03 dezembro, 2015

dor

(porque não dá, não dá para falar de flores).

(os dois poemas são da nayyihra waheed, ambos de salt., ambos traduzidos por mim).

não estar seguro
sobre a terra.
simplesmente
por conta
da cor da
sua pele.
como uma
existência sobrevive
a isso.

- trayvon martin

você já
escutou
uma mulher negra
chorar sobre o
corpo assassinado de
seu filho.
é a di-
visão de átomos.
são bilhões
de
vozes gri-
tando os
nomes de suas

crianças
através
de seu lamento de morte.

-  trayvon martin ii
---

to not be safe
on the earth.
simply
because
of the color of
your skin.
how does a
being survive
this.
- trayvon martin

have you ever
heard
a black woman
weep over her
skinmurdered
child.
it is the split-
ting of atoms.
it is billions
of
voices screa-
ming their
children's
names
through
her death wail.
-  trayvon martin ii

29 outubro, 2015

desertos

Foto: Mario Ruiz. (no El País Brasil)

que o deserto às vezes é só a espera da umidade. que demora, demora, demora. mas quando chega encontra as sementes mais-que prontas para a floração. e o deserto vira mar: horizonte de flor e cor. fluindo por entre as montanhas. convidando a gente a pegar uma folha, dobrar e dobrar e dobrar até voltar no tempo, em que qualquer papel virava chapéu e, mais umas viradinhas, um barco. convidando a gente a lançar o barco frágil nesse deserto mareado de flor, a flutuar como as últimas esperanças.
tenho certeza (escuto daqui.) que cada flor sussurra ao vento que trouxe a chuva: "you were three years of water" (nayyihra waheed).
parece o fim do mundo. parece o começo do mundo.

23 outubro, 2015

A Cozinha

(de Warsan Shire. Teaching my mother how to give birth. Tradução: Fabiana Jardim)

Meio papaia e uma palma de óleo de gergelim;
 ultimamente, a cabeça do seu marido tem estado em outro lugar.

Tâmaras, leite de cabra;
 você quer abrandar o inchaço de sal.

Coco e ghee;
 ele beija atrás do seu pescoço no fogão.

Pimenta caiena e alecrim;
 você não pergunta a ele o nome dela.

Folhas de uva e azeitonas;
 você deixa que ele te levante pela cintura.

Canela e tamarindo;
 te deite na bancada da cozinha.

Amêndoas mergulhadas em água de rosas;
 seu marido está faminto.

Mangas maduras e limão com açúcar;
 ele tinha esquecido o seu gosto.

Pão doce e cominho;
 mas ela não consegue fazê-lo comer, como você.

21 outubro, 2015

dois poemas doloridos

(tradução: fabiana jardim)

nossa tragédia começa úmida.
numa sala de aula úmida.
com um livro didático úmido.
irrompendo em nós.
roubando-nos de nós mesmos.
um poema. de cada vez.

começa com shakespeare.

a lavagem a quente.
o ácido frio. de
homens e mulheres brancos mortos.
pessoas.

cada um uma tempestade.

batendo. em nossas jovens
casas
tornando-nos ilhas. isolamentos
fáceis.
até que estejamos tão assediados e
feridos
por uma definição de poesia que
tem pele branca e
nós não.
que escondemos nossas escaldaduras. nossos
doloridos.
atrás de nós mesmos e
aprendemos
poesia.
como trauma. como violência. como
apagamento.
mais um lugar em que não existimos.
mais uma forma de exílio
em que deveríamos louvar. honrar
nossa própria inanição.
os pedacinhos de lagnston. phyllis
wheatley.
e
angelou durante o mês de história
negra. são as migalhas. são os
pequenos botes.
que nos oferecem parco descanso.

ser afogado na
rejeição das nuances do
meu próprio ser
explosivo
extraordinário.
e que isso
seja
chamado
educação.
tirar fora o nome do meu
nome.
fora de onde minha poesia nativa
vive. em mim.
e
substituí-la por keats. browning.
dickson. wolf. joyce. wilde.
wolfe. plath. bronte.
hemingway. hughes. byron.
frost. cummings. kipling. poe.
austen. whitman. blake.
longfellow. wordsworth. duffy.
twain. emerson. yeats.
tennyson. auden. thoreau.
chaucer. thomas. raliegh.
marlowe. burns. shelley. carroll.
elliot…

(qual a necessidade de uma criança
negra ser tão embriagada de
brancura)

e então. estamos aqui. bebês
negros. venerando. alimentando
o glutão que é a literatura
branca. mesmo depois de morta.

- lavagem a quente (de njema)

nossa amargura
pela
áfrica.
é
o coração
atrás
do coração.
a dor sem
nome.

- amnésia (de Salt)

13 outubro, 2015

associação livre

(embora eu já até tenha usado o truque de juntar Drummond com a Nayyihra...).

Do Drummond:
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amor inóspito, o áspero
Um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte,
e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este é o nosso destino:
amor sem conta, distribuído pelas coisas
pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor
Amar a nossa mesma falta de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito e a sede infinita.


Da Waheed:
you were three years of water.

De mim:
Fechou os olhos por um instante, atenta a ouvir o que lhe ia por dentro. Para sua surpresa, sem tantos suportes - os filhos, a casa, a vida em comum - a decisão corria caudalosa por suas veias. Doce, fresca e úmida em meio à correnteza, nem era frágil a decisão, mas inteira. Quando abriu os olhos, pela primeira vez em tanto tempo sorria de um sorriso sem sombras. Sentiu a vida amaciar em seda. Tão subitamente quanto o susto que a havia lançado ao deserto, podia enfim molhar os lábios. Os olhos. As mãos.

12 outubro, 2015

em tempos sombrios

(tradução apressada de fabiana jardim)

ponha um pouco de mel e água do mar
ao lado da cama.
reconheça. que sua existência
necessita doçura e ablução.
que ela está dolorida.
que você está. enfraquecido*.

- orixás

* podia ser também - uma vez que ainda não encontrei em português uma solução para o convívio desses dois significados simultâneos (e especialmente tendo em conta outros poemas e a importância que ela dá ao cultivo da umidade e do macio):
que você é. suave.

put some honey and sea water
by your bed.
acknowledge. that your being
needs sweetness and cleansing.
that it is sore.
that your are. soft.

- orishas

(Nayyhira Waheed. nejma)

05 outubro, 2015

a diferença

(tradução: fabiana jardim)

sou uma onda negra
em
um mar branco.

sempre vista
e
desvista.

- a diferença

---
i am a black wave
in
a white sea.
always seen
and
unseen.

- the difference

(Nayyirah Waheed. Salt).


02 outubro, 2015

campo de flores*

flower work
is
not easy.
remaining
soft in fire
takes time.

(Nayyirah Waheed. Salt).

* o título do post (já que o poema não tem título) roubei do Drummond. Que diz algo parecido: "de uma grave paciência ladrilhar minhas mãos...". Podia também chamar "o trabalho desses tempos".

25 setembro, 2015

"montemos nos cavalos para escaparmos juntos do abatedouro global"

Paul B. Preciado

Parece que os gurus da velha Europa colonial estão ultimamente obstinados a querer explicar aos ativistas dos movimentos Occupy Indignados, aleijado-trans-bicha-intersexual e pospornô, que nós não poderemos fazer a revolução porque nós não temos uma ideologia. Eles dizem “ideologia” como minha mãe dizia “marido”. Ora, nós não precisamos nem de ideologia nem de marido. Nós as novas feministas não precisamos de marido porque não somos mulheres. Da mesma forma que não precisamos de ideologia porque não somos um povo. Nem comunismo nem liberalismo. Nem a ladainha católico-muçulmana-judia. Falamos outra língua. Eles dizem representação. Nós dizemos experimentação. Eles dizem identidade. Nós dizemos multidão. Eles dizem domesticar a periferia. Nós dizemos mestiçar a cidade. Eles dizem dívida. Nós dizemos cooperação sexual e interdependência somática. Eles dizem capital humano. Nós dizemos aliança multi-espécies. Eles dizem carne de cavalo nos nossos pratos. Nós dizemos “montemos nos cavalos para escaparmos juntos do abatedouro global”. Eles dizem poder. Nós dizemos potência. Eles dizem inclusão. Nós dizemos código aberto. Eles dizem homem-mulher, branco-negro, humano-animal, homossexual-heterossexual, Israel-Palestina. Nós dizemos: vocês sabem muito bem que seu aparelho de produção de verdades não funciona mais… De quantos Galileus precisaremos desta vez para reaprendermos a nomear as coisas nós mesmos? Eles nos proporcionam a guerra econômica a golpes de facão digital neoliberal. Mas nós não vamos chorar pelo fim do Estado-providência porque o Estado providência era também o hospital psiquiátrico, o centro de inclusão de deficientes, a prisão, a escola patriarcal-colonial-heterocentrada. É tempo de colocar Foucault na dieta aleijado-queer e escrever a Morte da clínica. É tempo de convidar Marx para um atelier eco-sexual. Nós não vamos encenar o Estado disciplinar contra o mercado neoliberal. Esses dois aí já fizeram um acordo: na nova Europa, o mercado é a única razão governamental, o Estado se torna um braço punitivo cuja única função é a de recriar a ficção da identidade nacional através do medo securitário. Nós não queremos nos definir nem como trabalhadores cognitivos nem como consumidores farmacopornográficos. Não somos Facebook, nem Shell, nem Nestlé, nem Pfizer-Wyeth. Não queremos produzir franceses, tampouco produzir europeus. Não queremos produzir. Somos a rede viva descentralizada. Recusamos uma cidadania definida por nossa força de produção ou nossa força de reprodução. Queremos uma cidadania total definida pela divisão das técnicas, dos fluidos, das sementes, da água, dos saberes… Eles dizem que a nova guerra limpa se fará com drones. Nós queremos fazer amor com os drones. Nossa insurreição é a paz, o afeto total. Eles dizem crise. Nós dizemos revolução.

(Daqui. O original em francês aqui). (Dá vontade de grifar o texto todo, mas tentei limitar meus grifos só àquilo que dava vontade de sair gritando).

14 setembro, 2015

dizer o indizível

1) O que eles fizeram ontem à tarde, Warsan Shire
Tradução: Fabiana Jardim

Eles tocaram fogo na casa de minha tia
chorei como fazem as mulheres na tv
dobrando ao meio
como uma nota de cinco libras.
liguei para o menino que me amava
tentei soar como se "tudo bem"
disse alô
ele disse warsan, o que foi, o que aconteceu?

tenho rezado,
e é assim que minhas preces se parecem;
querido deus
venho de dois países
um está sedento
outro está queimando
ambos precisam de água.

naquela noite
segurei um atlas no colo
passei meus dedos por todo o mundo
e sussurrei
onde dói?

ele respondeu
em todo lugar
em todo lugar
em todo lugar.


What they did yesterday afternoon, Warsan Shire
They set my aunts house on fire
i cried the way women on tv do
folding at the middle
like a five pound note.
i called the boy who use to love me
tried to ‘okay’ my voice
i said hello
he said warsan, what’s wrong, what’s happened?

i’ve been praying,
and these are what my prayers look like;
dear god
i come from two countries
one is thirsty
the other is on fire
both need water.

later that night
i held an atlas in my lap
ran my fingers across the whole world
and whispered
where does it hurt?

it answered
everywhere
everywhere
everywhere.

2) O dia em que a casa foi expulsa de casa (Eliane Brum)

13 setembro, 2015

do presente

1) Casa, de Warsan Shire


Tradução: Tomaz Amorim Izabel

ninguém sai de casa a menos que
casa seja a boca de um tubarão
você só corre para a fronteira
quando vê a cidade inteira correndo também

seus vizinhos correndo mais rápido que você
fôlego sangrento em suas gargantas
o menino com quem você foi à escola
que te beijou e deixou tonta atrás da velha fábrica de latão
está carregando uma arma maior do que o corpo dele
você só sai de casa
quando a casa não te deixa ficar.

ninguém sai de casa a menos que a casa te persiga
fogo embaixo dos pés
sangue quente na sua barriga
não é algo que você já tenha pensado em fazer
até que a lâmina queimada ameaça entrar
no seu pescoço
e mesmo assim ainda você ainda carregou o hino sob
seu fôlego
só rasgou seu passaporte nos banheiros do aeroporto
soluçando enquanto cada pedaço de papel
deixava claro que você não ia mais voltar.

você tem que entender
que ninguém coloca seus filhos em um barco
a menos que a água seja mais segura que a terra
ninguém queima suas palmas
sob trens
embaixo de vagões
ninguém gasta dias e noites no estômago de um caminhão
se alimentando de jornais a menos que os quilômetros viajados
signifiquem algo mais do que jornada.
ninguém rasteja por debaixo de cercas
ninguém quer receber surra
piedade

ninguém escolhe campos de refugiados
ou revistas íntimas em que seu
corpo fica doendo
ou a prisão,
porque a prisão é mais segura
do que uma cidade de fogo
e um guarda de prisão
na noite
é melhor do que um caminhão
de homens que se parecem com seu pai
ninguém conseguiria suportar
ninguém conseguiria digerir
ninguém teria uma pele tão dura

os
vão embora negros
refugiados
imigrantes sujos
requerentes de asilo
sugando nosso país até secá-lo
macacos com as mãos abertas
eles cheiram estranho
selvagens
bagunçaram o país deles e agora querem
bagunçar o nosso
como as palavras
os olhares sacanas
escorrem pelas suas costas
talvez porque o golpe é mais leve
do que um membro decepado

ou as palavras são mais macias
do que catorze homens entre
as suas pernas
ou os insultos são mais fáceis
de engolir
do que cascalho
do que osso
do que o corpo do seu filho
em pedaços.
eu quero ir para casa,
mas casa é a boca do tubarão
casa é o tambor da arma
e ninguém sairia de casa
a menos que a casa tenha te perseguido até a praia
a menos que a casa tenha te dito
para apressar as pernas
deixar suas roupas para trás
rastejar pelo deserto
vagar pelos oceanos
se afogar
salvar
ter fome
pedir
esquecer o orgulho
sua sobrevivência é mais importante

ninguém deixa sua casa até que casa seja uma voz suada no seu ouvido
dizendo –
saia
fuja de mim agora
eu não sei o que eu me tornei
mas eu sei que qualquer lugar
é mais seguro que aqui.


2) Running to the sea (Röyksopp feat. Susanne Sundfor)



I remember running to the sea/the burning houses and the trees/ I remember running to the sea/ Alone and blinded by the fear/And the river flows within your skin/ like savages horses kept within/ and all is wasted in the sand/like breaking diamonds with your hand

12 setembro, 2015

27 agosto, 2015

tempestivo

Momento-quando. Acho que essa é uma das imagens mais fortes que aprendi com o Caio Fernando Abreu. É quase uma categoria: o nome preciso daqueles instantes que caem do fluxo arrebatador das coisas de todo-dia. É uma paralisia: a suspensão do correr do tempo. Por vezes um respiro. Por outras, uma impossibilidade de continuar (e, acreditamos, mais dia, menos dia, será necessário continuar). Ele pesa, porque o corpo parado impõe resistência a tudo o que continua a vazar pelas comportas do cotidiano. No momento-quando, não dá para simplesmente se abandonar à correnteza.
O momento-quando é uma espécie de agosto - o que temos que atravessar, mas cuja travessia não dá para apressar. Mas, à diferença de agosto, o momento-quando nem sempre é seco. Daí o risco de que permanecer no interior dele dê tempo a deitar raízes. O que dificulta tudo: para seguir adiante, será necessário não apenas esperar setembro, mas também arrancar-se - com mais ou menos força, a depender de quanto se tenha deixado ficar. A gente talvez nunca saia inteiramente de alguns momentos-quando. Ficam uns pedaços nossos lá dentro, para sempre perdidos. Tantos mais pedaços quanto mais fundas as raízes. Ficam uns pedaços dele dentro de nós - aqueles que arrancamos no esforço de retomar o movimento. Os momentos-quando de uma vida configurando um mapa de escarpas pontilhadas, cartografia da memória. Cartografia vertiginosa da memória.

26 junho, 2015

uma boniteza


O lugar em que temos razão (Yehuda Amichai)

Do lugar em que temos razão
jamais crescerão
flores na primavera.

O lugar em que temos razão
está pisoteado e duro
como um pátio.

Mas dúvidas e amores
escavam o mundo
como uma toupeira, como a lavradura.
E um sussurro será ouvido no lugar
onde houve uma casa
que foi destruída.

Tradução: Nancy Rozenchan

30 maio, 2015

da rapadura

que é doce, mas não é nem um um pouco mole. boa noite, então, pra quem pode dormir. hoje eu fico entre livros (acadêmicos) e boa música. trabalhando, trabalhando e trabalhando. ao menos até o corpo aguentar!


04 maio, 2015

(sul global)

"Chego agora à minha consideração final, que é sobre a Europa e o sul da Ásia hoje. [...].
[Os] governantes dos países recém-independentes do sul da Ásia continuaram com seus projetos de construir Estados-Nação modernos. Ganhar a soberania dos poderes coloniais liberou as molas do amor pelo conceito de ocidente entre as classes médias em expansão. Não me refiro aqui à alegada paixão dos jovens indianos por roupas de marca e música pop, que muitos sentem estar ameaçando nossa tradição nacional. [...] Estou mais preocupado com a invocação da modernidade ocidental que nos diz que, ao praticar as mais recentes artes do gerenciar populações, estamos perdendo a corrida porque estamos atolados na política. Há uma crescente impaciência entre as classes médias, que sentem que não estamos alcançando o ocidente rápido o suficientes porque temos democracia demais. Ao mesmo tempo, há uma tentativa renovada de impor um ramo particular da cultura de casta alta bramânica modernizada como a verdadeira cultura nacional, baseando-se no fato de que todas as grandes nações do ocidente foram construídas através de um processo de homogeneização cultural. A mesma lógica leva os meios políticos de cada país do sul da Ásia a considerar seus vizinhos como rivais e potenciais inimigos. E, desnecessário dizer, é a mesma lógica que está levando esses meios políticos a uma corrida nuclear, fundada na crença de que essa é a única maneira de se obter o respeito das grandes potências do ocidente. Com a adequada deferência aos representantes de nossos meios políticos, possa eu afirmar que isso não reflete a sabedoria do príncipe de Maquiavel. Antes, reflete a mentalidade do pequeno batedor de carteiras que acha que o mundo é governado por grandes bandidos, e vive na fantasia de que, imitando a sua bazófia e impetuosidade, um dia será convidado a entrar para o seu clube. É uma paródia - uma paródia patética - do chauvinismo das grandes potências, destinado a fazer com que nossas elites se sintam bem consigo mesmas, mas cujo preço, como sempre, recairá sobre os pobres e sobre aqueles que não têm poder em nossa sociedade. [...]
Cabe a nós, aqueles que ainda [somos] marginais no mundo da modernidade, usar as oportunidades que ainda temos para inventar formas novas para as modernas ordens sociais, econômicas e políticas. Fizemos muitas experiências nos últimos cem anos mais ou menos. Muitas das formas a que chegamos foram consideradas, por outros assim como por nós, como adaptações imperfeitas do original - não terminadas, distorcidas, talvez até mesmo falsificadas. Vale a pena considerar se muitas dessas formas supostamente distorcidas - de instituições econômicas, leis, práticas culturais - não poderiam de fato conter a possibilidade de formas inteiramente novas de organização econômica ou governança democrática, nunca imaginadas pelas velhas formas de modernidade ocidental. Para isso, no entanto, temos de ter a coragem de virar as costas para a história dos últimos quinhentos anos e nos defrontar com o futuro com uma nova maturidade e autoconfiança, nascidas da convicção de que Vasco da Gama não deve nunca aparecer em nossas costas novamente" (Partha Chaterjee. Quinhentos anos de amor e de ódio. In: ___. Colonialismo, modernidade e política. Salvador: EDUFBA, CEAO, 2004, p.40;42).

28 abril, 2015

dos amores

"Então, quando estou lendo livros — leio muito bagunçadamente —, me sinto como se estivesse conhecendo pessoas legais, como se estivesse naquele momento que tinha quando era mais menino, de que toda pessoa carrega consigo um pedaço da vida muito grande. Quando você está no colégio, no ginásio, parece que as grandes conquistas da humanidade estão todas ali, em quatro ou cinco amigos. E aí entra um cara novo e o cara abre um negócio… Literatura é um pouco isso, como se você conhecesse um sujeito novo, alguém assim".

"Acho que tem uma potência de reformulação na morte, de reordenação da vida, tem uma potência na catástrofe. Acho que não é morte, é catástrofe. Tenho ligação com aquela situação de depois do furacão. [...] Então, acho que a morte e do que gosto nela é dessa potência de reordenação. É uma grande escultura, não é? Nesse sentido, acho que a morte tem a potência de abrir o real. A violência tem isso. Agora, é claro que a violência é cega e ela faz coisas horrorosas. Não sinto em mim nenhum sadismo. Se sentisse, eu diria, e estou falando como artista, não como cidadão. Não tenho gosto por sadismo, não é o lado de que gosto. A propósito, acho o Marquês de Sade um chato. Não acho aquilo nem sádico, acho muito metódico, francês, cartesiano. Agora, a força de destruição da vida é algo que quero estar perto. Porque acho que ela é a mesma força que refaz a vida. É nesse sentido que a coisa da morte está presente na minha literatura".

(mais uma vez,  encontro o nuno ramos num momento tão oportuno, tão preciso que até recupero meu pensamento mágico).
(e ele me faz lembrar de coisas compartilhadas com a veronika, com o tony, sobre escrever, sobre ler, sobre esse jeito de experimentar a vida e o mundo).
(conto ao marido do novo amor. "me reconheço nele", digo. e ele ri, "você gosta dele porque se vê no espelho?". é isso e não é isso. gosto dele porque vejo ali uma vitalidade que reivindico, que procuro preservar em mim. gosto dele porque, ler o que escreve é como acordar sem sono algum, inteira. porque quando leio alguns de seus textos, o "entender" passa pela pele, pelas maçãs do rosto, pelos olhos úmidos. porque ali tem alguma coisa que me põe viva. e isso nunca é pouco).

22 abril, 2015

o risco da segurança

"La sécurité, c'est se retenir au bord du désastre. La sécurité détermine cette temporalité du délai, du 'temps qui reste' - comme dans le qui tenet de saint Paul. La sécurité, c'est: encore un peu, toujours pareil. La sécurité reconduit, persévère, insiste. Elle tient, maintient, retient. Or la catastrophe surtout, écrivait Walter Benjamin, c'est que tout continue comme avant. Arrimé au dogme de la sécurité du marché, e néocapitalisme n'a tiré et ne tirera aucune leçon des crises. Les profiteurs du système (décideurs financiers, médiatiques, industriels, politiques) sont à ce point comblés qu'ils doivent pouvoir se dire, sauf à paraître à leurs propres yeux de monstres, que leur situation est juste, méritée, résultat d'évaluations convergentes et exactes, et qu'ils ne prennent rien aux autres. Le marché est infaillible. Tout continuera comme avant, la catastrophe insiste, et la sécurité n'est rien d'autre que cette insistance. Tant que les profiteurs seront les décideurs. L'accroissement exponentiel des inégalités sociales exigera certes toujours davantage des dispositifs 'sécuritaires' au sens cette fois où il faudra bien corriger les effects 'à la marge' des marchés prétendument autorégulés: la rage vide et la colère aveugle des dépossédes, des endettés, des rejetés, des déchets. Les régimes néolibéraux sont voués à devenir des États policiers, comme il faudra toujours plus contenir les explosions de la misère. La dégradation rapide et irréversible de l'environnement animera toujours davantage, à chaque cataclysme, en contrpoids dérisoire, le mythe d'une société reflexive, d'une modernité éclairée, consciente des risques, et prête cette fois à prendre la mesure du danger encouru par tous. Mais comme le dogme de la sécurité du marché considère toute intervertion publique, toute volonté politique comme malvenue, falsifiante, calamiteuse, on peut être certain que rien ne sera fait pour freiner la mise à sac illimitée de la planète, l'aveuglement productiviste, l'augmentation délirante des inégalités.
La sécurité (la catastrophe), c'est quand tout continue comme avant" (Fréderic Gros, Le Principe Sécurité. Paris: Éditions Gallimard, 2012: p.237-8).


- Crítica da Razão Negra (trecho do livro de Achille Mbembe).

02 abril, 2015

o que amar quer dizer

quando, no doutorado, entrei em uma imensa crise de categorias e formas de pensar e fui chegando ao Foucault, pelas notas de rodapé do Castel,  nem imaginava que era um caminho que me levaria cada vez mais perto do Mauricio. vai ver que digo errado: quando, no meio do doutorado, me peguei absolutamente perdida e sem saber como seguir, talvez tenha sido o Mauricio, brilhando intermitente feito farol naquela escuridão, que me ajudou a reencontrar um caminho. um caminho que passava pelo Foucault e me levava para mais perto dele - eu que, teimosa, tinha tentado fugir pro prédio ao lado só pra voltar, rabo entre as pernas, pro coração da sociologia; pra mais perto dele, mas também pra mais longe, tão distantes os temas daqueles que dividíamos, ele, Ana e eu, como preocupações durante a graduação.
desde aquela época, raras são as semanas em que não nos escrevemos - para falar da vida, do presente, do contemporâneo, das crises ou das bonitezas da vida...
então foi um privilégio imenso poder estar presente na defesa dele, na terça-feira. foi uma defesa linda, consonante com o trabalho belíssimo que ele fez atualizando as leituras que Foucault fez do Irã, mas atualizando também a polêmica como bloqueio à filosofia que pretenda ser uma ontologia de nós mesmos. com coragem - se o Sergio Adorno estivesse na banca, não resistiria a invocar o sapere aude que o Foucault tanto sublinhou no Kant - e uma paciência infinita, o Mauricio foi lá e mexeu no vespeiro das reportagens de Foucault sobre a revolução iraniana, tendo voltado dessa aventura com muitas histórias para contar e, certamente, um caderninho (daqueles em que se anotam planos de viagem) cheio.
foi também uma felicidade, pois naquela sala de defesa ficaram claras as razões pelas quais o Mauricio pode encontrar ali as condições para ser ele mesmo (o que, no caso dele, bem foucaultianamente, significa um incessante trabalho de diferenciar-se de si mesmo): na presença atenta dos colegas de grupo de pesquisa, no entusiasmo da orientadora, nas arguições generosas, cuidadosas e bonitas da banca, tudo dizia da partilha de um mundo comum que garante a cada um as condições de experimentar pensar. e é bom saber que quem a gente ama encontrou amparos. faz grassar um quentinho bom, misto de orgulho e gratidão.
esses dias estou lendo o Mathieu Lindon, em grande medida sobre o Foucault. logo no início, ele diz "Eu poderia nunca ter conhecido Michel, nunca ter posto os pés em seu apartamento, e, com todo o amor familiar que me cercava, sinto pena da vida que eu teria tido".
eu poderia nunca ter conhecido o Mauricio, nunca ter partilhado com ele o que nos com-divide. e sinto pena da vida que eu teria tido. pois que não tenho dúvida alguma sobre o tanto que meu amor por ele abriu (e abre) de espaços e tempos no todo dia, o tanto que me ensinou (e ensina), o tanto que sua confiança em mim e sua mão dada à minha me ajudaram (me ajudam) a ultrapassar desertos. o tanto que conviver com ele me enraíza no mundo: raízes aéreas, mas ainda assim.
parabéns, querido. e me desculpe a falta de recato da declaração pública: é que desta vez a vontade de dizer era grande demais.

30 março, 2015

e então choveu

não tem nada melhor para atravessar um ciclo seco do que essa delicadeza capaz de aplainar todas as esquinas, cantos e farpas que temos por dentro. (a segunda música que eles tocam se chama and then it rained. e é sempre bom quando à tensão e à pressão e ao cinza chumbo se segue a chuva, a aliviar o mundo de seu próprio peso. a aliviar a nós mesmos de nosso próprio peso: as portas todas destravando por dentro).


14 março, 2015

pra amansar os fantasmas


(uma vez que vários deles resolveram sair das tumbas e passear por esses tempos...).
(porque é preciso conviver com eles, acalmá-los todos os dias, para que a vida não seja um eterno recomeçar de bateres de cabeça e mergulho sempre nos mesmos erros)
(porque para ir adiante, parece que não se deve esquecer o passado, mas atualizá-lo, uma vez e outra vez e ainda mais uma vez. essa sim a verdadeira repetição no estarmos vivos).
(porque recomeçar é um misto de despedir-se dos mortos e honrá-los: é um trabalho de escuta atenta do passado).





06 março, 2015

quaresma

jejuar, nessa vida sem ritos, apenas nos dias de exame. um jejum tão sem ritmo que arrisca acordar e esquecer do compromisso – e aí toca recomeçar a contagem no dia seguinte: no mínimo doze, no máximo quatorze horas. um breve intervalo para que o sangue colhido revele seus mistérios ao invés de ocultá-los.
na sala de espera, espero. acostumados à distração da fome no correr dos dias, o mau-humor vai se instalando cada vez mais depressa nesses instantes ociosos, ritmados pela campainha a chamar o próximo de uma fila que parece, ela sim, constantemente alimentada.
é uma fome que nem chega a ser fome, claro. é somente um acordar dos músculos do estômago, que se inquietam num vazio ácido.
penso na simplicidade de uma torrada com manteiga e tomates, um pouquinho de sal. café da manhã estranho, aprendido com a amiga querida. penso no cremoso de um café com leite, temperado com uma colher de chá de extrato de baunilha. o leite gordo, a produzir natas e bigodes. penso num suco fresco de laranjas doces.
entre a irritação com a demora e os pensamentos que idealizam um café raramente possível no cotidiano não sobra espaço para nada. o livro, fechado, depois de diversas tentativas de conferir sentido àquelas letras enfileiradas. concentração nenhuma. será que algo no exame de sangue explicará essa incapacidade? ou ela se deve a essa situação momentânea?
na quaresma, o único jejum era o de carne, às sextas-feiras. de vez em quando, o embate com o corpo mais agudo, a suspensão dos doces pelos quarenta dias. atravessar o deserto, sem a ajuda do açúcar: enfrentar-se com o vazio e o seco, sem conforto algum. do outro lado, a alegria de dobrar a própria vontade.
um nome é chamado na área de exames e faz o coração quase parar. é o nome e sobrenome dela e estico o pescoço e os olhos, mesmo sem querer. mesmo sabendo que ela está morta há vinte anos. o nome, que era o dela, abrindo uma fresta de possibilidade de tudo ter sido um engano, um engodo. e então eu a encontraria, finalmente envelhecida, não mais congelada naquele corpo de dezessete anos. me sinto boba e frágil ao ter me assustado. é um nome comum, afinal.
procurando por ela, nem vejo sua homônima. não saberia reconhece-la, se o que procuro é essa outra, ainda aos dezessete anos, o corpo alto e esguio de bailarina como antes da doença. antes da travessia pelo deserto. na quaresma daquele ano, será que abri mão dos chocolates e dos doces, barganhando: um sacrifício por um milagre? minha memória me trai. só me lembro de ter ofertado a ela chocolates.
finalmente a minha vez, e a enfermeira erra a veia, me machucando. quantas marcas, um corpo hospitalizado? não deveria mais pensar nisso, mas penso. agora é só no que penso: nela, em seu corpo frágil (como o meu); nela, e no frio que sentia (e que também me provoca arrepios); nela e no tanto de amor em volta dela, ainda que insuficiente para amarrá-la a esta vida. foi depois da morte dela que jejuar deixou de fazer sentido – a urgência atravessando o tempo e fazendo do deserto, cidade de luzes e desejos.

meu braço está roxo. em casa não há tomates nem laranjas. pego na geladeira o leite: uma xícara na leiteira e outra na vasilha branca. enquanto o leite esquenta e o café passa, derramo ainda um ovo, uma colher de óleo, uma colher de fermento químico e uma xícara de farinha de trigo na vasilha onde só havia leite. uma pitada de sal e uma colher de açúcar. mexo bem e começo a cozinhar: panquecas, redondas e grossas. um improviso, mas nem parece. na primeira garfada trituro pequenos pedaços e percebo que deixei parte da casca dos ovos cair na massa. finalmente começar o dia, no esforço em chegar ao fim de mais uma travessia – a  memória da areia entre os dentes.

22 fevereiro, 2015

das surpresas bonitas da vida

essa boniteza atravessa o domingo de céu azul e deixa um rastro de nuvens, daqueles que marcam a passagem de algo que já não vemos, nem podemos ter certeza sobre o que é. mas que é bom de ver porque acorda uma sensação boa e infantil de prestar atenção e encontrar sinais.
como não sou (muito) egoísta, divido.


03 fevereiro, 2015

delicadeza



(depois de assistir Interstellar e no meio dessa secura em que andamos, é quase um alívio uma imaginação tão úmida...).