25 fevereiro, 2010

"Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome".

(Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias, crônica publicada n'O Estado de São Paulo, em 22 de abril de 1986).

23 fevereiro, 2010

Janelas Abertas

Tão bom escancarar as janelas, deixar o azul entrar em festa, pôr a alma no varal e deixar quarando por horas, no sol e no vento do dia acordando. Tão bom quando a luz invade assim, as manchas saem sem esfregar demais, e a gente se renova sem sobrar nenhum puído.

Acho que hoje acordei antiga.

16 fevereiro, 2010

Associação Livre

Estou revisando uma dissertação em Psicologia, muito bacana, e por causa disso confesso que tenho tido sonhos mais estranhos que o normal. E aí, hoje, trabalhando, me veio à cabeça com muita clareza uma música do Caetano Veloso, que eu conheço de tanto ouvir numa fita cassete com a trilha de Malu Mulher. (Afinal, quer coisa mais associada à Freud do que a pergunta "o que é que quer uma mulher?").
A música chama Pecado Original e a versão da trilha sonora não é cantada pelo Caetano, mas pela Zezé Motta e eu acho até que a versão é ainda mais eloquente do que a do Caetano. Teve uma época em que eu ouvia muito essa música, porque ela é tão boa, tão exata, tão leonina. Adoro.
Então, às vésperas do início da Quaresma, nada melhor que lembrar que em tudo há inferno e céu.


* Esse clipe foi a única versão (postável num blog familiar) da música. Abstraiam as legendas, please!

11 fevereiro, 2010

Aventuras (uma urbana, outra antropológica)

Então. Terça-feira à tarde eu ia para a terapia. Cheguei na esquina de casa a tempo de ver meu ônibus parado no ponto. Como estava adiantada, resolvi nem correr. Menos de cinco minutos, passou outro ônibus, mais vazio e tudo bem. Tudo até chegarmos no meio do trajeto, quando vimos o ônibus anterior parado e todos os passageiros do lado de fora. O ônibus em que eu estava parou para pegar os passageiros, mas até então o comentário era de que na semana anterior um ônibus quebrara no mesmo lugar. Quando os passageiros entram descobrimos que a história era muito mais emocionante do que um prosaico defeito: o ônibus tinha parado porque o motorista fugiu! Ele tinha pegado no pé de uma mulher (não sei porque), alguns homens que estavam no ônibus não gostaram, o motorista se sentiu ameaçado, aí fechou a porta de trás e deu no pé. O cobrador ficou atônito, os passageiros atordoados e foi mais ou menos nessa hora que chegamos.

Tudo bem. Era pra ser emoção suficiente, né? Nada... Porque aí, com toda aquela confusão, o motorista esqueceu o caminho e simplesmente foi seguindo em frente e perdendo todos os retornos possíveis... O bom é que foi tudo tão surreal que ninguém perdeu o bom humor, mas o ônibus ia seguindo, seguindo e só foi parar mesmo uns dois pontos depois daquele onde perdeu o rumo.

Essa cidade é sempre uma aventura... (Na minha pesquisa de mestrado, eu cheguei a propor uma "sociologia dos pontos de ônibus": já escutei tanta história e já vi tantas situações super reveladoras, que me valeram por livros e livros de teoria social sobre essa nossa sociedade, brasileira e metropolitana...).




Aí, tem outra aventura, que foi a minha participação como membro de um júri popular. No ano passado recebi o aviso que poderia ser chamada e aí, mal o ano começou, eles me chamaram, para estar lá presente este mês. Na semana passada fui, mas não fui sorteada. E aí essa semana não teve jeito: fui sorteada e aceita por ambas as partes (promotor e advogado de defesa).

Na semana passada eu já tinha observado o caráter cerimonial de toda a coisa: os paramentos, os móveis pesados (mas não antigos, já que o prédio é novo), a ideia de autoridade emanando nos símbolos, objetos, comportamentos... (E nem vou falar aqui do quanto o ambiente me remeteu às salas de defesa da FFLCH...).

Mas essa semana deu para perceber mais uma porção de coisas. O réu não estava lá - está foragido há anos, e só foi levado a júri porque recentemente (acho que 2008) modificaram a lei e, a partir daí, passou a ser permitido o julgamento de réus comprovadamente cientes do processo (como no caso de comparecimento em algum momento ou de defesa contratada). Como o júri é popular, o tribunal acaba virando um palco para a encenação das diferentes versões, ainda mais agora que - também por efeito da mudança na legislação - não são lidas todas as partes do processo (inquérito policial, processo no Fórum etc.). Depois de ouvidas as testemunhas - no caso de haver - já se passa à fala do promotor, que tem uma hora e meia e, em seguida, do advogado de defesa, com o mesmo tempo. Depois, ainda há a possibilidade de réplica e tréplica, com mais uma hora para cada parte.

É claro que não dá para falar somente a partir de um único julgamento, mas a impressão que me deu é que há uma imensa desigualdade - de conhecimentos, mas também de prestígio - entre promotores e advogados de defesa. É uma distância que talvez se explique pelas experiências mesmo de um de outro, bastante distintas (como inclusive entrou na pauta de discussões entre advogado e promotor ontem), já que enquanto o promotor tem milhares de hora de estrada no tribunal de júri popular, os advogados podem ter variadas atividades, dentre as quais a defesa de réus acusados de crimes passíveis de ir à júri popular. Mas não é só isso: pra mim, tem uma clara diferença de formação, já que são os alunos das melhores escolas que acabam passando nos disputados concursos. O promotor que estava lá deu várias vezes a entender a diferença entre ele e o outro, chamando os defensores de "advogados". Subentendia-se uma categoria da qual ele está excluído: ele não é a advogado, mas outra coisa, diversa. Melhor (porque melhor formado, porque com mais experiências, porque no serviço de defender a lei e a sociedade).

O caso não era mesmo fácil, mas de todo modo me espantou como o promotor se atribui uma missão educativa em relação ao júri (ainda mais porque havia vários que estavam lá pela primeira vez). Ele começou sua fala e, por cerca de vinte e cinco minutos, dedicou-se a explicar os termos das questões que nos seriam feitas e a contar casos absurdos que já presenciou, sempre nos instando a sermos coerentes com nossas escolhas. O promotor era bom e, embora não tenha levado nenhuma testemunha de acusação, foi preciso em seu raciocínio e na seleção dos trechos de depoimentos dados em outras fases do processo.

Já o advogado de defesa tinha um estilo todo barroco, no jeito de falar, de se mexer... E se perdia nesse estilo, porque às vezes faltavam as palavras, ou elas eram colocadas em contextos diversos de seu sentido (o que até levou o promotor a arriscar, na réplica, uma psicologia de boteco ao apontar "atos falhos" na fala do defensor! E ainda no tópico psicologia de boteco, ele também lamentou a ausência do réu porque, assim, perdíamos a oportunidade de verificar se ele era um "sociopata" - sacando um dicionário de doenças psiquiátricas e lendo para nós a definição! Eu juro que só não arregalei os olhos porque nos pediram para não esboçar reações - e também porque eu tive uma crise hipoglicêmica que me impede de abrir direito os olhos. Mas por dentro, virei uma pessoa só-olho!).

Pra mim, a hora mais surreal foi quando o promotor desatou a contar causos sobre sua relação com a Igreja Católica e se meteu a teologizar sobre uma suposta falta do perdão de Deus em toda a Bíblia. Aí realmente fiquei passada, porque um dos principais Sacramentos católicos é a Confissão e a Absolvição, né? A admissão da culpa - a capacidade de reconhecer-se pecador - e o perdão aos que de fato se arrependem é algo fundamental para a Igreja. E, mesmo se pensarmos apenas nas religiões cristãs, se não fosse a possibilidade de arrependimento e perdão, será que as religiões evangélicas seriam tão importantes inclusive em espaços prisionais? Quantos casos há de convertidos, de gente que mudou de vida por conta dessa possibilidade de ser perdoado por ter cedido às tentações? Além de achar que ele se perdeu, também achei que ele estava se arriscando desnecessariamente, já que meter religião no meio é sempre delicado. Mas aparentemente isso não teve maiores consequências a não ser nosso cansaço e a tirada do advogado de defesa, avisando que seria rápido e responderia somente as questões relativas ao processo, deixando o debate teológico para um momento oportuno.

A plenária em que eu estive tinha uma imensa cruz, com um Cristo digno de capela. Confesso que, no primeiro dia, isso me chocou um pouco, mas não consigo saber se foi por ter chegado a uma instituição do Estado, e portanto supostamente laica, e dar de cara com aquilo ou se foi pelo choque de encontrar aquela imagem fora de seu espaço usual (ainda mais eu, que tanto tempo fiz parte de grupo de jovens, fui catequista e tals). Não sei explicar, mas me chocou.

E só para terminar com uma piada, no começo eu não tinha reparado que, além daquela capa preta com que eles se paramentam, eles usam também um cordão. Aí, mal tinha chegado, bati o olho e reparei que no pescoço do juiz tinha um troço pendurado que eu encanei que era um patuá. Até simpatizei com a ideia: imagina, ter que estar lá todos os dias, ouvindo aquelas histórias, decidindo a vida das pessoas? Até eu iria pensar no caso de carregar um patuá. Só quase no fim do dia é que, olhando o juiz de outro ângulo, percebi que o meu imaginado patuá era o seu cordão, de cor clara, enrolado. Fiquei rindo sozinha (mas só por dentro, que não podia ainda mostrar emoções)!

Imagens: daqui e daqui.

08 fevereiro, 2010

Fim de semana

Este final de semana foi difícil de parar para escrever. No sábado saímos cedo para resolver uma porção de coisinhas e à tarde fomos à festa de uma amiguinha do Rodrigo. Levamos junto o F. e depois de um certo momento, nem vi mais os dois: se enfiaram na cama elástica e só lembravam que eu existia quando batia a sede :-)
Rodrigo estava felicíssimo com a fantasia de Ben10 que ganhou para o Carnaval - no começo, tínhamos planejado fazer uma super fantasia de "Doutor", com direito a jaleco, cruz vermelha, estetoscópio... e depois também piramos imaginando como seria uma fantasia de Astroboy (mas como rimos muito com a ideia de uma cueca com cinto, acabamos não avançando nessa direção). E eu não canso de me espantar em perceber como eles estão numa fase deliciosa e divertida.
Na festa, que era em Perdizes, ainda vimos o bloco de Carnaval de rua passar, o que encantou as crianças e, apesar da chuva, colocou na janela quase todos os moradores dos (muitos) prédios.
Conclusão: sábado chegamos em casa quase às 9h da noite, super exaustos. E no domingo, às 7h o menino já estava em pé.
Aí aproveitamos o fresquinho da manhã para ir ao Ceasa e, na volta, começamos a preparar as coisas para ir ao piquenique, inventado pela Veronika e pela Neide (no Come-se tem muitas fotos dos piqueniques, além de textos muito saborosos) .
Fiz uma versão modificada da torta da minha mãe, sem cebola ou alho na massa e com um pouco mais de leite (para ficar mais molhada), e uma versão também modificada da torta de banana (que também é receita da minha mãe). A receita está abaixo. Chegamos lá mais de 12h30 e só saímos perto das 16h. E foi uma delícia: comidinhas gostosas, papos divertidos, crianças felizes explorando a praça, as prometidas empanadas deliciosamente temperadas... Estava tão bom que esqueci de tirar a máquina fotográfica de dentro da bolsa!

Frutas e uma tortilla deliciosa!

O mais engraçado foi o Rodrigo, mal entrando no carro e perguntando: "mãe, quando vai ter outro piquenique?". E hoje de manhã, uma das primeiras coisas que ele me perguntou é se hoje era dia de piquenique :-) Sabe o que é bom, esse menino!

Rodrigo no colo, em um de seus poucos pit-stops para reabastecer

Ele chegou em casa dormindo e, depois de descansar, fui cuidar da um bocadinho da casa. E aí, puft, o dia tinha acabado, mas sem nenhuma melancolia de domingo à noite. Também, com tanta festa e tanto encontro, a gente dá uma rasgadinha básica no encadeamento cotidiano dos dias e pressente um tempo novo - em que o cansaço cede lugar à plenitude.

A torta de banana, com pequenos furinhos feitos por um certo ratinho...

Torta de Banana
Uma dúzia de bananas nanicas maduras
10 colheres de farinha (eu usei 6 de farinha branca e 4 de farinha integral)
10 colheres de açúcar
1 colher de fermento em pó
Canela em pó
Manteiga
2 claras

Eu gosto dessa torta porque ela praticamente não tem massa: é quase só banana. Gosto também porque é fácil de fazer e, quando bem gelada, fica fresquinha e ainda mais saborosa.

Corte as bananas na direção do comprimento. Misture a farinha, o açúcar e o fermento em uma tigela. Em seguida, forre uma travessa untada com uma camada de banana e polvilhe a mistura de farinha e açúcar até cobri-las (é uma camada fina). Feito isso, polvilhe levemente com canela e distribua pequenas lascas de manteiga (cerca de 3cm). Feito isso, faça outra camada de banana e repita a operação. Em geral, faço três camadas de banana, sempre fazendo a mesma coisa: farinhas/açúcar, canela e manteiga.
Quando a torta estiver montada, bata as claras em neve. Na receita original, depois da clara em neve, misturam-se as gemas e cobre-se a torta. Eu confesso que às vezes me enjoa o gosto de ovo, então ontem experimentei fazer um suspiro pouco doce com uma gotinha de baunilha, joguei por cima e levei ao forno (cerca de 35 minutos em forno 255º). Eu gostei do resultado (a torta fica mais coradinha) e o Rodrigo ficou encantado com o suspiro.

É só isso. Simples e gostoso. E sabe que, embora seja gostoso gelada, eu até que gostei dela morninha, como café da manhã? Não sei se porque o Rô está com mania de pedir banana com açúcar e canela no café, mas achei que combinou...

Imagens: Neide Rigo.

01 fevereiro, 2010

Arrumando papéis

Epígrafe de um projeto muito antigo, encontrado em meio à papelada dispersa em pastas e caixas:

"Portanto, a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis de cultura. A distinção entre cultura popular e cultura erudita não deve servir para justificar e manter uma separação iníqua, como se do ponto de vista cultural a sociedade fosse dividida em esferas incomunicáveis, dando lugar a dois tipos incomunicáveis de fruidores. Uma sociedade justa pressupõe o respeito aos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável." (Antonio Candido, "O direito à literatura).

E nessa arrumação - que vem vindo desde sábado - fiquei besta de perceber quantos livros e textos do Antonio Candido tenho guardados... Vontade de parar tudo e ler e reler todos!