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25 dezembro, 2009

Natal e 2010

Querido filho Rodrigo,

desde seu nascimento que as mensagens de final de ano passaram a ter você como interlocutor privilegiado, como se no momento de "fechar para balanço" e celebrar a renovação das esperanças, me coubesse - como sua mãe - tentar organizar o que aprendemos juntos no ano que passou.

Este ano foi bastante intenso, cheio de desafios mas também conquistas. No primeiro semestre, a família toda finalmente se livrou da tese que, embora de minha responsabilidade, mobilizava todo mundo. Em julho, pela primeira vez em toda a sua vida, você ficou de férias com uma mãe que não tinha mais um relógio correndo por dentro! E no segundo semestre teve a defesa, teve o lançamento do livro e - nos espaços que o fim do doutorado abriu - teve muito softie sonhado e costurado, teve bolsinhas costuradas à mão, brincadeiras de massinha, cartas e cartões, muito colo, filminho e pipoca, teve fazer cookies para dar de presente, teve pesca com seu pai... Teve encontro e reencontro, sem pressa: como se finalmente os pés reaprendessem a dureza e a maciez de pisar o chão.

Também foi ano pleno de companhias. Mais próximas ou mais à distância, é difícil explicar o quanto houve amparo e mãos dadas no meio do furacão. Você também me deu a mão, filho: não sei se cedo demais ou se na hora certa, mas aprendeu que adultos também se perdem e têm dúvidas, e me deu de presente seu carinho e sua presença, verdadeiras âncoras para que as tempestades não me levassem pra muito longe.

Observação óbvia, você cresceu muito neste ano. E acho que todos nós crescemos junto com você, filho. Suas perguntas, seus desconcertos, seu estranhamento frente a este mundo ao qual já quase nos acostumamos são preciosos e os ajudam a descobrir novos significados para essa coisa de estar vivo. Nas suas alegrias, e também nas suas tristezas.

Como em nossa recente experiência com a perda. Mal chegamos de viagem e descobrimos que nossos pequeninos gerbis, a Thelma e a Louise, tinham morrido. Não sabemos como, nem porquê, e a falta de explicação só reforçou nosso desconcerto diante de um sono profundo demais do qual não pudemos acordá-las. Choramos juntos, por nossas pequeninas companheiras, e talvez eu tenha chorado também por ter que te ensinar tão cedo a se despedir, dessas despedidas definitivas.

Juntos, demos nosso tchau pra elas, agradecemos por tê-las em nossa vida por tanto tempo, avisamos que iremos sentir saudade. E o que mais achei bonito na sua dor foi sua coragem em enfrentá-la, em não se distrair dela, em chorar, peguntar, enunciar a saudade e a tristeza na falta do que você chamou de "suas companhias". É doído sim, filho, mas é tão bom ter afetos, não? Tão bom ter amigos queridos cuja presença no mundo nos conforta, e de quem sentimos falta. Tão bom não andar indiferente e poder ser afetado por presenças ou ausências...

Que no ano que começa, filho, a gente possa continuar caminhando de mãos dadas e prestando atenção aos caminhos que escolhemos.

Muitos beijos,

mamãe.

23 dezembro, 2008

25 de dezembro de 1997

(Carta à Ana Lúcia)

Ana,

ao receber o seu lindo cartão de Natal, meu impulso foi escrever correndo a resposta. Mas tenho corrido tanto na ânsia de entender e sentir tudo que achei por bem esperar - resgatar a esperança. Deixei que meu autores me seduzissem, que me levassem, que me escolhessem, tudo para que a resposta pudesse se aproximar em sensibilidade a você, amiga tão querida e sábia. Hoje ouvi o Saramago dizer que as mulheres enxergam os homens, mas elas mesmas lhes são opacas. Ele atribui a sabedoria das mulheres ao diálogo que têm umas com as outras, quando compartilham suas experiências.
Pensei em você ao ouvi-lo, não só porque se tratava do Saramago, mas porque nossa amizade é um partilhar, é um diálogo. Ler e escrever suas cartas é um rito de encontro - com você e comigo. É o momento do esquecimento dos compromissos e preocupações que passam , é o momento de procura pelo que fica (e, como ensinou a Marilena Chauí, sempre fica o que significa).
E ficam a beleza e a tristeza que trocamos. Ficam as belas palavras, ficam as ilusões e as decepções. Fica a vida que se inscreve nas entrelinhas, a vida que vivemos e aquela outra, por vezes subjugada, que sonhamos.
E porque é isso o que fica, encontrei em Drummond as palavras que são o meu silêncio:

Amigo, não sabes
que existe amanhã?
Então um sorriso
nascera no fundo
de tua miséria
e te destinara
a melhor sentido.
Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.
Venceste o desgosto,
calcaste o indivíduo
já teu passo avança
em terra diversa.
Teu passo: outros passos
ao lado do teu.
O pisar de botas, outros nem calçados,
mas todos pisando,
pés no barro, pés
n'água, na folhagem.
Pés que marcham muitos,
alguns se desviam,
mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados
fracos, retumbantes,
gravam no chão mole
marcas para sempre,
pois a hora mais bela
surge da mais triste.


Então, Ana, que andemos nossos passos, que caminhemos para o futuro, que não nos furtemos a viver, Que a cada ano possamos marcar o mundo com nossa humanidade porque são essas impressões - e não quaisquer outras - que significam. E por isso construir-se humano é se construir imortal, é continuar a viver nas marcas que deixamos; para que outros pisem o caminho, para que outros andem.
Para mim, o sentido do Natal é puramente religioso, é uma festa de muita alegria e um momento de muito louvor e agradecimento. É a comemoração do nascimento de um homem-deus que caminhou, marcou a terra com seus passos firmes e deixou sinais indeléveis do que significa ser humano - no sentido mais divino na palavra. E o final do trecho do Drummond bem poderia se aplicar à morte deste homem porque mais do que nascer, ele fez renascer. E nós, ainda que não acreditemos nesse mistério, também buscamos na tristeza a beleza necessária à ressurreição. "Fácil suicidar-se de vez. Difícil ressuscitar todo dia", (Ulisses Tavares).

Milhões de beijos,

com carinho,

Fabi