29 março, 2010

28 março, 2010

Dia bom, dia ruim

 
Vai daí que hoje tirei o dia pra descansar e ficar com o Rô (parece óbvio que seja isso que se faz num domingo, mas não neste domingo - e explico o porquê no final da semana que começa...). Acordamos cedo, tomamos café, começamos a brincar e a jogar vários jogos, depois fomos passear a pé, tomar sorvete, comprar coisas de jardinagem, e voltamos a brincar... Tudo ia bem. Rodrigo feliz e saltitante e eu também (feliz, não saltitante ;-).

Até que resolvemos comer guioza, porque o almoço ia demorar muito a sair. Edu preparou, e nós sentamos pra comer. Rodrigo contente, conversante, cheio de apetite. Quando ele estava no terceiro guioza, sei lá como, de repente vejo ele fazer cataploft na minha frente! O menino se desequilibrou da cadeira e se espatifou no chão. Fui socorrê-lo, vi que alguma coisa estava sangrando e - com a habilidade ninja das mães que vêem a cria se machucar - mais que depressa peguei o menino pra descobrir onde era o machucado, preocupada porque ele só mostrava dor no quadril.

Finalmente, acabei descobrindo que o sangue todo vinha do queixo: um corte, de uns dois dedos de comprimento. Chamei o Edu e ele conseguiu acalmar a gente (porque eu , confesso, já estava super preocupada achando que ia ter que levar pro hospital pra dar ponto e, mais preocupada ainda, porque achava que o Rô não ia deixar).

O menino ficou meio em estado de choque por umas duas horas, só respondendo sim ou não pra gente. Limpamos o corte e eu fiz pontos de esparadrapo (mais uma habilidade que ser ex-escoteira me deu!). Como o queixo é um lugar difícil de deixar quieto, ainda ficaram saindo umas gotinhas intermitentes de sangue, mas da terceira vez que troquei o curativo, agora à noite, já estava muito melhor e, com o Rô mais calmo, consegui fazer pontos mais firmes, de modo que não sangrou mais. Ele já está voltando ao normal dele, bagunceiro e cheio de experimentos, fazendo cinema de sombras na parede do meu quarto.

Mas me deu muita pena ouvir o serzinho pequenininho comentando, no finalzinho da tarde "É, mãe, hoje não foi um bom dia"... Dá um sentimento de injustiça mesmo, ser apanhado assim no meio da alegria e da brincadeira. É como se as coisas nos traíssem. Por mais que o machucado tenha doído, senti que não foi essa a razão dele ter ficado tão assustado e magoado: seu susto e sua mágoa me parecem ter sido fruto, sobretudo, dessa dificuldade de compreender como um dia normal, gostoso, de repente possa ter mudado de caráter.

A gente em geral fica leve quando os dias ruins de repente se iluminam. Mas um dia bom faz a gente se sentir protegido, como se nada pudesse dar errado. Por isso, quando algo dá errado no meio de um dia bom, é um susto imenso. Abre ferida na nossa esperança. E haja esparadrapo pra fazê-la sarar.

Imagem: daqui.

24 março, 2010

Besteirinha


Então. Lost. É um saco. Mas eu bem queria o Esaú (rival do Jacob só pode chamar assim...) pra mim :-) - e antes que alguém sugira: não, não serve de promotor malvado; tem que ter toda aquela fumaça preta dentro de si!

Imagem: daqui.

20 março, 2010

Pequenos Milagres


A despeito de todas as minhas aflições, Rodrigo parece estar aprendendo a ler. Aos quatro anos e meio! Já tive a fase de me desesperar e tentar frear o processo, mas obviamente que não deu certo.

A escola em que ele está, em princípio, não ensina as crianças da idade dele a ler. O que não significa que a escola não tenha sua parcela de responsabilidade nessa precocidade, por meio de materiais e práticas que estimularam ainda mais a curiosidade de crianças que, via de regra, vivem em ambientes que já as estimulam à leitura e à escrita.

No ano passado já percebíamos que ele e o grupo dele estavam curtindo muito a coisa toda de reconhecer o próprio nome, tentar reconhecer o dos amigos, contar o número de letras... Mas este ano, a coisa vem vindo em saltos muito mais velozes: o nome dele ele já escreve - e também o da irmã (Bia) e o de uma amiguinha (Ana). Reconhece quase todas as letras, escreve várias delas (é claro que ainda com alguns espelhamentos, em especial nos S ou N). Eu, sem jamais perder a esperança, achando que era apenas uma aquisição motora, de desenhar as letras.

Mas esta semana percebi que não. Começou que na quarta-feira, estávamos no banheiro e comentei com ele sobre o baby wipes. Na hora, ele me perguntou: "começa com b, não é mamãe?". Respondi que sim, e perguntei com ele sabia; ele disse que tinha visto na embalagem, mas olhei e não tinha B nenhum lá... No mesmo dia, falávamos de alguma coisa e eu mencionei uma "casa" qualquer, ao que ele me perguntou se "casa" começava com K. Ou seja: o ser já fez a correspondência entre letra e som.

E piora (rs...)! A Bia o ensinou a brincar com o teclado, num documento em branco do word. Ela o ensinou a fazer bonequinhos, encher a página de símbolos ou letras, brincar, enfim. Mas logo o mocinho se deu conta de que as letras do teclado escreviam coisas e passou a escrever o próprio nome (e é muito engraçado, porque se não estiver em CAPS LOCK, ele não reconhece o que escreveu em minúsculas). Aí, quinta de manhã, ele estava nessa brincadeira quando resolveu escrever o nome do Uriá - também amiguinho da escola. E, na fala, o Rodrigo ainda troca "r" e "l". Eu achava que ele escrevia o nome dos amigos de memória visual, mas nesse dia percebi que não: ele escreveu o U, e foi escandindo o nome em voz alta. Escreveu ULA, e ainda reclamou que faltava o acento!

Finalmente, hoje, às 6h30 da manhã (o cara dormiu às 19h e acordou às 5h30...), Rodrigo assistia Pocoyo. Aí começou a falar que o nome do Pocoyo tinha mudado, que agora era Pê-coyo (!). E comentou, também escandindo as sílabas: tem três letras.

É claro que desse nível em que ele está até ler de fato vai um longo caminho, mas eu fico besta de perceber como é rápido. Tem sua dimensão de milagre, também, essas aquisições que modificam profundamente a forma de estar no mundo. E é por isso que me dá uma certa aflição, porque gostaria que ele curtisse mais essa fase de criança pequenina, mergulhada no brincar, e no experimentar fisicamente as coisas. Ele adora desenhar, pintar, colar, construir, correr, e tenho medo de que a leitura - mesmo sendo um ganho cognitivo - implique no abandono dessas outras dimensões. Mas por outro lado, também talvez seja apenas uma questão de cuidado, de busca de equilíbrio, de continuar garantindo a ele momentos de bagunças variadas. E a verdade é que ninguém o forçou a nada, essa aquisição não está atropelando o ritmo dele mesmo, que é o que mais tentamos preservar.

E pensando nisso, no meu entressono das 6h30 da manhã, me lembrei das minhas Revistas Alegria, que vinham com histórias de muitos escritores bacanérrimos, e também atividades gostosas (o primeiro "prato" que fiz na vida veio dessa revista - tomate recheado com salada de arroz!). Eu curtia muito essa revista, acho que até pouco tempo tinha uns exemplares na minha mãe... Mas me lembrei dela porque, em algum número, tinha a história de um menino que aprendia a ler e, no momento em que ele se dava conta disso, ele exclamava, emocionado "mãe, aprendi a ver!".

Acho que o desafio, diante dessa possível aquisição do Rô, será a de contrariar essa história da revista Alegria - será provocá-lo a continuar vendo da maneira como já vê, ver para além da leitura e da escrita, ver tocando, ver ouvindo, ver sentindo... O desafio será o de ensinar a ele que ler/escrever é só mais uma forma de estar no mundo, mas não a única e nem a principal.

Imagem: http://victaoml.wordpress.com/2009/09/05/gramatica/

19 março, 2010

Houve um tempo

Houve um tempo em que a vida corria com trilha sonora - para cada amigo, para cada amor, para cada encontro, uma música diferente, ritmos diferentes, intensidades diferentes. Houve um tempo em que a cidade era poesia, e que andar no centro nos dias azuis latejava por dentro até não mais poder. Houve um tempo em que a televisão mal era ligada, tanto havia por viver. Houve um tempo em que as tardes se esticavam entre giz-de-cera, lápis de cor, colas, tesouras e papéis coloridos, reencontro de infância. Houve um tempo em que a Hilda Hilst guardava os sonhos, à cabeceira. Um tempo em que o cheiro da roupa lavada era sinônimo de manhã ensolarada. Houve um tempo em que o amor era complicado e, depois, um tempo em que o amor era mais complicado, mas ainda assim bom. Houve um tempo em que os sonhos projetavam um futuro largo. Um tempo em que tudo duraria para sempre. Houve um tempo em que a vida transbordava das margens. Um tempo de florescer. Houve um tempo de escuridão, que também duraria para sempre. Houve um tempo de solidão e abandono. E houve tempo de recomeço. "Houve um tempo em que tive um rio por dentro". Ouve atento: caudaloso, esse rio que me fecunda em seus ritmos de cheias e secas.

Boniteza

Rapidinho, só para deixar a dica de um site maravilhoso: Parto com Prazer.

Vale a visita!

16 março, 2010

Perto


Acho que foi antes do Rodrigo nascer, ou então quando ele era bem pequeno, estávamos Edu e eu numa praça quando ouvimos uma criança, de uns três anos, que chamava sem parar a mãe e o pai:
- mãe, pai: vem aqui no meu perto...
Só criança mesmo, pra dizer essas coisas tão simples e cheias de poesia com tanta precisão.
E desde aquele dia, aprendemos um novo lugar: o perto de alguém. E claro que ensinamos o Rodrigo, que desde sempre é chegado ao "pertinho" das pessoas.
E tem coisa melhor que ficar assim, esparramado, sem pressa ou intenção, no pertinho de alguém?

09 março, 2010

Gostosuras e alguns Espantos

Vontade de escrever não falta, mas o tempo anda escasso, pelo menos pelas próximas três semanas... É uma pena, mas pelo menos dá para preservar espaço para encontros, como o brunch que fizemos há dois finais de semana - cheio de comilanças, chazinhos e muito papo gostoso - ou o piquenique que começou há pouco tempo e já vai se firmando como des-compromisso delícia, que estende as bordas do tempo e torna os domingos ensolarados tão esticados quanto as toalhas reunidas no coreto e mesmo um café rapidinho, com alguém que até hoje eu só conhecia de trocar e-mails e que, além de ser um ótimo interlocutor, parece também ser cheio de doçuras.

E como a Neide dessa vez estava em terras cariocas, deixou pra Veronika a tarefa de fazer as fotos e a Veronika, por sua vez,  me incumbiu a tarefa de registrar aqui, com algumas fotos e pelo menos uma receita :-) Então, mesmo que já seja terça-feira, aqui vai o meu registro do nosso piquenique.

Enquanto esperava Edu e Rodrigo voltarem da visita à minha mãe (que gentilmente os acolheu para que eu pudesse estudar no sábado), acordei cedo e fui na quitanda comprar umas coisinhas que faltavam - em princípio, eu ia fazer duas receitas, ambas do livro Culinária vegetariana com sabor da Índia: pãezinhos de laranja com coco e muffins de maçã.

Pães de laranja com coco (receita no final do post)

Por fim, acabei levando apenas os pãezinhos de laranja, porque os muffins não renderam como eu achava, e eu não tinha conseguido ir comprar as forminhas - de modo que acabei fazendo em potinhos de cerâmica e... enfim, não rolou (mas eles ficaram bons!). Também levei uma geleia de jaboticaba, não muito doce, que veio de Caxambu, e suco de carambola.

Chegamos lá por volta do meio-dia e já tinha bastante gente animada, comendo e conversando, enquanto as crianças estavam todas se divertindo no parquinho (deviam estar felícissimas com o sol, depois de tanto frio e chuva!). Antes mesmo de chegarmos ao coreto, Rodrigo parou umas três vezes, para experimentar brinquedos, encontrar preciosidades em meio à grama ou observar as placas das árvores.

Eu e a Fátima, na certa refletindo sobre o próximo quitute a atacar!

Teve bastante gente que foi pela primeira vez e, como bem explicou a Veronika para o J., esse é mesmo o espírito: que as pessoas possam se incorporar à bagunça e à festa, que afinal o espaço é público e quem quiser chegar, que chegue...

Dessa vez, tinha mais gente na praça, eu achei. Mais crianças brincando, mais gente andando, mais gente passeando o cachorro. E a Fernanda, que foi professora de várias das crianças que estavam lá, apareceu com o marido e o seu Otto, cachorro lindo, gostoso e saltitante, fazendo a alegria da meninada.

Outro momento de muita emoção foi quando tentamos fazer uma fogueira...


Eu tinha comentado com o Rô, que tem um espírito lenhador e adora catar gravetos, que ia ensiná-lo a construir uma fogueira. Vejam bem: construir, não acender... E ele catou um montão de gravetos, maiores e menores, então, a uma certa altura, como ele estava meio cansado, decidi que ia montar uma com ele. Mais rápido que fogo, a notícia se espalhou e, de repente, tinha uma porção de criança em volta de mim, todo mundo muito animado pra fazer a tal da fogueira.

Até tentamos disfarçar, dizendo que depois de montar a fogueira eles iam ter que fazer fogo esfregando pauzinho ou pedra, mas aí o Rô e o C. decidiram que iam "entrevistar" as pessoas para ver quem tinha isqueiro e voilá! Espertos que são, pediram sem explicar pra que e eis que surgiu um isqueiro e então tivemos que acender a tal da fogueira. Ainda bem que os gravetos estavam úmidos e que a fogueira acabou ficando muito mequetrefe porque 1) não deu para fixar um eixo onde apoiar os gravetos (que funcionariam como uma espécie de pavio; 2) não tinha papel de pão, só guardanapos e 3) as crianças resolveram pôr bastante pedrinhas no meio da fogueira ;-) - E só estou explicando muito bem explicadinho pra ninguém duvidar das minhas habilidades de ex-escoteira!

Fato é que, mesmo sem acender, a fogueira foi divertida e eles ainda ficaram um tempo depois matutando como raios poderiam fazer para melhorar a arquitetura dela, pra ela acender direito! Espero que ninguém tenha feito xixi na cama depois de brincar com fogo...

Pão de minuto feito pela Monica, que também trouxe um antúrio lindo, em uma garrafa charmosíssima

Ah! Apesar de não ter foto, não posso deixar de falar do molho de sardinha que a Veronika levou que estava ma-ra-vi-lho-so (já estava de saída mas, depois que comi um pedaço de pão com o molho, tive que enrolar mais um bocadinho e comer mais um!), do pão com pistache que a Lucia levou, do bolo de cenoura que mais parecia um pudim, super gostoso, da garrafa linda e charmosa com iogurte feito pela Veronika... E com certeza estou esquecendo de muita coisa porque a "mesa" tem sido farta e a companhia também: farta e saborosa.

PÃES DE LARANJA COM COCO
Observações: fiz meia receita e rendeu cerca de quarenta pãezinhos; achei que o gosto do leite de coco some, não sei dizer o porquê... Tinha até esquecido que ia o coco; só lembrei ao falar da receita para a Lucia, que também achou que o coco não aparecia, mas depois - influenciada pelo conhecimento dos ingredientes - achou que dá pra sentir o coco no final :-)

1 quilo de farinha branca
2 xícaras de farinha integral
2 xícaras de suco de laranja
2 xícaras de leite de coco
1 tablete de fermento
1/2 xícara de óleo vegetal
3 xícaras de açúcar mascavo

Dissolva o fermento no suco de laranja, adicione o leite de coco, o óleo, a farinha integral e o açúcar mascavo. Numa tigela grande coloque esta mistura e vá adicionando a farinha branca aos poucos. Amasse bastante até todos os ingredientes estarem bem ligados. Forme pequenas bolinhas e deixe-as crescer até dobrarem de tamanho. Coloque-os numa assadeira untada. Asse em forno moderado pré aquecido até que fique com a casca dourada.

Receita do livro Culinária vegetariana com sabor da Índia, de Syamala Devi Dasi.

Pra terminar o post, vou só registrar os dois espantos do título, ambos acontecidos ontem.

Fui pra USP cedo e, no meio da elaboração da ideia de não ser mais estudante com vínculo formal, decidi variar de biblioteca e ir estudar na Educação. Tudo bem. Cheguei, deixei minhas coisas no guarda-volumes, entrei e ia procurando um lugar pra sentar quando surge um funcionário da biblioteca, todo preocupado. Aí ele me pergunta:
- Esses livros você trouxe com você?
- Sim.
- Ah, então sinto muito mas você não pode ficar dentro da biblioteca.
Eu, certamente com uma cara de absoluta incompreensão do que ele tentava me dizer:
- Mas...
- Não pode. Esse livro é daqui?
- Não. É de outra biblioteca.
- Pior ainda. As pessoas esquecem aqui os livros, a gente mistura ao nosso acervo e aí o livro fica perdido pra sempre.
- Mas...
Ele já me encaminhando pra porta:
- Temos acima uma ampla sala de estudos, onde você pode ler os seus livros, sem nenhum problema.
Então tá. Lá fui eu, em estado de choque, pra tal da sala de estudos, depois de ter sido expulsa de uma biblioteca por estar com livros. (E, por fim, tinha uma família de cigarras tão animadas próximas à janela onde sentei que acabei indo parar, depois de um tempo, na boa e velha (na verdade, nova) biblioteca da FLLCH).

O outro espanto nem chega a ser espanto, é mais curiosidade mesmo. Tenho o meu exemplar de "Vigiar e Punir" desde 1998, e o comprei num sebo. Aí, ontem, talvez por conta de toda a recente aventura com tribunais e júris,  pela primeira vez percebi que há uma dedicatória no livro. Infelizmente, não é do Foucault, mas de um juiz de direito que, muito admiravelmente, deu de presente a um colega - outro juiz ou promotor, será? Mas aparentemente, o tal colega ou leu e não gostou ou nem leu... Pena... Seria melhor que tentar sacar o código de doenças psiquiátricas no meio do julgamento...

Aliás, falando nisso, não vou resistir a deixar uma citação, que tem tudo a ver com a participação, no julgamento, de uma série de técnicas e conceitos que são externos ao julgamento do ato, mas fundamentais para o julgamento de quem os praticou. Foucault chega a falar da constituição de um corpo de  "juízes anexos" que, embora não sejam juízes de fato, participam da execução da pena, por meio de pareceres sobre o caráter (ou "alma") do criminoso que podem abrandar a pena ou torná-la mais rígida:

A alma do criminoso não é invocada no tribunal somente para explicar o crime e introduzi-la como um elemento na atribuição jurídica das responsabilidades; se ela é invocada com tanta ênfase, com tanto cuidado de compreensão e tão grande aplicação 'científica', é para julgá-la, ao mesmo tempo que o crime, e fazê-la participar da punição" (FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petropólis: Vozes, 1987, p.22).

E é sempre impressionante a capacidade que o Foucault tinha de identificar os "lugares" a partir de onde as técnicas de sujeição eram mais fecundamente identificáveis e localizáveis. Eis aí o outro espanto: o pensamento sempre interessante do Foucault...

01 março, 2010

Ou isto ou aquilo*

 
Ou cumpro os prazos do trabalho e não estudo pro concurso
Ou estudo pro concurso e não cumpro os prazos pro trabalho.

Ou fico com o Rodrigo o máximo possível e me sinto improdutiva
Ou me sinto produtiva e não fico com o Rodrigo o máximo possível.
 
Ou finjo que o tempo não passa e me bandeio pra ver a Ana e o Mauricio
Ou não me bandeio pra ver a Ana e o Mauricio e assumo que o tempo passa.

Ou estou perto da minha avó após sua cirurgia e largo tudo por fazer
Ou faço tudo e não fico perto da minha avó após sua cirurgia.

Ou paro de trabalhar e faço chá para diminuir o frio
Ou fico sem chá e continuo trabalhando.

Ou faço pão para o fermento não estragar e não trabalho
Ou trabalho, deixo o fermento estragar e fico sem pão.

Ou escondo a rosca de chocolate e nozes da Benjamin Abrahão que o Jorge e a Priscila trouxeram e fico light
Ou deixo pra lá e corto uma boa fatia.

Ou marco médico e resolvo a dor no meu joelho
Ou adio mais um pouco e continuo com o joelho doendo.

Ou paro de comer batatas e docinhos e me sinto bem
Ou como batatas e docinhos e fico de olho caído.

Ou assumo que mudei de ideia nos últimos tempos e me deixo ficar
Ou continuo me mexendo e finjo que pra frente é a direção certa a seguir.


"Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se isto ou aquilo" (Cecília Meireles)

* Título do poema de Cecília Meireles.

Imagem: de novo (mas em outro contexto) de Alicia Varela.