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28 abril, 2015

dos amores

"Então, quando estou lendo livros — leio muito bagunçadamente —, me sinto como se estivesse conhecendo pessoas legais, como se estivesse naquele momento que tinha quando era mais menino, de que toda pessoa carrega consigo um pedaço da vida muito grande. Quando você está no colégio, no ginásio, parece que as grandes conquistas da humanidade estão todas ali, em quatro ou cinco amigos. E aí entra um cara novo e o cara abre um negócio… Literatura é um pouco isso, como se você conhecesse um sujeito novo, alguém assim".

"Acho que tem uma potência de reformulação na morte, de reordenação da vida, tem uma potência na catástrofe. Acho que não é morte, é catástrofe. Tenho ligação com aquela situação de depois do furacão. [...] Então, acho que a morte e do que gosto nela é dessa potência de reordenação. É uma grande escultura, não é? Nesse sentido, acho que a morte tem a potência de abrir o real. A violência tem isso. Agora, é claro que a violência é cega e ela faz coisas horrorosas. Não sinto em mim nenhum sadismo. Se sentisse, eu diria, e estou falando como artista, não como cidadão. Não tenho gosto por sadismo, não é o lado de que gosto. A propósito, acho o Marquês de Sade um chato. Não acho aquilo nem sádico, acho muito metódico, francês, cartesiano. Agora, a força de destruição da vida é algo que quero estar perto. Porque acho que ela é a mesma força que refaz a vida. É nesse sentido que a coisa da morte está presente na minha literatura".

(mais uma vez,  encontro o nuno ramos num momento tão oportuno, tão preciso que até recupero meu pensamento mágico).
(e ele me faz lembrar de coisas compartilhadas com a veronika, com o tony, sobre escrever, sobre ler, sobre esse jeito de experimentar a vida e o mundo).
(conto ao marido do novo amor. "me reconheço nele", digo. e ele ri, "você gosta dele porque se vê no espelho?". é isso e não é isso. gosto dele porque vejo ali uma vitalidade que reivindico, que procuro preservar em mim. gosto dele porque, ler o que escreve é como acordar sem sono algum, inteira. porque quando leio alguns de seus textos, o "entender" passa pela pele, pelas maçãs do rosto, pelos olhos úmidos. porque ali tem alguma coisa que me põe viva. e isso nunca é pouco).

02 abril, 2015

o que amar quer dizer

quando, no doutorado, entrei em uma imensa crise de categorias e formas de pensar e fui chegando ao Foucault, pelas notas de rodapé do Castel,  nem imaginava que era um caminho que me levaria cada vez mais perto do Mauricio. vai ver que digo errado: quando, no meio do doutorado, me peguei absolutamente perdida e sem saber como seguir, talvez tenha sido o Mauricio, brilhando intermitente feito farol naquela escuridão, que me ajudou a reencontrar um caminho. um caminho que passava pelo Foucault e me levava para mais perto dele - eu que, teimosa, tinha tentado fugir pro prédio ao lado só pra voltar, rabo entre as pernas, pro coração da sociologia; pra mais perto dele, mas também pra mais longe, tão distantes os temas daqueles que dividíamos, ele, Ana e eu, como preocupações durante a graduação.
desde aquela época, raras são as semanas em que não nos escrevemos - para falar da vida, do presente, do contemporâneo, das crises ou das bonitezas da vida...
então foi um privilégio imenso poder estar presente na defesa dele, na terça-feira. foi uma defesa linda, consonante com o trabalho belíssimo que ele fez atualizando as leituras que Foucault fez do Irã, mas atualizando também a polêmica como bloqueio à filosofia que pretenda ser uma ontologia de nós mesmos. com coragem - se o Sergio Adorno estivesse na banca, não resistiria a invocar o sapere aude que o Foucault tanto sublinhou no Kant - e uma paciência infinita, o Mauricio foi lá e mexeu no vespeiro das reportagens de Foucault sobre a revolução iraniana, tendo voltado dessa aventura com muitas histórias para contar e, certamente, um caderninho (daqueles em que se anotam planos de viagem) cheio.
foi também uma felicidade, pois naquela sala de defesa ficaram claras as razões pelas quais o Mauricio pode encontrar ali as condições para ser ele mesmo (o que, no caso dele, bem foucaultianamente, significa um incessante trabalho de diferenciar-se de si mesmo): na presença atenta dos colegas de grupo de pesquisa, no entusiasmo da orientadora, nas arguições generosas, cuidadosas e bonitas da banca, tudo dizia da partilha de um mundo comum que garante a cada um as condições de experimentar pensar. e é bom saber que quem a gente ama encontrou amparos. faz grassar um quentinho bom, misto de orgulho e gratidão.
esses dias estou lendo o Mathieu Lindon, em grande medida sobre o Foucault. logo no início, ele diz "Eu poderia nunca ter conhecido Michel, nunca ter posto os pés em seu apartamento, e, com todo o amor familiar que me cercava, sinto pena da vida que eu teria tido".
eu poderia nunca ter conhecido o Mauricio, nunca ter partilhado com ele o que nos com-divide. e sinto pena da vida que eu teria tido. pois que não tenho dúvida alguma sobre o tanto que meu amor por ele abriu (e abre) de espaços e tempos no todo dia, o tanto que me ensinou (e ensina), o tanto que sua confiança em mim e sua mão dada à minha me ajudaram (me ajudam) a ultrapassar desertos. o tanto que conviver com ele me enraíza no mundo: raízes aéreas, mas ainda assim.
parabéns, querido. e me desculpe a falta de recato da declaração pública: é que desta vez a vontade de dizer era grande demais.

30 outubro, 2013

que não sou árvore para deitar raiz

para v.

que não sou árvore para deitar raiz. ela me diz. e eu, minhas raízes aéreas, entendo. escuto o desejo de outrar-se em novas terras, novos ares, nova água. de transplantar-se pra saber o que fica o mesmo e o que muda. e o que muda é a parte em nós que se deixa carregar - o acaso, o destino, a vontade. as raízes em suspenso, encolhidas como as pernas no avião, esperando novo porto pra espreguiçar amplo. esse jeito de não pensar, pensando, que ir é diferente de chegar. porque se a gente chega, é sempre em algum espaço dentro de nós mesmos, quando a pele cabe macia, recobre de conforto a fragilidade do que então, a cada vez, somos. era esse o trecho que eu tateava quando cheguei às margens de um rio: "os livros que a gente lê são uma espécie de raiz. outra espécie é das pessoas que a gente conhece e que vão arando a gente, plantam e quando você percebe já floresceu ficou podre caiu virou adubo. meu objetivo de vida é virar adubo, te digo"*. ela não é árvore pra deitar raiz. mas o silêncio fértil, a terra úmida, o novo que inaugurou em mim afirmando o contrário.

* Marcos Visnadi, na Biblioteca do Mundo do Saturnália, há muito tempo (o link não existe mais).

19 agosto, 2013

mundanidade

O Biscoito agora, quando volta de passear, não quer mais saber de correr pro quintalzinho.
Senta em frente o portão, e me olha como quem diz "é aqui que eu vou ficar".
Espio pela janela e lá está ele, sentadinho, quase solene, observando a rua.
As pessoas. Os carros. Os vizinhos. Os outros cachorros que também passeiam.
De vez em quando late, late, late, late.
E fica muito triste se por causa disso mando ele voltar pro quintal. Faz charme, mostra a barriga, se contorce todo, só pra poder brincar mais tempo.
O Biscoito gosta do mundo. Se interessa por ele: cheira, olha, fuça, cava.
O Biscoito gosta do mundo.
E eu gosto do Biscoito.

14 setembro, 2012

enamorada

Estou apaixonada pela literatura do Alejandro Zambra. Apaixonada por sua forma de arranjar as palavras, de contar histórias ao mesmo tempo em que fala sobre o próprio ato de escrever. Por sua literatura que é de primeira linha mesmo quando fala de personagens comuns, metidos em situações ordinárias, premidos por preocupações de tododia. Pela precisão com que fala de experiências que, de certo modo, também me tocam a mim: a mim que escrevo; a mim que vivo; a mim que sou latinoamericana e tenho trinta e tantos anos. Estou apaixonada por sua simplicidade. E por seu refinamento. Pelos ritmos que sua literatura inscreve nos meus pensamentos. Por ele ter me apresentado a palavra "jabalina", fazendo-a cruzar o céu da página e o céu da boca, na pronúncia em se tateiam os significados. Por ele ter me ensinado a espionar as conversas das árvores, quando acham que ninguém está ouvindo. Por me levar pela mão até o ponto do ônibus donde se embarca em direção ao passado, que ainda não passou. Apaixonada. Encantada. Enamorada.
(coisa boa que é ter um bom autor por companhia).

10 junho, 2012

doçuras

a noite fria e chuvosa propõe obstáculo ao reencontro, mas em algum lugar entre a garganta e o coração um calor faz combustível para o primeiro passo fora de casa. encontramos abrigo na pequena cervejaria, mesa para dois, nem tão claro que fira a vista, nem tão escuro que os contornos do outro se borrem. a cerveja faz às vezes de champagne até no estouro educado, e o garçom derrama nos copos a promessa de memórias de frutas, ameixas e uvas. a leveza da bebida e a leveza da conversa, ainda que temas duros permeiem as risadas. envelhecer. futuro. casamento. corpo. o doce que os goles estalam na garganta amansando medos e dores. o olho no olho também: certeza de companhia e compreensão. lá fora a cidade fria e deserta - cá dentro, o queijo e mel em torno do qual arrulhamos fazendo as vezes de lareira.

23 abril, 2012

História da Sexualidade, v. 2

Na primeira página, anotado à caneta numa letra que é ao mesmo tempo minha e daquela que eu era, leio Fabiana Jardim, agosto de 2000, presente do Maurice. No gesto corriqueiro de tirar da estante o instrumento de trabalho, abrir o livro é (re)abrir um presente.

10 abril, 2012

palomar

1. Na cômoda, no topo da pilha de livros, a capa amarela é objeto e lembrança. Dentro do livro, paulics à caneta. O livro mesmo uma partilha. Abro e fecho o livro; leio e releio a estrutura até não mais notá-la: um, dois e três, da descrição à meditação. Do ver o mundo a estar no mundo e de estar no mundo a pensá-lo. Vejo o mundo e antes de finalmente dormir ele é: a capa amarela, o miolo das letras, a companhia de palomar.

2. Nas férias de janeiro, os dias na praia se alternavam (1) no calor do sol,  tanta luz, tanto quente capaz de esvaziar pensamentos; (2) no assombro do menino crescido e destemido e companheiro; (3) em olhar e olhar e olhar a paisagem, silenciando o turbilhão com o ir e vir das ondas.
Sou pessoa de montanha - os contornos claros, sublinhados à contraluz, bordeando até onde a vista alcança. Mas por vezes é bom o mar e seus horizontes, ilusão de infinito, sem margem. O olho cresce, o azul e o cinza se inscrevem no corpo ao mesmo tempo que o sal. Ao menos brevemente, perco as bordas de mim.
Na volta das férias, na ida dos amigos, um livro emprestado no coreto da praça, como quem apresentasse um amigo antigo: "esse é palomar, aquele de quem te falei". O prazer, muito, subentendido.
Além da correria, o medo da saudade adia a leitura até que fica impossível adiar.
Então, ultimamente, conversas rápidas com palomar, um bocadinho por dia, sempre antes de dormir.  Por enquanto, ainda à beira da praia. Passeios homeopáticos, para esticar as páginas por trezentos e sessenta e cinco dias, uma tessitura fina a compor mosaico com as notícias-diário, os encontros breves no skype, os piqueniques de perto e de longe, se estendendo feito colcha atlântica.

3. Que um livro é vivo, faz companhia e chega mesmo a dar a mão. Apresentar a alguém um livro é um risco: livro e amigo podem não se gostar e a gente fica nu, como se tivessem desgostado da gente na lombada do outro. Podem também não se entender, e aí a gente cria desconfiança no amigo, que não vê beleza no que a gente vê; que não vê sentido onde a gente vê; que não admira o arranjo de palavras costurado em páginas-buquê. Apresentar amigo e livro predileto, então, é risco demais, quase entregar pulsante um teco do próprio coração. De palomar me aproximo devagar, admiração, reconhecimento. Um pouco também de esperança que ele traga um pedacinho da veronika que conheci, agora estrangeira. já outra. Um pouco também de esperança que ele traga um pedacinho de mim quando recebi o livro e adiei a leitura e perdi a chance de ler o livro que ele seria então - eu mesma também estrangeira e já outra. A saudade, essa ausência presente que às vezes amansa quando palomar me estende a mão. E eu sempre estendo de volta, o passeio com ele aplainando a saudade, os vários dias dentro de um dia, a preocupação... os sonhos deslizando suaves no caminho récem-pavimentado.

07 dezembro, 2011

nove

o dia quase acabava quando me lembrei: a data gravada do lado de dentro da aliança confirmando que é hoje, que foi há nove anos que a gente inventou uns ritos para dizer ao mundo que a partir de então apostávamos no para sempre. a gente não é muito de lembrar e comemorar datas - ainda bem que você é como eu, e não se chateia com a minha memória falha ou com a minha dificuldade de emergir do fluxo dos dias - mas vale a lembrança e o esforço de cavar um respiro no cotidiano e celebrar. mais um ano. trezentos e sessenta e cinco dias e tanta coisa que não cabe nessa conta - nossos encontros, nossos desencontros; nossas perdas, nossos ganhos; nossa saúde, nossa doença e todo um conjunto de cintilâncias, minúsculas partículas de tempo que se acumulam nos nossos corpos, nos nossos móveis, e se entranham por tudo isso que é nossa vida em comum. é pouco. é tanto. é na corda bamba. é, ainda hoje, para sempre.


Por Toda Vida from Cinema de Rua on Vimeo.

01 junho, 2011

dia 13

na categoria "poema cantado", poema de Hilda Hilst musicado por Zeca Baleiro e cantado pela Angela Roro. O cd inteiro é lindo (Ode descontínua para flauta e oboé. De Ariana para Dionísio), mas a pungência da Angela Roro me fez decidir pela Canção V.

Os dez cantos fazem parte do livro Júbilo, Memória e Noviciado da Paixão. É um dos meus livros prediletos nessa vida - inclusive, o nome do blog tem a ver com um poema que está na primeira parte do livro (Dez chamamentos ao Amigo).

Eu já tinha falado do cd aqui, logo que o ganhei. Continuo achando que os poemas, enquanto falam de amor e ausência, falam também dessa potência da palavra: capaz de tornar o mundo habitável, preenchendo de sentido o vazio ao jorrar umas intensidades inventadas por sobre as pedras nuas e os caminhos de terra batida.

22 dezembro, 2010

un vestido y un amor

No sábado, fomos ao casamento da Tatiana e do Alex, compartilhar com eles a alegria e a festa do amor quando começa e recomeça. A Tati provavelmente é uma das noivas mais lindas que já vi, com suas unhas e sapatos vermelhos, ao mesmo tempo tão despida de véus, coroas, penteados demorados... e, por isso mesmo, tão absolutamente deslumbrante.

Não conheço muito o Alex, embora eles estejam juntos já há bastante tempo. Por alguma razão, ou por várias, a mesma vida que um dia tornou possível que a Tati e eu nos encontrássemos e construíssemos uma amizade forte e intensa, foi tornando difícil a gente participar do cotidiano uma da outra. Nem por isso o carinho que sinto por ela é qualquer vírgula  menor - volta e meia esbarro com pedacinhos daquele nosso convívio miúdo, as músicas, as cartas, cartinhas e cartões, as fitas cassete  que gravávamos, na casa da Ju, embaladas por insônia e álcool... Tanta gostosura, tanta partilha. Tantos fios entrelaçados - se não fosse por ela, Edu e eu nem teríamos nos conhecido, nem teríamos conversado por horas, nem teríamos construído esses nove anos de vida em comum.

Fiquei imensamente feliz e grata por poder participar desse momento. E de reencontrar tanta gente querida, de quem igualmente gosto, ainda que não nos vejamos com frequência. Ter na minha vida essas pessoas  tão queridas, saber que estão bem, felizes, construindo suas vidas me faz um bem danado - dá sentido à nossa história comum, mas também me ampara e me dá consistência. É feito poder voltar para casa quando a gente se sente um pouco perdido e sozinho.

Como escrevi em algum cartãozinho para a Tati, há tanto tempo que perdi a data, "hay cosas que te ayudan a vivir". Pessoas queridas como a Tati e o Alex certamente estão entre elas.

28 novembro, 2010

açúcar


Ontem nós fomos dar um beijo na Paula e no Sérgio, pessoas muito queridas, que estão no preparo e na espera do Francisco.

A Paulinha é uma amiga queridíssima. A gente tem coisas muito parecidas - uma meninice, uma certa suavidade que disfarça nossa leonininidade - mas também coisas diferentes: a Paulinha é quinhentas vezes mais paciente e cuidadosa do que eu, mil vezes mais capaz de costurar consensos, com sua delicadeza que faz cerzidos ali mesmo onde o tecido se esgarçara a ponto de parecer rasgado... Quando a gente trabalhava junto, eu não me cansava de admirar essa habilidade de ser flexível e firme, tudo ao mesmo tempo, pavimentando caminhos sem nunca precisar de trator.

Ela esteve tão presente durante toda a minha gravidez, fosse nas reuniões aqui em casa - ela, Toninho e eu, em longas conversas que ajudavam a dar nome numa experiência que, de certa forma, fora comum a nós três -, fosse nos telefonemas de compreensão e apoio quando o fato de gerar uma vida punha a nu as fragilidades dessa coisa que é viver. Sempre querida, sempre companheira.

Quando nos falamos sobre o chá de fraldas, fiquei super feliz de poder oferecer a eles o bolo e os docinhos, aliviando um bocadinho as preocupações que ela teria em organizar o encontro. Foi uma decisão em grande medida prática. Mas ontem, vendo os dois tão felizes, e vendo a Paulinha tão linda, tão amorosa com o Francisco, tão querida por tanta gente, percebi que esse era o presente mais coerente com o que ela significa para mim, com sua amizade cheia de doçuras: puro mel, inesgotável, que a chegada do Francisco, tenho certeza, só vai fazer multiplicar.

Imagem: daqui.

19 outubro, 2010

Crepitações


Depois de ter escrito o último post - toda influenciada por um momento Harry Potter - me lembrei que o melhor modo de conseguir fazer um Patronus é procurar dentro de si a lembrança mais querida: um momento de encontro, um lugar de proteção... Encontrar dentro da gente um espaço de vida e intensidade, que alimente a esperança.

E então o final de semana não poderia ter sido melhor para isso. Nem precisei ativar a memória ou a imaginação - foram tantos encontros que o que era brasinha de esperança na sexta-feira virou fogueira incandescente no domingo à noite.

Começou no sábado de manhã, na panfletagem em Pinheiros - super significativo que o encontro tenha sido marcado em uma esquina: espaço público da rua, da visibilidade e da comunicação. As pessoas vinham chegando, se aglomerando e logo já tinha bandeira, panfletos, adesivos e, vira e mexe, uma buzina companheira se identificando com a gente. Inspira fundo... e faz a brasa arder mais forte.

Depois do almoço, fomos visitar a minha mãe. E fazia muito tempo em que a gente não sentava, assim,  sem pressa em torno da mesa, e conversava tanto. As crianças feliz e brincantes, a mesa tão cheia que o Padilha ficou acompanhando a bagunça da sala [tem trilha mais boa que felicidade distraída?], e uma falação e risadeira de darem gosto!

Ainda no sábado, teve mais encontro - e dessa vez, dos grandes: foi a festa de comemoração dos 70 anos do Fausto (de quem eu já falei aqui). E ao vê-lo, tão lindo e querido, comecei a achar que o Fausto vai mesmo é ser eterno - é tanta gente que o ama, é tanto amigo, tanta amiga que é como se vida tivesse dado em volta dele um laço bem apertado. A alegria radiante dele em meio a tanta gente que passou e que ficou em sua vida, juro pra vocês, deve me iluminar por uns bons anos. 

Cada reencontro com o Fausto faz a vida transbordar um bocadinho: perder as margens, irromper furiosa por entre as frestas e brechas, rasgar rachaduras no todo-dia da distância em que vivemos.

Como se não fosse suficiente, ainda teve rever amigos e professores queridos: a Roberta e o Rômulo,  a Clarissa, e até a Carla, que não via desde nossos...6, 7 anos?! E a Poliana, que foi minha professora de Filosofia e Sociologia no Magistério, a quem eu admiro imensamente (e continuo admirando) e que teve tanta importância nas minhas escolhas profissionais. Que delícia revê-la! Que coisa boa rever a Marli, que foi minha professora de Didática e também de Ensino de Artes! Rever a Inês, professora de Matemática e de Metodologia de Ensino da Matemática - acho que ela mal se lembra de mim, mas eu guardo comigo até hoje a sensação dupla de fascínio e frustração quando, nas aulas de Metodologia, ela fez a matemática parecer tão próxima e concreta. Fascínio pelo mundo que se abria; frustração porque podia ter sido tão mais fácil e interessante. O passado há quinze anos invadindo sem pedir licença o agora, que a gente é mesmo assim: bricolagem estranha e vívida; o colorido dos vínculos recordados rolando doidos no caleidoscópio do que somos hoje.

No domingo, ainda sobrou folêgo pra mais encontro e delicadezas - era dia de piquenique, afinal. Corre daqui, corre de lá, improvisa petiscos e lá fomos todos os cinco rumo à praça, carregando guacamoles, sanduíches de ricota com azeitonas e de queijo e lombinho e uma salada de cenoura, ricota e passas. Contrariando as previsões, o dia estava azul e amplo. E, como disse a Neide, só vimos chuva de pitangas e uvaias. A separação das frutas me lembrou as tardes no quinta da minha tia Roseli - a goiabeira enlouquecida de frutas e a gente sentada, à sombra, frente baldes e baldes de goiabas que lentamente iam virando geléias, polpa congelada, doce-orelha... Em certas horas das tardes de verão, em que o ar fica parado e o tempo suspenso, ainda dá pra sentir o cheiro das goiabas maduras - ainda que nem na mesma casa minha tia more e que a goiabeira um dia tenha ficado cansada.

O domingo já estava terminando quando chegamos em casa. A casa de perna pro ar, o cansaço se fazendo sentir... e uma brisa leve de folhas soprando por dentro da gente, atiçando as esperanças já  quase esquecidas do morno da brasa.

Imagem: www.gettyimages.com

13 outubro, 2010

Cinco anos


E hoje é aniversário do Rodrigo: cinco anos. Tão pequeno, tão enorme, esse serzinho que é nosso companheiro.

Este ano ele dispensou a festa; preferiu ir para a praia, ter um tempo de atenção só pra ele sem competir com trabalho, tarefas da casa ou mesmo o nosso cansaço. Foi o que ele me explicou na sexta-feira antes da viagem: "viajar é bom, mãe, porque você e o papai não trabalham, descansam um pouquinho...". Mesmo com o frio e a chuva que nos trouxeram de volta antes do combinado, foi mesmo uma delícia passear com ele de mãos dadas pela areia, dar muitos abraços no mar gelado, catar conchinhas desconfiando de que ali dentro ainda tinha bicho, deixar pegadas na areia, fugir da chuva, vê-lo experimentar o pé de pato na piscina...

Eu me surpreendo sempre, não posso negar. Com essa criança querida e tagarela; esse menino que já foi Gohan dentro da minha barriga, já foi bebê sempre no colo e agora é toda uma comprideza de pernas e braços, que se esticam elásticos para ampliar o mundo.

Na semana passada ele cortou o cabelo, e é sempre muito engraçado porque demoro a me reacostumar - fico estranhando, tomo sustos... reaprendo a vê-lo: a sobrancelha tão igualzinha à do pai, que estava escondida sob a franja, os olhões de mangá, de cílios tão compridos que chegam a fazer cócegas na vida toda vez que ele pisca. Todo misturado, mas tão ele mesmo, esse menino.

É tão pequenino, em tudo aquilo que ainda não conhece. E tão imenso, de tantas possibilidades. Super companheiro para passeios a pé, jogos de tabuleiro ou cartas, aventuras culinárias, viagens, danças, festas à fantasia, caretas estranhas, preguiças matinais, pinturas a dedo, brincadeiras de massinha e filmes de aventura. Cheio de doçuras e brabezas - ambas igualmente intensas.

É coisa querida da vida, esse menininho de cinco anos. Bem menos meu do que já foi: vai saindo do colo, para caminhar ao lado. Parabéns, Rô! E mil beijocas na ponta do seu nariz-meleca.

08 outubro, 2010

Manteiga

Este semestre, as quintas-feiras têm sido de muita correria, já que dou aula à tarde e à noite. Mais do que isso, tem sido também de muita saudade do Rodrigo, pois o levo na oficina de brincadeira de manhã e é o Edu quem pega, leva para almoçar, leva na escola... E quando chego em casa, às 11h, o menino já está bem longe, nos braços de Morpheus.

No começo, quando comecei a dar aulas à noite, ele ainda conseguia adotar umas estratégias de acordar quando eu chegasse - dormia às 7h, sem jantar e por volta das 11h levantava, para um lanchinho e um carinho. Mas depois foi se acostumando e aí a gente só se via mesmo no outro dia de manhã.

Ontem, mal tinha chegado em casa, de repente vejo um menino muito saltitante e sorridente passeando pela casa. Todo feliz! Tão querido! Me deu um beijo, conversou um pouco e depois voltou a dormir.

Hoje de manhã, conversando com ele, comentei: "filho! você ontem acordou de noite". E ele, muito docemente, me dando um beijo na testa, "foi pra ver você, mamãe".

O coração cresce-cresce dentro do peito, chega a perder a borda de tanta ternura. Feito calda quente que se esparramasse macia, cavando novos caminhos por onde inventa escorrer. Meu coração de mãe, às vésperas dos cinco anos do Rodrigo, agora é assim: inteiro estriado de sustos e surpresas, sulcado das enchentes súbitas de tantas doçuras inesperadas.

15 setembro, 2010

abandono

para v.

Assim que o filho finalmente se rendeu ao sono provocado pela monotonia da paisagem correndo indistinta pela janela, retirou da bolsa o pequeno tesouro de capa cor-de-rosa. Era muita estrada pela frente e, enquanto o ônibus vencia o asfalto, ela percorria as páginas daquela casa erigida com palavras. Com algum pudor inicial - ao invés de proteger, a casa desnudava -, embarcou na aventura prometida, balouçando (é bonita essa palavra, que sacoleja e ecoa o tilintar de louças brancas ou azuladas?) com as personagens no ritmo do trem. No começo estranhando as sentenças um pouco soltas como os pensamentos que a gente tem quando se ocupa das miudezas do viver, mas rapidamente adentrando aquela imensidão dos grãozinhos de histórias que lhe lambiam os pés e depois chegavam ao joelho e então ao umbigo e aos seios até que estava inteira mergulhada no cotidiano do ir e vir daquele trem, no ir e vir daqueles dias, no ir e vir da vida. O dia a dia cansativo e duro transformado em atenção; a atenção espelhada em encontro; as transparências do vidro em suas diversas formas cintilando, rebrilhando o invisível para permitir e fazer ver. Uma narrativa toda viva, pulsando os sustos do encontro. Até que vida milagrosamente parece recomeçar - e começa. Meio bicho, inteira humana. Ao fechar o livro - ainda longe do destino - surpreende, sem espelho, o sorriso largo em meio à cara. Um arrepio de dor assombra o músculo e sugere que estava sorrindo já há algum tempo. Já é noite fora do ônibus, o filho pequeno se aninha em seu braço. A sensação, no entanto, é de explosão de luz: madrugada alaranjada soprando brisa e fazendo festa dentro dela.

Imagem: daqui.

23 agosto, 2010

anotado a lápis


Fim-de-semana de visita à mãe, onde topei com memórias empoeiradas - feitas de papel, de caneta, de gesso e de metal. Misturadas todas na gaveta do armário.

Tinha a embalagem do livro que o Petronio me trouxe de além-mar, registro de carinho e conspiração por e-mails com a Ana Lucia; tinha lembranças de casamentos, nascimentos e variados quinze anos; ttinha a carteira de vacinação e o último boletim do colégio, com mensagem querida da professora predileta; tinha o bilhete delicado que o Ricardo me mandou quando passei no vestibular, lembrança incandescente do vazio de maré cheia que ele deixou.

E daí encontrei trechinhos de leituras que ia fazendo. Como esta, com data de maio de 2001:

 "Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruím ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero todos os pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado" (João Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas).
 
Encontrei também alguns bilhetes e cartas da Ana, que por alguma razão escaparam à reunião na caixa comum. Como um pequenino papel onde pousa uma borboleta amarela:
 
"E isso implica um trabalho sobre os limites e no limite da arte, à beira do abismo - onde o disforme resiste à forma, impele ao fracasso e deixa adivinhar o impronunciável" (Plínio W. Prado Jr, na apresentação à Descoberta do Mundo, da Clarice Lispector).

Foi tão bom jogar uma porção de coisas fora! Como se, ao perder certas chaves de mim, ficasse leve para me reinventar.

Imagem: Nacho Gómez.

09 junho, 2010

Das promessas


Casamento (Adélia Prado)

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

16 março, 2010

Perto


Acho que foi antes do Rodrigo nascer, ou então quando ele era bem pequeno, estávamos Edu e eu numa praça quando ouvimos uma criança, de uns três anos, que chamava sem parar a mãe e o pai:
- mãe, pai: vem aqui no meu perto...
Só criança mesmo, pra dizer essas coisas tão simples e cheias de poesia com tanta precisão.
E desde aquele dia, aprendemos um novo lugar: o perto de alguém. E claro que ensinamos o Rodrigo, que desde sempre é chegado ao "pertinho" das pessoas.
E tem coisa melhor que ficar assim, esparramado, sem pressa ou intenção, no pertinho de alguém?

18 dezembro, 2009

Que seja doce

Ô coisa límpida de se desejar: que seja doce.

(E eu não consigo pensar nessa frase sem me lembrar do Mauricio, que é das companhias mais doces que tenho nessa minha vida...).