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26 junho, 2012

experiências

"A experiência, e não a verdade, é o que dá sentido à escritura. Digamos, com Foucault, que escrevemos para transformar o que sabemos e não para transmitir o já sabido. Se alguma coisa nos anima a escrever é a possibilidade de que esse ato de escritura, essa experiência em palavras, nos permita liberar-nos de certas verdades, de modo a deixarmos de ser o que somos para ser outra coisa, diferentes do que vimos sendo.
Também a experiência, e não a verdade, é o que dá sentido à educação. Educamos para transformar o que sabemos, não para transmitir o já sabido. Se alguma coisa nos anima a educar é a possibilidade de que esse ato de educação, essa experiência em gestos, nos permita liberar-nos de certas verdades, de modo a deixarmos de ser o que somos, para ser outra coisa para além do que vimos sendo".

(Jorge Larrosa e Walter Kohan, na apresentação da Coleção Educação: Experiência e Sentido, coordenada por ambos na Editora Autêntica).

11 dezembro, 2008

Ternura

Por fim, ontem foi muito gostosa a contação de história. Principalmente porque tinha o “coelho da cartola” do tal do bolo de lobo fofo :-)

Cheguei e as crianças já estavam me esperando na roda, todos lindos. E o Rô, abriu um baita sorriso quando me viu, mas nem veio correndo me abraçar, como de costume. Ficou lá na roda, para ouvir a história.

Ele não tinha visto nem a caixa, nem os fantoches de papel e, portanto, estava tão curioso quanto as outras crianças. Ele só sabia do bolo, mas tínhamos combinado dele não contar pros amigos.



Enquanto decidíamos se eu ia contar na roda ou se íamos fazer de um outro jeito, para que eles não pudessem olhar dentro da caixa, eles ficavam me chamando. O P.G. ficava “Fabiaaana; Fabiaaaná!” e ao ouvi-lo, o U. também começou a me gritar. A A.M., que é uma doçura de menina, me olhava desconfiada mas com os olhos sorrindo. Como eles são queridos! Ainda nesse meio tempo, o F. Veio conversar comigo, me explicando que aquela caixa era um presente de aniversário. Aí perguntei de quem era o aniversário e ele me explicou, paciente, “de ninguém...”.

Bom. Aí fui começar a história. Me apresentei, expliquei para eles que a história que eu ia contar, a minha mãe contava pra mim, mostrei a minha edição do livro (toda detonada, precisando reencadernar). E comecei a história. Mal tinha falado o nome, eles começaram: “Eu tenho esse livro!”, “mas a chapeuzinho é vermelho!”, “será que tem lobo nessa história?”, “ah, tem, e ele vai comer a chapeuzinho!”.

Alguns palpites mais, respondidos, e continuamos. Como a história é bem ritmada, até que eles ficaram mais atentos do que eu esperava. A maior questão mesmo é segurar os palpites, porque eles ficam pirando na continuação da história!


Aí, apareceu o lobo, a Chapeuzinho perdeu o medo, e na hora em que o lobo fala lo-bo umas vinte e cinco vezes, eles me ajudaram, fazendo coro: lo-bo-lo-bo-lo-bo-lo-bo-lo... E então chegou o momento do coelho da cartola: quando a Chapeuzinho manda ele parar, e ele vira um bolo de lobo fofo, tirei da caixa o bolo de chocolate, todo colorido e com vela em cima! A cara deles!!! Eles ficaram boquiabertos e começaram a bater palmas. E aí claro que as últimas páginas foram esquecidas, porque eles levantaram e se amontoaram em volta do bolo. Aí todos foram lavar as mãos – e nessa hora o Rô virou pra mim, super dono das regras do espaço dele, “não pode comer de mão suja, viu?”.

Fui cortando e distribuindo o bolo, tentando driblar as tentativas de sedução, ali no meu ouvido: “Fabiana, primeiro eu, tá?” (e nem era o Rô). Nisso, a A. M. recusou uns três pedaços que ofereci a ela (mas não saía do meu lado). Aí, eu resolvi tentar: “A. vou te contar um segredo: esse bolo de lobo eu fiz com chocolate!”. Resolvido o problema! Ela começou a rir e aceitou o pedaço... As outras crianças entraram na fantasia, mas estavam contentes da vida, comendo perna, orelha, barriga e olho de lobo. Tão bom quando a gente enfrenta o medo e o transforma em bolo de chocolate...

Sei que o Rô estava felicíssimo. E hoje de manhã, pediu para contar e me contou a história umas três vezes. Aí, em um dado momento, parou e me disse: “mãe. Eu 'tou chateado”. Perguntei por que e ele me explicou: “é que eu queria que você fosse de novo na escola, contar a história da chapeuzinho, pra gente comer de novo o bolo do lobo!”.

Já na segunda-feira, em que fui de manhã na aula de capoeira para a qual os pais foram convidados, tinha percebido como eles ficam felizes de terem os pais no espaço deles. É uma explosão de alegria! Tão bonito!

Essas visitas são muito marcantes, ainda mais com essa partilha de histórias...A proposta fechou o ano – que já foi tão intenso e bonito para esse grupo – com chave de ouro. Foi muito emocionante.

* ontem à noite, também rolou o primeiro encontro do grupo do Rô sem ser em festa de aniversário: alguns amigos se encontraram numa pizzaria. Aí, a mãe da L. me contou que foi contar a história da D. Baratinha (que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha). Ela levou uns apetrechos para contar a história e disse que nunca imaginou que eles iam pedir para ver quanto dinheiro ela tinha na caixinha! Mas eles pediram e ficaram muito desconfiados ao ver que estava vazio. Ela apelou para a imaginação “tem um monte de dinheiro, sim, olhem!”, mas eles parece que não acreditaram não...Falei que era um público difícil: eles não deixam nada barato!

21 abril, 2008

A paixão de conhecer o mundo



Feriados prolongados com chuva, frio e criança pequena podem ser bem cansativos. Ainda mais se a criança em questão saiu de uma doença chatinha que a deixou cheia de açucar e mimos...
Mas por outro lado, essa convivência mais intensiva é tão gostosa. Especialmente porque dá para acompanhar nas coisas mais pequenininhas o quanto o Rô está crescendo.

O título do post é o nome de um livro da Madalena Freire. Eu li pela primeira vez há mais de doze anos, enquanto fazia magistério, e fiquei encantada. Para mim, moça do interior, que lidava com uma realidade completamente diferente nos meus estágios, foi uma grande alegria conhecer de maneira tão concreta outra maneira de educar, ainda mais crianças tão pequeninas.
E o termo que ela usa "paixão de conhecer o mundo" ficou sendo para mim o jeito mais preciso de dizer da relação com o conhecimento que uma escola deveria ser capaz de despertar em seus alunos.

O tempo passou e eu nunca cheguei a trabalhar com educação infantil. Logo que tinha terminado o magistério, não me sentia nem um pouco segura para trabalhar com criança pequena, mesmo tendo certeza que eles aprendem "apesar" da gente. Para mim, esses momentos tão fundamentais (As Etapas Decisivas da Infância, de que fala a Françoise Dolto) tinham que ser vividos junto a professores mais experientes e não junto a uma moleca de 18 anos, sem maturidade, sem repertório...

Mas a vida dá voltas e quando já estava quase terminando a faculdade, o primeiro trabalho que fui fazer foi de educação - educação no trabalho, com cooperados de uma cooperativa cheia de ambigüidades, num intenso processo vivido com mais 7 pessoas maravilhosas e sob supervisão da Fátima Freire Dowbor. Daquelas experiências transformadoras, que certamente ecoa até hoje na minha prática e reflexão. E uma experiência que também me ajudou a refazer meus laços com a educação, com essa responsabilidade tão imensa de conduzir um processo junto com um grupo de pessoas (crianças ou não).

Depois que o Rodrigo nasceu, passei para o outro lado da escola - não mais como educadora, mas como mãe. O Rodrigo ficou em um berçário dos quatro meses até pouco mais de um ano. Quando ele começou a se mover, a compreender melhor as coisas, resolvemos mudá-lo de escola. O berçário em que ele estava tinha umas coisas - comuns em grande parte das escolas infantis, mas que mesmo assim - me incomodavam. As principais eram deixar que as crianças chamassem as professoras de tia e colocar Xuxa para as crianças ouvirem. O Edu diz que é chatice minha, mas eu lia essas coisas como indicadores de que se tratava de uma prática sem reflexão. E como raios prática sem reflexão poderia levar à paixão de conhecer o mundo?

Procuramos algumas escolas e, por sorte, encontramos uma bem pertinho, que tinha um espaço amplo e gostoso e profissionais bem preparados. Foi a melhor coisa que fizemos, mudar o Rô para essa escola.

No ano passado, que o Rô estava no G1, a gente já percebia como o Rô gostava e se encantava com as coisas que ia aprendendo. Tão pequenininho e ele se envolvia com os temas, as histórias, as brincadeiras...E esse ano, em que ele já fala pelos cotovelos, dá para perceber como o experimentar nessa fase se liga à imitação, ao esforço de compreender as sensações do outro, os significados do que se diz e como se diz. Acho um barato.

Porque de um lado tem essa descoberta das sensações e sentimentos - e aí o trabalho nosso e da escola de ajudá-lo a nomear essas coisas - e tem a descoberta do próprio mundo - as músicas, brincadeiras, bichos, livros, linguagens. É tão bacana. Em vários momentos me pego boquiaberta diante desse olhar curioso que ele tem para a vida. É claro que é coisa de criança, mas para mim também é clara a influência que a escola e as pessoas que nela estão tem para a maneira com que isso se expressa. Olho pro Rô e sinto que ele é livre, que ele já tem algumas ferramentas para se colocar no mundo: ele já está no mundo. E me leva pela mão com ele, para eu ensiná-lo, para ele me ensinar.

O que mais pode querer uma mãe?


Fonte da imagem: http://jardimdaalegria.blogspot.com/2007/03/educao-infantil-artes-pequenos-artistas.html