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08 julho, 2009

(...)

Era aquela lua vermelha que lhe tornava assim tão aguda. Ela era silêncio. E uma dor rasgada lhe habitava o corpo. “Agora sou pássaro”, pensou baixinho, abrindo os braços antes que o pensamento se completasse. O corpo sabia mais do movimento de liberdade que transfigurava a Mulher. Ela estava doente de ser prisioneira e lutava com desespero para não ser quem era. Fazia o exercício do ilimitado e nunca então esbarrava tanto em limites. A dor moradora de seu corpo às vezes dormia, outras sonhava ser prazer, mas na maior parte do tempo apenas latejava. Doendo-doendo-doendo. Incansavelmente dor.


“Agora sou flor”, pensava, seca, tentando segurar a vida entre os dedos. Mas se era botão, arrancavam-na. E se já era flor, fazia-se outono e logo estava no chão. Durante a queda bailarinava, mas apenas até estilhaçar-se, seca e opaca.


A Mulher estava aos pedaços sob a lua tão vermelha quanto o líquido que escorria dentro dela, tão vermelha quanto o fogo que ardia dentro dela, tão vermelha quanto os seus olhos secos de não chorar. Mulher aos pedaços. Seca. Árida. Nem pássaro nem flor.


Palmilhava o chão sem pressa, sem onde ir. Tudo era silêncio sob a lua vermelha.


01 novembro, 2008

Baú (2)

Genialidade
inventei uma engenhoca
que flutua no ar
pisa fundo na terra
mergulha na água.
A invenção sou eu.
Com defeitos de fabricação

Maré

te amo,
te odeio,
te amo,
te odeio,
te amo,
de odeio,
tô cheia.

Pérola

preciosa
a palavra
AMOR
em sua boca
semi-aberta

Veludo
afago noturno:
- boa noite, querida
mão e voz
da mesma textura

Brinquedo

sentado ao meu lado
as pernas embalam
memórias de parquinhos
e areias

Passado
algas enrolando
o pé
que se move adiante

Platonismo improvável
o amor que te tenho
se eu não provo
tu não provas

Puta-que-o-pariu!
assombro
e gosto de sabão na boca

Baú (1)

Brincadeiras antigas, reencontradas (uma seleção das menos piores):

Prisão domiciliar
entre músicas, discos,
memórias, telefone mudo
ela se encolhe
incomunicável

Chuva de Verão
"fácil vem, fácil vai"
dizia a avó
explique isso ao coração de mulher
que insiste
acreditando no eterno

Desejo
faço realidade meus sonhos
para que meu filho não nasça
com uma cara que não seja dele

Análise Combinatória
manga verde com sal
batata doce com leite
chiclete com banana
eu com você
você comigo
nós juntos (que tal?)

Qualquer bobagem
amor só é bom quando transborda

Cena 1
A menina está triste.
O rapaz é sincero.
A menina se confunde
e aguarda os próximos capítulos.
Corta! Agora!
O mal pela raiz.

Nó

solidão atada à angústia
trabalho de escoteiro

Reeleição
te escolho de novo, a cada dia:
voto de confiança

Mudança
saco de mágoas ao lixo
fantasmas ficam na casa velha
levo meu corpo, meus sonhos
e nenhum cadeado para as portas

08 setembro, 2008

Conto de Fadas


Para Mi


Do lado de fora do vidro, a chuva escorria lenta. Do lado de dentro do vidro, a água também rolava, mansa. Do lado de dentro dela, tudo era umidade e espaço; um espaço recém inaugurado. Ergueu um pouco o rosto, passando suave a mão pelos cabelos, numa pequena carícia: não haveria mais dor.

*

Tinham 17 anos quando se conheceram: as duas crianças. Ambos estrangeiros na grande cidade, não demoraram a se aproximar, passando muito tempo juntos: almoço, aula, telefone, cinema, jantar, fim-de-semana.

Previsível, ela se apaixonou. Ele não. Ou fez que não. Ou quis que não, tanto faz. Mas aconteceu assim: ela quis demais e ele recusou. E vieram as primeiras dores e os primeiros silêncios. E depois as dores conhecidas e o silêncio pactuado. E então as dores velhas e a mudez construída.

*

Tinham bem mais de 17 anos quando se reconheceram: o homem e a mulher.

Imprevisível, ele se apaixonou. Ela não. Mas fez que sim. Ou quis que sim, não importa. Mas aconteceu assim: ele quis demais e ela aceitou aquele querer que tanto quisera. E perseguindo os primeiros beijos vieram as primeiras brigas, as primeiras impossibilidades, as primeiras portas batidas e a velha dor e mudez. Não era para tanto. E, de qualquer maneira, nada daquilo recuperaria o momento perfeito escoado.

*

Ainda assim, continuavam. Insistiam consigo que um amor daqueles era coisa rara. Ela sentia que aquele era seu homem, seu amor para toda a vida; ele sentia que aquela era a sua mulher, para toda a vida. Envelheceriam juntos e tudo seria perfeito.

*

Mas tudo errou. E o confronto diário com a pergunta “onde errei?” só fazia multiplicar as dores da leveza mudada em sacrifício. Não era possível acreditar que não havia erro, culpa ou responsabilidade essenciais. Afinal, eram promessas um para o outro.

Conheciam o desfecho para o que viviam. Apenas recusavam-no.

*

Separaram-se. Maculados como no fim do primeiro amor e sem saber quem havia dito a última palavra ou quem movera o primeiro passo do ir-embora. Separaram-se. E foram felizes para sempre.


Imagem: Patricia Metola, em http://tipika.blogspot.com/

02 setembro, 2008

Necessidades Radicais

Ainda hoje comentava com o Mauricio que, desde que comecei a série de posts sobre "A maternidade como experiência", um monte de coisas têm acontecido que me provocam a continuar pensando e escrevendo sobre o assunto. Eu adoraria, se isso não acabasse me fazendo roubar tempo da imensa quantidade de trabalho necessário à conclusão da tese...

Então, infelizmente ainda não é hoje que vou conseguir escrever mais. Mas, num papo no gtalk com a Fabíola, acabei lembrando de um texto que escrevi para comemorar o primeiro aniversário do Rodrigo. Tem um conceito sociológico nele que é bastante importante para o esforço de pensar a maternidade-paternidade como experiências: necessidades radicais.

Então hoje vamos de texto requentado.

***
Rodrigo faz um ano

Foi numa aula de sociologia da vida cotidiana, disciplina que era dada pelo Prof. José de Souza Martins, que pela primeira vez ouvi falar em necessidades radicais. Estávamos acho que no quarto ano da faculdade e completamente pasmos com tudo o que vínhamos aprendendo nessa disciplina – tendo contato pela primeira vez com autores que nos ensinavam que o conhecimento sociológico pode ser muito mais rico, denso e complicado do que a gente vinha achando até então.

O termo – necessidades radicais – era utilizado por uma autora de referências marxistas, Agnes Heller e procurava nomear aquelas necessidades que, não podendo ser satisfeitas dentro do campo de possibilidades definido pelo presente, impulsionavam a sociedade a construir novas formas, novos acordos...As necessidades radicais, assim, eram necessidades de transformação radical de algum aspecto da sociedade. E quando pensado no interior de uma sociologia da vida cotidiana, as necessidades radicais também tinham a ver com inconformação.

Mas não escrevo hoje para fazer um tratado sociológico: escrevo para comemorar o primeiro ano de vida do meu filho. Há exatamente um ano, o Rodrigo me dava o primeiro de muitos sustos que com certeza virão, adiantando três semanas e dando as caras ao mundo numa quinta-feira depois do feriado, às dez da noite. E que caras mais bonitas! Charmoso, curioso, doce e com bico de vô Hakira, o Rodrigo só nunca teve foi cara de joelho...

E depois vieram os primeiros dias em casa, o Rodrigo reclamando um pouco da mãe ainda meio desajeitada ao dar banho, mas de resto tudo ia encontrando um jeito novo, o jeito da nossa vida com a chegada do Rodrigo...Uma vida mais bagunçada, com mais cansaço, mas com muita alegria. E a mãe boba de primeira viagem curtindo cada momentinho, ligando para o pobre papai várias vezes por dia para passar o relatório da cor e da consistência do cocô...

Tentando fixar cada sensação, cada descoberta do menino, mesmo sabendo que o tempo vai passando tão rápido e as descobertas vão se tornando cada vez tão mais intensas e maiores que é impossível fixar alguma coisa: o Rodrigo é um ser mutante, aprendendo a viver. Fixar alguma coisa só pode mesmo ser idéia de mãe temerosa em perder seu filhote pro mundo...

Uma das coisas boas que o Rodrigo trouxe, isso mesmo antes de nascer, quando ainda era o Gohan, sementinha menor que um grão-de-arroz dentro da minha barriga, certamente foi a curiosidade em pesquisar tudo sobre gravidez, crianças, partos...Foi assim que encontrei os slings (para mim indissociáveis do jeito que fui encontrando de ser mãe) e por tabela a Analy; foi assim que conheci a lista Materna, já bem depois do Rô nascido; foi assim que comecei a perceber que a maternidade me trouxe muitas necessidades radicais...

Para começar, fiquei querendo outro jeito de parir – um jeito sem tantas intervenções, sem tanto estresse com hospitais e suas rotinas, um jeito mais humano. Depois, fiquei também querendo um outro jeito de receber as crianças no mundo – com mais delicadeza, também sem tanta intervenção, sem colírios que machucam o olho, sem pediatra recomendando complemento...E já que parir e nascer são apenas os momentos que inauguram as novas vidas, também fiquei querendo um outro jeito de cuidar – dividindo as tarefas com o pai; arranjando paciência infinita para compreender o bebê no convívio com ele e não segundo receitas mais gerais; fiquei querendo outro jeito de trabalhar (de um jeito que me permita estar junto ao meu pequeno e vê-lo crescer); fiquei querendo outro jeito de viver nessa cidade maluca e vai saber ainda quantas coisas vou desejar que sejam diferentes...Necessidades radicais, que me dão notícia de que a vida pode ser muito melhor do que a gente se acostuma a achar normal.

Os comentários que a Agnes Heller faz sobre as necessidades radicais estão numa coletânea de entrevistas cujo título é "Para mudar a vida".

Nada mais apropriado: hoje faz um ano que o Rodrigo veio para mudar a minha vida, para virá-la do avesso, para reencantar o mundo com sua curiosidade, para ser um companheirinho de todas as horas. Então, hoje queria dividir com vocês essa celebração pela vida dele – o meu menino que aos pouquinhos vai deixando de ser meu para começar a dar os seus primeiros passos.


20 julho, 2008

Crônica de uma separação

para Tatiana Sanches

Existe um conto do Caio Fernando Abreu que, segundo uma amiga minha, é um dos mais fortes textos de despedida. Começa assim: “Quando Ana me deixou...”.

O Eduardo Galeano tem um conto curto, quase um poema, que também é muito bonito e termina dizendo “Não levo nem uma única gota de veneno. Levo os beijos de quando você partia (eu nunca estava dormindo, nunca). E um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi”.

Lembrei-me desses textos por algumas razões óbvias e por outras tantas um pouco menos claras. Ontem à noite conheci uma pessoa interessante, que também gosta de escrever coisas. Conversamos um pouco sobre a palavra e como ela nos ajuda a elaborar e fixar a nossa experiência no mundo. Ele me contou de sua recente separação e de como ainda é difícil falar, de como ainda não faz parte dos planos dele nomear todas os diversos sentimentos que ficaram dos treze anos vividos naquela companhia.

A personagem do Caio, que nos desfia o longo rosário até que o “quando” do momento do adeus se tornasse “depois”, também não põe palavras no lugar dos sentimentos: ninguém sabe de Ana. Ela ficou guardada naquele lugar à parte das coisas que significam. A vida continua, nós (quase) sempre sobrevivemos, ainda que reste o assombro de descobrir o limite, a finitude.

Essa pessoa que conheci me contou que, embora nunca tivesse se considerado um romântico, não se refez ainda do assombro do fim. Mas não se trata de romantismo. Para sempre, aquele que parece estar posto desde o início de um relacionamento, faz parte de nossa adolescência mesmo. Mas o para sempre, dia a dia escolhido e renovado, cotidianamente alimentado e desejado – esse é condição de crescimento do amor. Um grande amor não se constrói se o fim estiver colocado: amanhã.

Octávio Paz fixou a verdade “o amor é uma das respostas que o homem inventou para olhar de frente a morte”. O fim nos rouba um pouco a ilusão da eternidade, nos lembra de que somos filhos do tempo.

Finitude e silêncio. Era disso que queria falar. É que ainda não aprendi a delicadeza de preservar o vivido/sentido no vazio do inominado. Eva enlouquecida, quero recriar o mundo cheio de ausência dando nome a tudo o que ficou: aquilo foi egoísmo, aquilo outro imaturidade, isso foi bom, aquilo ali bonito. Como se fosse possível preencher a ausência com razão e palavra.

Se você não estivesse ausente agora, se suas mãos estivessem aqui, ao alcance de meus olhos e gestos, eu as tomaria entre as minhas próprias e ficaria com você em silêncio. Reinaugurando o tempo da confiança e da delicadeza. Atualizando o mito da permanência. E pedindo, sim, para durar.


Só para constar: um ano e meio depois desse texto, a "pessoa interessante" e eu estávamos casados. E assim vamos, no esforço diário de empurrar a linha do "para sempre" mais adiante.


14 maio, 2008

Noturnos Imperfeitos


"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tento tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento"
(Hilda Hilst, primeiro poema de Júbilo, Memória e Noviciado da Paixão).

Sempre gostei deste poema. Muito, aliás. Em tempos de recolhimento e silêncio, essas idéias arranjadas em palavras me ajudam a manter a esperança.

Minhas mãos têm tido desejo de terra; por isso andei comprando argila. E agora, a cada vez que não consigo pôr o que sinto em palavras, corro para a terra úmida e permito que meu corpo aprenda outras formas de dizer. Minhas escrivaninha vai ficando pequena para tantas imagens.

Durante algum tempo, no convívio com este poema, o que me chamava a atenção eram os versos Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. Imaginava o espanto de uma mulher apaixonada que, nos olhar do amante, descobre-se outra. Não mais o rio, mas seu transbordamento: a mulher que se entende terra, úmida, vida e morte.

Terra é um elemento que se liga ao desejo: siderare é o nome que se dá aos astros, donde considerare significa ter os olhos fixos aos céus, tendo a vida orientada pelos astros. Finalmente, desiderare: perder o alto como orientação, cessar de ver os astros, estar fixo ao chão. O desejo nada tem de transcendente; ao contrário: ele nos liga à terra e nos condena à errância.

O poema me impressionava, portanto, pela delicadeza com que falava do desejo e do movimento que pode gerar em nós haver um outro que nos olha; me impressionava pela boniteza da imagem de reconhecer-se terra.

No entanto, das últimas vezes em que voltei ao poema, ele me falou de outra coisa. Me pareceu o apelo dolorido da mulher que teme que seu homem não seja capaz de vê-la em sua inteireza. por isso ela começa: Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo". Olha-me de novo e me dê a liberdade da noite e da imperfeição. "Olha-me de novo. Porque esta noite/Olhei-me a mim como se tu me olhasses". Olha-me, porque me vendo através de seus olhos, descobri-me outras, tantas; descobri-me água e terra, fogo e ar. Te olhei e o meu desejo por ti me prendeu ao chão, ao barro, ao imoldado. Então, olha-me de novo para que possamos dar forma a esta matéria de que somos feitos. Olha-me de novo para revivermos o gênesis.

Trata-se de um poema de amor e desejo. Mas agora estou mais marcada pelo apelo pungente que, no fundo, é o apelo que nos fazemos reciprocamente, cotidianamente, mudamente: Olha-me de novo. Porque todos entendemos que somos terra. E que um olhar atento nos faria novos, outros, restaurados.

O pedido desesperado dessa mulher apaixonada é o nosso próprio: olha-me de novo para que eu não me acostume com minha própria imagem desgastada, refletida em seu olhar. Olha-me com olhos novos. Olha-me de novo porque não sou sempre a mesma...

O poema é outra forma de dizer aquilo que Ana Cristina César também diz: "Você me ama? Então se concentre".

Olhar de novo exige concentração. Resumindo toda essa falação proponho-nos um novo mandamento: olhemo-nos de novo.

Imagem: "O fazer artístico", Paula Lyn Carvalho. Em: http://www.superimagens.com/sp/galeria/

13 maio, 2008

Fausto

Sábado passado estive em São José dos Campos. Além de visitar minha mãe, desta vez eu também tinha uma razão especial para estar lá: tinha sido convidada pela minha querida professora de português para ser jurada no Festival de Poesias do colégio onde estudei durante todo o colegial e do qual tenho tantas recordações.

O programa por si só rescendia a saudosismo - ir ao colégio, estar num festival de poesia (do qual participei uma única vez, para a felicidade dos jurados e do público, já que as musas da poesia nunca foram muito com a minha cara...). Mas sobretudo eu tinha um objetivo inconfesso: rever o Fausto.

O Fausto, além de ter sido meu professor de Geografia, foi principalmente meu diretor de teatro. Na verdade, ele era (e ainda é) diretor do grupo de teatro do colégio, mas nem por isso menos meu que enchia tanto a paciência dele, com minha presença insistente na porta da sala dos professores e as inúmeras cartas e bilhetes que enviava para ele (se serve de conforto, meu querido, os períodos mais intensos da minha vida estiveram marcados por essa fúria missivista, uma certa incapacidade de conter o desejo de comunicar a descoberta do mundo).

Depois de chegar ao colégio, encontrar a C., descobrir onde e o que teria que fazer, não demorou muito até ele aparecer: tão ou mais querido do que nunca. Fiquei tão feliz em vê-lo, tão feliz...que não queria mais largá-lo. Abraçá-lo foi como percorrer um longo caminho de volta.

E fiquei pensando se de vez em quando a gente não evita rever as pessoas queridas para não perceber a imensa falta que elas nos fazem. Fiquei pensando se o reencontro mais constante com quem amamos não tornaria a vida de todo dia infinitamente insuportável pois a quem interessam tantos detalhes, tantas "coisinhas" se o que vale mesmo a pena são esses momentos em que a gente se reconhece no outro, se dá conta de que temos passado, presente e futuro - cintilam um milhão de possibilidades pelo simples fato de que nos lembramos que não estamos sozinhos no mundo: estão lá aqueles olhos, aqueles braços, aquela presença que significa estar em casa.

Na crônica "Pequenas Epifanias", o Caio Fernando Abreu diz da felicidade lançada sobre a vida por instantes em que relampeja uma possibilidade de amor - a esperança que se incorpora a nós e nos torna menos sós...Faz como o amor pro João Cabral, nos "Três mal-amados" - come a fome, a dor-de-cabeça e o medo da morte.

Reencontrar o Fausto sem dúvida significou para mim uma pequena epifania - a possibilidade de ter história, de estar marcada pela existência de alguém, de ter construído vínculos tão fortes, tão fortes que sobrevivem ao tempo, à distância e à ausência.

09 maio, 2008

Sobre vinte e um gramas


Algumas pessoas saíram no meio da projeção, incomodadas com a violência, reclamando do “peso” do filme (não, não vou tirar sarro dizendo que é leve, só 21 gr). Mas eu gostei do filme, não achei pesado, nem violento. E o Edu me disse que um crítico escreveu que o filme é sobre vingança. Também não acho.

Acho que o filme é sobre a luta que a gente trava com a vida – é um filme sobre a permanência e a mudança; sobre as possibilidades de continuar vivendo e a paralisia; sobre aquilo que a gente recebe por graça e aquilo que a gente se morde para ter. Eu acho que é um filme sobre a vida não dar bola para a gente e seguir seu curso – e é por isso que no meio da vida tem a morte e no meio da morte tem a vida.

Tem um homem que está morrendo e não morre mais, mas depois acaba morrendo. Tem uma mulher que estava morrendo e foi salva pela vida das filhas mas que depois quase perde tudo quando estas morrem para ganhar a vida de novo ali adiante. Tem outro homem que se salvou ganhando a vida eterna e depois a perdeu ao tirar algumas vidas mas que depois, num encontro de todos esses mortos-vivos, ganha vida de novo, não a eterna, mas essa mundana e transitória mesmo.

E toda a tragédia e toda a alegria brotam desse mesmo esforço – que é de todos os personagens – em recusar o que a vida lhes reserva. É o coração novo – graça – e o desconforto com ele que levam Sean Penn a procurar e encontrar Naomi Watts. É o encontro com ele, e a recusa progressiva da felicidade que poderia advir disso, que faz com que ela se perca, no esforço de vingar-se da vida por sua perda. É isso que a leva até Benicio del Toro, que não pode mais viver consigo mesmo e por isso se afasta de todos os laços – suportes da insuportável memória. E é o encontro com ele – é o encontro de todos esses personagens, desgraçados no sentido literal do termo pois perderam as suas graças – que vai mudar tudo de novo.

Se há algum “peso” da narrativa do filme é a sua semelhança com a trajetória dos personagens bíblicos. Como já mostrou Auerbach, comparando Ulisses e Abraão, enquanto o personagem de Homero se desloca no espaço para viver aventuras e retornar ao ponto de partida inteiro, ileso, Abraão verdadeiramente sofre, verdadeiramente goza, verdadeiramente vai ficando marcado pela graça e pela punição divinas. Mas os personagens bíblicos, porque sofrem a miséria, vivem também a glória.

Então, acho que se trata de um filme que consegue falar com delicadeza dessa nossa condição – a vida é assim mesmo, nada é definitivo, as graças vêm e vão, as tragédias vêm e vão e – também à semelhança da narrativa bíblica – jamais saberemos as intenções ocultas por detrás do que nos acontece (se as houver). Por isso, talvez pudéssemos pensar que não adianta tanta luta. Mas aí, deixaríamos de ser humanos.


* Texto escrito há um tempão - quando 21 gramas estava em cartaz.

Imagem: http://www.kboing.com.br/papeldeparede/m_papeldeparede.php?papel=7530sagrado_coracao

01 maio, 2008

Há um certo desbalanço na maneira com que atualmente temos levado a vida: deixamos de marcar, ritualizar as celebrações de vida e assim ficamos com a incômoda impressão de que só há perdas e mortes a celebrar.

Ultimamente tenho sentido necessidade de revisitar alguns dos meus autores prediletos, entre eles o Walter Benjamin. E ontem me lembrei de um texto da Jeanne-Marie Gagnebin sobre os anjos nos textos do Walter Benjamin.

Lá nas "Teses sobre o conceito de história" aparece o comentário sobre o quadro de Klee, o anjo tosco e deformado, que tem os olhos voltados para o passado mas que é impelido vigorosamente pela tempestade do progresso na direção do futuro. É um anjo caído, mundano, que não vê sentido no passado porque não é capaz de estabelecer uma ruptura no presente, distinguindo um momento em que os acontecimentos se encadeiam, ganham sentido e humanidade.

Já em outro texto - Infância Berlinense - o anjo não é mais do que uma brisa que sopra, trazendo o "pressentimento de uma outra felicidade possível" que não esta que escolhemos para nós.

Ambos os anjos são impotentes uma vez que nesse mundo não há espaço para eles - por isso são toscos, incapazes de fazer cumprir a mensagem que vêm anunciar. Como a Jeanne-Marie sugere, radicalizando a sugestão de Benjamin, são os homens que precisam agora ajudar estes anjos a concluírem sua tarefa.

Esta mensagem celebra os seis anos de vida em comum entre Edu e eu. E por mais que seja estranho escrever uma mensagem de celebração falando de desequilíbrio e anjos impotentes, o início da convivência com o Edu - assim como os primeiros momentos de encontro com alguém que começamos a amar - tinha muito este caráter de brisa. Cada novo dia ao lado dele fazia pressentir uma felicidade plena, infinita e eterna.

Depois de seis anos, um mestrado e um doutorado a meio caminho, a perda de um pai, o nascimento de um filho e mais uma porção de pequenas e grandes coisas que se acumulam nessa vida em comum, bem...a felicidade plena parece um pouco distante. De vez em quando viramos nós mesmos o anjo de Klee, incapazes de sair da tempestade da linearidade do tempo, impotentes para ver com calma o que realmente importa.

Agora, nossa possibilidade de redenção parece novamente se concentrar nos ouvidos e nos olhos atentos, à espera de que uma brisa traga consigo o canto de um anjo, que abra de novo as portas do tempo e do espaço e deixe entrever outra felicidade possível - a realização das promessas dos tempos do começo.

Trazer o passado pro futuro, misturar transitório com eterno, acreditar que pequenas epifanias podem ser tão transformadoras quanto grandes acontecimentos, abrir espaço para celebrar os fatos da vida carregando de sentido a morte - Edu, querido: depois de seis anos, continuo querendo fazer tudo isso do teu lado, para que sejamos mais potentes que os anjos do Benjamin, para que sejamos mais humanos, para que a vida valha a pena, para que transbordemos as margens do possível e da morte.

* Este texto é de novembro do ano passado.
** Como é dia do trabalho, estou trabalhando. Por isso, hoje não tem texto novo. Quem sabe amanhã?
*** E o Edu me deu mesmo o CD com os poemas da Hilda Hilst musicados pelo Zeca Baleiro. Quero escrever sobre isso, mas desde já adianto que a Angela Ro Ro é mesmo tudo de bom nessa vida!

Imagem: Angelus Novus, Paul Klee

30 abril, 2008

Quando o amor acabou

(...) em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba”. (Paulo Mendes Campos)

Começara com um renovado impulso de mergulhar nas palavras – procurando novos autores, novos livros, novas maneiras enfim de reter o fluxo da vida transformando-os em prosa ou poesia. E bebia as palavras como se fossem a mais pura verdade, espantada com o novo mundo que ia se abrindo, dentro dela, à medida que as palavras escorriam pelo seu interior.

Com essas eternidades correndo nas veias, veio em seguida a vontade de escutar música o mais alto possível. Ouvia a mesma voz por horas a fio, tecendo delicadezas por dentro para dar corpo à impossibilidade de amar.

Veio ainda o desejo sempre insatisfeito de rearrumar os móveis, rearranjar as roupas, jogar fora tudo o que estava sobrando. Abrir espaço, desprender-se, tornar-se livre de todas as coisas que haviam inventado para viver e que agora haviam se tornado entulho no meio do caminho. Ela quase podia ver – com seu novo olhar de quem descera ao fundo com os olhos bem abertos para não perder nenhum detalhe – os sentimentos que nutriam um pelo outro encaixotados, empoeirados, empilhados à espera de uso no meio da sala, do quarto, do banheiro e até da cozinha.

As coisas aconteciam rápido, enxurrada, levando e lavando com uma violência em tudo contrária à pasmaceira à qual estavam habituados. Pelo imprevisto da irrupção, ela não tivera forças para se conter e, quase sem escolha, foi se deixando tragar.

Havia escolha. Mas ela não resistiu.

29 abril, 2008

Aprendendo a sentir



Desde que li "Perto do Coração Selvagem", da Clarice, um trecho me assombrava vez-em-quando. É assim: "Eu me sinto segurando uma criança, pensou Joana. Dorme, meu filho, dorme, eu lhe digo. O filho é morno e eu estou triste. Mas é a tristeza da felicidade, esse apaziguamento e suficiência que deixam o rosto plácido, longínquo. E quando meu filho me toca não me rouba pensamento como os outros. Mas depois, quando eu lhe der leite com estes seios frágeis e bonitos, meu filho crescerá de minha força e me esmagará com sua vida. Ele se distanciará de mim e eu serei a velha mãe inútil. Não me sentirei burlada. Mas vencida apenas e direi: eu nada sei, posso parir um filho e nada sei. Deus receberá minha humildade e dirá: pude parir um mundo e nada sei. (...) Meu filho se moverá em meus braços e eu me direi: Joana, Joana, isso é bom. Não pronunciarei outra palavra porque a verdade será o que agradar aos meus braços".

Talvez porque pouco depois minha sobrinha tenha nascido e essa "verdade de carne" tenha ficado impressa em meus próprios braços, talvez pela beleza e simplicidade da forma que a Clarice encontrou para dizer da maternidade, esse trecho volta e meia me voltava à cabeça. E depois que o Rodrigo nasceu, várias vezes me assusta essa mesma constatação: pude parir um filho e nada sei. Me assusta e me traz paz, ao mesmo tempo - me liberta da necessidade de saber ou pôr em palavras aquilo que vou aprendendo; me torna possível experimentar a vida de outro jeito: mais um presente que o Rodrigo me dá.

Então, meu desejo (de Natal e de ano novo) é que cada um de vocês também encontre momentos-pessoas-experiências que lhes deixe marcado na alma e no corpo essa plenitude das verdades que não precisam ser postas em palavras e essa imensa de liberdade de, não sabendo, simplesmente viver.

* Este texto foi escrito nas festas de 2005.

Imagem:
http://www.art.com/asp/default-asp/_/posters.htm?%20&ui=35189404C390492B931848EFC17255F0

17 abril, 2008

As margens do feminino

Até que me provem o contrário, tenho para mim a Hilda Hilst como nossa poeta mais bem resolvida - e por "bem resolvida" entenda-se a capacidade de reunir conteúdo e forma sem deixar sobrar nada.

Faz um tempo já que pensava em escrever sobre ela. Mas hoje, depois de ler um texto que José Castello escreveu sobre ela e que se chama “Hilda Hilst ou a derrota das palavras”, é que veio essa urgência de escrever sobre ela agora.

Que as palavras são sempre insuficientes, a gente sabe. Tem coisa que é mesmo inominável: poderíamos dizer, escrever infinitos tomos e não seria suficiente para nomear – um encontro, um adeus, um filho nos braços, um carinho antes que se feche o caixão...Existem momentos em que tudo é tão maior que dizer é impossível.

Quem me conhece sabe: sofro de um profundo amor pelas palavras. Gosto da liberdade que elas me dão, gosto do esforço da pesquisa pela palavra exata, pelo lugar exato, gosto de como elas sabem, de sua textura.

E é por isso que gosto tanto da poesia da Hilda Hilst. Do jeito que ela arranja as palavras, transbordando o seu vazio, ensinando a palavra a ser outra, aprendendo com a palavra a ser outra.

Um dos poemas que mais me impressiona diz assim: Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo. Porque esta noite/Olhei-me a mim, como se tu me olhasses./E era como se a água/ Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio/ E deslizando apenas, nem tocar a margem. /Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra”. Trata-se de um pedido, para o amante, para o leitor, para que não se preocupe em conforma-la, em entende-la, pois seu poema é ele mesmo inominável e o que quer é escapar do leito, é transformar água em terra e terra em água. Transfiguração – e afinal também não é disso que é feita a poesia?

A força da palavra é imensa: “Se te pronuncio/ Retomo um Paraíso/ onde a luz se faz dor/ E gelo a claridade”.

Não há, de maneira alguma uma derrota das palavras. Porque se aceitarmos que ela pode ser derrotada, nada mais nos resta – nem consolo, nem colo, nem a possibilidade de comunicação.

***

Tinha começado a escrever esse texto há algum tempo. Depois, achando que a poesia da Hilda merecia um cuidado maior, me impus a tarefa de reler seus livros para ilustrar melhor esses pontos – aí, já sabem: fase de terminar dissertação, festas de fim de ano, e acabei esquecendo ou adiando.

Mas hoje, ao abrir as notícias e descobrir sua morte, não é possível deixar passar em branco o vazio que ela deixa na nossa poesia. Sem a Hilda Hilst, todos nós ficamos mais silenciosos, mais pobres mesmos de imagens e palavras que tão bem tateavam – e nesse tatear construíam e ampliavam – as margens de estar vivo. Então, essa mensagem fica como lamento, mas ao mesmo tempo como a reafirmação de que, com sua poesia, seus contos, suas novelas “pornográficas”, Hilda tornou nosso mundo mais habitável, mais humano. Essa mensagem inacabada fica como o reconhecimento do imenso poder criador da palavra, de que Hilda Hilst nos deixa testemunho.

* Queridos, Rodrigo está doente e precisando da mãe 24 horas por dia. Por isso hoje vamos de texto requentado, só um bocadinho editado, escrito por ocasião da morte da Hilda Hilst (e lá se foram 4 anos...).

** E o engraçado é que se tivessse me lembrado deste texto antes, teria postado no lugar daquele sobre Cem Anos de Solidão já que este tem tudo a ver com o próprio nome do blog.

14 abril, 2008

Recordar é viver? (ou Flor de Obsessão)

Coincidentemente ou não, esta noite sonhei com formigas. Montes delas, saindo por debaixo dos tapetes da casa. Ponho em dúvida a coincidência porque tenho pensado em como entabular conversa sobre o tema “cabeludo” que o Maurice me arrumou. E aí, tendo sonhado com formigas, lembrei-me de um livro que o Maurice nunca vai ler: Cem anos de solidão.

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Contando os cem anos da saga familiar dos Buendía, o livro é a narrativa da tragédia dos destinos escritos. Todos os personagens da família estão marcados, de algum modo, por uma espécie de incomunicabilidade que torna inescapável a sua solidão. Ao fim do livro, vejam só que bela imagem, o desfecho se cumpre ao mesmo tempo em que o último da linhagem está lendo o livro no qual um cigano escrevera o destino inteiro dos Buendía. E a fatalidade se anuncia no momento no qual o futuro se realiza no presente, sem mais possibilidades de mudanças. É esse o momento em que a história inteira da família é banida da memória dos homens.

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As imagens são pefeitas para pensar sobre o que o Maurice pediu: solidão e finitude, fatalidade e inelutabilidade.

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O Maurice costuma dizer que eu leio mundo pelo viés da esperança; que, não encontrando razões para acreditar, eu as invento. Para mim, os encontros sempre fazem valer a vida e recriam um mundo no qual a vida é graça – no sentido mais epifânico do termo.

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“...Provaram um do outro no colo da manhã. E viram que isso era bom”. (Caio Fernando Abreu).

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Voltando ao Garcia Marquez, a família Buendía inteira está condenada pela crença de que a solidão e a tragédia são suas condições essenciais. A vida, assim, torna-se simplesmente espera de que a dor se cumpra. Nenhum deles consegue amar de fato porque nenhum deles consegue se vincular ao outro – estão todos fadados à miséria de sua solidão e o estão por já não crerem na superação desta condição.

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Somos homens, finitos, mortais, de algum modo incomunicáveis. Tal é a tragédia de nossa condição. No entanto, temos a nosso alcance a possibilidade de criar maneiras de tentar superar a finitude, a mortalidade e a incomunicabilidade: o desejo, a arte, amores, amizade...Momentos de encontro no qual alguma grandeza relampeja em nossa condição. Foi o Maurice mesmo quem me ensinou: grandeza e miséria...

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Os Buendía, incapazes de se pensarem para além dos vaticínios repetidos por cem anos, se extinguem da memória dos homens no instante em que permitem que a tragédia se realize. Mas para impedir que ela se realizasse, seria preciso que algum deles tivesse a coragem de Sísifo, de recusar sua condição, e instaurasse neste ato criador, uma outra forma de estar vivo.

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Para conquistarmos o direito de pertencer à memória dos homens, é preciso estar entre os homens, viver entre eles. Admitir o encontro como possibilidade porque é dos encontros que brota aquilo capaz de entreabrir as portas do tempo e do espaço, entreabrir as portas da solidão e da finitude. E é preciso dizer que não me refiro apenas ao amor erótico, mas a todas as formas de encontro. Também falaria de amizade, mas o Mauricio pode falar disso muito melhor do que eu.

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Então, para não ocupar muito mais do espaço que o Maurice tão generosamente me abriu, é mais ou menos isso: o fato de sermos sós, de sermos filhos do tempo, não nos rouba, não nos deve roubar, a grandeza do encontros. Mesmo que estes sejam fugazes, mesmo que não sejam eternos, mesmo que sejam as pequenas epifanias. A vida se alimenta dela mesma e para estar vivo é preciso lutar – com nossa condição, com nossos parcos instrumentos de comunicação (“Lutar com palavras é a luta mais vã”, Drummond). Fugir dos cem anos de solidão reinventando vaticínios. Eu, por exemplo, gostaria de pôr em palavras os fios de beleza que escorrem nos momentos de encontro. Desejando que eles teçam para nós outro destino, onde caibam felicidades, alegrias, encontros. Ou pelo menos sua possibilidade.

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“O amor translada ao corpo os atributos da alma e esta cessa de ser uma prisão. (...) O amor mistura a terra ao céu: é a grande subversão. Toda vez que o amante diz: “eu te amo para sempre”, ele transfere a uma criatura efêmera e cambiante dois atributos divinos: a imortalidade e a imutabilidade. A contradição é, na verdade, trágica: nossa carne se corrompe, nossos dias estão contados. Somos filhos do tempo e ninguém escapa da morte. Contudo, amamos, com o corpo e com a alma, de corpo e alma. (...) Mas o amor é a resposta que o homem encontrou para olhar de frente a morte. Pelo amor roubamos ao tempo, que nos mata, instantes que ora transformamos em paraíso, ora em inferno. Para além da felicidade ou da infelicidade, o amor é, sobretudo, intensidade. Ele não nos presenteia com a eternidade, mas com a vivacidade; o momento durante o qual se entreabrem as portas do tempo e do espaço. No amor tudo é dois, e tudo aspira a ser um”, (Octavio Paz).

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É necessário dizer ainda que este texto é dedicado ao Edu, com quem o encontro sempre alarga as margens de estar viva.


*Essa foi a minha primeira tentativa de escrever usando o que eu achava que cabia numa "linguagem de blog". Tinha sido um pedido feito pelo Maurice e não tive como recusar. É um texto antigo.
** O Maurice não apenas decidiu ler Cem Anos de Solidão, como ainda mudou de idéia sobre a língua espanhola e comprou uma edição em espanhol.