo para cravar vorazes os dentes nesse breve festejo.

17 fevereiro, 2014

grafite, diamante

tem um momento que a coisa... pam! sem muita explicação, sem muita elaboração. como se já estivesse pronta, maturada e precisasse apenas de um momento-quando pra vir à luz. quando a gente vive uma vida inteira junto, sabe que não tem só um momento-quando, são vários. não tantos que a coisa toda seja banal. mas também não tem um e pronto. porque quando a gente vive uma vida inteira junto, a gente vive várias vidas e não uma só. a gente muda, desmuda, encontra, desencontra, tem épocas de alegria e vivacidade e outros de tristeza e melancolia. e ainda nem tô falando de tempo, repare, embora o tempo faça sim diferença. sessenta e um anos, foi o tempo que eu vivi do lado dele. foram várias as vidas juntos – várias as cidades, várias as casas, vários os amores.
ele era tão quieto. o homem alto e forte por quem me apaixonei. pelos olhos dele, o mundo até se organizava, visto lá de cima, com distância e perspectiva. era um conforto pro meu olhar miúdo, de quem presta atenção ao feijão e arroz que na minha época ainda se separava, grão e pedras. meu olhar atento, de quem abre os ovos, peneira a farinha e o açúcar, e acompanha pelo olfato o que era massa virar pão. ou bolo.
se quisesse acompanha-lo pelos sentidos, dava para adivinhar ainda da cama o banheiro se encher do cheiro do sabonete predileto e depois a loção pós-barba e ainda o desodorante. a partir daí, acompanhava-o pelos ouvidos: o som da escova de dentes, na boca, na pia. o som da respiração dele, aproximando-se de mim, para me acordar com um beijo. o som da risada dele, no café da manhã. ou do seu suspiro, fossem duros os tempos ou dolorosas as notícias. a voz dele quase não se ouvia. sua presença era discreta. mas tão fundamental, descubro agora. agora quando sinto imensa falta do silêncio dele.
ando com as pernas fracas, parecendo bambas, como se eu tivesse desaprendido a andar. não é da velhice, não. embora eu esteja velha, claro: não só nas rugas, nem no cabelo branco, nem nas mãos cheias de veios e raízes. mas as pernas fraquejam porque agora ando sempre sem chão. o pé se lança à frente e entre o início e o fim do movimento me lembro, e é aí que a perna falha. essa consciência de estar sozinha no mundo. de estar num mundo sem ele. ele que é meu companheiro, que era minha companhia. se eu chorasse tudo o que dói, escorreria água pela cozinha, pela escadaria da frente de casa, pela rua inclinada onde acabamos vindo morar, e já faz tantos anos. a gente toda ia achar que era março, que era o final do verão com seu calor, suas chuvas repentinas, suas enchentes. não faz diferença o gosto da chuva e o do choro destampado.
em um dia qualquer, cismei de inovar na sobremesa. a gente já tinha bem uns trinta anos de casado, eu em crise, cansada da fase da torta de limão. (quando casamos, houve a fase da ambrosia. depois nasceram as crianças, e houve a fase do chocolate: mousse, bolo, bolacha, creme. também houve o ciclo do pudim de uva, tão macio e refrescante. as sobremesas entravam e saiam de moda, conforme o ritmo da vida). os filhos vinham aos finais de semana e resolvi testar uma receita estranha, que veio num livro de receitas vegetarianas indianas. acho que era a única receita do livro todo que dava certo. as outras melavam, desandavam, murchavam. mas o gulab jamun funcionou. e virou nossa receita de almoços longos e largos por alguns anos. minhas mãos não eram tão manchadas e enrugadas como agora. lembro direitinho da sensação que o leite em pó se misturando à manteiga deixava na minha mão.
no velório, lembrei desse doce. deve ser o cheiro das flores. a gente começa fazendo a calda doce: um copo e meio de açúcar, um copo de água, um pouco de cardamomo e duas gotas de água de rosas. primeiro deixa a água e o açúcar ferverem. só depois coloca o cardamomo e a água de rosas. ainda é opaco, logo quando desliga. aí tem que colocar a colher de chá de suco de limão. para preservar a consistência. já naquela época eu pensava uma estranheza: que aquela calda também sabia a embalsamamentos. que era para perfumar e adocicar a morte. cada coisa que a gente pensa, mesmo jovem. rá! agora eu era jovem aos sessenta anos... tudo é mesmo uma questão de perspectiva.
depois da calda, começa-se a preparar os bolinhos. uma xícara de leite em pó. uma colher de sopa de manteiga, pois eu nunca tinha ghee. uma colher de sopa de farinha de trigo e outra de semolina. um quarto de colher de chá de fermento químico. essa parte sempre me indignava: quem é que pensa em colocar um quarto de colher de chá? que medida estranha é essa? também vai duas colheres de sopa de leite morno, ou mais, se precisar, e mais umas gotinhas de suco de limão. o segredo é deixar o leite umedecido antes de começar a misturar. e deixar descansar um pouquinho antes de fritar. porque os bolinhos devem ficar um tantinho aerados, pra absorver a calda. bolinhos-múmia. bolinhos de chuva encharcados de água doce. bolinhos bons e úmidos e docinhos na medida. rescendendo suavemente a rosas, distraindo da morte. depois de prontos – vinte quatro horas mergulhados na calda – e gelados, os bolinhos quase imitavam fruta madura. nem parecia que eu tinha feito: mas colhido de uma árvore secreta. eu gostava, gostava mesmo, de cultivar aqueles bolinhos.
o momento em que eu me dei conta, assim, de supetão, de que ia ficar sozinha nem foi agora, no final. foi antes, muito antes, quase que lá no começo. um dia acordei mais tarde e a casa estava vazia. nem trinta anos eu tinha. procurei na sala, na cozinha, nos banheiros. quando ele voltou – do jornal de domingo e do pão fresco – me encontrou chorando à beça. foi quando eu soube que seria viúva. desde então foi essa pequena falha entre uma batida e outra do meu coração. antecipando a falha entre os passos. as gotas de limão no caldo doce, pra manter lúcida a transparência.

10 novembro, 2013

paragem

“Nada em nós ventila, só o vento dentro do vento nos alcança, sem notícia, nem claridade, nem viagem nem sal marinho” (Nuno Ramos).

Coloco o grão-de-bico deixado de molho, desde ontem, pra cozinhar na panela de pressão. Histórias antigas de panelas explodindo passam rápido pela minha memória, a pele solta do grão inchado entupindo os buracos por onde o ar deveria escapar. Penso no meu irmão, sempre tão mais artesão de virar o sentimento em palavra. Penso nele conversando com a mãe. Tateando a coragem. Pedindo ajuda pra se desvencilhar de si mesmo e colocar um pé adiante de outro pé adiante. As conversas lentas na cozinha onde a luz do dia fazia contraste e em vez de iluminar, protegia as sombras.
Eles conversavam naqueles meios de tarde, a louça já lavada, as panelas de alumínio brilhando, o café já começando a pingar no bule comprido, também ele de alumínio. Eles conversavam e eu ouvia. Do que falavam não era nenhum segredo, mas ainda assim eu me esgueirava para escutar, espichava o ouvido, o coração quase atrapalhando a missão de tanto que tum-tum-tum.
Pego na cesta um gengibre já querendo murchar, tanta secura por dentro. Vou no quintal, agora mato alto, e encontro coentro, florindo brancuras. Também ele meio amarelando, o sol do meio dia paralisando até a vontade tênue. Faz calor. Um calor modorrento.
Penso no meu irmão para desviar de pensar na mãe. Em seus sabimentos. No jeito de ensinar as coisas mais duras, mais fundas, como quem ensina a cortar a lenha ou a dar ponto de tricô. Ela nem lia. Nem escrevia. O mundo não era um livro aberto – as páginas brancas ordenadas em sentenças, encadeamentos, sentido. O mundo dela era cheio de recônditos e entranhas. Sentidos só vezemquando revelados. A mãe era toda poesia, os cabelos soltos, as mãos rugosas, os olhos transluzindo todos os universos que ela tornava habitados.
Pensar nela me paralisa, agora. Devia ser o contrário: sem ela, sem o pai, eu navio subindo as âncoras e capaz de errar, tantos mares. Mas lembro dela, lembro essa minha orfandade e ai. Falta o ar.
Na caçarola jogo cebola, gengibre, cominho. Também duas folhas de louro. Três dentes de alho, inteiros. Azeite, bem pouquinho.
Quando eu tinha medo, ela falava de sol e chuva, de secas e umidades, de estações. Eu entendia, sem entender. Que o presente é frágil. Que a vida é ciclo. Que tem tempos de aridez e estio. E outros de festa úmida e florescências. Que a coragem está no passo, mas também na espera – pelo tempo certo e oportuno.
O ar que me falta, há de voltar a soprar? Quando eu doente, um amor derramado em caldos, nem todos bons. A canja, claro, imitando um sol desmaiado, pra não provocar a doença. O chá grosso de açúcar queimado, cravo, canela e gengibre. Tomado quente, só quando a cama já feita e o sono já próximo. A suadeira exorcizando o que quer que estivesse ali, roubando as forças. O chá de alho também – no limiar entre o ruim e o bom.
O irmão dominava as palavras e assim arrancava da mãe bonitezas e filosofias – ele queria aprender a viver, e mãe lhe passava as chaves com que abria o cada dia. Eu sempre fui de silêncios. De dores apertadas no peito ou no pescoço. Da mãe eu só arrancava os cuidados práticos – os remédios na doença; a comida no todo dia; o cerzido nas roupas; a cama feita nas manhãs.
Corto em cubinhos a cenoura e a vagem. Ponho pra cozinhar no vapor. O ponto certo entre o nem cru, nem cozido demais.
Penso na mãe, no pai e nessas podas à revelia. Eu agora menos afeito à minha terra, à casa e à rua onde cresci. Mas incapaz ainda assim de me lançar.
Acendo o fogo debaixo da caçarola e sinto o cheiro do gengibre, do cominho, da cebola. Todos os cheiros misturados, tão fortes, tão bons. Coloco o grão de bico. A cenoura. As vagens. O dahl vai ganhando corpo, o caldo grosso, os sabores intensos.
Antecipo o gosto, sabendo o calor, preparando as bochechas e o estômago quentes. Sabendo, sem saber, que é comida de curar. Cortando o coentro e jogando ali, ainda que nem faça sentido comer comida tão quente num dia tão quente. É estranho. Tão estranho que pra criar refresco, seja necessário ainda aumentar o calor.
Sento pra comer. Sozinho, na mesa onde aprendemos a ser família. O irmão, bem ensinado nas coragens, agora do outro lado do mundo. A comida aquece a boca, desce esquentando peito e barriga. Fervura. O gengibre, o cominho, o coentro clareando as maçãs do rosto, ensinando ao ar os caminhos por onde inflar os pulmões.
Dentro de mim, algo faz vento e finalmente sou capaz de respirar.

28 agosto, 2013

em fogo brando


Quarta-feira, que é o dia possível, sem filhos para pegar na escola, sem pai para levar ao médico. Eu e ela, em pontas diversas da vida. Mas a gente se encontra, nessa mesa aqui de casa – a toalha de chita, os pratos brancos, a saudade grande de papear sem pressa.
Ela chega, eu abro a porta, a gente para, a olhar o verde crescendo. O louro, que ela conheceu quando ainda era muda. O alecrim, que temperou tantas sopas de abóbora. O manjericão, que perfumava saladas e molhos. O hortelã, coitado, um pouco sofrido e precisando se recuperar do inverno seco. Tudo isso olhamos juntas, a conversa animada nessa atenção aos ciclos. Aproveito para colher um pouco de coentro e ela já adivinha: vamos ter moqueca.
Entramos, a bolsa dela no sofá, as chaves no móvel, e já nos encaminhamos para a cozinha. Faço e ofereço café, que o convite é para o almoço, mas tudo ainda está por fazer. É bom aquele quente e aquele amargo. Sempre achei que café fosse uma espécie de preâmbulo. Ou de pretexto, ela comenta, rindo ao me lembrar que foi esse o convite que fiz ao meu marido, da primeira vez que saímos, e que naquele dia o café virou lanche e sobremesa e petisco antes do jantar e retornou sobre si mesmo no desjejum do dia seguinte. Também rio dessa história antiga, que ela ouviu em primeira mão, mal eu tinha chegado em casa, o cansaço e a alegria no corpo.
Se não é preâmbulo, perco a desculpa e começo a ajeitar as coisas. Pego as cebolas e vou cortando, bem fininhas, enquanto ela ao lado vai desprendendo as camadas em anéis. Os tomates, vermelhos e maduros, também corto em rodelas.
Conto dos filhos, crescendo imensos e tão outros que perco o fôlego e não os reconheço no que dizem, no que fazem, no que falam. Falo do marido, os cabelos cada vez mais brancos, e a ternura funda de ver cumprir as promessas de envelhecer juntos. Ela fala do pai, do acostumar-se com o susto de reconhece-lo tão velho. Senil, é a palavra, a que as manchas e rugas nas mãos e o lapsos de memória dão corpo. Um corpo envelhecido, e tão frágil, ela vê.
Abro o vidro de pupunha. Mais círculos na nossa comida, penso. Mas não falo, pois continuo a escutar o que ela me diz, agora sem palavras, apenas os lábios que se apertaram ao falar do pai ainda em linhas finas, enquanto ela vai descascando as bananas da terra e cortando em pedaços. En trozos, penso, sem querer. Talvez porque ela, seu tanto destroçada.
Respiro fundo, me estendendo para pegar a panela de barro. Depois de lavar, coloco sobre o fogão. E vou deitando o azeite, as cebolas, os tomates, a pupunha, as bananas. E depois mais azeite, mais cebolas, mais tomates, mais pupunha, mais banana. Ela começa a picar cebola para o arroz, enquanto eu derramo mais azeite, mais cebola, mais tomate, mais pupunha, mais banana. E leite de coco. E sal. E também umas azeitonas pretas, que não estão na receita, mas sabem a remédio pra pressão baixa. E agora, bem agora, a energia querendo escapar na tristeza pesada que dividimos.
Acendo o fogo, baixo. Não tem nada que precise realmente cozinhar – tudo macio, tudo delicado. O calor é para tirar do tomate e da cebola o mel e, umedecendo, temperar. Então, espero ferver em fogo brando. Devagar e lento.
Enquanto coloco o arroz para cozinhar, ela pica o coentro e o cheiro de barro e moqueca se desprende pela casa. Ela espia, conta que aquele tanto de círculo montou mesmo foi uma mandala, e que soube que os monges budistas traçam cuidadosos essas formas na areia só para depois desfazê-las, também ritualmente. Sorrimos diante da ideia. Mas não por acharmos graça. Eu, pelo menos, acho é bonita essa consciência do perecível que valoriza o exercício sem necessidade de duração. Exercitar para sondar os mistérios, não para fixar as respostas.
Como convidar uma amiga para o almoço e dividir com ela cada tarefa, falando e ouvindo, sem descuidar do silêncio. Como esperar eternidades a fervura levantar, e só então jogar o coentro e fechar a panela. Abafando o borbulhar para dar novamente lugar à conversa. Esperando sem pressa a comida estar pronta, para desmanchar, colher a colher, o diagrama concêntrico. A nossa mandala, era ri, ao menos se desfaz em saciedade.

02 junho, 2013

pink rabbits

 
depois de um tempo, a gente quase se acostuma a não pensar no assunto e então o perigo de ser surpreendido com algum pedaço do outro. ainda me assusto. sei que nem é mais amor. ou ao menos acho que sei. é mais a saudade do espaço que ela abriu por dentro de mim. saudade de quem eu era ali, naqueles olhos, com aquela mão dada à minha, os cabelos brancos dela que eu amava tanto quando o vento trazia pro rosto e a desculpa de coloca-lo por detrás da orelha, o rosto dela quente e terno. uma saudade que nada nem ninguém amansa. assim que hoje saí de manhã para passear o cachorro e também comprar pão e leite e frutas. e choveu uma chuva que eu não esperava, que me apanhou desprotegido. eu ali no meio da rua, o cachorro tentando correr pra casa. o pão quente encharcando. as frutas melancólicas com as gotas escorrendo pelo saquinho cor-de-rosa. e eu me lembrei dela. sem motivo aparente. talvez porque quando a chuva desabou eu estivesse numa esquina – encruzilhada. talvez porque numa das últimas vezes que nos vimos, a avenida larga, o céu cinza também ele adiando a decisão, o passeio longo, e os passos tropeçando na fundura da tristeza de saber que ela não ficaria. se eu soubesse como, ela me disse. e naquela esquina onde a chuva me alcançou, tantos anos depois, eu ainda sem saber. o que dizer a ela. o que dizer pra mim. a gente acostuma, sim. ainda que desconfiando de tudo o que perdeu. ainda que não parecesse certo pedir que ela se dividisse, o marido, os filhos, toda aquela vida que ele, nenhuma pista. existiam apenas naquele espaço, bolha-de-sabão colorida que agora não mais. encharcados, eu e o cachorro. abro a porta, ponho as compras sobre a mesa da cozinha, pego uma toalha pra secar o cachorro, entro eu mesmo no banho quente, a água aliviando o frio e o desconsolo. pouco, no entanto. saio do banho, me seco, coloco roupas quentes e, já na cozinha, água pra ferver. já tinha casado uma vez, mas só depois dela a consciência da absoluta solidão. na urgência de tê-la sempre perto. na falta de ar de sabê-la longe. na saudade dos abraços lentos e infinitos. no trabalho que dá não pensar nela. tiro dos saquinhos molhados as maçãs, as peras, os maracujás. pra distrair as mãos, pego duas maçãs e duas peras e lavo e corto ao meio e tiro a semente e pico em cubos e levo ao fogo, pra amolecer. a água agora chá-de-cidreira. me vejo no vidro do armário da cozinha, o moletom cinza, o rosto abatido e me sei convalescente. quase dez anos, e ainda convalescente, ainda sujeito a recidivas. ou reincidente no crime, vai saber. vai saber se não sou eu quem cutuca a casquinha, só pra me sentir assim vivo e latejante. pra recuperá-la um pouquinho na lembrança do que fomos. coloco numa vasilha pouco mais de meia xícara de manteiga, um pouco de canela, uma xícara de farinha de trigo, uma xícara de açúcar. demerara, que é o que tem e é o que mais combina com esse crumble. misturo, delicado, os ingredientes até o ponto em que esfarelam. como se fossem memória. como se assim a falta dela me deixasse menos nu na chuva agora virada garoa. sem ela: o inescapável da consciência me lançando em pleno alto-mar. pego outra vasilha, lambuzo os dedos como ela costumava fazer, unto tudo antes de colocar as frutas escorridas, mais o maracujá recém-aberto. pra quebrar o doce. pra ser honesto com os sentidos, pois que não há nada tão apenas-doce. jogo a farofa por cima de tudo e coloco as coisas no forno. sento ali em frente, esperando roubar algum calor. o chá entre as mãos. o nome dela entre os lábios. se o pronunciasse, ela ouviria? saberia dizer de onde aquela voz, se do passado, se de agora? se do futuro que prometi um dia – a gente num barco que nunca aporta, à deriva um do outro, um no outro? na boca, a semente de maracujá atropelando a brandura da maçã e da pera.

17 maio, 2013

voragem

é a imagem dela dentro de mim - essa memória frágil e amarelada - que me dá força pra de vez em quando odiar. a imagem relampeja e logo se fixa no céu da lembrança, feito a primeira estrela na noite nebulosa. ela no chão. ela ajoelhada no chão de uma cozinha. ela e a bacia presa entre os joelhos. ela e as mãos, incansáveis, virando e revirando a massa. a massa de pão. o avental entre o colo e a bacia. e a massa virando e revirando. ela está envelhecendo, mas é uma heroína pros meus olhos infantis. ela e a amplidão de seu espaço. ela e a fazenda de rio gelado, porcos gordos, mato farto. a mulher que no fim da tarde me ensina a modelar a raiva: um quilo de farinha de trigo. três copos do leite gordo e forte que me salvou os olhos quando, ingênua, achei que a pimenta guardava dentro de si o seu ardido. uma colher de sopa de açúcar. dois tabletes de fermento biológico. meio copo de manteiga. sal a gosto. a receita pra aplainar o que farpeja por dentro. os cabelos loiros dela presos enquanto as mãos, ágeis, virando e revirando a massa. ela vê meu olho espantado de criança frente àquele estranho rito e me confidencia: é pra usar bem a fúria. e pára de virar e revirar para socar, bater, lançar plafts a massa no solo duro da bacia. a imagem dela ecoando mais luminosa no prateado do alumínio. a bacia inteira amassada. marcada pelo sem-número de vezes que numa vida, numa vida de mulher, numa vida de esposa, numa vida de mãe, fermenta-se o pão na ebulição do sentimento. ela é tão bonita, assim sem contornos claros na minha memória. sinto falta dela. então recupero, palavra por palavra, essa imagem. especialmente quando eu também viva, uma vida de mulher, uma vida de esposa, uma vida de mãe. fermentando o pão na quentura do sentimento. depois colocando pra descansar a massa. e polvilhando de farinha a ira agora ovalada. cortando xis antes de levar ao forno. depositando a raiva crua no forno pré-aquecido e esperando crescer, crescer. e cozer. e dourar. e por fim recolher ainda quente o milagre. ela de volta, quase viva novamente. e então eu agradeço a ela, por ela. por saber o que fazer do meu rancor. no pão ainda quente, a vida finalmente amansa. o búfalo alimentado se deita amplo e fecha os olhos.

19 abril, 2013

receitas vegetarianas - destempero

mas olha só que perdi a receita inteira nesse fogo alto demais e agora vou ter que começar tudo de novo que disso não se salva nada: tudo com cheiro e gosto de fumaça e ai que tem dia que é assim mesmo que parece que as mãos excretam o limão que trazemos por dentro e azedam tudo e talham tudo que tocam e é que me dá tanta pena o trigo o óleo os ovos as maçãs e todo esse desperdício que chega a me doer e ainda mais porque tudo o que eu queria hoje era um pequenino natal do cheiro da canela espalhando pela casa varrendo as melancolias recentes e agudas e as nozes penetrando doces nas frestinhas das dores antigas feito bálsamo mas agora as pequenas epifanias ressecadas logo hoje que eu acordei precisando tanto-tanto desse milagre de recomeço e me pus a cozinhar ainda de camisola azul de renda acordando os músculos no esforço de mexer essa massa desse bolo que eu adoro e que é tão ruim de mexer mas eu não sabia fazer outra coisa pra espantar os fantasmas dos sonhos e suas sombras no meu dia ainda porvir e assim fui passando na peneira as três xícaras de farinha de trigo ao mesmo tempo em que o café passava pelo filtro de pano que eu trouxe de outras vidas e passei na peneira também a colher de bicarbonato e a colher de sal e a colher de canela em pó já tão fininhas e leves mas também escondendo seus minúsculos nódulos e enquanto o pão esquentava na torradeira eu ia quebrando os ovos numa outra tigela torcendo pra que nenhum deles estivesse estragado que me aflige tanto esse mistério do ovo às vezes galado me enche de tristeza o galo que não foi que mal chegou a ser pintinho mas hoje que eu me esqueci de quebrar num potinho os ovos antes de coloca-lo na tigela definitiva nenhum ovo fecundado só aquela festa de amarelo forte os pequenos sóis ajudando a acordar o dia e então o açúcar que eu também fui peneirando aos poucos já me sentindo mais protegida pela mistura de ovos e açúcar que ia ficando clarinha clarinha e era como se fosse se diluindo o que em mim acordou doendo e me amansassem os medos e os sustos conforme o café quente e doce amornava a boca e o hálito ainda faltava a xícara de óleo que se incorporou fácil à mistura e enquanto tudo isso descansasse fui cortar as últimas três maçãs que tinha em casa tirando a casca e as sementes e fatiando cubos e deixando ainda um pouco de ímpeto para triturar as nozes apenas com as mãos para me livrar do que em mim é violência e com tudo pronto e o café tomado finalmente fui misturando a parte úmida à parte seca bem devagar que essa massa é consistente e pensar bem por que é que fui me meter a fazer isso logo de manhã logo precisada de levezas se a massa é pesada e meus braços reclamaram e nem vai fermento para fazer as pequenas bolhas de ar só bicarbonato pruma massa que mal cresce e só quando a massa finalmente misturada e quando as maçãs finalmente incorporadas e quando as nozes finalmente incluídas caindo na forma untada e enfarinhada é que fui tomar um banho e lavar os cabelos e me arrumar praquela festa que tinha acabado de inventar mesmo que fosse apenas para distrair o chumbo instalado entre o peito e o estômago e já ia me sentindo salva o alívio de ter transformado a dor em bolo e o dia esquisito em celebração quando o cheiro da canela errou em cinza e sem que eu saiba ainda localizar o momento-quando a alegria desviou em acidente agora estou aqui nessa beirada do choro tão-tão espantada que minha chance de recusar a melancolia tenha se transformado em carvão e destampado esse fluxo aberto as comportas de tanta coisa que só precariamente a gente contém e eu sei bem que é porque esse acidente sem vítima o que fez foi reabrir ferida na minha esperança.

01 março, 2013

mais receitas vegetarianas - feridologia


Nem achou que estava distraída até que a dor fininha a acordou. Largou a faca sobre a tábua, ali mesmo por cima dos tomates, e trouxe o dedo para perto dos olhos. O corte tão fino e fundo que o sangue demorou a vir à tona, chegando manso: córrego desaguando lentamente. Enrolou um papel toalha, apertado firme, e retomou o trabalho.
Cortava os tomates grosseiramente e ia colocando no liquidificador. Todos os doze tomates – a explosão de vermelho respingando no papel toalha, manchando a tábua e o avental.
A família inteira reunida na sala. Os filhos, a nora e o novo genro. Os netos – o menorzinho ainda de colo, enquanto o mais velho já adolescente, o cabelo comprido e meio ensebado, o desajeito de pernas e braços que se acomodavam mal na poltrona da sala. E o marido, lembrou com um imperceptível esgar.
Dos trinta anos de casados, há vinte e cinco ela sabia. “Não suporto a companhia do meu marido”, ouviu-se dizer. Primeiro para si mesma, bem baixinho, nos primeiros anos de casamento, num dia em que ele – como sempre – não quis saber de ir com ela ao almoço na Paróquia. Então para a amiga querida, alguns anos depois, explicando porque estava indo para a praia só ela e os filhos. De lá pra cá, pra quem quisesse ouvir, que já estava mais velha e não tinha pudor: não suportava, nunca suportara a companhia do marido. E em vez de doer, a constatação agora lhe acalmava, pois passados tantos anos, já não provocava dentro dela nenhum ímpeto de ir embora, nenhuma pena de sua sina. Nada. Era como abrir a janela e anunciar o tempo.
Pegou os pepinos, cuidando de tirar a casca, que a filha passava mal, tinha pesadelo depois. Desde pequena era assim. Jogou os dois no liquidificador, fazendo o vermelho eclodir ainda uma vez.
Na sala, conversas e risadas entremeavam o programa de TV. Era um domingo bonito, o céu azul sem nuvens e sem vento.
Tirou a casca para descobrir o roxo da cebola. Foi quando viu o vermelho transbordando a brancura do papel toalha. Droga!
Pensava nele quando o corte a interrompeu. No bom que era a sua presença. No bom que era o cheiro dele, logo de manhã, quando se encontravam ao chegar no trabalho. Na textura da voz dele quando disse que a queria e no oco do silêncio dele quando ela disse não. A vida era mesmo engraçada, latejou.
Achou no armário do banheiro uma gaze e tornou a enrolar o dedo, ainda mais firme, os esparadrapos ajudando a contenção.
Suspirou. Pegou os pimentões coloridos, o verde, o amarelo, o vermelho. Achava graça na leveza deles, tão amplos e plenos de vazios. Não gostava muito. Mas cortava, metade de cada um, e lavava e tirava as sementes e lavava de novo e cortava fatias grossas antes de jogá-las também no liquidificador. Tudo se misturando no mar de vermelho.
Pensar nele já não era atirar uma pedra pesada na água. Ele ficara lá, em outro lugar, no passado, num futuro que não foi. Ela disse não, ponto final. E ele então mudou de emprego, de cidade, talvez até de país. Sumiu no mundo, a não ser por aquela cicatrizinha dentro dela, que ela via sempre quando um espelho refletia sua imagem – ele era aquela espécie de infelicidade gravada no fundo do seu olho. Não se arrependia, era o que dizia a si mesma. Fizera o que era certo e o que era certo era ficar ao lado do marido, ter e cuidar dos filhos, vê-los crescer.
E picar o alho, com o dedo estendido a se esquivar do contato, porque alho cutuca a ferida, dá a medida da fundura do corte. Lembrava da mãe dizendo que alho era antibiótico, recomendando chás nos resfriados e abaixando a voz para receitar o remédio certeiro para as coceiras lá embaixo durante e depois da gravidez. Alho curativo, não sem antes levar a dor até o fim. Era domingo, um dia santo, as coisas no lugar: não precisava ampliar nenhuma dor.
Colocou o alho no liquidificador, junto com o copo raso de azeite e dois copos de água. Também um pouco de sal, que se misturou à umidade e fez o corte arder. Droga!
Bateu tudo, fazendo um barulho que fez um dos netos vir à cozinha e anunciar que fecharia a porta por uns minutos. Suspirou. Viu o que era vermelho vivo empalidecer em rosa. Depois peneirou o gaspacho, cantarolando uma canção antiga, de peneiras e namoros e saias voando ao vento. O que era massa grossa virando creme suave, sem coágulos.
Picou o pão amanhecido, jogou na frigideira, deitando por cima um pouco de azeite e sal. Ainda lavou a salsinha, picou bem fininho, pra enfeitar e dar sabor na hora de servir.
Tirava o curativo para cuidar da louça, enquanto a filha abriu a porta e reclamou dos pimentões em cima da pia “mas mãe, você colocou todos esses pimentões no gaspacho? Assim não vou poder nem experimentar!”. Estava distraída mesmo, para lembrar de tirar a casca do pepino e esquecer tanto de tirar a dos pimentões quanto de diminuir a quantidade prescrita na receita. Desculpou-se, em palavras e ombros.
A ela também os pimentões não faziam bem, a digestão atrapalhada, lenta, feito nó na garganta, borboletas no estômago. Foi o que lembrou, já à hora da mesa, quando sorvia a segunda colherada.