Mostrando postagens com marcador vastas emoções. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vastas emoções. Mostrar todas as postagens

13 setembro, 2015

do presente

1) Casa, de Warsan Shire


Tradução: Tomaz Amorim Izabel

ninguém sai de casa a menos que
casa seja a boca de um tubarão
você só corre para a fronteira
quando vê a cidade inteira correndo também

seus vizinhos correndo mais rápido que você
fôlego sangrento em suas gargantas
o menino com quem você foi à escola
que te beijou e deixou tonta atrás da velha fábrica de latão
está carregando uma arma maior do que o corpo dele
você só sai de casa
quando a casa não te deixa ficar.

ninguém sai de casa a menos que a casa te persiga
fogo embaixo dos pés
sangue quente na sua barriga
não é algo que você já tenha pensado em fazer
até que a lâmina queimada ameaça entrar
no seu pescoço
e mesmo assim ainda você ainda carregou o hino sob
seu fôlego
só rasgou seu passaporte nos banheiros do aeroporto
soluçando enquanto cada pedaço de papel
deixava claro que você não ia mais voltar.

você tem que entender
que ninguém coloca seus filhos em um barco
a menos que a água seja mais segura que a terra
ninguém queima suas palmas
sob trens
embaixo de vagões
ninguém gasta dias e noites no estômago de um caminhão
se alimentando de jornais a menos que os quilômetros viajados
signifiquem algo mais do que jornada.
ninguém rasteja por debaixo de cercas
ninguém quer receber surra
piedade

ninguém escolhe campos de refugiados
ou revistas íntimas em que seu
corpo fica doendo
ou a prisão,
porque a prisão é mais segura
do que uma cidade de fogo
e um guarda de prisão
na noite
é melhor do que um caminhão
de homens que se parecem com seu pai
ninguém conseguiria suportar
ninguém conseguiria digerir
ninguém teria uma pele tão dura

os
vão embora negros
refugiados
imigrantes sujos
requerentes de asilo
sugando nosso país até secá-lo
macacos com as mãos abertas
eles cheiram estranho
selvagens
bagunçaram o país deles e agora querem
bagunçar o nosso
como as palavras
os olhares sacanas
escorrem pelas suas costas
talvez porque o golpe é mais leve
do que um membro decepado

ou as palavras são mais macias
do que catorze homens entre
as suas pernas
ou os insultos são mais fáceis
de engolir
do que cascalho
do que osso
do que o corpo do seu filho
em pedaços.
eu quero ir para casa,
mas casa é a boca do tubarão
casa é o tambor da arma
e ninguém sairia de casa
a menos que a casa tenha te perseguido até a praia
a menos que a casa tenha te dito
para apressar as pernas
deixar suas roupas para trás
rastejar pelo deserto
vagar pelos oceanos
se afogar
salvar
ter fome
pedir
esquecer o orgulho
sua sobrevivência é mais importante

ninguém deixa sua casa até que casa seja uma voz suada no seu ouvido
dizendo –
saia
fuja de mim agora
eu não sei o que eu me tornei
mas eu sei que qualquer lugar
é mais seguro que aqui.


2) Running to the sea (Röyksopp feat. Susanne Sundfor)



I remember running to the sea/the burning houses and the trees/ I remember running to the sea/ Alone and blinded by the fear/And the river flows within your skin/ like savages horses kept within/ and all is wasted in the sand/like breaking diamonds with your hand

27 agosto, 2015

tempestivo

Momento-quando. Acho que essa é uma das imagens mais fortes que aprendi com o Caio Fernando Abreu. É quase uma categoria: o nome preciso daqueles instantes que caem do fluxo arrebatador das coisas de todo-dia. É uma paralisia: a suspensão do correr do tempo. Por vezes um respiro. Por outras, uma impossibilidade de continuar (e, acreditamos, mais dia, menos dia, será necessário continuar). Ele pesa, porque o corpo parado impõe resistência a tudo o que continua a vazar pelas comportas do cotidiano. No momento-quando, não dá para simplesmente se abandonar à correnteza.
O momento-quando é uma espécie de agosto - o que temos que atravessar, mas cuja travessia não dá para apressar. Mas, à diferença de agosto, o momento-quando nem sempre é seco. Daí o risco de que permanecer no interior dele dê tempo a deitar raízes. O que dificulta tudo: para seguir adiante, será necessário não apenas esperar setembro, mas também arrancar-se - com mais ou menos força, a depender de quanto se tenha deixado ficar. A gente talvez nunca saia inteiramente de alguns momentos-quando. Ficam uns pedaços nossos lá dentro, para sempre perdidos. Tantos mais pedaços quanto mais fundas as raízes. Ficam uns pedaços dele dentro de nós - aqueles que arrancamos no esforço de retomar o movimento. Os momentos-quando de uma vida configurando um mapa de escarpas pontilhadas, cartografia da memória. Cartografia vertiginosa da memória.

22 fevereiro, 2015

das surpresas bonitas da vida

essa boniteza atravessa o domingo de céu azul e deixa um rastro de nuvens, daqueles que marcam a passagem de algo que já não vemos, nem podemos ter certeza sobre o que é. mas que é bom de ver porque acorda uma sensação boa e infantil de prestar atenção e encontrar sinais.
como não sou (muito) egoísta, divido.


12 dezembro, 2014

que tempos são esses?

poema que me chegou de presente, nessa semana em que o relatório final da Comissão da Verdade veio à luz. uma atualização de Brecht, em tempos que já são outros, mas cuja natureza não cessamos de ter que interrogar. o presente, com suas canequinhas e bacias espalhadas, a conter o passado que insiste em vazar. sobre nós, que não estamos na chuva, que não construímos com nossas mãos esse telhado. e, no entanto, cá estamos: a espalhar contenções, a torcer a roupa encharcada, a procurar abrigo. interpelados a ouvir o silêncio que arrepia as árvores. a seguir os rastros que levem até essa edificação onde se ocultam os desaparecidos.

What kind of times are these? (Adrienne Rich)

There's a place between two stands of trees where the grass grows uphill
and the old revolutionary road breaks off into shadows
near a meeting-house abandoned by the persecuted
who disappeared into those shadows.

I've walked there picking mushrooms at the edge of dread, but don't be fooled
this isn't a Russian poem, this is not somewhere else but here,
our country moving closer to its own truth and dread,
its own ways of making people disappear.

I won't tell you where the place is, the dark mesh of the woods
meeting the unmarked strip of light—
ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:
I know already who wants to buy it, sell it, make it disappear.

And I won't tell you where it is, so why do I tell you
anything? Because you still listen, because in times like these
to have you listen at all, it's necessary
to talk about trees.

24 novembro, 2014

mosaico amargo

- "O crash atual representa o acidente integral por excelência" (entrevista com Paul Virilio, de 2008).
- "Já não me restam lágrimas" (notícia sobre Carmen Martinez Ayuso, de 85 anos, despejada na Espanha após seu filho ter tomado um empréstimo).
- "Diálogos sobre o fim do mundo" (entrevista de Eduardo Viveiros de Castro e Daniele Danowski a Eliane Brum).
- "O muro de Dourados" (reportagem de Fabiano Maissonave).

07 outubro, 2014

em mar aberto

nos últimos dias (duros, difíceis), lembrei da potente voz do milton nascimento cantando essa plataforma onde a gente descansa, se ancora e de onde é possível se lançar quando oportuno. pequena margem de segurança, inventada. a ficção da seguridade contida aí, nessa outra ficção de que se lançar ao mar é escolha. como se estar vivo não fosse isso aqui, esse esforço em manter a cabeça para cima da água, essa luta contra o vento e a tempestade. as fases em que dói o peito com o cansaço de nadar sem trégua.


e porque lembrei dessa canção, lembrei também de drummond.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação (Os ombros suportam o mundo. Sentimento do mundo).

03 setembro, 2014

incêndios

(ao som de radiohead)

desde janeiro, elegi 2014 como um ano de cultivar a rememoração. cultivar no sentido da cultura como cuidado com o os vivos e o presente, mas também como respeito aos mortos - o que também significa ouvi-los no presente, deixar-se ser interpelado pelo sentido trágico de suas vidas. afinal: em 2014, são cem anos desde o início da I Guerra Mundial. cinquenta desde o golpe civil-militar no Brasil. vinte desde o genocídio em Ruanda.

tenho lido por isso muitos livros e assistido muitos filmes sobre tais assuntos. sempre me dividindo entre reunir coragem para enfrentar tais horrores - e enfrentá-los como horrores humanos, também meus - e me dando espaço para também, por vezes, olhar para outro lado: ler gibi, assistir seriado, passar um dia plantando e replantando flores e matos...

e aí, por razões que não têm exatamente a ver com essas, embora tenham tudo a ver com o problema do presente e da memória, meu amigo julio me falou de incêndios. edu e eu assistimos o filme há uns dez dias e é, de fato, um filme lindíssimo. e muito perturbador. e por isso mesmo bastante potente. depois de ver o filme, acabei lendo também a peça de wadji mouawad e as reflexões que se seguem foram provocadas tanto pelo filme quanto pela leitura.

é difícil falar do filme e do livro sem remeter ao enredo, em especial porque se trata de um filme que se estrutura sobre a descoberta da verdade. mas vou tentar.

também é difícil falar do filme e do livro sem remeter a Édipo Rei, que Aristóteles toma como modelo da tragédia. não vou tentar evitar o assunto, ainda mais porque a comparação com Édipo é reveladora de alguns de nossos dilemas presentes.

depois de assistir o filme e acabar de ler a peça, em algum momento da noite acordei pensando que Foucault ficou tão interpelado pelo Édipo Rei, pela questão da verdade. mas há também uma certa tradição que pensa a peça de Sófocles como o acontecimento que dá forma a categoria "vontade" que vinha se constituindo na experiência ocidental: Jocasta e Laio tentam escapar de seu destino, terrível e revelado por um adivinho, e é por isso mesmo que eles todos são levados inexoravelmente a ele. a vontade humana, insurgente, é também inútil: essa tentativa de fuga ao destino é obscurecida numa rede de segredos e lealdades e - central para o desenvolvimento da trama - compaixão, deixando todos os seus participantes cegos e incapazes de fazer frente à força dos fatos que a própria tentativa de escapar desencadeia. Jocasta e Laio tentam fugir da verdade em Tebas; Édipo tenta fugir da mesma verdade em Corinto e a fatalidade se impõe a partir de um mau encontro numa tríplice encruzilhada.

de todo modo, quando a verdade reaparece, ela revela a todos que o destino se cumpriu. um horror de algo que, apesar de tudo, estava de acordo com uma espécie de vontade dos deuses (ou má vontade em evitá-lo). Em Édipo, há no destino, senão coerência, um sentido de necessidade. Mas em Édipo há o problema da vontade desorganizadora, tanto mais porque contrária a uma vontade maior e mais forte, inescapável, superior. esse é o cerne da tragédia: o embate entre uma vontade impotente e uma vontade que nunca desvia, certeira. a verdade, assim, é a recomposição da trilha de vontades que leva ao desfecho; as peripécias são essa caminhada de volta - tudo aquilo que se revela no refazer dos caminhos. é assim que o estrangeiro se encontra em casa.

incêndios é o trágico mais contemporâneo, que ao mesmo tempo repete e desloca os problemas colocados pelo Édipo. há uma questão subjacente que é a da imanência do mundo: não há referência a deuses ou a um deus em nenhum momento, que eu me lembre. A cultura, a tradição são forças presentes, mas elas não são referidas a outro mundo: estamos aqui, irremediavelmente aqui, nessa terra, nesses tempos, muitas vezes em guerras que não escolhemos, nossa vontade atravessados por práticas das quais não temos como escapar. nós, seres trágicos, a faca no pescoço.

ainda assim, parece haver uma vontade superior à nossa, emaranhados que estamos aos fios da própria história: ao ciclo de ofensas e vinganças, interminável, inescapável. mas é bonito, porque o que conduz o destino não é o esforço em escapar ao vaticínio, mas uma promessa (e depois outras) também imanentes, pois feitas entre pessoas: é da ordem propriamente ética que se desdobra o drama, do esforço de ser fiel à promessa de romper a tradição, romper o encadeamento das ofensas e vinganças ("incêncios" é a terceira parte de uma tetralogia que se chama, justamente, "o sangue das promessas"). a promessa de tornar possível uma outra forma de estar juntos. pois a peça volta e meia retoma essa frase-testamento dita por Nawal: "agora que estamos juntos, melhorou".

é muito bonita (e dolorosa e intensa) como Nawal leva esses filhos que ela ama e que não ama à verdade - como se a falta de amor abrisse a possibilidade de conduzi-los à verdade; como se o amor pudesse brotar possível depois da verdade pesar até o ponto do esmagamento. um silêncio que é uma pedra no peito - e que faz a gente perder o fôlego só de cogitar enunciar a verdade.

abrindo as pistas de um caminho que é ao mesmo tempo retorno e passo adiante, Nawal abre a seus filhos a possibilidade de inscreverem seu lugar no mundo, alfabetizados e letrados nas durezas e na verdade. eles também começam a construir um lugar fora daquele atribuído à vítima (pois que vítimas também foram) - essa figura que sofre as dores inevitáveis do acidente e se vê despojada de potência e vontade. os filhos de Nawal não são esmagados pela verdade: terminam a peça ouvindo o silêncio da mãe, esse silêncio eloquente e intenso.

em tempos tão cínicos - quando a verdade é escancaradamente dita porque evidente, porque é "assim mesmo que as coisas são", e por isso mesmo nada causa escândalo ou faz tabu - é notável que a verdade, finalmente clara, não seja dramatizada com excessos e psicologismos. ela simplesmente está a luz, e interpela no presente cada uma das personagens. o propriamente trágico está no fluxo do tempo, na historicidade onde a gente vive mergulhado. e é sempre presente.

lembrei de um trechinho da Jeanne-Marie Gagnebin:

Não temos que pedir desculpas quando, por sorte, não somos os herdeiros diretos de um massacre; e se, ademais, não somos privados da palavra, mas, ao contrário, se podemos fazer do exercício da palavra um dos campos de nossa atividade (como, por exemplo, na universidade), então nossa tarefa consistiria, talvez, muito mais em restabelecer o espaço simbólico onde se possa articular aquele que Hèléne Piralian e Janine Altounian chamam de “terceiro” – isto é, aquele que não faz parte do círculo infernal do torturador e do torturado, do assassino e do assassinado, aquilo que, “inscrevendo um possível alhures fora do par mortífero algoz-vítima, dá novamente um sentido humano ao mundo. No sonho de Primo Levi, deveria ser a função dos ouvintes, que, em vez disso e para desespero do sonhador, vão embora, não querem saber, não querem permitir que essa história, ofegante e sempre ameaçada por sua própria impossibilidade, os alcance, ameace também sua linguagem ainda tranquila; mas somente assim poderia essa história ser retomada e transmitida em palavras diferentes. Nesse sentido, uma ampliação do conceito de testemunha se torna necessária; testemunha não seria somente aquele que viu com seus próprios olhos, o histor de Heródoto, a testemunha direta. Testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro: não por culpabilidade ou por compaixão, mas porque somente a transmissão simbólica, assumida apesar e por causa do sofrimento indizível, somente essa retomada reflexiva do passado pode nos ajudar a não repeti-lo infinitamente, mas a ousar esboçar outra história, a inventar o presente (GAGNEBIN, 2006: p.57; grifos meus).

25 junho, 2014

como um mantra



Clube da Esquina nº 1 (Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges)


Noite chegou outra vez de novo na esquina
Os homens estão, todos se acham mortais
Dividem a noite, lua e até solidão
Neste clube, a gente sozinha se vê, pela última vez
À espera do dia, naquela calçada
Fugindo pra outro lugar.
Perto da noite estou,
O rumo encontro nas pedras
Encontro de vez, um grande país eu espero
Espero do fundo da noite chegar
Mas agora eu quero tomar suas mãos
Vou buscá-la aonde for
Venha até a esquina, você não conhece o futuro
Que tenho nas mãos.
Agora as portas vão todas se fechar
No claro do dia, o novo encontrarei
E no curral D'el Rey
Janelas se abram ao negro do mundo lunar
Mas eu não me acho perdido
No fundo da noite partiu minha voz
Já é hora do corpo vencer a manhã
Outro dia já vem e a vida se cansa na esquina
Fugindo, fugindo pra outro lugar, pra outro lugar.

01 junho, 2014

das esperas e esperanças

e já que as novas lutas tem também os ecos de algo tão mais antigo, de um desejo e uma esperança persistentes (e insistentes), vamos de Silvio Rodriguez.


14 maio, 2014

procrastinando

Tantas coisas para fazer e uma gripe que não me deixa... fui olhar um vídeo da Sia no youtube e como aquilo ali é o labirinto do tempo perdido, cheguei numa batalha de sincronização de lábios, hilária:




Ao Joseph Gordon Levitt, todo amor que houver nessa vida!

Mas o pior, o pior mesmo foi PRECISAR ouvir A-Ha depois da performance do Jimmy Fallon:



Tem noção de quantas paixões foram embaladas por Stay on these roads? Quantas danças em bailinhos? Quantas tardes voltando a agulha do LP pra escutar só essa música (isso, claro, antes da invenção da fita K7, em que a gente podia gravar a mesma música infinitas vezes e assim evitar de ter que voltar a faixa :-)



A única conclusão possível depois de tudo isso é: envelheci. Que tudo parece há tanto tempo. Que tudo parece que foi ontem.

20 abril, 2014

precisão

engoli uma gaivota anteontem
tinha um travo a mar muito suportado essa gaivota que
já lá vai
despenhando-se garganta abaixo
um acidente tão desejado
num pequeno corpo tão desastrado
embora por vezes uma gaivota o desatine
ou quase
a alegria do afogado quando regressa à tona de água
(Benédicte Houart, Reconhecimento. Lisboa: Cotovia, 2004, p.13).

02 junho, 2013

pink rabbits

 
depois de um tempo, a gente quase se acostuma a não pensar no assunto e então o perigo de ser surpreendido com algum pedaço do outro. ainda me assusto. sei que nem é mais amor. ou ao menos acho que sei. é mais a saudade do espaço que ela abriu por dentro de mim. saudade de quem eu era ali, naqueles olhos, com aquela mão dada à minha, os cabelos brancos dela que eu amava tanto quando o vento trazia pro rosto e a desculpa de coloca-lo por detrás da orelha, o rosto dela quente e terno. uma saudade que nada nem ninguém amansa. assim que hoje saí de manhã para passear o cachorro e também comprar pão e leite e frutas. e choveu uma chuva que eu não esperava, que me apanhou desprotegido. eu ali no meio da rua, o cachorro tentando correr pra casa. o pão quente encharcando. as frutas melancólicas com as gotas escorrendo pelo saquinho cor-de-rosa. e eu me lembrei dela. sem motivo aparente. talvez porque quando a chuva desabou eu estivesse numa esquina – encruzilhada. talvez porque numa das últimas vezes que nos vimos, a avenida larga, o céu cinza também ele adiando a decisão, o passeio longo, e os passos tropeçando na fundura da tristeza de saber que ela não ficaria. se eu soubesse como, ela me disse. e naquela esquina onde a chuva me alcançou, tantos anos depois, eu ainda sem saber. o que dizer a ela. o que dizer pra mim. a gente acostuma, sim. ainda que desconfiando de tudo o que perdeu. ainda que não parecesse certo pedir que ela se dividisse, o marido, os filhos, toda aquela vida que ele, nenhuma pista. existiam apenas naquele espaço, bolha-de-sabão colorida que agora não mais. encharcados, eu e o cachorro. abro a porta, ponho as compras sobre a mesa da cozinha, pego uma toalha pra secar o cachorro, entro eu mesmo no banho quente, a água aliviando o frio e o desconsolo. pouco, no entanto. saio do banho, me seco, coloco roupas quentes e, já na cozinha, água pra ferver. já tinha casado uma vez, mas só depois dela a consciência da absoluta solidão. na urgência de tê-la sempre perto. na falta de ar de sabê-la longe. na saudade dos abraços lentos e infinitos. no trabalho que dá não pensar nela. tiro dos saquinhos molhados as maçãs, as peras, os maracujás. pra distrair as mãos, pego duas maçãs e duas peras e lavo e corto ao meio e tiro a semente e pico em cubos e levo ao fogo, pra amolecer. a água agora chá-de-cidreira. me vejo no vidro do armário da cozinha, o moletom cinza, o rosto abatido e me sei convalescente. quase dez anos, e ainda convalescente, ainda sujeito a recidivas. ou reincidente no crime, vai saber. vai saber se não sou eu quem cutuca a casquinha, só pra me sentir assim vivo e latejante. pra recuperá-la um pouquinho na lembrança do que fomos. coloco numa vasilha pouco mais de meia xícara de manteiga, um pouco de canela, uma xícara de farinha de trigo, uma xícara de açúcar. demerara, que é o que tem e é o que mais combina com esse crumble. misturo, delicado, os ingredientes até o ponto em que esfarelam. como se fossem memória. como se assim a falta dela me deixasse menos nu na chuva agora virada garoa. sem ela: o inescapável da consciência me lançando em pleno alto-mar. pego outra vasilha, lambuzo os dedos como ela costumava fazer, unto tudo antes de colocar as frutas escorridas, mais o maracujá recém-aberto. pra quebrar o doce. pra ser honesto com os sentidos, pois que não há nada tão apenas-doce. jogo a farofa por cima de tudo e coloco as coisas no forno. sento ali em frente, esperando roubar algum calor. o chá entre as mãos. o nome dela entre os lábios. se o pronunciasse, ela ouviria? saberia dizer de onde aquela voz, se do passado, se de agora? se do futuro que prometi um dia – a gente num barco que nunca aporta, à deriva um do outro, um no outro? na boca, a semente de maracujá atropelando a brandura da maçã e da pera.

27 maio, 2013

pra chover mansinho

Do cd novo do The National. Linda, linda... perfeita pra contrastar com o chumbo do céu ou para fazer par com a garoa mansa. Dá até saudade do que não foi. De andar de mãos dadas pela cidade. De conversar demorado, esquecidos que o tempo existe. De dividir um guarda-chuva rosa-púrpura. De cruzar uma pinguela, uma ponte, um viaduto: qualquer hífen pra articular você-eu. Pra gente abrir os braços e flutuar, infantil, no oceano salgado.


17 maio, 2013

voragem

é a imagem dela dentro de mim - essa memória frágil e amarelada - que me dá força pra de vez em quando odiar. a imagem relampeja e logo se fixa no céu da lembrança, feito a primeira estrela na noite nebulosa. ela no chão. ela ajoelhada no chão de uma cozinha. ela e a bacia presa entre os joelhos. ela e as mãos, incansáveis, virando e revirando a massa. a massa de pão. o avental entre o colo e a bacia. e a massa virando e revirando. ela está envelhecendo, mas é uma heroína pros meus olhos infantis. ela e a amplidão de seu espaço. ela e a fazenda de rio gelado, porcos gordos, mato farto. a mulher que no fim da tarde me ensina a modelar a raiva: um quilo de farinha de trigo. três copos do leite gordo e forte que me salvou os olhos quando, ingênua, achei que a pimenta guardava dentro de si o seu ardido. uma colher de sopa de açúcar. dois tabletes de fermento biológico. meio copo de manteiga. sal a gosto. a receita pra aplainar o que farpeja por dentro. os cabelos loiros dela presos enquanto as mãos, ágeis, virando e revirando a massa. ela vê meu olho espantado de criança frente àquele estranho rito e me confidencia: é pra usar bem a fúria. e pára de virar e revirar para socar, bater, lançar plafts a massa no solo duro da bacia. a imagem dela ecoando mais luminosa no prateado do alumínio. a bacia inteira amassada. marcada pelo sem-número de vezes que numa vida, numa vida de mulher, numa vida de esposa, numa vida de mãe, fermenta-se o pão na ebulição do sentimento. ela é tão bonita, assim sem contornos claros na minha memória. sinto falta dela. então recupero, palavra por palavra, essa imagem. especialmente quando eu também viva, uma vida de mulher, uma vida de esposa, uma vida de mãe. fermentando o pão na quentura do sentimento. depois colocando pra descansar a massa. e polvilhando de farinha a ira agora ovalada. cortando xis antes de levar ao forno. depositando a raiva crua no forno pré-aquecido e esperando crescer, crescer. e cozer. e dourar. e por fim recolher ainda quente o milagre. ela de volta, quase viva novamente. e então eu agradeço a ela, por ela. por saber o que fazer do meu rancor. no pão ainda quente, a vida finalmente amansa. o búfalo alimentado se deita amplo e fecha os olhos.

21 abril, 2013

da água para o vinho

(porque trabalhar no domingo vira e mexe incorre em desvio).

(porque não dá para ouvir essa música sem pensar em "depois de agosto", do Caio Fernando Abreu, conto tão cheio de mel e esperança, tão necessários nessa esquina onde o domingo encontra a segunda-feira).

(porque sim). 

19 abril, 2013

receitas vegetarianas - destempero

mas olha só que perdi a receita inteira nesse fogo alto demais e agora vou ter que começar tudo de novo que disso não se salva nada: tudo com cheiro e gosto de fumaça e ai que tem dia que é assim mesmo que parece que as mãos excretam o limão que trazemos por dentro e azedam tudo e talham tudo que tocam e é que me dá tanta pena o trigo o óleo os ovos as maçãs e todo esse desperdício que chega a me doer e ainda mais porque tudo o que eu queria hoje era um pequenino natal do cheiro da canela espalhando pela casa varrendo as melancolias recentes e agudas e as nozes penetrando doces nas frestinhas das dores antigas feito bálsamo mas agora as pequenas epifanias ressecadas logo hoje que eu acordei precisando tanto-tanto desse milagre de recomeço e me pus a cozinhar ainda de camisola azul de renda acordando os músculos no esforço de mexer essa massa desse bolo que eu adoro e que é tão ruim de mexer mas eu não sabia fazer outra coisa pra espantar os fantasmas dos sonhos e suas sombras no meu dia ainda porvir e assim fui passando na peneira as três xícaras de farinha de trigo ao mesmo tempo em que o café passava pelo filtro de pano que eu trouxe de outras vidas e passei na peneira também a colher de bicarbonato e a colher de sal e a colher de canela em pó já tão fininhas e leves mas também escondendo seus minúsculos nódulos e enquanto o pão esquentava na torradeira eu ia quebrando os ovos numa outra tigela torcendo pra que nenhum deles estivesse estragado que me aflige tanto esse mistério do ovo às vezes galado me enche de tristeza o galo que não foi que mal chegou a ser pintinho mas hoje que eu me esqueci de quebrar num potinho os ovos antes de coloca-lo na tigela definitiva nenhum ovo fecundado só aquela festa de amarelo forte os pequenos sóis ajudando a acordar o dia e então o açúcar que eu também fui peneirando aos poucos já me sentindo mais protegida pela mistura de ovos e açúcar que ia ficando clarinha clarinha e era como se fosse se diluindo o que em mim acordou doendo e me amansassem os medos e os sustos conforme o café quente e doce amornava a boca e o hálito ainda faltava a xícara de óleo que se incorporou fácil à mistura e enquanto tudo isso descansasse fui cortar as últimas três maçãs que tinha em casa tirando a casca e as sementes e fatiando cubos e deixando ainda um pouco de ímpeto para triturar as nozes apenas com as mãos para me livrar do que em mim é violência e com tudo pronto e o café tomado finalmente fui misturando a parte úmida à parte seca bem devagar que essa massa é consistente e pensar bem por que é que fui me meter a fazer isso logo de manhã logo precisada de levezas se a massa é pesada e meus braços reclamaram e nem vai fermento para fazer as pequenas bolhas de ar só bicarbonato pruma massa que mal cresce e só quando a massa finalmente misturada e quando as maçãs finalmente incorporadas e quando as nozes finalmente incluídas caindo na forma untada e enfarinhada é que fui tomar um banho e lavar os cabelos e me arrumar praquela festa que tinha acabado de inventar mesmo que fosse apenas para distrair o chumbo instalado entre o peito e o estômago e já ia me sentindo salva o alívio de ter transformado a dor em bolo e o dia esquisito em celebração quando o cheiro da canela errou em cinza e sem que eu saiba ainda localizar o momento-quando a alegria desviou em acidente agora estou aqui nessa beirada do choro tão-tão espantada que minha chance de recusar a melancolia tenha se transformado em carvão e destampado esse fluxo aberto as comportas de tanta coisa que só precariamente a gente contém e eu sei bem que é porque esse acidente sem vítima o que fez foi reabrir ferida na minha esperança.