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02 fevereiro, 2011

Um livro

Primeiro pensei em colocar no Margens. Mas é tão bonito, tão bonito, que decidi colocar aqui mesmo, para dividir com as pessoas queridas que costumam vir me visitar :-)

"Um livro é produzido, evento minúsculo, pequeno objeto manejável. A partir daí, é aprisionado num jogo contínuo de repetições; seus duplos, a sua volta e bem longe deles, formigam; cada leitura atribui-lhe, por um momento, um corpo impalpável e único; fragmentos de si próprio circulam como sendo sua totalidade, passando por contê-lo quase todo e nos quais acontece-lhe, finalmente, encontrar abrigo; os comentários desdobram-no, outros discursos no qual enfim ele mesmo deve aparecer, confessar o que se recusou dizer, libertar-se daquilo que, ruidosamente, fingia ser.

[...]

Gostaria que um livro, pelo menos da parte de quem o escreveu, nada fosse além das frases de que é feito; que ele não se desdobrasse nesse primeiro simulacro de si mesmo que é um prefácio, e que pretende oferecer sua lei a todos que, no futuro, venham a formar-se a partir dele. Gostaria que esse objeto-evento, quase imperceptível entre tantos outros, se recopiasse, se fragmentasse, se repetisse, se simulasse, se desdobrasse, desaparecesse enfim sem que aquele a quem aconteceu escrevê-lo pudesse alguma vez reivindicar o direito de ser seu senhor, de impor o que queria dizer, ou dizer o que o livro devia ser. Em suma, gostaria que um livro não se atribuísse a si mesmo essa condição de texto ao qual a pedagogia ou a crítica saberão reduzi-lo, mas que tivesse a desenvoltura de apresentar-se como discurso: simultaneamente batalha e arma, conjunturas e vestígios, encontro irregular e cena repetível".

(Michel Foucault, no novo prefácio à História da Loucura na idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 2008).

24 julho, 2009

Flor de Obsessão



Este post ia se chamar, de novo, algo como "perder-se, desdobrar-se". Mas então resolvi mudar-lhe o nome e chamá-lo assim, "flor de obsessão".

Era o Nelson Rodrigues quem se auto-entitulava flor de obsessão, porque - de fato - ele tinha alguns temas a que retornava sem cessar: desde os jovens, a esquerda até os umbigos . E eu sou uma fã de carteirinha das crônicas dele, a ponto de ter pensado em trocar o objeto de estudo do mestrado, na Teoria Literária, das crônicas do Drummond para as dele (mas isso já é outra história...).

Como eu tinha dito - e a ausência de posts confirma - ando mesmo sem vontade de falar ou escrever. Se pudesse, ficava escondida do mundo, quietinha e em silêncio, apenas com meus discos e livros. Como não dá, tenho alimentado um bocadinho a alma com coisas bonitas de ler, ver e ouvir. Ontem, por exemplo, acabei comprando um livrinho da Eva Furnari chamado Luas, que é tão delicado e feminino que não resisti: meu presente de aniversário antecipado...

No começo da semana, visitando o blog da Sally, topei com uma citação que tinha me animado a escrever umas tantas palavras, provavelmente menos pra me comunicar do que para amansar meus leões: "É preciso ocasionalmente perder-se quando queremos aprender algo das coisas que nós próprios não somos" (Nietzsche).

Tenho pensado muito sobre se perder e sobre como "a volta" de estar perdido não é reencontro, mas descoberta. Tenho pensado muito sobre como são (cada vez mais) estreitos os limites para que façamos o exercício de dar significado às coisas, para que possamos pôr em questão o objetivo mesmo que nos move, para que possamos respirar e refletir, ao invés de sermos pura ação e pró-ati-vi-da-de (e talvez esses pensamentos tenham também a ver com a coluna do Tony, já há algumas semanas).

Tenho pensado nisso provavelmente porque ainda não consegui me perdoar pelo resultado final da tese (e os pesadelos recorrentes a respeito reforçam essa hipótese). Com todas as ponderações - tive filho; não tive pudor em seguir as pistas de minhas intuições; tive crises; envelheci; mudei de interesses... - eu me envergonho pelo "produto final", porque pra mim forma e conteúdo estão tão imbricados que me dói - fisicamente, inclusive - ler minha tese. Ela é minha, nos erros e acertos. Eu que gestei e pari. Mas eu queria tanto mais para ela... E não houve tempo ou, pra dizer melhor, minhas escolhas me puseram em descompasso com o tempo de que eu dispunha para fazê-la. O tempo me atropelou, me deixou sem fôlego, quase que me afoga.

Mas sei que sou tão diferente do que era quando a comecei. Sei que, apesar de tudo, ela é fruto do meu esforço - tão desgastante, principalmente porque tem como consequência o descompasso que comentei acima - de pesquisar de modo a não perder de vista a pergunta do Foucault, que o Maurice um dia colocou lá no Margens sob o título provocador "pra quem está terminando tese": "Que devo ser eu, eu que penso e que sou o meu pensamento, para eu ser o que eu não penso, para que o meu pensamento seja o que eu não sou?" (Michel Foucault, As Palavras e as Coisas).

Perder-se, despedir-se de si mesmo, desdobrar-se: minha obsessão dos últimos tempos. Tentativa de entender o que foram todos esses últimos quatro anos; de me afastar da minha forma de me colocar frente às referências e às evidências (e à vida); de pesquisar uma nova forma, mais confortável, de estar no mundo.

Esforço de escapar desse incômodo tempo das "coisas que não são mais", mas também "não são ainda" (como fala a Hannah Arendt, com quem também convivi por tanto tempo). De assumir que me perdi à meio caminho, sem me culpar por isso. De acolher o tempo em que estive perdida, de aprender a ficar grata pelas possibilidades que isso me abriu.

Reaprender a me ver no espelho: eu que quase não mudei, mas que já não me reconheço.

Imagem: Alicia

18 junho, 2009

Cumprindo promessa

Post novo no Margens: "Corpo, poder e experiência". Com direito a revival do relato de parto, em perspectiva sociológica. Vai lá.

15 junho, 2009

O corpo. O corpo. O corpo.*

(dica do marido, tirado do blog do Marcelo Coelho, que foi quem fez a tradução dessa fala do Foucault).
Basta eu acordar, diz Foucault, que não posso escapar deste lugar, o meu corpo.

Posso me mexer, andar por aí, mas não posso me deslocar sem ele. Posso ir até o fim do mundo, posso me encolher debaixo das cobertas, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente: não está nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia. Todos os dias, continua Foucault, eu me vejo no espelho: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, nenhum cabelo mais... Verdadeiramente, nada bonito. Meu corpo é uma jaula desagradável. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. É o lugar a que estou condenado sem recurso.

É possível que contra esse corpo tenham nascido todas as utopias, dele nasce a utopia original --a de um corpo incorporal: o país das fadas, dos elfos, dos gênios, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos machucar, onde podemos ficar invisíveis.

Há outra utopia dedicada a desfazer o corpo é o país dos mortos. A múmia é o corpo utópico que desafia o tempo. Há as pinturas e esculturas dos túmulos, que prolongam uma juventude que nunca vai passar, que será eterna. Meu corpo se torna sólido como uma coisa, e eterno como um deus.

A outra, a maior utopia criada contra o corpo é o grande mito da alma, que funciona maravilhosamente dentro do meu corpo, mas escapa dele. É bela, pura, branca, ao contrário do meu corpo. Durará para sempre. É meu corpo luminoso, purificado.
Assim, pela mágica dessas utopias, meu corpo pesado e feio desaparece magicamente. Recebo-o de volta fulgurante e perpétuo.

Mas meu corpo, nele mesmo, seus recursos próprios de fantástico. Tem lugares sem-lugar. Tem seus lugares obscuros e praias luminosas. Minha cabeça é uma estranha caverna, com duas aberturas, meus olhos. E, se as coisas entram na minha cabeça, ficam ao mesmo tempo fora delas. 

Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Absolutamente visível --porque sei o que é ser visto e ver os outros. Mas esse corpo é também tomado por uma certa invisibilidade: minha nuca, por exemplo. Minhas costas: conheço seus movimentos, sua posição, mas não as vejo. Corpo que é um fantasma, que só posso ver pelo truque, pela miragem de um espelho. 

Esse corpo não é uma coisa: anda, mexe, quer, se deixa atravessar sem resistências por minhas intenções. Só quando estou doente –dor de estômago, febre-- ele se torna coisa, opaca, independente de mim.

Não, o corpo não precisa de fadas e almas para ser utópico, visível e invisível, transparente e concreto. Para que eu seja utopia, preciso apenas ser... um corpo. As utopias não apagam o corpo: nasceram dele, para só depois, talvez, voltarem-se contra ele.

Uma coisa, entretanto, é certa: o corpo humano é o ator principal de todas as utopias. O sonho de um corpo imenso, o mito dos gigantes, de Prometeu, é uma utopia. O sonho de voar também. 

O corpo é também ator utópico quando se pensa nas máscaras, na tatuagem, na maquiagem. Não se trata, aqui, propriamente, de adquirir um outro corpo, mais bonito ou reconhecível.

Trata-se de fazer o corpo entrar em comunicação com poderes secretos, forças invisíveis. Uma linguagem enigmática e sagrada se deposita sobre o corpo, chamando sobre ele o poder de um deus, a força surda do sagrado, a vivacidade do desejo. Fazem do corpo o fragmento de um espaço imaginário, que entra em comunicação com o universo dos outros, dos deuses, das pessoas que queremos seduzir. 

O corpo é arrancado de seu espaço próprio e arremessado a um outro espaço. As vestimentas religiosas, por exemplo, fazem o indivíduo entrar no espaço cercado do sagrado, ou na comunhão da sociedade. Tudo o que toca no corpo, uniformes, diademas, faz florescerem as utopias internas do corpo.

E a carne nela mesma pode ser também utópica. Faz o corpo voltar-se contra si: o outro mundo, o contra-mundo, penetra nesse corpo, que se torna produto de seus fantasmas: o corpo de um dançarino, por exemplo, é um corpo dilatado pelo espaço –espaço que lhe é interior e exterior ao mesmo tempo. O corpo do mártir acolhe a dor e a salvação. O corpo de um drogado, de um possuído, de um estigmatizado, recebe em si o que lhe é exterior. 

Bobagem dizer portanto, como fiz no início, que meu corpo nunca está em outro lugar. Meu corpo está sempre em outro lugar. Está ligado a todos os outros lugares do mundo, e está num outro lugar que é o além do mundo. É em relação ao corpo que existe uma esquerda e uma direita, um atrás e um na frente, um embaixo e um em cima. 
 
O corpo está no centro do mundo, nódulo utópico a partir do qual penso, sonho, me comunico. O corpo, como a Cidade de Deus, não tem lugar, e é de lá que se irradiam todos os lugares possíveis.  
Apenas o espelho e o cadáver selam e calam essa voragem utópica. Os dois estão num outro lugar impenetrável, mas nesse momento já não sou eu mesmo. Para que eu seja eu mesmo, no meu corpo, sem utopia, é preciso uma situação bem definida. Só o ato amoroso, quando nos entregamos a ele, acalma a utopia do nosso corpo: por isso é tão próximo, no imaginário, ao espelho e à morte. É porque só no amor o meu corpo está AQUI.

* O título do post é de um trecho de crônica do Carpinejar: "O corpo. O corpo. O corpo. O corpo é essa garrafa que quebro para viver derramado".
E isso tudo me deu uma súbita vontade de rever O Livro de Cabeceira (eu adoro o Greenaway), de reler Octavio Paz e de escrever um post há muito tempo prometido para o Mauricio, sobre minha experiência de parto (mas esse vai lá pro Margens). Quem sabe até o fim da semana?