Mostrando postagens com marcador Lispector: Clarice. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lispector: Clarice. Mostrar todas as postagens

15 junho, 2012

sra. raposa

Não sei se é do mergulho na escrita nesses últimos tempos (e nem é só escrita aqui, mas também acadêmica) ou se é do gato que Rodrigo e eu temos sonhado tanto em adotar, mas ontem acordei pensando na Clarice: "quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo".
E aí chegou o livro que mal ganhei de dia dos namorados e já fui lendo pelo caminho e me entregando como há tempos não fazia. Querendo saber mais sobre o autor encontrei uma citação que dizia assim "Sería preferible cerrar el libro, cerrar los libros, y enfrentar, sin más, no la vida, que es muy grande, sino la frágil armadura del presente" (Alejandro Zambra).
Nem escrever, nem ler: acho que vou passar a comer as palavras com sal, sem pimenta.

13 junho, 2012

(im)potência

de uma conversa muito antiga com ele, sobre magia, linguagem e ação:

"Eu tenho à medida que designo - e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mão vazias. Mas - volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu. E é inútil procurar encurtar o caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição. A desistência é uma revelação." (Clarice Lispector, na Paixão segundo G.H.).

09 novembro, 2011

frágil

tentando colocar ordem nos arquivos nesses últimos oito anos de pesquisa (ô tarefa interminável), encontrei aquilo que, em algum momento do doutorado, achei que pudesse virar epígrafe e hoje só sei disso por conta do nome do documento em que a passagem está anotada. por fim, com o rumo que as coisas tomaram, a epígrafe virou outra, embora também da Clarice, pois se tratava se sublinhar a disposição para um certo modo de pensar e trabalhar. de todo jeito, foi bom reencontrar o trechinho destacado, com a surpresa de quem lê a primeira vez.

E quero saber se a esperança era uma contemporização com o impossível. Ou se era um adiamento do que é possível já - e que eu só não tenho por medo. Quero o tempo presente que não tem promessa, que é, que está sendo. Este é o núcleo do que eu quero e temo. Este é o núcleo do que eu jamais quis. (Clarice Lispectos, n'A paixão segundo G.H.).

31 agosto, 2011

em fogo brando

no final de semana assistimos novamente amor à flor da pele. é tão bonito, tão delicado... mas ao mesmo tempo de uma melancolia tão fininha que chega a doer - porque da honradez não resulta recompensa, porque o encontro não se sobrepõe ao sentido do tempo (e deve ser por isso que o Kar Wai filma tanto os relógios): há tempo para tudo, e para as personagens, o tempo do encontro parece ter passado.

e na segunda-feira assistimos 2046 (aqui saiu com o subtítulo os segredos do amor), que é um filme bem diferente, muito mais comprido, muito mais confuso, que deixa a gente sem entender muita coisa. a personagem do Tony Leung, Chow, é bem... irritante, para dizer o mínimo (dá vontade mesmo é de entrar na tela e dar uns tabefes nele, tanta cafajestagem!), mas ao mesmo tempo também melancólica: desencontrada, como se estivesse mesmo a bordo do trem metafórico que viaja eternamente, sem possibilidade (ou esperança) de encontrar o porto certo onde desembarcar.

aí hoje de manhã me peguei pensando nisso: que 2046 é um futuro onde as lembranças não se perdem, mas é sobretudo um passado que a gente não consegue abandonar. é como se o passado lançasse à frente de si seus trilhos e a gente ficasse condenado a permanecer no trem, sem escape. 2046 é um quarto, quatro paredes onde o encontro se faz possível, sob a proteção do resto do mundo. fora dele, o encontro vira segredo, peso a ser carregado e só partilhado com criaturas vivas mas silenciosas. em 2046, Kar Wai repete quase à exaustão a história dos segredos insuportáveis, dos quais nos livramos ao depositá-los num buraco de árvore e, em seguida, cobri-los com barro.

eu não sei como a vida é na china e o quanto um social tão coeso pesa sobre um individuo; não sei dizer o quanto os desencontros e a infelicidade das personagens, nessas duas narrativas do Kar Wai, podem ser creditadas à circunscrição da individualidade a um quarto [e hoje de manhã também me lembrei d'o quarto 19, da Doris Lessing, que é o segredo que torna a vida suportável]. eu só vejo daqui onde estou. e daqui onde estou, me lembro de duas frases, uma da clarice, outra da camille claudel, citada pelo caio fernando abreu em uma de suas crônicas.

"Guardo seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver" (Clarice Lispector).

"Existe sempre alguma coisa de ausente que me atormenta" (Camille Claudel).

e lembrando dessas duas frases, e pensando na recorrência com que as personagens desistem uma das outras por não encontrarem aquilo que estavam procurando - em geral, a recuperação de um amor que foi embora - fiquei pensando que o filme é sobre esses trens expressos nos quais embarcamos quando queremos nos livrar de uma lembrança/ quando queremos recuperar o que nos falta/ quando, sem companhia, não sabemos mais para onde ir: é sempre um risco, já que o trem pode nos levar ao futuro, mas também ao passado ou, pior ainda, nos deixar aprisionados em uma viagem duradoura. estar no trem é o momento-quando do abandono.

o segredo, fardo pesado, é aquilo que sempre falta mesmo quando a gente segue adiante. é a sensação de que o tempo oportuno escoou, de ter perdido o encontro certo. é o arrependimento pelo que não foi. é dor latejante que embaça os olhos e impede o reconhecimento do porto possível, condenando à errância.

queima silenciosa e mornamente, esse segredo, essa falta.

(o edu tem toda razão: para dar tal destino à personagem, o Kar Wai não deve mesmo gostar dela).

19 junho, 2009

(anotações sobre "O Búfalo")

Também preciso aprender a odiar. Deixar coração raivoso e seco, sem amor nenhum, vazio-vazio-vazio, na marcação dura e surda de bater sem nenhum mel.

Também preciso de silêncio. De um silêncio natural, de vento, folha seca a se arrastar veloz, de gelado da grama quando é manhã, de nuvem cinza e carregada aumentando o chumbo no peito.

Também preciso olhar o búfalo nos olhos, mesmo que disso resulte uma espécie de morte. Olhar nos olhos dele um olhar bem fundo, só para poder gozar: a pequena epifania do antes do tombo.

Eu queria aprender a odiar com leveza.

31 janeiro, 2009

Perder-se


Para Carla

Eu tinha uns três ou quatro anos e nós tínhamos ido à Marília, visitar meu tio. Ele morava em um extenso conjunto habitacional, com uma porção de predinhos baixos e parecidos.

Nunca me contaram direito quem foi que se distraiu, mas o fato é que na frente do conjunto tinha um grande jardim ou gramado, e eu me lembro de ter caminhado na direção de uma porção de girassóis. Não me lembro de muita coisa, mas me lembro nitidamente dos girassóis, lindos, de tamanhos variados, amarelo-ouro, vez em quando também um dente-de-leão.

Talvez desde aquela época eu já cantasse por dentro, ouvisse a voz da Lucinha Lins e procurasse a diversão das abelhas rodando naquele girassol. Talvez eu fosse só uma criança leonina e não tenha conseguido resistir ao contraste entre o azul do céu e o amarelo intenso do girassol feliz, vidrado naquele sol-luz.

Depois de muito ter namorado o girassol foi que me dei conta de que me perdera. E a luminosidade da experiência cedeu lugar ao desespero de não me achar. Lembro-me de ter batido sem parar na porta de um dos apartamentos, e de bater boca com uma mulher - eu dizendo que era ali que meu tio morava, ela me dizendo que ali morava um moço em férias. Eu chorava, batia à porta e não entendia porque não me deixavam entrar.

Os prédios eram todos iguais, e eu não me conformava que aquela não fosse a porta certa se eu reconhecia a mesma cor, o mesmo andar, o mesmo lugar. Aquela tinha que ser a porta certa.

Não me lembro quem me achou ou como. Também não posso dizer que me lembro do alívio que foi ver as caras conhecidas, chegar finalmente à casa certa.

Só me lembro da sedução de encontrar algo lindo e do sentimento de traição por não reencontrar o caminho de volta: não havia ninguém para amparar minha curiosidade e o terror de estar perdida foi como uma punição.

Insistir em me deixar seduzir, portanto, requereu de mim sempre alguma coragem. E não pensem que menos coragem, ao longo do tempo, apenas pelo fato de eu ter aprendido a marcar meu caminho e a distinguir as portas em detalhes pequenos ou códigos numéricos. Às vezes ainda bato na porta errada - com a mesma fé, insistência e desespero que tinha aos 3 anos.

“Esperança é como o girassol que à toa se vira em direção ao sol. Mas não é à toa: virar-se para o sol é um ato de realização de fé”. (Clarice Lispector)


02 maio, 2008

Do livro das epígrafes - I


Eu tenho um caderno, há muito tempo abandonado, em que anoto trechos e passagens de livros que são tão perfeitos em si mesmos que me parecem passíveis de serem utilizados um dia como epígrafes. Na verdade, é minha coleção de preciosidades literárias.

O caderno tem nome: O Livro das Epígrafes. E é dedicado a duas pessoas: Walter Benjamin e Rodrigo Pereira.

Como hoje continuo trabalhando e não vou conseguir roubar uma horinha para escrever, deixo vocês com a Clarice, num texto tão bonito e certeiro que bem poderia servir de epígrafe para esses meus dias.

"Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes. Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir de modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém" (Clarice Lispector).

Imagem: M.C. Escher, Drawing Hands, 1948. Em
www.rockjwalker.com/.../Escher-DrawingHands.jpg

30 abril, 2008

Meu nome é eu



Era esse o título de um dos últimos trabalhos que fiz na graduação, comparando as trajetórias de duas mulheres: a Loreley, do Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (Clarice Lispector) e a Susan Rawling, do conto "O quarto 19", (Doris Lessing).

(Durante toda a graduação, flertei com uma sociologia da literatura. Mas sempre de um jeito desconfortável porque eu me apaixonava tão perdidamente pelo texto que não conseguia escapar de uma análise que me parecesse proposta por ele - e aí ouvia dos meus professores que aquilo não era sociologia e sim crítica literária. Então, ao final da graduação, fui fazer mestrado na Letras, na Teoria Literária. E ouvia do meu orientador que minhas análises ainda eram muito sociológicas...Qualquer dia conto melhor esta história, mas o resumo da ópera é que voltei para a sociologia - do trabalho, vejam só - e mesmo depois de um mestrado e três anos de doutorado continuo me sentindo desconfortável...).

Bom, mas o fato é que me lembrei deste trabalho ontem, ao rever A viagem de Chiriro.

A própria questão da viagem já aproxima o filme do Uma aprendizagem, por exemplo. No livro da Clarice há várias referências à história de Ulisses, que no livro é também o nome da personagem condutora da travessia de Lóri no caminho para se assumir. Um condutor amoroso e paciente, que provoca, aponta caminhos, mas que faz questão de se ausentar de vez em quando, dando ao outro a liberdade de experimentar sua própria coragem.

E o Haku da história da Chiriro é uma personagem bem próxima a do Ulisses...Ele está ao lado dela, amparando, cuidando, mas nem por isso a gente tem a impressão de que ele está a protegendo de tudo e todos. Ele também tem seu próprio caminho a percorrer e o bonito é que eles tenham se encontrado e, neste encontro, encontrem também razões e possibilidades de se experimentar de outras maneiras.

No filme, a feiticeira controla os seres roubando-lhes o nome - roubando assim sua identidade, seus laços e memórias e a possibilidade de fazer o caminho de volta.

Mas Haku e Chiriro já se conheciam e, por isso, guardavam dentro de si os nomes um do outro. Com outro nome ou com outro corpo e em qualquer tempo, ambos eram capazes de se reconhecer. E é nesse olhar do outro em que a gente também se reconhece que fica guardada a possibilidade de quebrar o feitiço, de sair do olho do furacão para o qual de vez em quando somos arrastados e voltar para o ponto de partida.

Não que se retorne do mesmo jeito. Se (na leitura do Auerbach) Ulisses empreende suas viagens mas volta do mesmo jeito, ileso, o mesmo não acontece com a Lóri e a Chiriro. Elas são profundamente transformadas, marcadas pelo que experimentaram (mais como o Abraão da Bíblia, na leitura do mesmo Auerbach). Tomam posse de seus nomes - contornos daquilo que são, garantia de que a liberdade de ir passando do que são ao que querem ser não significa abandono de si. Nem a perda do amor de quem está lhes acompanhando.

Em ambos os casos, a gente teve a chance de conhecer as personagens num momento muito específico de suas vidas: um momento de travessia. Então seria fácil imaginar que se trata de um "momento definidor", após o qual a vida entra numa nova etapa, mais estável. Engano nosso, eu arriscaria dizer. Porque a Chiriro parte sem olhar para trás, mas com a promessa de reencontrar Haku. E o romance da Clarice termina com dois pontos:

O que sugere encerramentos provisórios, porque estar vivo é estar pronto para fazer novas travessias, novas viagens, ser desafiado por novos encontros ou encarar o desafio de se encontrar de novo nos encontros antigos.

É. Eu gosto dessas histórias de amor e de encontro em que a liberdade - ou sua aprendizagem - estão colocadas tão radicalmente.

Imagem: http://www.tvcultura.com.br/detalhe_episodio.aspx?idprograma=288&idepisodio=4072

29 abril, 2008

Aprendendo a sentir



Desde que li "Perto do Coração Selvagem", da Clarice, um trecho me assombrava vez-em-quando. É assim: "Eu me sinto segurando uma criança, pensou Joana. Dorme, meu filho, dorme, eu lhe digo. O filho é morno e eu estou triste. Mas é a tristeza da felicidade, esse apaziguamento e suficiência que deixam o rosto plácido, longínquo. E quando meu filho me toca não me rouba pensamento como os outros. Mas depois, quando eu lhe der leite com estes seios frágeis e bonitos, meu filho crescerá de minha força e me esmagará com sua vida. Ele se distanciará de mim e eu serei a velha mãe inútil. Não me sentirei burlada. Mas vencida apenas e direi: eu nada sei, posso parir um filho e nada sei. Deus receberá minha humildade e dirá: pude parir um mundo e nada sei. (...) Meu filho se moverá em meus braços e eu me direi: Joana, Joana, isso é bom. Não pronunciarei outra palavra porque a verdade será o que agradar aos meus braços".

Talvez porque pouco depois minha sobrinha tenha nascido e essa "verdade de carne" tenha ficado impressa em meus próprios braços, talvez pela beleza e simplicidade da forma que a Clarice encontrou para dizer da maternidade, esse trecho volta e meia me voltava à cabeça. E depois que o Rodrigo nasceu, várias vezes me assusta essa mesma constatação: pude parir um filho e nada sei. Me assusta e me traz paz, ao mesmo tempo - me liberta da necessidade de saber ou pôr em palavras aquilo que vou aprendendo; me torna possível experimentar a vida de outro jeito: mais um presente que o Rodrigo me dá.

Então, meu desejo (de Natal e de ano novo) é que cada um de vocês também encontre momentos-pessoas-experiências que lhes deixe marcado na alma e no corpo essa plenitude das verdades que não precisam ser postas em palavras e essa imensa de liberdade de, não sabendo, simplesmente viver.

* Este texto foi escrito nas festas de 2005.

Imagem:
http://www.art.com/asp/default-asp/_/posters.htm?%20&ui=35189404C390492B931848EFC17255F0