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26 junho, 2015

uma boniteza


O lugar em que temos razão (Yehuda Amichai)

Do lugar em que temos razão
jamais crescerão
flores na primavera.

O lugar em que temos razão
está pisoteado e duro
como um pátio.

Mas dúvidas e amores
escavam o mundo
como uma toupeira, como a lavradura.
E um sussurro será ouvido no lugar
onde houve uma casa
que foi destruída.

Tradução: Nancy Rozenchan

28 abril, 2015

dos amores

"Então, quando estou lendo livros — leio muito bagunçadamente —, me sinto como se estivesse conhecendo pessoas legais, como se estivesse naquele momento que tinha quando era mais menino, de que toda pessoa carrega consigo um pedaço da vida muito grande. Quando você está no colégio, no ginásio, parece que as grandes conquistas da humanidade estão todas ali, em quatro ou cinco amigos. E aí entra um cara novo e o cara abre um negócio… Literatura é um pouco isso, como se você conhecesse um sujeito novo, alguém assim".

"Acho que tem uma potência de reformulação na morte, de reordenação da vida, tem uma potência na catástrofe. Acho que não é morte, é catástrofe. Tenho ligação com aquela situação de depois do furacão. [...] Então, acho que a morte e do que gosto nela é dessa potência de reordenação. É uma grande escultura, não é? Nesse sentido, acho que a morte tem a potência de abrir o real. A violência tem isso. Agora, é claro que a violência é cega e ela faz coisas horrorosas. Não sinto em mim nenhum sadismo. Se sentisse, eu diria, e estou falando como artista, não como cidadão. Não tenho gosto por sadismo, não é o lado de que gosto. A propósito, acho o Marquês de Sade um chato. Não acho aquilo nem sádico, acho muito metódico, francês, cartesiano. Agora, a força de destruição da vida é algo que quero estar perto. Porque acho que ela é a mesma força que refaz a vida. É nesse sentido que a coisa da morte está presente na minha literatura".

(mais uma vez,  encontro o nuno ramos num momento tão oportuno, tão preciso que até recupero meu pensamento mágico).
(e ele me faz lembrar de coisas compartilhadas com a veronika, com o tony, sobre escrever, sobre ler, sobre esse jeito de experimentar a vida e o mundo).
(conto ao marido do novo amor. "me reconheço nele", digo. e ele ri, "você gosta dele porque se vê no espelho?". é isso e não é isso. gosto dele porque vejo ali uma vitalidade que reivindico, que procuro preservar em mim. gosto dele porque, ler o que escreve é como acordar sem sono algum, inteira. porque quando leio alguns de seus textos, o "entender" passa pela pele, pelas maçãs do rosto, pelos olhos úmidos. porque ali tem alguma coisa que me põe viva. e isso nunca é pouco).

12 dezembro, 2014

que tempos são esses?

poema que me chegou de presente, nessa semana em que o relatório final da Comissão da Verdade veio à luz. uma atualização de Brecht, em tempos que já são outros, mas cuja natureza não cessamos de ter que interrogar. o presente, com suas canequinhas e bacias espalhadas, a conter o passado que insiste em vazar. sobre nós, que não estamos na chuva, que não construímos com nossas mãos esse telhado. e, no entanto, cá estamos: a espalhar contenções, a torcer a roupa encharcada, a procurar abrigo. interpelados a ouvir o silêncio que arrepia as árvores. a seguir os rastros que levem até essa edificação onde se ocultam os desaparecidos.

What kind of times are these? (Adrienne Rich)

There's a place between two stands of trees where the grass grows uphill
and the old revolutionary road breaks off into shadows
near a meeting-house abandoned by the persecuted
who disappeared into those shadows.

I've walked there picking mushrooms at the edge of dread, but don't be fooled
this isn't a Russian poem, this is not somewhere else but here,
our country moving closer to its own truth and dread,
its own ways of making people disappear.

I won't tell you where the place is, the dark mesh of the woods
meeting the unmarked strip of light—
ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:
I know already who wants to buy it, sell it, make it disappear.

And I won't tell you where it is, so why do I tell you
anything? Because you still listen, because in times like these
to have you listen at all, it's necessary
to talk about trees.

30 abril, 2014

duas bonitezas

A entrevista que a Ecléa Bosi deu para a Revista Fapesp desse mês - Narrativas sensíveis sobre grupos fragilizados - e o belíssimo ensaio que o Marcos Visnadi fez sobre a Hilda Hilst, na revista Geni.
E se precisar de trilha sonora, tem sempre o bonito cd feito pelo Zeca Baleiro a partir da "Ode descontínua e remota para flauta e oboé, de Ariana para Dionísio" (que está em Júbilo, memória e noviciado da paixão - mesmo livro, aliás, de onde saiu o nome desse blog).
Bom feriado, então.


05 março, 2014

pra inaugurar a quaresma

(pensamentos em três tempos, na quarta-feira de cinzas de 2014).

- Quando eu era pequena, adorava ouvir as histórias em disquinhos, ainda que bem no meio, às vezes no melhor da história, tivesse que virar... A gente tinha duas coleções - uma da Disney, e outra que chamava Taba. Essa era minha preferida - com seus diferentes universos, as músicas deliciosas. Já comentei que adorava a do Marinheiro Marinho,  uma pequena lição de inconformação. A segunda em preferência era a do Bom-Dia Todas as Cores, sobre um camaleão que queria muito agradar. Mas uma que eu também adorava era a do Sapo Vira Rei Vira Sapo, também da Ruth Rocha (acho que em livro chama "A volta do Reizinho Mandão"). Era uma lição sobre autoritarismo, sobre como a lei pode ser absurda, sobre desobediência civil. E era uma lição importante para uma geração como a minha, que nasceu quando a ditadura já ia "acabando". Mas ultimamente a história toda ganhou atualidade, infelizmente não pelo trabalho da memória...


- E aí leio a coluna da Eliane Brum, de novo tão precisa ao cutucar nossas feridas; de novo tão relacionada às reflexões que estou propondo na minha disciplina optativa este semestre, em seu apelo para que escutem o louco.

- Passei uma parte do feriado lendo K, do Bernardo Kucinski, que a Cosac acaba de republicar. É lindo e duro, muito duro. E foi bem interessante ler depois de ter lido, em janeiro, Poder e Desaparecimento, da Pilar Calveiro. Pois o desvendamento desse mecanismo de poder, que intencionalmente faz desaparecer - e não apenas por encobrimento, mas para produzir um tipo bastante específico de terror e medo - é um tema comum a ambos os livros. Talvez também comum a ambos seja a crítica incisiva à uma espécie de transe em que parte da esquerda se lançou, levando muitos jovens em direção à morte por um tipo específico de alienação. (No texto de Calveiro, isso aparece ao longo das reflexões; no de Kucinski, aparece condensada na carta que encerra o livro).
Embora se trate de algo absolutamente distinto, em parte dos relatos de sobreviventes da Shoah há a manifestação da determinação em sobreviver para contar, para narrar o horror, para testemunhar o absurdo; pois o sentido sacrificial de purgação era dado pelo outro lado, o dos nazistas (daí a recusa de parte dos sobreviventes do termo Holocausto, que reafirmaria tal sentido). E é como se entre a esquerda latino-americana se passasse o inverso - como se o poder desaparecedor tivesse consciência de seu sentido pragmático (embora em alguns casos também houvesse a crença da purgação necessária em nome de um projeto nacional, da ordem ou do enfrentamento dos inimigos internos), mas os que foram tragados no sorvedouro acreditassem que, em sua ausência, a história se encarregaria de esclarecer os sentidos do sacrifício de suas vidas. Deixaram tarefa aos vivos, que não têm como "recuperar" os sentidos de coisa alguma: podem somente tentar atribuir sentido a partir do presente. O problema está em que por vezes esse sentido se ausenta, espirra nas mãos ensaboadas e aí é tênue a linha que separa o labor do luto da tentação do juízo - em especial quando a possibilidade efetiva de julgamento está, como em nosso caso, interditada.

- "E no entanto é preciso cantar/mais que nunca é preciso cantar/ é preciso cantar e alegrar a cidade".

04 setembro, 2013

ainda Agamben (só que Nuno Ramos)

E daí que lendo "O que é um dispositivo?", me distraio e escuto mesmo o primeiro texto de Ó, livro do Nuno Ramos que a Ellen, uma aluna querida que tive por companhia no semestre passado, gentilmente me emprestou e que vou lendo aos poucos, antes de dormir - alternando com algumas HQs e o estranhíssimo Contos para crianças impossíveis, de Jacques  Prévert (descaradamente emprestado do filho, que por sua vez trouxe da biblioteca circulante da escola e não estava com cara de quem ia ler).

"Como todos os processos excessivamente contínuos, é preciso que nos lembremos do envelhecimento de um ponto de vista absolutamente exterior (em frases como “Não tenho idade para”, “Naquela época” ou “Quando eu era menino”) ou, ao contrário, de um interior imediato, muitas vezes corpóreo - na completa falta de ar após uma corrida, no rompimento estúpido de algum músculo. Mas é então, sob a sentença de um envelhecimento inevitável, que alguma coisa em mim parece querer, e poder, sobrevoar meu corpo, livrar-se dele - um misto de olhar para longe e de respiração, um amálgama aflito de palavras, a melodia como porta ou túnel, o instante que cava minha pegada numa paisagem imensa e posso então devorar nas plantas a sua carne amarga e lançar meu pêlo molhado sobre a minha vítima. Mas esta alegria progressiva precisa de alimento constante e o próprio corpo, em sua casca, parece não resistir bem a ela, tornando-se inquieto, ofegante e, aos poucos, cansado e deprimido. Como um balão cujo gás vai escapando, a energia insana de nossa alegria física procura abrigo - nas imagens, nos braços de outra pessoa e, no limite, pois é a isto que sempre recorre, na linguagem. É ali que a tentamos prender, antes que o gás escape de uma vez e sejamos tão somente os espectadores de nossa própria decrepitude, de nossa fusão indeterminada na matéria.

Chegamos então à beira do velho precipício - o entusiasmo das palavras vagas. É a este antigo último recurso que recorremos sempre – exclamações ou frases compulsivas que não conseguimos deixar de dizer. Talvez seja melhor tratar agora desta estranha ferramenta, a linguagem, que me põe para fora do meu corpo - tentar apreendê-la, indeciso entre o mugido daquilo que vai sob a camisa e a fatuidade grandiosa de minhas frases. Sem conseguir escolher se a vida é bênção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, micro-organismos onde a vontade é una, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, órgãos entranhados na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem? [...]

Mas talvez não importe tanto fabular sobre a origem da linguagem quanto compreender a enorme cisão que ela causou. Pois uma vez amarrada esta corda entre todos, uma vez expulsos ou mortos aqueles que não quiseram valer-se dela, não há mais qualquer possibilidade de retorno, pois é próprio da mais estranha das ferramentas, da mais exótica das invenções (a linguagem), parecer tão natural e verdadeira quanto uma rocha, um cajado ou uma cusparada. Este é seu verdadeiro fundamento, sua, digamos, astúcia - a de substituir-se ao real como um vírus à célula sadia. Há aí uma potência de esquecimento que não pode ser diminuída, uma armadilha na agonia que serviu a alguns (e não a todos), sacrificando violentamente aqueles que não a utilizaram.

Restam hoje apenas algumas pistas desta origem ou, para dizer de outro modo, alguns sinais fora da linguagem. Parece uma experiência cotidiana, ainda acessível a todos, estranhar subitamente o som de determinada palavra como demasiado abstrato ou inverossímil em relação àquilo que designa, e o velho jogo infantil de repetir indefinidamente um mesmo vocábulo até que perca completamente qualquer ligação com aquilo que procura indicar talvez queira nos conduzir, apenas, de volta a uma época em que cada coisa tinha seu peso sinestésico, e tanto a cor como o sabor como a imagem eram o índice livre para aquele pássaro flechado. A própria diversidade de línguas, absolutamente cômica para quem as escuta sem entender, remete também à arbitrariedade de origem, a esta reunião primeva de feridos em busca de consolo e proteção que expulsou para longe, ou mesmo matou, os primeiros heróis mudos. Quando entramos em choque com algo inaceitável ou excessivamente belo e ficamos, literalmente, sem palavras, estamos recuperando esta etapa adormecida da nossa natureza.

O problema, no entanto, é que mesmo então, por vício de origem, queremos comunicar o que está acontecendo. E para isto precisamos dela, e tudo recomeça novamente. Há aqui uma astúcia ainda mais escondida, que precisa de explicação. Voltemos à comunidade dos doentes. É claro que, passada a epidemia ou passadas as conseqüências de algum cataclisma ou ataque, os doentes vão aos poucos tornando-se sãos, ganhando de volta a antiga confiança e desprezando aqueles sinais coletivos acumulados nos últimos tempos. Querem agora retornar à existência nômade, à barca forrada de peles que os leva rio abaixo, entre animais e pomos dourados. Por que não o fazem? Por que não retomam sua condição e seguem os passos daqueles que expulsaram? Porque já não podem, contaminados pelo novo vírus? Talvez, mas o mais provável é que tenha sido por temor àqueles que expulsaram. O irônico disto tudo é que o instinto de algum modo coletivo da linguagem só pôde desenvolver-se ao transformar em vítimas os primeiros heróis mudos. É o anel de seu exílio, circundando os novos povos falantes (como Polifemos em torno da gruta de Ulisses), que preservou a linguagem, tornando-a imprescindível à sobrevivência.

Talvez estes heróis mudos, que nunca exprimiram dor, rancor nem pasmo diante da natureza, organizando-se em núcleos extremamente isolados, tenham se distanciado cada vez mais das comunidades onde grassava a linguagem, que temiam, enfrentando as adversidades a seu modo, sem qualquer previdência. Cercados por seus antigos pares, que agora já plantavam e caçavam com armas muito mais refinadas do que as suas, devem ter provado da melancolia e da tristeza que têm as vidas em extinção. E devem ter provado disso integralmente, em seus próprios ossos, na aspereza de sua pele, sem a anestesia das palavras. E o último deles, ao morrer sozinho, terá lançado àqueles estranhos seres falantes, que já lhe tomavam a gruta, uma terrível maldição calada. O enigma deste rancor, que paradoxalmente não chegou a ser exprimido em sons articulados ou gestos reconhecíveis, açoda de perto todas as línguas vivas ou mortas, amaldiçoando o seu pacto de origem" (Nuno Ramos. Ó. São Paulo: Iluminuras, 2008).

Este primeiro texto do livro você encontra na íntegra na revista Modo de Usar & Co, onde também há uma bonita resenha. 

08 março, 2013

criança de novo

Vai daí que a Tata escreveu um ótimo texto no Mamíferas sobre a leveza necessária para encararmos a vida e eu me lembrei da coleção Taba. Eis que por conta disso descobri que tem váários deles no youtube #fortesemoções.

E tava lá, uma das minhas histórias prediletas de quando eu era pequena: uma história de resistência, de insubordinação e de proposição de outros modos de viver. Então, nesse Dia Internacional da Mulher, vamos de Marinheiro Marinho - porque há várias formas de ser mulher, e ninguém é menos marinheiro por usar pintassilgo na cabeça :-)


05 março, 2013

pequeniníssima coleção de poesia feminista

(post descaradamente roubado de mim mesma, que ontem fui me meter a falar sobre gênero e cotidiano; a primeira parte foi sobre construções de gênero na publicidade dirigida ás crianças e essa segunda é que foi dedicada a essas experiências literárias de gênero).

***
Se a gente pensa as experiências de gênero como experiências que constroem lugares de enunciação, que ensinam a ser homens e a ser mulheres, e que ensinam práticas, delimitam papéis, circunscrevem o que falar, do que falar e como falar, vale a pena tomar a produção poética – um tipo de experiência literária que, em si mesma, já comporta alta dose de transfiguração e, desse modo, de transbordamento dos limites da palavra – de mulheres que se “atreveram” não só a escrever, mas a escrever poesia e, por meio de estratégias literárias, a deslocar os “lugares” possíveis para as mulheres.

Estou aqui, seguindo a definição dada por Lúcia Helena Vianna, chamando de poética feminista
[...] toda discursividade produzida pelo sujeito feminino que, assumidamente ou não, contribua para o desenvolvimento e a manifestação da consciência feminista , consciência esta que é sem dúvida de natureza política [...], já que consigna para  as mulheres a possibilidade de construir um conhecimento sobre si mesmas e sobre os outros, conhecimento de sua subjetividade,  voltada esta para o compromisso estabelecido com a linguagem em relação ao papel afirmativo do gênero  feminino  em suas intervenções no mundo público” (Vianna, 2003).

Vou trazer aqui poemas de quatro poetas. Comparecem: Alice Ruiz, Ledusha, Benédicte Houart e Adélia Prado. Quatro mulheres, quatro poetas que são brasileiras ou escrevem em português, com histórias muito diferentes, mas de quem podemos identificar algumas poesias feministas, isto é, alguns poemas em que perscrutaram literariamente a possibilidade de transbordar os limites de ser mulher.

Começo com dois poemas de Alice Ruiz, ambos de Navalhanaliga, livro de estréia em 1980. Ao final, ainda vou falar de um outro poema dela.

Alma de papoula
Lágrimas para cebolas
Dez dedos de fada
Caralho
De novo cheirando a alho


às vezes vem a certeza
a vida agora já foi vivida
era uma vez uma menina
descobrindo a rotina

De Ledusha, contemporânea de Alice Ruiz, também dois, bem curtos (e precisos e modernos):

De leve
feminista sábado domingo segunda terça quarta quinta e na sexta
lobiswoman.


Deslavada
Meu querido Antonio
Não pude ir
Pneu furou
Não sei trocar.


De Benédicte Houart, poeta nascida na Bélgica e moradora de Portugal, escreve em português.

são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia

e

já penélope não sou
nem ulisses regressa
mudo de nome noite
a noite ao sabor da saliva
dos meus amantes
de dia troco lençóis
coso bainhas
descanso os olhos
dantes tecia para
enganar a corte que
me servia de prisão
agora chamo-me eu
não tenho estado civil e
na cela que me tem cativa
tornei-me finalmente livre

Finalmente, e para ilustrar melhor o ponto de transgressão ou ultrapassamento dos limites de gênero que essas mulheres constroem por meio da linguagem, queria trazer dois últimos poemas, um de Alice Ruiz e outro de Adélia Prado, ambos referidos a um poeta famoso, Carlos Drummond de Andrade. Primeiro, Drumundana, de Alice Ruiz, que dialoga com o poema “E agora, José?”.

e agora maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria

E, finalmente, “Com licença poética”, da Adélia Prado, que dialoga com “Poema de sete faces”, do mesmo Drummond.

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Para concluir, então, esse tema das relações entre gênero e cotidiano, encerro relembrando que se há limites de gênero, há também os esforços em ampliá-los, em fazê-los mais largos e conformes o desejo de liberdade de cada um. Ainda que na maior parte do tempo estejamos sujeitos a uma série de discursos e de práticas que procuram construir as canaletas por onde nossos riozinhos devem correr, há momentos em que a gente se dá conta do absurdo das coisas, e seja por meio de bandeiras, de inversões, de lutas ou das palavras, desperta algo de caudaloso que não corre mais por canaleta alguma; ao contrário, transborda, inunda, umedece e abre espaço para o novo: é quando somos sujeitos no sentido de uma ação sobre nós mesmos e sobre o mundo. Então, que sejamos todos desdobráveis e avessos às maldições e que aos imperativos de “sê homem”, “sê mulher” com os quais nos deparamos desde o nascimento, a gente responda com flexibilidade, liberdade e inventividade.



Referências Bibliográficas
Murgel, Ana Carolina Arruda de Toledo. A poética feminista em Alice Ruiz, Ledusha e Ana Cristina César. In: Rago, Margareth (org.). Revista Aulas, Dossiê Estéticas da Existência, 2010, p.25-39. Disponível aqui.

Vianna, Lúcia Helena. Poética feminista, poética da memória. Labrys, estudos feministas, nº 4, agosto/setembro de 2003. Disponível aqui.
 

02 março, 2013

(contraponto)

alma de papoula
lágrimas
para cebolas
dez dedos de fada
caralho
de novo cheirando a alho
(Alice Ruiz, Navalhanaliga)

19 outubro, 2012

Biscoito

ele é pequenino, só sete quilos. onze meses. está com a gente há menos de quinze dias. era medroso, se encolhia na calçada ao ouvir um carro ou outro cachorro. mas agora é um pouco menos. é valente quando se trata de espantar a assustadora máquina de lavar roupas ou o tenebroso aspirador de pó. dorme de barriga pra cima de modo a dar sentido à palavra "abandono". puxa os panos da casa pra sua cestinha, sem se importar com nada nem ninguém. bebe muita água. faz muito xixi. quando leva bronca, corre pra caminha, deita e esconde os olhinhos com as patinhas brancas. ele é grisalho, mesmo sendo criança. de roupa azul, é o vira-lata mais lindo desse mundo. a gente se escolheu e eu não consigo mais imaginar um dia-a-dia sem ele. suas patinhas pela casa fazem a palavra "companhia" ser feita de som. faz uns dez dias que entendi a clarice ainda melhor: bem poucas coisas valem mais que um cachorro vivo.

27 julho, 2012

encontro

Ontem, por acaso, encontrei um livro de Shaun Tan. Que virou meu presente de aniversário antecipado, tão encantada fiquei com as histórias e as ilustrações.

E então, hoje, descobri esta animação, bem agridoce. Pra gente já ir enchendo a dispensa com provisões para enfrentar agosto.

20 julho, 2012

escribir

"Le conté sobre la novela nueva. Le dije que al comienzo avanzaba a pulso seguro, pero que de a poco había perdido el ritmo o la precisión. Por qué no la escribes de una vez, me aconsejó, como si no me conociera, como si no hubiera estado conmigo a lo largo de tantas noches de escritura. No lo sé, le respondí. Y en verdad no lo sé.
Lo que pasa, Eme, pienso ahora, un poquito borracho, es que espero una voz. Una voz que no es la mía. Una voz antigua, novelesca, firme.
O es que me gusta estar en el libro. Es que prefiro escribir a haber escrito. Prefiro permanecer, habitar ese tiempo, convivir con esos años, perseguir largamente imágenes esquivas e repasarlas con cuidado. Verlas mal, pero verlas. Quedarme ahí, mirando" (Alejandro Zambra. Formas de volver a casa. Barcelona: Anagrama, 2011: p.55).

13 julho, 2012

o gosto do cloro*

Nas minhas lembranças de criança, as infinitas tardes passadas na piscina, do clube ou do prédio. Entre amigos, brincadeiras e conversas, no final do dia todas as luzes cintilando arco-íris - os olhos vermelhos, o corpo tostado e exausto. Era bom.
Quando fazíamos aulas de natação, era diferente. A escola imensa, várias piscinas. O fim de tarde raspando a noite, e a gente ali, a obedecer as instruções: não me lembro de nenhuma-nenhuma-nenhuma. A memória de tudo isso só nos músculos. O que lembro é só do gosto da sopa de caneca, pra esquentar a parada abrupta e o vento tomado no trajeto do portão até o apartamento. Depois de nadar e esquentar e esfriar, esquentar de novo. Bom.
Uma vez, numas férias, a menininha bem pequena descobria a própria respiração. Extasiada, chamava insistente a mãe para ver as bolhas mágicas debaixo d'água. A mãe nem-te-ligo, distraída na conversa. E todo aquele espetáculo submerso se desvelando sob os olhos da filha. Tão bom.
Quando voltei a nadar, foi mais por necessidade que por vontade - as costas fracas sucumbindo ao próprio peso, doendo dores intensas, que nem as agulhas do acupunturista conseguiam dar jeito. A água a me salvar do sangue fervendo poças em torno da agulha. Eu chegava cedo, 6h30 da manhã, e me lançava na água, ainda adormecida. Era bom aquele silêncio de braçadas, vai-e-vem, de luz suavizada pelo verde dos óculos... o corpo aprendendo a deslizar, mobilizando forças para vencer a voragem do afogamento. Muito bom.
Ultimamente, nadar é me enfrentar comigo mesma. Meu corpo que envelhece. Minha memória falha, que confunde as instruções do professor em meio à série de exercícios. Meu joelho dolorido. Minhas dificuldades em reunir as pequenas correções de cada aula em um novo movimento, bonito e confortável. É me sentir aprendendo - de novo ou finalmente - com a fluidez da água. É me sentir pedra, dura e pesada. É me sentir plena de ar: suave, leve. Sim, é bom.

* título da delicadíssima graphic novel de Bastien Vivès (São Paulo: LeYa/Barba Negra, 2012).

08 julho, 2012

bonsai

"Escrever é como cuidar de um bonsai, pensei então, e penso agora: escrever é podar os ramos até tornar visível uma forma que já estava ali, escondida; escrever é cercar com arame a linguagem para que as palavras digam, de uma vez, o que queremos dizer; escrever é ler um texto não escrito, tal como observa Marcelo Pellegrini em um poema que naquele tempo constituía, para mim, uma inquietante música de fundo: Para ler o que quero ler / Teria que escrevê-lo / Mas não sei escrevê-lo / Ninguém sabe escrevê-lo." (Alejandro Zambra, em texto traduzido aqui).

06 julho, 2012

volta e meia

 o mundo gira e eu volto a esse poema.

Teoria do Mundo (Marcos Visnadi)

O mundo acaba a cada
vez: que alguém morre ou se
estraçalha uma bala de
fuzil num corpo
inerme, ou a conta não
é paga e te expulsam ou
te prendem. O mundo acaba
várias vezes.

Se uma árvore cai no
meio da floresta e ninguém
ouve faz barulho? Ela é menos
árvore?

Depois, esquilos saltam
do tronco o mundo renasce:
na matéria decomposta, nos novos
rumos da carne. Em quem encontra
a árvore morta e
chora, diz "Ai
esta árvore".

Ai esta Terra. Que
gira e deixa a gente
tonto. Chacoalha de si
tantos tipos de árvores.

Às vezes,
chacoalha também
algum tipo de monstro.

A gente gira junto.
Não podemos fazer de outro modo.
De girar e girar, de repente é que
a gente se encontra. E o mundo,
que tinha acabado,
reabre suas comportas.

A manhã, meu bem, é uma volta.

05 julho, 2012

no museu

os quadros, tão vívidos, me dão inveja. ou ao menos uma espécie de inveja: entre a admiração e a vontade de chegar ali, perto daquela conquista. na tela se fixa, além da imagem, a força da pincelada, a alquimia das cores, a pressa ou o cuidado, a fúria ou a delicadeza - uma parte do estado de espírito de quem derramou a própria urgência na trama branca.
as palavras, frente a essa experiência de ver, um pouco inodoras, insípidas e incolores. o arranjo da forma posto no mundo sem vestígios daquele que riscou as letras no caderno, a traçados leves e apressados ou em ponta de lápis firmemente apertada - as páginas seguintes a ecoar a escritura.
no tóxico da tinta que inebria se preserva o pintor. na seiva que escorre das entrelinhas, abranda a sede infinita do leitor.
no silêncio colorido do museu, me impaciento com as palavras, premidas entre o bonito e o útil. e fico querendo saber o mundo com os olhos e as mãos.

27 junho, 2012

crítica

Roger Bastide, sobre Antonio Candido:

"Não estou contente com seus últimos livros. A rigor aceito que o sociólogo e o filósofo precisam se esforçar para serem entendidos por todo mundo; que atenuem suas pesquisas e escondam todo o material sobre o qual repousa seu edifício, seus trabalhos pacientes de aproximação, suas fichas documentárias, suas elaborações estatísticas. Mas, noto no senhor uma tendência mais grave - fazer da poesia um método de sociologia" (citado por Luiz Carlos Jackson. A tradição esquecida. Estudo sobre a sociologia da Antonio Candido. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 16, n. 47, outubro, 2001, p.127-140.

* e pensar que da última vez que fui organizar uma fala por pouco não ia brincando que aprendi mesmo a fazer sociologia lendo a Hilda Hilst ;-)

15 junho, 2012

sra. raposa

Não sei se é do mergulho na escrita nesses últimos tempos (e nem é só escrita aqui, mas também acadêmica) ou se é do gato que Rodrigo e eu temos sonhado tanto em adotar, mas ontem acordei pensando na Clarice: "quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo".
E aí chegou o livro que mal ganhei de dia dos namorados e já fui lendo pelo caminho e me entregando como há tempos não fazia. Querendo saber mais sobre o autor encontrei uma citação que dizia assim "Sería preferible cerrar el libro, cerrar los libros, y enfrentar, sin más, no la vida, que es muy grande, sino la frágil armadura del presente" (Alejandro Zambra).
Nem escrever, nem ler: acho que vou passar a comer as palavras com sal, sem pimenta.