12 dezembro, 2014

que tempos são esses?

poema que me chegou de presente, nessa semana em que o relatório final da Comissão da Verdade veio à luz. uma atualização de Brecht, em tempos que já são outros, mas cuja natureza não cessamos de ter que interrogar. o presente, com suas canequinhas e bacias espalhadas, a conter o passado que insiste em vazar. sobre nós, que não estamos na chuva, que não construímos com nossas mãos esse telhado. e, no entanto, cá estamos: a espalhar contenções, a torcer a roupa encharcada, a procurar abrigo. interpelados a ouvir o silêncio que arrepia as árvores. a seguir os rastros que levem até essa edificação onde se ocultam os desaparecidos.

What kind of times are these? (Adrienne Rich)

There's a place between two stands of trees where the grass grows uphill
and the old revolutionary road breaks off into shadows
near a meeting-house abandoned by the persecuted
who disappeared into those shadows.

I've walked there picking mushrooms at the edge of dread, but don't be fooled
this isn't a Russian poem, this is not somewhere else but here,
our country moving closer to its own truth and dread,
its own ways of making people disappear.

I won't tell you where the place is, the dark mesh of the woods
meeting the unmarked strip of light—
ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:
I know already who wants to buy it, sell it, make it disappear.

And I won't tell you where it is, so why do I tell you
anything? Because you still listen, because in times like these
to have you listen at all, it's necessary
to talk about trees.

24 novembro, 2014

mosaico amargo

- "O crash atual representa o acidente integral por excelência" (entrevista com Paul Virilio, de 2008).
- "Já não me restam lágrimas" (notícia sobre Carmen Martinez Ayuso, de 85 anos, despejada na Espanha após seu filho ter tomado um empréstimo).
- "Diálogos sobre o fim do mundo" (entrevista de Eduardo Viveiros de Castro e Daniele Danowski a Eliane Brum).
- "O muro de Dourados" (reportagem de Fabiano Maissonave).

07 outubro, 2014

em mar aberto

nos últimos dias (duros, difíceis), lembrei da potente voz do milton nascimento cantando essa plataforma onde a gente descansa, se ancora e de onde é possível se lançar quando oportuno. pequena margem de segurança, inventada. a ficção da seguridade contida aí, nessa outra ficção de que se lançar ao mar é escolha. como se estar vivo não fosse isso aqui, esse esforço em manter a cabeça para cima da água, essa luta contra o vento e a tempestade. as fases em que dói o peito com o cansaço de nadar sem trégua.


e porque lembrei dessa canção, lembrei também de drummond.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação (Os ombros suportam o mundo. Sentimento do mundo).

03 setembro, 2014

incêndios

(ao som de radiohead)

desde janeiro, elegi 2014 como um ano de cultivar a rememoração. cultivar no sentido da cultura como cuidado com o os vivos e o presente, mas também como respeito aos mortos - o que também significa ouvi-los no presente, deixar-se ser interpelado pelo sentido trágico de suas vidas. afinal: em 2014, são cem anos desde o início da I Guerra Mundial. cinquenta desde o golpe civil-militar no Brasil. vinte desde o genocídio em Ruanda.

tenho lido por isso muitos livros e assistido muitos filmes sobre tais assuntos. sempre me dividindo entre reunir coragem para enfrentar tais horrores - e enfrentá-los como horrores humanos, também meus - e me dando espaço para também, por vezes, olhar para outro lado: ler gibi, assistir seriado, passar um dia plantando e replantando flores e matos...

e aí, por razões que não têm exatamente a ver com essas, embora tenham tudo a ver com o problema do presente e da memória, meu amigo julio me falou de incêndios. edu e eu assistimos o filme há uns dez dias e é, de fato, um filme lindíssimo. e muito perturbador. e por isso mesmo bastante potente. depois de ver o filme, acabei lendo também a peça de wadji mouawad e as reflexões que se seguem foram provocadas tanto pelo filme quanto pela leitura.

é difícil falar do filme e do livro sem remeter ao enredo, em especial porque se trata de um filme que se estrutura sobre a descoberta da verdade. mas vou tentar.

também é difícil falar do filme e do livro sem remeter a Édipo Rei, que Aristóteles toma como modelo da tragédia. não vou tentar evitar o assunto, ainda mais porque a comparação com Édipo é reveladora de alguns de nossos dilemas presentes.

depois de assistir o filme e acabar de ler a peça, em algum momento da noite acordei pensando que Foucault ficou tão interpelado pelo Édipo Rei, pela questão da verdade. mas há também uma certa tradição que pensa a peça de Sófocles como o acontecimento que dá forma a categoria "vontade" que vinha se constituindo na experiência ocidental: Jocasta e Laio tentam escapar de seu destino, terrível e revelado por um adivinho, e é por isso mesmo que eles todos são levados inexoravelmente a ele. a vontade humana, insurgente, é também inútil: essa tentativa de fuga ao destino é obscurecida numa rede de segredos e lealdades e - central para o desenvolvimento da trama - compaixão, deixando todos os seus participantes cegos e incapazes de fazer frente à força dos fatos que a própria tentativa de escapar desencadeia. Jocasta e Laio tentam fugir da verdade em Tebas; Édipo tenta fugir da mesma verdade em Corinto e a fatalidade se impõe a partir de um mau encontro numa tríplice encruzilhada.

de todo modo, quando a verdade reaparece, ela revela a todos que o destino se cumpriu. um horror de algo que, apesar de tudo, estava de acordo com uma espécie de vontade dos deuses (ou má vontade em evitá-lo). Em Édipo, há no destino, senão coerência, um sentido de necessidade. Mas em Édipo há o problema da vontade desorganizadora, tanto mais porque contrária a uma vontade maior e mais forte, inescapável, superior. esse é o cerne da tragédia: o embate entre uma vontade impotente e uma vontade que nunca desvia, certeira. a verdade, assim, é a recomposição da trilha de vontades que leva ao desfecho; as peripécias são essa caminhada de volta - tudo aquilo que se revela no refazer dos caminhos. é assim que o estrangeiro se encontra em casa.

incêndios é o trágico mais contemporâneo, que ao mesmo tempo repete e desloca os problemas colocados pelo Édipo. há uma questão subjacente que é a da imanência do mundo: não há referência a deuses ou a um deus em nenhum momento, que eu me lembre. A cultura, a tradição são forças presentes, mas elas não são referidas a outro mundo: estamos aqui, irremediavelmente aqui, nessa terra, nesses tempos, muitas vezes em guerras que não escolhemos, nossa vontade atravessados por práticas das quais não temos como escapar. nós, seres trágicos, a faca no pescoço.

ainda assim, parece haver uma vontade superior à nossa, emaranhados que estamos aos fios da própria história: ao ciclo de ofensas e vinganças, interminável, inescapável. mas é bonito, porque o que conduz o destino não é o esforço em escapar ao vaticínio, mas uma promessa (e depois outras) também imanentes, pois feitas entre pessoas: é da ordem propriamente ética que se desdobra o drama, do esforço de ser fiel à promessa de romper a tradição, romper o encadeamento das ofensas e vinganças ("incêncios" é a terceira parte de uma tetralogia que se chama, justamente, "o sangue das promessas"). a promessa de tornar possível uma outra forma de estar juntos. pois a peça volta e meia retoma essa frase-testamento dita por Nawal: "agora que estamos juntos, melhorou".

é muito bonita (e dolorosa e intensa) como Nawal leva esses filhos que ela ama e que não ama à verdade - como se a falta de amor abrisse a possibilidade de conduzi-los à verdade; como se o amor pudesse brotar possível depois da verdade pesar até o ponto do esmagamento. um silêncio que é uma pedra no peito - e que faz a gente perder o fôlego só de cogitar enunciar a verdade.

abrindo as pistas de um caminho que é ao mesmo tempo retorno e passo adiante, Nawal abre a seus filhos a possibilidade de inscreverem seu lugar no mundo, alfabetizados e letrados nas durezas e na verdade. eles também começam a construir um lugar fora daquele atribuído à vítima (pois que vítimas também foram) - essa figura que sofre as dores inevitáveis do acidente e se vê despojada de potência e vontade. os filhos de Nawal não são esmagados pela verdade: terminam a peça ouvindo o silêncio da mãe, esse silêncio eloquente e intenso.

em tempos tão cínicos - quando a verdade é escancaradamente dita porque evidente, porque é "assim mesmo que as coisas são", e por isso mesmo nada causa escândalo ou faz tabu - é notável que a verdade, finalmente clara, não seja dramatizada com excessos e psicologismos. ela simplesmente está a luz, e interpela no presente cada uma das personagens. o propriamente trágico está no fluxo do tempo, na historicidade onde a gente vive mergulhado. e é sempre presente.

lembrei de um trechinho da Jeanne-Marie Gagnebin:

Não temos que pedir desculpas quando, por sorte, não somos os herdeiros diretos de um massacre; e se, ademais, não somos privados da palavra, mas, ao contrário, se podemos fazer do exercício da palavra um dos campos de nossa atividade (como, por exemplo, na universidade), então nossa tarefa consistiria, talvez, muito mais em restabelecer o espaço simbólico onde se possa articular aquele que Hèléne Piralian e Janine Altounian chamam de “terceiro” – isto é, aquele que não faz parte do círculo infernal do torturador e do torturado, do assassino e do assassinado, aquilo que, “inscrevendo um possível alhures fora do par mortífero algoz-vítima, dá novamente um sentido humano ao mundo. No sonho de Primo Levi, deveria ser a função dos ouvintes, que, em vez disso e para desespero do sonhador, vão embora, não querem saber, não querem permitir que essa história, ofegante e sempre ameaçada por sua própria impossibilidade, os alcance, ameace também sua linguagem ainda tranquila; mas somente assim poderia essa história ser retomada e transmitida em palavras diferentes. Nesse sentido, uma ampliação do conceito de testemunha se torna necessária; testemunha não seria somente aquele que viu com seus próprios olhos, o histor de Heródoto, a testemunha direta. Testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro: não por culpabilidade ou por compaixão, mas porque somente a transmissão simbólica, assumida apesar e por causa do sofrimento indizível, somente essa retomada reflexiva do passado pode nos ajudar a não repeti-lo infinitamente, mas a ousar esboçar outra história, a inventar o presente (GAGNEBIN, 2006: p.57; grifos meus).

12 agosto, 2014

têmpera

essa música não é só uma música: é um lugar e um tempo. é o apartamento que eu dividia com o vinicius. é o sofá em que a gente assistia o vídeo de um especial com a marilia pêra gravado da tv, na época em que ainda era necessário rebobinar para ouvir à mesma música mais de uma vez. é um momento úmido em um ciclo seco duradouro. é repetição da lição de que ser mulher é desdobrar-se, reinventar-se, estar disposta à mudança. é idealização de um feminino que não existe em parte alguma, mas que apesar disso reconheço em mim, nesse corpo, nisso que podia ser chamado de alma. um lugar e um tempo bons de voltar. tanto mais nesses tempos difíceis, que raspam até o tacho a energia que a gente tem pra viver.


15 julho, 2014

pra encarar a madrugada

A pessoa abusa da própria saúde, abandonando a natação pra ir fazer greve. Aí, fica com as costas travadas por dois dias, na base de analgésico e bolsa de água quente. Com duas orientandas para entregar relatório final esta semana. Dá no que deu: na pessoa virando madrugada para terminar de ler e revisar os textos. Um já foi. O outro já vai.
Enquanto isso, Chvrches, pra animar a noite. Adoro! (The bones of what you believe está na minha lista de favoritos há meses, sem dar pistas de sair dali).


07 julho, 2014

Agamben, sobre "crise".

"Hoy se habla de crisis, tanto en la economía como en la cultura. Pero la palabra crisis tal y como es utilizada hoy es un concepto, una palabra cotidiana, un "password" que sirve para hacer aceptar medidas que no hay por qué aceptar. "Crisis" significa etimológicamente "juicio". En la medicina antigua designaba el momento en el cual el médico debía decidir si el enfermo iba a sobrevivir o a morir. En teología, "crisis" era el Juicio Final, que llegaba en fin de los tiempos. Hoy, en cambio, el término se ha escindido de su origen para pasar a designar un momento temporal determinado, y ha devenido una condición normal, un instrumento normal de gobierno. Creo que es necesario devolver hoy su significado original de "juicio decisivo", del cual los ciudadanos deben reapropiarse" (Giorgio Agamben, La filosofía no es una disciplina, la filosofía es una intensidad)

25 junho, 2014

como um mantra



Clube da Esquina nº 1 (Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges)


Noite chegou outra vez de novo na esquina
Os homens estão, todos se acham mortais
Dividem a noite, lua e até solidão
Neste clube, a gente sozinha se vê, pela última vez
À espera do dia, naquela calçada
Fugindo pra outro lugar.
Perto da noite estou,
O rumo encontro nas pedras
Encontro de vez, um grande país eu espero
Espero do fundo da noite chegar
Mas agora eu quero tomar suas mãos
Vou buscá-la aonde for
Venha até a esquina, você não conhece o futuro
Que tenho nas mãos.
Agora as portas vão todas se fechar
No claro do dia, o novo encontrarei
E no curral D'el Rey
Janelas se abram ao negro do mundo lunar
Mas eu não me acho perdido
No fundo da noite partiu minha voz
Já é hora do corpo vencer a manhã
Outro dia já vem e a vida se cansa na esquina
Fugindo, fugindo pra outro lugar, pra outro lugar.

13 junho, 2014

pra onde o vento sopra

(não custa nada um pouco de esperança e fé numa sexta-feira treze de lua cheia: o horror à espreita - mas também a magia).
(que, seres de carne e história que somos, "a manhã, meu bem, é uma volta").


01 junho, 2014

das esperas e esperanças

e já que as novas lutas tem também os ecos de algo tão mais antigo, de um desejo e uma esperança persistentes (e insistentes), vamos de Silvio Rodriguez.


31 maio, 2014

porque nunca é demais...

... cuidar de arredondar as quinas, lixar as farpas, estofar tudo o que for pontiagudo demais. que nesses tempos duros, cada passo é um risco e é bom caminhar de mãos dadas.


24 maio, 2014

suspiro


primeiro eu achava que era da ordem da tessitura: esse trabalho de ir ligando os panos, cuidando de encontrar a medida certa de força pra agulha construir amparos ao invés de esgarçar a trama. numa sala de aula nova, ciclicamente nova, a fala e os gestos como essa agulha que se lança pra tecer afetos, sentidos, elos entre passado e presente. sempre bonita essa imagem do tecido, não é à toa que já quase puída. mas é que exata também. que nem no poema do joão cabral. que pra mim remete mesmo ao próprio ato de ensinar como partilha do sabido – a voz do mario chamie nos conduzindo com firmeza na compreensão do avesso perfeito de um poema, para que aprendêssemos além da costura, o corte.
depois achava que era da ordem da performance. de encarnar uma espécie de personagem, deixar-se tomar pelo roteiro de uma reflexão, de um conjunto de autores, deixando espaço pra algum improviso. algo meio entre o teatro e o rito. especialmente nos lapsos em que uma aula é menos protocolo e mais revelação. o pensamento que, proferido, arrepia, leva lágrimas aos olhos: mistura a terra ao céu. às vezes; com sorte; se as condições permitem. um lampejo de pequena glória.
ainda por um tempo achei que era da ordem do encontro. mau ou bom, mas sempre encontro. a sala de aula como espaço trágico, onde algo pode ser rompido (ou algo de inesperado pode irromper). o amigo um dia me disse: é um tatame, onde a gente deve se jogar. tanta intensidade. tanta dureza também, aprender a aceitar a provisoriedade desses encontros: a gente fixo entre constelações cambiantes de pessoas girando, girando suas infinitas espirais.
ultimamente, tem sido no registro do cozinhar. a gente separa os ingredientes, verifica se está conforme a receita e vê no que vai dar. a cada vez faz igual, mas sai diferente. e às vezes faz tudo diferente, e acaba no igual. como cozinhar, educar é insistência. a gente testa, tenta, erra, perde tempo. às vezes se mete à besta de inventar alguma coisa e vive a angústia de não saber no que vai dar (ou vive o frio na espinha da ansiedade de não saber no que vai dar). como quem quebra os ovos, um a um, separando as claras e as gemas e reserva as gemas para uma receita outra. num continente de cerâmica, as claras ganham uma primeira forma – como as pessoas, aleatoriamente reunidas no espaço que também as quer conter, indicando na mobília o lugar que lhes cabe e que devem ocupar. e então, nessa versão da metáfora, ensinar é exercício de vontade no bater das claras. os desencontros e os não-entendidos e os mal-entendidos: choques entre cerâmica e metal. necessários ao processo por meio do qual o que era transparência e viscosidade ganha corpo e se transmuda em espuma e ar. as raspas de limão, a colher de extrato de baunilha, o açúcar polvilhado a cada aula - partes do esforço de temperar o que, não fosse isso, seria somente nuvem, utilidade que não alimenta. precisa saber o truque pra cozer as coisas por dentro, evitando a casca dura a guardar um interior mole demais. o ponto certo meio cercado de mistério – o cozinheiro-professor ignorante mesmo do segredo alquímico. é bom quando funciona e o resultado final sabe bem. terrível quando queima, desanda ou simplesmente não dá ponto de jeito algum.
quando pesa demais a responsabilidade da tessitura, a coerção da performance ou a intensidade do encontro, resta ainda essa forma delicada de preparar aulas como quem prepara doçuras, inserindo no que podia ser afirmação enfática e certeza dura, o quebradiço dos suspiros.

22 maio, 2014

pra arrancar da inércia

e já que apesar da preguiça, a vida vem aí pra dizer é preciso se colocar em movimento, musiquinha em loop. e vamos que vamos.


14 maio, 2014

procrastinando

Tantas coisas para fazer e uma gripe que não me deixa... fui olhar um vídeo da Sia no youtube e como aquilo ali é o labirinto do tempo perdido, cheguei numa batalha de sincronização de lábios, hilária:




Ao Joseph Gordon Levitt, todo amor que houver nessa vida!

Mas o pior, o pior mesmo foi PRECISAR ouvir A-Ha depois da performance do Jimmy Fallon:



Tem noção de quantas paixões foram embaladas por Stay on these roads? Quantas danças em bailinhos? Quantas tardes voltando a agulha do LP pra escutar só essa música (isso, claro, antes da invenção da fita K7, em que a gente podia gravar a mesma música infinitas vezes e assim evitar de ter que voltar a faixa :-)



A única conclusão possível depois de tudo isso é: envelheci. Que tudo parece há tanto tempo. Que tudo parece que foi ontem.

07 maio, 2014

rabiscos

Numa reunião da escola do Rodrigo, ano passado, ao final pediram para os pais deixarem algumas lembranças para os filhos - impressões provocadas por aqueles mundos todos que eles tinham conhecido e criado. Sem saber desenhar ou pintar, fiz o que sabia: armei umas palavras em sentimentos sobre viagens, chegadas e partidas (o tema que eles estavam estudando). Hoje encontrei o rascunho, perdido no meio de algum livro.

quem parte às vezes
                    nunca chega
às vezes chega e fica
outras fica, pensando em ir embora.

pode-se chegar:
                     em casa
                     em pouso provisório
carregando:
                     raiz
                     mala
                     o próprio coração

da gente mesmo
                    é impossível ir-se embora.
da gente mesmo
                    nunca se acaba de chegar.

30 abril, 2014

duas bonitezas

A entrevista que a Ecléa Bosi deu para a Revista Fapesp desse mês - Narrativas sensíveis sobre grupos fragilizados - e o belíssimo ensaio que o Marcos Visnadi fez sobre a Hilda Hilst, na revista Geni.
E se precisar de trilha sonora, tem sempre o bonito cd feito pelo Zeca Baleiro a partir da "Ode descontínua e remota para flauta e oboé, de Ariana para Dionísio" (que está em Júbilo, memória e noviciado da paixão - mesmo livro, aliás, de onde saiu o nome desse blog).
Bom feriado, então.


29 abril, 2014

k7

de um tempo que é quase outra vida chegam as notas de uma canção antiga, chegam as intensidades de nossa juventude ainda meio adolescente, e esse convite-promessa, repetido tantas vezes: vem andar comigo nessa beira de estrada, nesse lado ensolarado, que eu achei pra caminhar. ai, ai, ju, que de repente me deu tanta saudade de você...

20 abril, 2014

precisão

engoli uma gaivota anteontem
tinha um travo a mar muito suportado essa gaivota que
já lá vai
despenhando-se garganta abaixo
um acidente tão desejado
num pequeno corpo tão desastrado
embora por vezes uma gaivota o desatine
ou quase
a alegria do afogado quando regressa à tona de água
(Benédicte Houart, Reconhecimento. Lisboa: Cotovia, 2004, p.13).

16 abril, 2014

vórtice, brinquedo, promessa*


sabe,  eu tinha um sonho quando pequena de ter um autorama. nas férias que a gente passava na casa dos meus avós, eu adorava brincar com o autorama antigo, que era descido de um armário bem alto quando filhos e netos todos reunidos. a ideia nem era divertir a meninada – era mesmo pros meus tios voltarem a ser crianças. que nem acontecia com a minha tia quando, ciumenta, tirava de dentro de uma cômoda de brinquedo as roupinhas de sua susie para provocar nossa vontade.
o que eu gostava do autorama era da emoção das curvas, das pequenas faíscas, da falta de pressa de todas aquelas demoradas voltas no infinito. os ciclos, sempre eles, dobrando-se sobre si mesmos uma, duas, quantas vezes o desejo. engraçado lembrar disso agora. agora, enquanto olho pra você e penso que eu queria mesmo era convidar você pra brincar comigo, pra se juntar a mim nos passeios por esses trechos que eu armei há tanto tempo e dei o nome de “minha vida”. lembrei dessa história boba e infantil – quem sabe freud explicasse – pois pensar essas coisas todas só porque nos encontramos me faz sentir exatamente boba e infantil.
meu prato predileto quando estou triste é feito de batatas cozidas até o ponto de desmanchar, misturadas com manteiga, sal e leite: um purê sem muita densidade, quentinho, onde o garfo ara finos sulcos, onde o feijão fresco e rescendendo a louro pode escorrer. se ainda um refogado de tomates e cebolas em caçarola de ferro, onde se derramem umas ervilhas debulhadas, onde se quebre um ovo caipira e se espere a gema endurecer e empalidecer... o mundo restaura a ordem que teve uma vez durante a infância: em volta da mesa, o invólucro uterino de cuidado e proteção. estou falando demais, eu sei, talvez muito mais do que você gostava de ouvir. as palavras desgovernadas, teimando em descarrilar.
quando assisti central do brasil, lembro de ter achado tão bonito e duro e de ter especialmente gostado da honestidade quase brutal da dora em sempre enunciar os fatos crus. mas lembro de também ter achado bonita a rendição dela a uma espécie de pensamento mágico infantil, que aposta todas as fichas no encontro e na esperança. todo o contrário da monotonia do ir e vir nos trilhos nesse desvio de abrir espaço pra acreditar.
queria dizer pra você que também abro esse espaço; veja bem que enquanto falo vou abrindo picadas em tudo o que até ontem era uma selva de improbabilidade. enquanto falo vou me esquecendo de que cresci, só pra rearticular os trilhos de modo que caiba você; vou me esquecendo que cresci, e então posso tirar as calhas já montadas logo à frente e tatear outros destinos; vou me esquecendo que cresci e então nem bobagem, nem infância – agarro com força esse sentimento que me desencaminha do infinito ciclo.
esboço o gesto, ainda que sem o engate da coragem que me conduziria à conclusão:

* título a la Nuno Ramos.

07 abril, 2014

dia de visita

quando as noites de sono inquieto e frágil e os dias cheios de pausas e suspiros ela sabia bem que nome dar àquele nó – meio expectativa, meio resignação. flor de ir embora. o nome tirado de uma música antiga. música que doía um pouco, assim como a falta de ar provocada por aquela flor nascida por dentro, à revelia da ausência de sol e de terra. flor que adivinha roxa, na memória de tantas quaresmas a encobrir os santos, a aprofundar as culpas, a volta e meia cutucar bem funda a dor – até que o sábado amanheça, trazendo a festa da vida nova. a flor que traz em si é roxa, disso está certa, e quando dá de abrir, abre num repente: faz engasgar o todo-dia e pesa o peso do botão recém-aberto, a cabeça pensa no caule temerariamente fino.

pôs então a toalha de chita sobre a mesa e também dois pratos de louça branca, garfos e facas, duas xícaras de chá. os guardanapos de pano vermelho – a bainha costurada por ela numa das vezes em que a flor nascera. inebriava a todos durante aquelas florações: a vontade de liberdade, a aflição em despetalar as palavras todas, abrindo picada pelos caminhos da garganta. às vezes ocupando excessivamente as mãos para esperar o que nasceu crescer, envelhecer e morrer. insuportáveis estes ciclos, pensa.

e enquanto pensa vai amassando farinha, manteiga, iogurte e água. é quase com violência que abre a massa – o cilindro alisando e esticando o que até há pouco era só nó. coloca a massa sobre a forma, coloca a forma dentro do forno. e espera.

enquanto espera, abre o shimeji e derrete a manteiga e sente o cheiro forte e bom do acinzentado refogando: uma pequena alegria, a floração nascida no úmido e escuro se transformando em intensidade e maciez. rouba um bocadinho com os dedos, mistura à cebolinha picada. e reserva. que agora é hora de bater os ovos às natas, também um pouco de sal e noz moscada. finalmente mistura tudo e derrama sobre a massa, dourada e fofa. então devolve tudo ao útero quente do fogão.

na leiteira, derrama o leite e o pedacinho de uma fava de baunilha. a fúria do leite fervendo espumas contrasta com o entalo de sua flor, imóvel. adivinha o gosto e a textura do leite morninho a descer pela garganta, carregando consigo qualquer resquício de caule e pétalas, inaugurando um outono.

hoje não tem café preto. só o leite amansando e umedecendo a baunilha um pouco ressequida – tanto tempo desde que. a casa vazia, a mesa vazia. pra pôr o ciclo em movimento é sempre este misto de espera e ação. pensa nele e o medo e a esperança se pororocam numa única saliva, carregando finalmente aquela flor dolorida corpo adentro. o espaço, enfim, liberado. a porta destrancada por dentro.

na hora certa, toca a campainha e ela, menina antiga, só tem tempo de pensar alto: quem vem lá? como se já não soubesse. como se pega de surpresa. como se não tivesse sido ela mesma a mandar o convite.

24 março, 2014

(mais) bobagenzinhas

depois que assisti "Ela", fiquei imaginando qual voz no sistema operacional teria mais chances de me fazer ficar apaixonada. a não ser em casos muito especiais, raramente pensamos na voz das pessoas que nos cercam. eu, pelo menos, nunca tinha pensado. até um namorado me dizer que a primeira coisa que chamou a atenção dele foi o tom doce e suave da minha voz (o que era uma ilusão, como ele logo percebeu quando conheceu todas as outras modulações). ou até uma amiga comentar sobre a voz grave e masculina do meu marido, ao telefone - dessa vez não era ilusão: é verdade mesmo.
fato é que "Ela" incita nossa imaginação a esse respeito, já que a voz é o mais concreto e "físico" daquele "ser" que não é corpo.
logo que assistimos o filme, disse pro Edu que queria um sistema operacional com a voz do Nathan Fillion. mas aí a Bia descobriu essa banda, e o Nathan Fillion perdeu um tiquinho de seu espaço... acho que quero um com a voz grave desse moço aí (que, nesse vídeo, na verdade só aparece lá na última música).


21 março, 2014

bobagenzinhas

para começar o final de semana se impressionando com o cuidado da Disney não só com as boas versões (e vale mesmo a pena brincar de explorar cada uma delas!), mas até mesmo com a continuidade de timbres das cantoras das diversas línguas!


num tom mais alternativo, vale dançar com os meninos (doidinhos) do Ylvis:




05 março, 2014

pra inaugurar a quaresma

(pensamentos em três tempos, na quarta-feira de cinzas de 2014).

- Quando eu era pequena, adorava ouvir as histórias em disquinhos, ainda que bem no meio, às vezes no melhor da história, tivesse que virar... A gente tinha duas coleções - uma da Disney, e outra que chamava Taba. Essa era minha preferida - com seus diferentes universos, as músicas deliciosas. Já comentei que adorava a do Marinheiro Marinho,  uma pequena lição de inconformação. A segunda em preferência era a do Bom-Dia Todas as Cores, sobre um camaleão que queria muito agradar. Mas uma que eu também adorava era a do Sapo Vira Rei Vira Sapo, também da Ruth Rocha (acho que em livro chama "A volta do Reizinho Mandão"). Era uma lição sobre autoritarismo, sobre como a lei pode ser absurda, sobre desobediência civil. E era uma lição importante para uma geração como a minha, que nasceu quando a ditadura já ia "acabando". Mas ultimamente a história toda ganhou atualidade, infelizmente não pelo trabalho da memória...


- E aí leio a coluna da Eliane Brum, de novo tão precisa ao cutucar nossas feridas; de novo tão relacionada às reflexões que estou propondo na minha disciplina optativa este semestre, em seu apelo para que escutem o louco.

- Passei uma parte do feriado lendo K, do Bernardo Kucinski, que a Cosac acaba de republicar. É lindo e duro, muito duro. E foi bem interessante ler depois de ter lido, em janeiro, Poder e Desaparecimento, da Pilar Calveiro. Pois o desvendamento desse mecanismo de poder, que intencionalmente faz desaparecer - e não apenas por encobrimento, mas para produzir um tipo bastante específico de terror e medo - é um tema comum a ambos os livros. Talvez também comum a ambos seja a crítica incisiva à uma espécie de transe em que parte da esquerda se lançou, levando muitos jovens em direção à morte por um tipo específico de alienação. (No texto de Calveiro, isso aparece ao longo das reflexões; no de Kucinski, aparece condensada na carta que encerra o livro).
Embora se trate de algo absolutamente distinto, em parte dos relatos de sobreviventes da Shoah há a manifestação da determinação em sobreviver para contar, para narrar o horror, para testemunhar o absurdo; pois o sentido sacrificial de purgação era dado pelo outro lado, o dos nazistas (daí a recusa de parte dos sobreviventes do termo Holocausto, que reafirmaria tal sentido). E é como se entre a esquerda latino-americana se passasse o inverso - como se o poder desaparecedor tivesse consciência de seu sentido pragmático (embora em alguns casos também houvesse a crença da purgação necessária em nome de um projeto nacional, da ordem ou do enfrentamento dos inimigos internos), mas os que foram tragados no sorvedouro acreditassem que, em sua ausência, a história se encarregaria de esclarecer os sentidos do sacrifício de suas vidas. Deixaram tarefa aos vivos, que não têm como "recuperar" os sentidos de coisa alguma: podem somente tentar atribuir sentido a partir do presente. O problema está em que por vezes esse sentido se ausenta, espirra nas mãos ensaboadas e aí é tênue a linha que separa o labor do luto da tentação do juízo - em especial quando a possibilidade efetiva de julgamento está, como em nosso caso, interditada.

- "E no entanto é preciso cantar/mais que nunca é preciso cantar/ é preciso cantar e alegrar a cidade".

27 fevereiro, 2014

a dupla chama

para j.



entre a surpresa e a preguiça, a amiga notou que precisava muita paciência pra fazer aquela comida. pra ser sincera nem entendi direito a observação: era só deixar ferver o litro de água e depois baixar o fogo e jogar o hondashi e finalmente ir dissolvendo, pouco a pouco, o missô. pensando bem, beirava a meditação o cuidado em passar a colher de um lado para o outro sobre o missô depositado na concha. dava para ler o futuro nos desenhos que se desprendiam da massa de soja e se misturavam ao hondashi – mais grosso, a gravidade rápida em leva-lo ao fundo da panela. não era difícil, nem elaborado, mas exigia uma espécie de transe. um tipo de paciência. o respeito aos mistérios das coisas que se cozinham lentas. aquelas que não adianta apressar.
uma vez, um amor, quando jovem. daqueles em que tudo erra, mas não encerra e aí o amor fica ali, cozinhando lento, feito batata doce que a gente enrola no alumínio com casca e tudo e esquece no fundo do forno enquanto assa um suflê de abobrinhas ou um pão. só pra depois encontrar o alumínio escurecido e se surpreender com a doçura escorrendo morna, o cozimento completo sem que ninguém tenha programado o timer ou se dado conta daquela prontidão se instalando devagar. a distração dos outros cheiros e sabores alimentando o esquecimento. preparando o tempo da rememoração e do reencontro. foi de lá, desse amor cru e colhido verde, que eu trouxe esse fogo brando.
e essa paciência infinita pra esperar o tempo de cada coisa. o tempo de cada um.
e também uma espécie de medo da morte – do fogo tão baixo que se apaga sem que a gente se dê conta.
nem tudo porém se coze em fogo brando – só o que é duro demais, o que é sem gosto demais, aquilo em que é preciso matar a semente pra melhor saborear o grão.
a lição vem tardia? os dentes de alho separados, protegidos pela casca roxa. na panela, a xícara de água fervendo com a xícara e meia de açúcar. e aí os alhos borbulhando em festa, a chama viva, a falta de tampa. a umidade evaporando para ceder lugar ao que é doce, cada vez mais doce.
essa receita só me é possível enquanto envelheço: deixar a água secar assim, quase ao ponto da incineração; flertar de tão perto com a queimadura; chegar a sentir o cheiro e o gosto do carvão. e então interromper – a meia xícara de aceto balsâmico: avinagrando a fervura só para logo se misturar às blandícias do açúcar. o caramelo fresco a envolver o que um dia foi rosa e roxo; a ternura a abraçar o que outrora somente acidez e olor.
não, nem tudo se coze em fogo brando. tem o que valha a pena que se prepara assim: o fogo temerariamente alto, a calda perigosamente grossa. tecendo o agridoce de estar vivo com diligência. reservando a paciência para a fruição de espremer um a um os dentes de alho sobre o pão fresco. abandonando-a de novo para cravar vorazes os dentes nesse breve festejo.

17 fevereiro, 2014

grafite, diamante

tem um momento que a coisa... pam! sem muita explicação, sem muita elaboração. como se já estivesse pronta, maturada e precisasse apenas de um momento-quando pra vir à luz. quando a gente vive uma vida inteira junto, sabe que não tem só um momento-quando, são vários. não tantos que a coisa toda seja banal. mas também não tem um e pronto. porque quando a gente vive uma vida inteira junto, a gente vive várias vidas e não uma só. a gente muda, desmuda, encontra, desencontra, tem épocas de alegria e vivacidade e outros de tristeza e melancolia. e ainda nem tô falando de tempo, repare, embora o tempo faça sim diferença. sessenta e um anos, foi o tempo que eu vivi do lado dele. foram várias as vidas juntos – várias as cidades, várias as casas, vários os amores.
ele era tão quieto. o homem alto e forte por quem me apaixonei. pelos olhos dele, o mundo até se organizava, visto lá de cima, com distância e perspectiva. era um conforto pro meu olhar miúdo, de quem presta atenção ao feijão e arroz que na minha época ainda se separava, grão e pedras. meu olhar atento, de quem abre os ovos, peneira a farinha e o açúcar, e acompanha pelo olfato o que era massa virar pão. ou bolo.
se quisesse acompanha-lo pelos sentidos, dava para adivinhar ainda da cama o banheiro se encher do cheiro do sabonete predileto e depois a loção pós-barba e ainda o desodorante. a partir daí, acompanhava-o pelos ouvidos: o som da escova de dentes, na boca, na pia. o som da respiração dele, aproximando-se de mim, para me acordar com um beijo. o som da risada dele, no café da manhã. ou do seu suspiro, fossem duros os tempos ou dolorosas as notícias. a voz dele quase não se ouvia. sua presença era discreta. mas tão fundamental, descubro agora. agora quando sinto imensa falta do silêncio dele.
ando com as pernas fracas, parecendo bambas, como se eu tivesse desaprendido a andar. não é da velhice, não. embora eu esteja velha, claro: não só nas rugas, nem no cabelo branco, nem nas mãos cheias de veios e raízes. mas as pernas fraquejam porque agora ando sempre sem chão. o pé se lança à frente e entre o início e o fim do movimento me lembro, e é aí que a perna falha. essa consciência de estar sozinha no mundo. de estar num mundo sem ele. ele que é meu companheiro, que era minha companhia. se eu chorasse tudo o que dói, escorreria água pela cozinha, pela escadaria da frente de casa, pela rua inclinada onde acabamos vindo morar, e já faz tantos anos. a gente toda ia achar que era março, que era o final do verão com seu calor, suas chuvas repentinas, suas enchentes. não faz diferença o gosto da chuva e o do choro destampado.
em um dia qualquer, cismei de inovar na sobremesa. a gente já tinha bem uns trinta anos de casado, eu em crise, cansada da fase da torta de limão. (quando casamos, houve a fase da ambrosia. depois nasceram as crianças, e houve a fase do chocolate: mousse, bolo, bolacha, creme. também houve o ciclo do pudim de uva, tão macio e refrescante. as sobremesas entravam e saiam de moda, conforme o ritmo da vida). os filhos vinham aos finais de semana e resolvi testar uma receita estranha, que veio num livro de receitas vegetarianas indianas. acho que era a única receita do livro todo que dava certo. as outras melavam, desandavam, murchavam. mas o gulab jamun funcionou. e virou nossa receita de almoços longos e largos por alguns anos. minhas mãos não eram tão manchadas e enrugadas como agora. lembro direitinho da sensação que o leite em pó se misturando à manteiga deixava na minha mão.
no velório, lembrei desse doce. deve ser o cheiro das flores. a gente começa fazendo a calda doce: um copo e meio de açúcar, um copo de água, um pouco de cardamomo e duas gotas de água de rosas. primeiro deixa a água e o açúcar ferverem. só depois coloca o cardamomo e a água de rosas. ainda é opaco, logo quando desliga. aí tem que colocar a colher de chá de suco de limão. para preservar a consistência. já naquela época eu pensava uma estranheza: que aquela calda também sabia a embalsamamentos. que era para perfumar e adocicar a morte. cada coisa que a gente pensa, mesmo jovem. rá! agora eu era jovem aos sessenta anos... tudo é mesmo uma questão de perspectiva.
depois da calda, começa-se a preparar os bolinhos. uma xícara de leite em pó. uma colher de sopa de manteiga, pois eu nunca tinha ghee. uma colher de sopa de farinha de trigo e outra de semolina. um quarto de colher de chá de fermento químico. essa parte sempre me indignava: quem é que pensa em colocar um quarto de colher de chá? que medida estranha é essa? também vai duas colheres de sopa de leite morno, ou mais, se precisar, e mais umas gotinhas de suco de limão. o segredo é deixar o leite umedecido antes de começar a misturar. e deixar descansar um pouquinho antes de fritar. porque os bolinhos devem ficar um tantinho aerados, pra absorver a calda. bolinhos-múmia. bolinhos de chuva encharcados de água doce. bolinhos bons e úmidos e docinhos na medida. rescendendo suavemente a rosas, distraindo da morte. depois de prontos – vinte quatro horas mergulhados na calda – e gelados, os bolinhos quase imitavam fruta madura. nem parecia que eu tinha feito: mas colhido de uma árvore secreta. eu gostava, gostava mesmo, de cultivar aqueles bolinhos.
o momento em que eu me dei conta, assim, de supetão, de que ia ficar sozinha nem foi agora, no final. foi antes, muito antes, quase que lá no começo. um dia acordei mais tarde e a casa estava vazia. nem trinta anos eu tinha. procurei na sala, na cozinha, nos banheiros. quando ele voltou – do jornal de domingo e do pão fresco – me encontrou chorando à beça. foi quando eu soube que seria viúva. desde então foi essa pequena falha entre uma batida e outra do meu coração. antecipando a falha entre os passos. as gotas de limão no caldo doce, pra manter lúcida a transparência.

07 fevereiro, 2014

simpatia

Vai daí que resolvi fazer um post-simpatia, no espírito "dança da chuva". Porque a vida nessa São Paulo quente e seca não tá fácil, não.

Começando com Maria Rita:

Passando por Jorge Ben:

E terminando com Credence Clearwater, que tem água até no nome :-)

Se não der certo, ainda me resta a tentativa de lavar as santas de casa...