Mostrando postagens com marcador inacabados. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador inacabados. Mostrar todas as postagens

08 julho, 2009

(...)

Era aquela lua vermelha que lhe tornava assim tão aguda. Ela era silêncio. E uma dor rasgada lhe habitava o corpo. “Agora sou pássaro”, pensou baixinho, abrindo os braços antes que o pensamento se completasse. O corpo sabia mais do movimento de liberdade que transfigurava a Mulher. Ela estava doente de ser prisioneira e lutava com desespero para não ser quem era. Fazia o exercício do ilimitado e nunca então esbarrava tanto em limites. A dor moradora de seu corpo às vezes dormia, outras sonhava ser prazer, mas na maior parte do tempo apenas latejava. Doendo-doendo-doendo. Incansavelmente dor.


“Agora sou flor”, pensava, seca, tentando segurar a vida entre os dedos. Mas se era botão, arrancavam-na. E se já era flor, fazia-se outono e logo estava no chão. Durante a queda bailarinava, mas apenas até estilhaçar-se, seca e opaca.


A Mulher estava aos pedaços sob a lua tão vermelha quanto o líquido que escorria dentro dela, tão vermelha quanto o fogo que ardia dentro dela, tão vermelha quanto os seus olhos secos de não chorar. Mulher aos pedaços. Seca. Árida. Nem pássaro nem flor.


Palmilhava o chão sem pressa, sem onde ir. Tudo era silêncio sob a lua vermelha.


13 maio, 2008

Para esquecer

Ainda hoje, vezemquando, no finalzinho do dia, com a descida da noite desce também uma sombra por detrás do coração, como se ele batesse mais pesado.

E ainda hoje, um susto quando topo com pedaços de você - uma boca no rapaz da fila; a textura da voz no balconista da farmácia; as mãos no frentista do posto. Um susto e uma alegria ao mesmo tempo - nos seus pedaços neles reencontrando as razões de tanto amor e desejo.

Ainda hoje - tanto tempo - lembrar de você é perder você de novo.


30 abril, 2008

Quando o amor acabou

(...) em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba”. (Paulo Mendes Campos)

Começara com um renovado impulso de mergulhar nas palavras – procurando novos autores, novos livros, novas maneiras enfim de reter o fluxo da vida transformando-os em prosa ou poesia. E bebia as palavras como se fossem a mais pura verdade, espantada com o novo mundo que ia se abrindo, dentro dela, à medida que as palavras escorriam pelo seu interior.

Com essas eternidades correndo nas veias, veio em seguida a vontade de escutar música o mais alto possível. Ouvia a mesma voz por horas a fio, tecendo delicadezas por dentro para dar corpo à impossibilidade de amar.

Veio ainda o desejo sempre insatisfeito de rearrumar os móveis, rearranjar as roupas, jogar fora tudo o que estava sobrando. Abrir espaço, desprender-se, tornar-se livre de todas as coisas que haviam inventado para viver e que agora haviam se tornado entulho no meio do caminho. Ela quase podia ver – com seu novo olhar de quem descera ao fundo com os olhos bem abertos para não perder nenhum detalhe – os sentimentos que nutriam um pelo outro encaixotados, empoeirados, empilhados à espera de uso no meio da sala, do quarto, do banheiro e até da cozinha.

As coisas aconteciam rápido, enxurrada, levando e lavando com uma violência em tudo contrária à pasmaceira à qual estavam habituados. Pelo imprevisto da irrupção, ela não tivera forças para se conter e, quase sem escolha, foi se deixando tragar.

Havia escolha. Mas ela não resistiu.