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27 agosto, 2015

tempestivo

Momento-quando. Acho que essa é uma das imagens mais fortes que aprendi com o Caio Fernando Abreu. É quase uma categoria: o nome preciso daqueles instantes que caem do fluxo arrebatador das coisas de todo-dia. É uma paralisia: a suspensão do correr do tempo. Por vezes um respiro. Por outras, uma impossibilidade de continuar (e, acreditamos, mais dia, menos dia, será necessário continuar). Ele pesa, porque o corpo parado impõe resistência a tudo o que continua a vazar pelas comportas do cotidiano. No momento-quando, não dá para simplesmente se abandonar à correnteza.
O momento-quando é uma espécie de agosto - o que temos que atravessar, mas cuja travessia não dá para apressar. Mas, à diferença de agosto, o momento-quando nem sempre é seco. Daí o risco de que permanecer no interior dele dê tempo a deitar raízes. O que dificulta tudo: para seguir adiante, será necessário não apenas esperar setembro, mas também arrancar-se - com mais ou menos força, a depender de quanto se tenha deixado ficar. A gente talvez nunca saia inteiramente de alguns momentos-quando. Ficam uns pedaços nossos lá dentro, para sempre perdidos. Tantos mais pedaços quanto mais fundas as raízes. Ficam uns pedaços dele dentro de nós - aqueles que arrancamos no esforço de retomar o movimento. Os momentos-quando de uma vida configurando um mapa de escarpas pontilhadas, cartografia da memória. Cartografia vertiginosa da memória.

21 abril, 2013

da água para o vinho

(porque trabalhar no domingo vira e mexe incorre em desvio).

(porque não dá para ouvir essa música sem pensar em "depois de agosto", do Caio Fernando Abreu, conto tão cheio de mel e esperança, tão necessários nessa esquina onde o domingo encontra a segunda-feira).

(porque sim). 

02 maio, 2011

Nós mesmos a sós*

Depois de ter escrito o último post (e de ter revisto o filme e escutado a trilha do Les chansons d'amours incontáveis vezes), fiquei pensando no amor e na solidão. Parece um pouco cinza dizer assim, como se eu andasse triste ou melancólica, mas não é bem isso: é mais um exercício de pensar que a beleza do filme se produz bem nesse interstício entre um amor duradouro, com todos os seus problemas, e certa solidão que nem mesmo a companhia parece fazer desaparecer. Ainda assim, se alguma chance de escapar existe, a aposta é ainda no amor - na presença de outro, que nos ama e a quem amamos, que nos toca, nos abraça, que modifica o mundo ao enchê-lo de sinais.

E depois de rever o filme, pensei também no conto-novela do Caio Fernando Abreu, "Pela Noite" (Estranhos Estrangeiros: São Paulo, Companhia das Letras, 2002), de que gosto tanto e que fala também de modo tão dolorido sobre desencontros e sobre a graça do encontro - reconhecimento e mergulho cego no outro, no corpo do outro. E que armadilha que, como nós, o outro também tenha um corpo por continente, um corpo vivo que pulsa, sangra e goza, mas que também muda de ideia e parte ou, exagero de abandono, morre.

Com todas essas coisas na cabeça, ainda fui ler O fuzil de caça, de Yasouchi Inoue. Quem me falou do livro havia mesmo comentado sobre a excessiva solidão da personagem, mas é realmente impressionante como Inoue - ao lançar mão das cartas para contar a história - nos coloca em uma posição de solidão parecida à de Josuke Misugi. Como a personagem, ficamos na mesma posição de ler e aceitar as decisões de três mulheres importantes em sua vida, que ao mesmo tempo em que escrevem para ele, escrevem apesar dele, escrevem para se livrar dele. É tão triste e tão exato que a personagem principal quase não apareça, senão do modo como as três mulheres o pronunciam.

O livro é de 1949 e os ecos da experiência da II Guerra aparecem aqui e ali. Não apenas por isso,  me fez lembrar, embora não imediatamente, do livro de Graham Greene, Fim de Caso. O livro de Greene é de 1951, e acabei me lembrando dele principalmente por conta de um elemento que - para mim - pareceu bastante estranho na narrativa de Inoue: a presença da ideia de pecado.

A indicação do livro de Inoue me foi feita em meio a uma conversa sobre literatura japonesa e também em meio a um comentário sobre o estranhamento provocado, numa mesa sobre desemprego e experiências de desempregados, pela apresentação de pesquisadores japoneses que apontavam a centralidade do sentimento de vergonha para a compreensão das experiências subjetivas dos desempregados japoneses. Participando da mesa, havia finlandeses, alemães, suecos... e eles eram visivelmente incapazes de compreender que fosse possível alguém sentir vergonha; culpa, certamente, mas vergonha? São matrizes de codificação moral bastante diferentes.

Por isso me espantou tanto a sedução que a ideia de pecado assume na narrativa de Inoue - algo que agrega ao "erro" o peso do segredo. O interessante é que é uma ideia de pecado ela mesma estranha (para nós, ocidentais), pois que à revelação não sucede nenhuma salvação; à revelação parece suceder a súbita compreensão justamente da inadequação da própria sensação de pecado. O peso não vai embora devido à  algo como uma expiação, mas porque é o próprio pecado que se dissipa.

A solidão, no romance de Inoue, parece vir do oco dos rituais, símbolos e códigos. A distância irremediável a que todos os personagens estão submetidos, em relação uns aos outros, marca um absoluto desencontro. E aquilo que podia assumir o caráter de ponte - as cartas honestas e claras dirigidas à Josuke Misagi - revela uma ruptura ainda mais intensa, dando realidade a uma solidão que já se inflitrava pelos poros daquela vida.

Muito diferente, portanto, da tensão e da angústia de Fim de Caso, em que o pecado nunca pode ser expiado, mas é amenizado por meio de uma distância artificialmente criada: solidão auto-infligida e imposta ao outro, visando uma salvação absolutamente mundana. O que diferencia radicalmente os dois livros, além dos sentires de raízes tão distintas, sem dúvida é a ideia de Deus - aceita como milagre ou recusada como absurda e sem sentido - presente em Fim de Caso. Em comum, além da época sombria em que foram escritas, ambos podem ser reflexões sobre solidão e amor, sobre essa espécie de inescapabilidade (existe essa palavra horrível?) da solidão e sobre as promessas e limites do amor para cutucar rachaduras onde a saída se reveste de pedra.

* verso de poema de Fernando Pessoa para Sá-Carneiro. "[...] porque ha em nós, por mais que consigamos/ Ser nós mesmos a sós sem nostalgia/ Um desejo de termos companhia [...]".

19 março, 2010

Houve um tempo

Houve um tempo em que a vida corria com trilha sonora - para cada amigo, para cada amor, para cada encontro, uma música diferente, ritmos diferentes, intensidades diferentes. Houve um tempo em que a cidade era poesia, e que andar no centro nos dias azuis latejava por dentro até não mais poder. Houve um tempo em que a televisão mal era ligada, tanto havia por viver. Houve um tempo em que as tardes se esticavam entre giz-de-cera, lápis de cor, colas, tesouras e papéis coloridos, reencontro de infância. Houve um tempo em que a Hilda Hilst guardava os sonhos, à cabeceira. Um tempo em que o cheiro da roupa lavada era sinônimo de manhã ensolarada. Houve um tempo em que o amor era complicado e, depois, um tempo em que o amor era mais complicado, mas ainda assim bom. Houve um tempo em que os sonhos projetavam um futuro largo. Um tempo em que tudo duraria para sempre. Houve um tempo em que a vida transbordava das margens. Um tempo de florescer. Houve um tempo de escuridão, que também duraria para sempre. Houve um tempo de solidão e abandono. E houve tempo de recomeço. "Houve um tempo em que tive um rio por dentro". Ouve atento: caudaloso, esse rio que me fecunda em seus ritmos de cheias e secas.

25 fevereiro, 2010

"Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome".

(Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias, crônica publicada n'O Estado de São Paulo, em 22 de abril de 1986).

18 dezembro, 2009

Que seja doce

Ô coisa límpida de se desejar: que seja doce.

(E eu não consigo pensar nessa frase sem me lembrar do Mauricio, que é das companhias mais doces que tenho nessa minha vida...).

21 agosto, 2009

Setembro - Update

Talvez seja esse cinza, esse frio, essa vontade de ficar encolhida - cachecóis azuis, roupa mole (que me rendeu a indignação do meu filho, perguntando porque raios eu ia levá-lo a escola "de pijamas"), chá quentinho para confortar o corpo...Talvez seja porque é preciso inventar aconchegos e bonitezas para tornar a vida um bocadinho mais larga.

Fato é que hoje, ao escrever um post sobre Agosto que será publicado amanhã, lá no Margens, encontrei uma crônica linda do Caio, que não vou resistir a colocar aqui, e fiquei sorrindo sozinha da precisão que ele tem em dizer aquilo que a gente também sente, mas com ele aprende a sentir mais bonito e mais denso. E fiquei curtindo, junto com ele, a sensação boa de inventar presenças, de guardar delicadezas, de não temer clichês e cuidar de aveludar por dentro a saudade e a esperança.

E é tão mansa essa felicidade de ler um texto bonito, de rememorar canções, de me pegar sorrindo sozinha, que de repente me dou conta: já é Setembro-por-dentro.

A crônica é para ser lida ao som de "Melodia Sentimental", cantada pela Olivia Byington (linda!). Finalmente consegui subi-la no goear. Não é maravilhosa?





Carta Anônima
Caio Fernando Abreu

Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai fazer assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.

Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você - seria, seriam?

Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.

Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua.

Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vez em quando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.

(Publicada n'O Estado de São Paulo, 16/03/1988.

24 junho, 2009

São Paulo, por Caio Fernando Abreu



Na sexta-feira passada, na hora do entardecer vermelho-alaranjado que tem feito por aqui, eu estava num prédio em Pinheiros. Era uma sala comercial, cheia de janelas, de maneira que a luz invadia todo o espaço. E em determinado momento, percebi que tinha sido subitamente levada para dentro de um conto do Caio: eu estava lá, ao lado do narrador de "Sem Ana, Blues", presa no momento-quando da despedida, na sala em que Ana nunca mais estaria:

Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite podiam-se ver uns restos de dourado e vermelho deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros (In: O dragões não conhecem o paraíso. São Paulo: Companhia das Letras, p. 42).

Depois disso, comecei a me lembrar de como sempre penso no Caio quando passo pela Consolação. A palavra talvez não seja nem mesmo pensar, mas sentir. Passo por lá e, não importa a hora, é noite e é frio e é chuvoso...

Tem um ponto específico, então, logo depois do Cemitério, que é impressionante: é passar e estar num conto dos Morangos Mofados, embora eu não tenha conseguido localizar exatamente qual; é que eu tinha a impressão de que era "O dia que Urano entrou em Escorpião", mas agora percebo que provavelmente fui traída pela minha memória. Porque sem dúvida eu deveria ir parar mesmo era em "Pela Noite", que algum crítico um dia aproximou de "Dois perdidos numa noite suja" (mas, de novo, minha memória tá capengando e não vou saber dizer quem é. Será que era na orelha da minha edição perdida de "Triângulo das Águas"?).

Em "Pela Noite", Pérsio e Santiago perambulam a madrugada inteira pela cidade. São Paulo é cenário, mas é também personagem, violenta e solitária, que quase interfere na relação entre eles. São Paulo, escura, fria e úmida, mas ao mesmo tempo veloz, tumultuada e frenética: a cidade se interpõe entre ambos, dificulta a comunicação, porque a noite é tão cheia de possibilidades que incita o desencontro. Ambos são estrangeiros na cidade. Mas o reconhecimento é difícil, ainda que eles falem como quem lança uma corda na direção do outro - uma brecha de delicadeza e salvação no meio do caos.

É muito significativo que o Caio tenha decidido republicar esta novela em "Estranhos Estrangeiros", em que ele quis reunir contos que falam dessa condição de não estar em casa em lugar algum, como explicita a epígrafe: "Pareço uma dessas árvores que se transplantam, que têm má saúde no país novo, mas que morrem se voltam à terra natal" (Miguel Torga).

Em "Onde andará Dulce Veiga?", que também é a história de uma viagem em busca daquilo que falta, São Paulo também é personagem - dura, seca, suja, em que o que se procura pode ser miragem, como Dulce Veiga de braço estendido em direção ao alto, na esquina. São Paulo é o lugar da solidão, da decepção, da luta feroz para sobreviver. É o lugar que se abandona para poder reencontrar o próprio nome (o nome que se perdera quando o outro foi embora - desencontro depois da luminosidade do encontro). A cidade quase estraçalha quem nela vive.

Enfim. Post sem muita lógica - só para registrar essa percepção de que há diversos lugares dessa cidade que eu amo (e de vez em quando também odeio e temo) nos quais encontro o meu autor predileto. O que só me dá ainda mais motivos para amar a ambos.

(Como em "Pela Noite", ao som de Piazolla...)



Imagem: Dimtri Kessel, São Paulo, em 1947. (Dica do Pedro, há um tempão...).

23 junho, 2009

Então já é Agosto?

Esse peso, essa dificuldade de respirar, essa indecência de azul no céu sem nuvens? Esse desejo de ficar em silêncio, essa urgência de me comunicar, essas lembranças a um só tempo boas e doloridas? Essa estranheza por debaixo da pele, esse pressentimento de que a vida pode ser outra coisa?

Oficialmente: é agosto por dentro.

***

Mas aí, pra distrair Agosto, a gente leva o filho pra cortar o cabelo, caminha com ele de mãos dadas pelas ruas, enche o coração de tanto olhar a pessoinha querida crescendo, senta no balcão da padaria pra dividir com ele um chocolate quente e de uma só vez, ganha dois presentes: um beijo na mão, roubado pelo filho, e um olhar raso de lágrimas da moça que está ao lado, observando que "carinho assim, é coisa de criança amada". E nem Agosto resiste diante de tanta doçura...

14 julho, 2008

Recuperação da Delicadeza

Tanta coisa para dividir, mas hoje não...

Hoje só a voz no Ney Matogrosso, numa canção que aprendi primeiro com o Caio Fernando Abreu ("Depois daquele agosto", em Ovelhas Negras):


Soneto (Chico Buarque)

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio


Acho que os contos do Caio de que mais gosto são meio parecidos entre si: "Aqueles dois" (Morangos Mofados), "Depois daquele agosto" (Ovelhas Negras) e "Mel e Girassóis" (Os Dragões Não Conhecem o Paraíso)...E como bem me lembrou o Maurice, a novela "Pela Noite" que aparece em Estranhos Estrangeiros foi publicada primeiro no Triângulo das Águas, um livro cheio de referências astrológicas e que é uma espécie de triângulo das bermudas dos livros: os exemplares simplesmente somem! O meu sumiu e o do Maurice também! O jeito vai ser comprar a edição da LP&M, que é feinha, mas pelo menos ainda existe...

Em comum, o que estes contos têm é serem histórias de encontro. Encontros que acontecem depois de um longo caminho percorrido, em que cada um sofreu e doeu e dilacerou e encontrou forças para continuar mesmo que com as mãos gastas e a alma puída. São encontros que acontecem entre pessoas que passaram a se julgar ou incapazes para o amor ou pouco dignas dele. E então se encontram e se ensinam a viver ("o amor é sobretudo intensidade; não nos presenteia com a eternidade, mas com a vivacidade", Octavio Paz).

E aí lembrei do Drummond de "Campo de Flores", que eu coloquei aqui um dia, mas sem muitas explicações porque foi bem no meio da escrita da qualificação: "Mas, porque me tocou um amor crepuscular,/há que amar diferente. De uma grave paciência/ ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia/ tenha dilacerado a melhor doação".

O que sempre me seduziu neste poema - além da lembrança da voz sexy do meu professor de Brasileira I quando o recitava - era este esforço de recuperação da delicadeza que se tornava possível devido a um encontro. Sabe? Quando a gente encontra alguém que vale tanto a pena que as mesmas asperezas que protegem passam a incomodar? Quando a ironia cotidiana parece faca afiada demais? E então a gente encontra força e coragem para amansar as palavras, as mãos, a voz e todo o corpo?

"Hoje tenho um amor e me faço espaçoso/ para arrecadar as alfaias de muitos amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,/ e ao vê-los amorosos e transidos em torno,/ o sagrado terror converto em jubilação".

Abrem-se espaços insuspeitados dentro da gente - "se você se entrega e vê, mesmo de longe"(Caio também, em algum conto do Inventário do Ir-remediável). E nesse breve instante em que as possibilidades cintilam, a gente pode aprender a graça de dizer "sim". De se colocar fora do tempo, de não ter medo dos clichês (- "Você parece mel. - E você parece um girassol".), de fazer borrar os limites do que entendemos por nós mesmos...

São todas histórias que doem um pouco. Mas são lindas e cheias de esperança. Precisa mais?

* Eu tinha ontem publicado um pedaço deste post, só com a música. E hoje resolvi continuar, por isso o trouxe para cá. O fato é que de vez em quando eu mexo nos posts, mas não aviso e nem anoto que ele sofreu transformações...É que às vezes eu sinto necessidade de mudar para deixar o texto melhor ou mais preciso; muitas vezes nem é nada que mude o sentido das coisas: é só uma espécie de neura mesmo, porque se não mudo, a frase fica lá,na minha cabeça), incomodando-incomodando até eu vir salvá-la do mau português.

01 julho, 2008

Do Livro das Epígrafes

"Houve um tempo em que tive um rio por dentro, mas acabou secando. (...) Eu tinha a esperança que o rio voltasse a correr um dia".

(Caio Fernando Abreu)

28 abril, 2008

Porque eu amo o Caio


(Essa carta eu encontrei este fim-de-semana. Foi o Maurice que me deu, antes mesmo de sair o livro com as cartas que ele escrevia, a tanta gente...E é tão bonita, que não resisti a dividi-la com vocês. Uma carta do Caio, escrita num agosto que parece não ter existido dentro dele. Pelo menos não naquele ano).

"Sampa, 08 de agosto de 1984
Luciano, mano

(...) Luciano Alabarse: eis que estou ótimo. (...) Tem uma felicidade mansa por dentro, devagarinho. A casa bonita. Os dias bonitos. A roseira bonita. E pessoas novas (tem coisa melhor que gente?) E trabalhos novos (breve a cores). Guardo o meu amor por dentro. É precioso. Pensar nele faz com que tenha vontade de cuidar de mim mesmo- então é bom. Guardando, guardando, feito jóia. Precioso, delicado. Meus dias têm sido claros. Lembro de um velho samba-canção: "Eu não peço nem quero/ para o meu coração/ nada mais que uma linda ilusão". Supersábio.

Joguei I Ching lindo hoje, bem na hora da minha Revolução Lunar, 14 graus de Capricórnio. As coisas vão dar certo. Vai ter amor, vai ter fé, vai ter paz - se não tiver, a gente inventa. (...)

Hoje estou pensando que ter amado meio torto durante tanto tempo talvez esteja me conduzindo a algo mais claro? É uma dúvida que te coloco. E sinto coisas tão boas, Luciano, ondas de energia claras que me sobem Kundalini acima - e então penso que está certo assim, na nossa sede infinita (Drummond) acreditar e levar porrada mas voltar a acreditar e cair do cavalo e não deixar de acreditar e se desenganar e se arrebentar mas continuar acreditando que, de alguma forma, há alguma resposta de humano para humano. E que amar o humano do outro e aceitar e amar teu próprio humano, e que esse é o único jeito, o único way-out possível: procurar no humano do outro a saída do nosso próprio humano sem solução. E na minha memória, amar os pés nus do meu amor na minha blusa roxa. Ou o beijo na boca na escadaria. E pouco importar que tudo tenha sido ou continue sendo fantasia ou carência, porque é assim que as coisas são, e é através disso - e só disso, venusiano total - que posso crescer, e não me importo nem um pouco de voltar e acreditar e de ficar todo aceso e mais delicado para olhar as coisas, qualquer coisa.

Na minha lápide, quero alguma coisa mais ou menos assim: "Caio F. - que muito amou". And that's it.".

And that's it.


Fonte da imagem: http://arrozcomtodos.blogs.sapo.pt/85133.html

15 abril, 2008

Estender a mão

Ainda que o Caio Fernando Abreu tenha sido tantas vezes lido e relido, e em momentos tão diferentes da minha vida, mudou bastante o modo como o leio.
Antes, era uma leitura furiosa, devassadora, atropelo de palavras quase sufocante (a voz da Ana Lúcia na cozinha que Vinicius, Petronio e eu dividíamos, lendo "Sem Ana, Blues", sem pausas-sem respirar-sem nos deixar respirar). Já agora é deleite que em vez de rasgar, aveluda por dentro.
Ao longo da convivência com ele, foi baixando a poeira da intensidade e da dor e pôde emergir o que nele (também) é esperança e fé.

Teve um trecho de um dos contos dos Dragões que me perseguiu por muito tempo:
"Quero mais um uísque, outra carreira. Tudo aos poucos vira dia e a vida - ah, a vida, pode ser medo e mel quando você se entrega e vê, mesmo de longe.
Não, não quero nem preciso nada se você me tocar. Estendo a mão.
Depois suspiro, gelado. E te abandono".

Fazia tempo que eu não pensava neste trecho e lembrei dele na semana passada, relendo Estranhos Estrangeiros:

(...) Tirou a roupa aos poucos. Completamente nu, começou a girar de braços abertos no meio da sala. Remoto, então, como se viesse do apartamento ao lado ou de baixo, de cima - talvez o de Lavínia, a lasciva, lembrou querendo rir, mas não conseguiu -, o som da campainha cortou o movimento. Uma voz que chega de longe. Navalha, alfanje, cimitarra. A cabeça ainda girava no meio da tontura quando entreabriu a porta para ver Santiago parado no corredor, mãos nos bolsos.
- Resolveu aceitar aquele chá, Santiago?
- Eu não me chamo Santiago - ele disse.
Não afastou o corpo para que o outro entrasse. Mas ele entrou. Fechou a porta às suas costas. Estendeu as duas mãos. Tocou-o nos ombros. De frente.
- Eu também não me chamo Pérsio. Portanto não nos conhecemos. O que é que você quer?
Ele sorriu. Estendeu as mãos, tocou-o também. Vontade de pedir silêncio. Porque não seria necessária mais nenhuma palavra um segundo antes ou depois de dizerem ao mesmo tempo:
- Quero ficar com você.
Provaram um do outro no colo da manhã.
E viram que isso era bom".

E pensando nos dois trechos juntos, percebi a importância do estender a mão, desse esforço para tocar o outro, para também ser tocado. E pensei também se não é essa passagem, essa travessia de nós mesmos ao outro pela ponte das mãos, que pode nos salvar.

O primeiro livro de contos do Caio chamava Inventário do Irremediável. Mas no momento de republicar o livro, ele deu um passo atrás e pôs um hífen no título: Inventário do ir-remediável. E com esse traço-ponte ensinou que as partidas têm volta, as ações têm perdão, as portas fechadas podem ser reabertas. Se você estender a mão.