Mostrando postagens com marcador feminino. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador feminino. Mostrar todas as postagens

05 março, 2013

pequeniníssima coleção de poesia feminista

(post descaradamente roubado de mim mesma, que ontem fui me meter a falar sobre gênero e cotidiano; a primeira parte foi sobre construções de gênero na publicidade dirigida ás crianças e essa segunda é que foi dedicada a essas experiências literárias de gênero).

***
Se a gente pensa as experiências de gênero como experiências que constroem lugares de enunciação, que ensinam a ser homens e a ser mulheres, e que ensinam práticas, delimitam papéis, circunscrevem o que falar, do que falar e como falar, vale a pena tomar a produção poética – um tipo de experiência literária que, em si mesma, já comporta alta dose de transfiguração e, desse modo, de transbordamento dos limites da palavra – de mulheres que se “atreveram” não só a escrever, mas a escrever poesia e, por meio de estratégias literárias, a deslocar os “lugares” possíveis para as mulheres.

Estou aqui, seguindo a definição dada por Lúcia Helena Vianna, chamando de poética feminista
[...] toda discursividade produzida pelo sujeito feminino que, assumidamente ou não, contribua para o desenvolvimento e a manifestação da consciência feminista , consciência esta que é sem dúvida de natureza política [...], já que consigna para  as mulheres a possibilidade de construir um conhecimento sobre si mesmas e sobre os outros, conhecimento de sua subjetividade,  voltada esta para o compromisso estabelecido com a linguagem em relação ao papel afirmativo do gênero  feminino  em suas intervenções no mundo público” (Vianna, 2003).

Vou trazer aqui poemas de quatro poetas. Comparecem: Alice Ruiz, Ledusha, Benédicte Houart e Adélia Prado. Quatro mulheres, quatro poetas que são brasileiras ou escrevem em português, com histórias muito diferentes, mas de quem podemos identificar algumas poesias feministas, isto é, alguns poemas em que perscrutaram literariamente a possibilidade de transbordar os limites de ser mulher.

Começo com dois poemas de Alice Ruiz, ambos de Navalhanaliga, livro de estréia em 1980. Ao final, ainda vou falar de um outro poema dela.

Alma de papoula
Lágrimas para cebolas
Dez dedos de fada
Caralho
De novo cheirando a alho


às vezes vem a certeza
a vida agora já foi vivida
era uma vez uma menina
descobrindo a rotina

De Ledusha, contemporânea de Alice Ruiz, também dois, bem curtos (e precisos e modernos):

De leve
feminista sábado domingo segunda terça quarta quinta e na sexta
lobiswoman.


Deslavada
Meu querido Antonio
Não pude ir
Pneu furou
Não sei trocar.


De Benédicte Houart, poeta nascida na Bélgica e moradora de Portugal, escreve em português.

são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia

e

já penélope não sou
nem ulisses regressa
mudo de nome noite
a noite ao sabor da saliva
dos meus amantes
de dia troco lençóis
coso bainhas
descanso os olhos
dantes tecia para
enganar a corte que
me servia de prisão
agora chamo-me eu
não tenho estado civil e
na cela que me tem cativa
tornei-me finalmente livre

Finalmente, e para ilustrar melhor o ponto de transgressão ou ultrapassamento dos limites de gênero que essas mulheres constroem por meio da linguagem, queria trazer dois últimos poemas, um de Alice Ruiz e outro de Adélia Prado, ambos referidos a um poeta famoso, Carlos Drummond de Andrade. Primeiro, Drumundana, de Alice Ruiz, que dialoga com o poema “E agora, José?”.

e agora maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria

E, finalmente, “Com licença poética”, da Adélia Prado, que dialoga com “Poema de sete faces”, do mesmo Drummond.

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Para concluir, então, esse tema das relações entre gênero e cotidiano, encerro relembrando que se há limites de gênero, há também os esforços em ampliá-los, em fazê-los mais largos e conformes o desejo de liberdade de cada um. Ainda que na maior parte do tempo estejamos sujeitos a uma série de discursos e de práticas que procuram construir as canaletas por onde nossos riozinhos devem correr, há momentos em que a gente se dá conta do absurdo das coisas, e seja por meio de bandeiras, de inversões, de lutas ou das palavras, desperta algo de caudaloso que não corre mais por canaleta alguma; ao contrário, transborda, inunda, umedece e abre espaço para o novo: é quando somos sujeitos no sentido de uma ação sobre nós mesmos e sobre o mundo. Então, que sejamos todos desdobráveis e avessos às maldições e que aos imperativos de “sê homem”, “sê mulher” com os quais nos deparamos desde o nascimento, a gente responda com flexibilidade, liberdade e inventividade.



Referências Bibliográficas
Murgel, Ana Carolina Arruda de Toledo. A poética feminista em Alice Ruiz, Ledusha e Ana Cristina César. In: Rago, Margareth (org.). Revista Aulas, Dossiê Estéticas da Existência, 2010, p.25-39. Disponível aqui.

Vianna, Lúcia Helena. Poética feminista, poética da memória. Labrys, estudos feministas, nº 4, agosto/setembro de 2003. Disponível aqui.
 

02 março, 2013

(contraponto)

alma de papoula
lágrimas
para cebolas
dez dedos de fada
caralho
de novo cheirando a alho
(Alice Ruiz, Navalhanaliga)

16 junho, 2012

um abraço

aproximou-se de mim já refrigerante morno em copo de plástico - as paredes inúteis para conter o líquido e a espuma, o tenso limite entre controle e transbordamento.
a experiência ainda difícil nas frases interrompidas pelas lágrimas. que carregou, em segredo, uma festa. que seria o primeiro filho, bem-vindo. que de repente tudo borrou em marrom e vermelho e a felicidade escorreu, por entre os dedos e as pernas. que talvez tenha esperado demais. que ainda sente vazar a ferida aberta pelo medo.
eu tentei dizer coisas como: embora ninguém fale, isso é comum e por isso mesmo não é sinal de que é tarde demais. e nem de menos. que ser mãe já é esse abismar-se diante da vida. que mesmo quando a gente não crê, a vida é milagre pois há improváveis sementes que brotam no tronco da árvore enquanto outras dormem para sempre no fundo da terra mais fértil. que o filho sonhado já começa a virar verdade nesse enfrentamento com o próprio desejo e com os próprios limites. que haverá novamente o tempo da graça.
tentei dizer tudo isso, mas não quis espantar com certezas as bolhas frágeis das dúvidas. então, só falei com os braços.

13 junho, 2012

Parir não é um ato médico

Com o Rodrigo tão crescido, faz tempo que não falo aqui sobre parto. Mas frente à ameaça do Cremerj de denunciar o Dr. Jorge Kuhn por suas declarações em entrevista ao Fantástico do último domingo, não dá para ficar em silêncio.

Então, deixo aqui o link para a petição online cavando uma discussão sobre parto baseada em evidências, que não alimente mitos e medos, e devolva a nós os direitos sobre nossos corpos.

E no domingo, em São Paulo e em outras cidades, haverá mobilização, em defesa de Jorge Kuhn, mas principalmente em defesa da garantia de nossos direitos reprodutivos:

Local: Vão central do MASP, Parque Mário Covas - Passeata até o Cremesp
Data: 17 de Junho, domingo
Horário: 14h da tarde
Contatos: Ana Cristina Duarte (11) 9806-709

Já falei da minha própria experiência de um parto 'normal' em hospital aqui. Se um dia eu tiver outro filho de barriga, o plano A certamente será a nossa casa: sem raspagem de pêlos, sem ocitocina, sem anestesia, sem obrigação de ficar deitada, sem enfermeira em cima da minha barriga, sem episiotomia, sem colírio, sem vitamina k injetada, sem aspiração, sem corte rápido de cordão... Com respeito a mim e ao recém-chegado, aos nossos tempos e afetos. Parir não é um ato médico!

Veja também:

Carta aberta em repúdio ao Cremerj
Quem escolhe somos nós
Parto humanizado domiciliar: direito das mulheres
A mulher deve escolher onde e como quer ter o bebê


02 agosto, 2010

Caminhos

Olha, não é só porque a Andrea é minha médica (infelizmente, apesar de conhecer o Coletivo  Feminista - que foi onde ouvi pela primeira vez a expressão "medicina doce", sobre a qual falei recentemente - desde meus vinte e poucos anos, só a conheci depois do nascimento do Rô) ou porque tenho imensa admiração por ela: é que é muito emocionante saber que existem os que resistem ao modelo médico e conseguem construir outros caminhos: Ajudar a nascer. Leitura para alimentar as esperanças.

19 março, 2010

Boniteza

Rapidinho, só para deixar a dica de um site maravilhoso: Parto com Prazer.

Vale a visita!

29 outubro, 2009

Sina é palavra feminina?


Vai daí que tenho pensado uma porção de coisas, provavelmente por estar pensando no que fazer daqui pra frente (e, talvez mais importante, em como fazê-lo), mas também devido aos trabalhos que ando fazendo e às aulas que estou dando, de Sociologia do Trabalho. Ou seja, sincronizaram-se vários fatores e cá estou eu, de novo, pensando bastante sobre o que é ser mulher e, mais central, que raio de mulher quero ser.

Vira e mexe volto aos versos finais de um poema da Adélia Prado, né? "Mulher é desdobrável/ Eu sou". São versos que ressoam muito dentro de mim, me interpelam mesmo (talvez quase tanto quanto o trecho de Amor e Erotismo: a Dupla Chama, do Octavio Paz, em que ele define o amor como intensidade, essa espécie de burrice bonita de perder de vista o fato de sermos feitos de carne e, portanto, mortais).

Os versos me tocam também porque foram escritos como parte de um diálogo com outros versos que também me tocam muito: a sentença do anjo torto, que sai da sombra pra vaticinar, "[...] Vai, Carlos! ser gauche na vida". É o primeiro verso do Poema de Sete Faces (por sua vez, o poema que abre o livro Sentimento do Mundo), e fala bastante dessa condição da poesia no mundo moderno, desse descompasso de nascer poeta em um mundo prático, lotado de desejos e pernas, em que as rimas não representam nenhuma solução, (vale lembrar, o próprio verso de Drummond é diálogo com "O Albatroz", de Baudelaire, que é também um retrato eloquente da inaptidão do poeta à vida ao rés-do-chão).

Quando Adélia Prado escreve o poema "Com Licença Poética", portanto, está dirigindo-se à Drummond, mas marcando uma diferença fundamental em sua condição: mais que poeta, é mulher e, assim, sujeita a sinas diversas. Seu anjo anunciador, por exemplo, não é torto, nem vive à sombra:

Quando nasci um anjo esbelto desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira.

A anunciação do anjo traz um vaticínio estranho, que é menos de condição (ser gauche na vida) do que de missão: carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada.

Falando de mulher como uma espécie, a poeta marca a radicalidade da diferença com os homens. O interessante é que nesses versos ela escapa da ideia de essência feminina, ao ligar o peso da tarefa que lhe foi confiada pelo anjo menos à fraqueza de "sexo frágil" do que ao fato das mulheres estarem ainda envergonhadas - de sua própria força ou de chamar a atenção, portando uma bandeira.

Na continuação do poema, a poeta, mineira como Drummond, parece recusar a possibilidade de escapar mineiramente de suas afirmações (como Drummond faz em seu último verso, desconversando ao atribuir à lua e ao conhaque o tom confessional do poema):

Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza
e ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Suas observações sobre si mesma, em primeira pessoa (muito diferente, portanto, do evasivo "homem de óculos e bigode" com que Drummond descreve a si mesmo), referem-se ao universo feminino, falando de aparência (e sua relação com o casamento), de gostos, e da desconfiança em relação a uma dor que é essencialmente feminina: a dor do parto.

Dizendo que ora sim, ora não, acredita em parto sem dor, a poeta fala do evento fisiológico do parto - momento que é intensamente corpo e carne-, mas também parece colocar em xeque a "dor e a delícia" de ser mulher. Muito diferente do significado que a dor assume em Drummond como, por exemplo, em um poema como "Relógio do Rosário", em que o poeta observa que "[...] nada é de natureza assim tão casta/ que não macule ou perca sua essência/ ao contato furioso da existência" para concluir que "vivendo/ estamos para doer/ estamos doendo" (Claro Enigma).

À tudo que em Drummond é essência e condição, Adélia parece opor flexibilidade e fluidez: a dor do parto, afinal, é passageira - sendo verdadeira ou não; mesmo supostamente feia, ela diz que não é tão feia que não possa casar... Nenhuma das identidades ou crenças cristaliza, e isso traz liberdade à poeta.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos - dor não é amargura.

Embora tenha sido destinada a carregar bandeira, aqui a poeta afirma que cumpre a sina ao escrever o que sente, nesse movimento inaugurando linhagens e reinos. Mais uma vez à diferença de Drummond, que fala de sua condição de gauche filiando-se de certa maneira à linhagem dos poetas modernos, Adélia Prado recupera o poder criador da palavra, que inventa filiações, não apenas em direção ao passado, mas também ao futuro. E a poeta conclui o verso novamente falando de dor: "dor não é amargura". Se às mulheres é dado a possibilidade de, doendo, colocar um filho no mundo, a elas também parece estar dada a possibilidade de significar a dor de outro modo - não ligando-a à essência da condição humana, mas ao ato gerador, que se lança na direção do futuro: que âncora mais firme na direção do futuro que um filho?

Adélia ensina: dor não é amargura; pode ser libertadora, pode ser criadora, pode sobretudo ser um momento, e não companhia constante como nos versos latejantes do Drummond.

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.

Nos versos que vão levando o poema ao final, a poeta mais uma vez foge à tristeza como destino: sua tristeza não tem pedigree, não é essencial nem inescapável. O que lhe parece essencial é a vontade de alegria, herança de uma genealogia exagerada. E vale notar que ela não fala da alegria em si mesma, mas do impulso, da vontade de alegria - a poeta, sem dúvida, é mulher de gostos e desejos. Por isso mesmo, escapa com ferocidade de qualquer prisão:

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Nem venha anjo nenhum me lançar maldição, que mulher é desdobrável! Ao invés da evasiva com a qual Drummond encerra seu poema, atribuindo sua comoção à lua e ao conhaque, escapando menos ao destino do que à expressão de si mesmo, Adélia Prado encerra seu poema com a afirmação da possibilidade de fugir ao destino, numa radical afirmação de si mesma: "Eu sou".

Essa afirmação da condição feminina como possibilidade de transbordamento dos limites me toca fundo. Só não sei se é por eu ser mulher ou por, como Drummond, saber-me gauche, inconforme ao meu próprio tempo e, por isso mesmo, seduzível por uma possibilidade de escapar. Em outras palavras, não sei se sou desdobrável por ser mulher ou pela ferocidade com que procuro ser aquilo que não sou. Acho que não é por essência: é escolha.

Imagem: daqui.

08 junho, 2009

Tudoaomesmotempoagora

- Passado o furacão, agora é hora de ir colocando, de novo, os pés no chão. Que anda gelado, diga-se de passagem: dá até vontade de hibernar debaixo de uma porção de edredons...

- Ontem, eu estava fazendo preguiça na cama, de manhã. Mas o Rodrigo já tinha acordado fazia tempo e estava na sala, brincando enquanto o pai assistia corrida e programa de pescaria. Aí, mal aguentando minha própria preguiça, gritei o Rô: "- Fiiilho, vem me salvar, que a cama não me deixa sair...". Mais do que depressa, lá veio o meu pequeno herói, fita de cetim azul na mão, me socorrer. Lançou a fita e foi me puxando, puxando, até que a cama me soltou :-)

- Ontem, ainda, fomos na Liberdade, comprar "misturinha de arroz" (furykake), que o Rô adora. Trouxemos um estoque pruns três meses, e ainda compramos um de Snoopy, lindinho, que tem vinte envelopinhos. Só espero que seja bom...

- E no sábado, eu tinha visto o Rodrigo passar a mão no cabelo, pra tirar da cara. Aí, comentei: "- Puxa, filho! Seu cabelo já está comprido de novo? Já vamos ter que cortar?". Ele riu, e me tascou: "- Não, mãe. A gente compra um gel"! Como eu tinha que ir à Sumirê (adooooooro), aproveitamos e perguntamos se tinha gel de criança. Vocês não imaginam a cara do ser quando ouviu que tinha um gel infantil do Cebolinha! Ele abriu um sorriso de erradicar apagão! Aí, no sábado mesmo, assim que saiu do banho, Edu teve que passar gel e pentear o menino, que estava todo orgulhoso com seus cabelos... Eita delícia de felicidade simples de conseguir!

- Nas três semanas que fiquei na minha mãe, fiquei besta de constatar, mais uma vez, como minha mãe é um mulherão. Ela não usa mais aquelas saias rodadas que usava na minha infância, mas continua o mesmo transbordamento de feminilidade. Vou ter cinquenta anos e continuar querendo ser como ela quando crescer: bonita, cheirosa, elegante... Fora que ela é muito leonina, né? Ela chega em casa e a casa se enche de vida e som. E nesse convívio prolongado, e sem filho, é que me dei conta de como sinto falta dessa convivência mais cotidiana e sem pressa. Um privilégio, ter roubado três semanas de ser (só) filha de novo...

- Nessa reta final, aprendi outro significado para o "desdobrável" do poema da Adélia Prado: mulher não é desdobrável só quando "se desdobra" em duas, três ou mil pra dar conta de tanto; mulher é desdobrável principalmente quando se desdobra da identidade que ameaça lhe aprisionar e se reinventa, se dilata, e transforma o que sonha para si mesma. Desdobrar-se não é se virar em mil para corresponder às milhares de expectativas, aprendi: é respirar fundo e identificar a expectativa que mais importa, a mais radical e então mandar todas as outras passear, sem (muita) culpa.

08 março, 2009

Dia Internacional da Mulher

Passeando hoje pelos reinos da Denize, vi a dica de que - para comemorar o Dia Internacional da Mulher, a Cosac&Naif está com promoção de 50% em títulos de algumas de suas autoras. Como a curiosidade matou o gato, lá fui eu dar uma olhada...E, para minha felicidade, descobri que eles reeditaram a Orides Fontela - em novembro o livro constava como esgotado - e pude comprá-lo com 50% de desconto! Presentão!

Aproveitando o ensejo, parabéns a todas as mulheres!

19 setembro, 2008

Apoio à amamentação em São José dos Campos


Depois do post que escrevi, participando da blogagem coletiva na Semana Mundial de Amamentação, fiquei impressionada com a quantidade de pessoas que passaram a chegar ao blog procurando por termos como "amamentação apoio São José dos Campos", ou então "amamentação Projeto Casulo".

Por isso, resolvi pedir autorização à Flavia para divulgar o trabalho que ela vem fazendo em São José dos Campos. A Flavia é doula (e mãe de três filhos lindos) e vem promovendo rodas de conversas sobre gravidez, parto, nascimento, amamentação e cuidados com os bebês e crianças. O trabalho e as rodas são divulgados no blog Bebe du Bem e também na Comunidade do Orkut, Grávidas e Mães de São José.

Amanhã, sábado (20/09) tem roda e o tema é "Attachment Parenting", uma linha de pensamento sobre a maternidade/paternidade que propõe que o vínculo que construímos com os bebês passa pelo colo, pelo carinho, pelo carregá-los junto a nosso corpo, pelo provimento, enfim, de toda a segurança necessária a seu desenvolvimento. A "independência" dos nossos filhos é conquistada um passo de cada vez, na medida do desenvolvimento de cada criança (e dos pais em sua relação com ela).

Então, pessoas que chegam aqui em busca de apoio em São José, fica a dica: procurem a Flavia, pelo blog ou pelas comunidades.

Sobre o Projeto Casulo, o endereço é Rua Paulo Setubal, 68 - Vila Adyana. Telefones: (12) 39413205. Pelas informações que estão na página da Prefeitura, o encaminhamento é feito a partir das Unidades Básicas de Saúde - UBS. Mas vale telefonar para saber se há encontros de apoio à amamentação, por exemplo. Como disse, minha irmã utilizou o serviço, mas isso foi há 11 anos...

Não esqueçamos também o apoio virtual. Na barra ao lado, em "Mulher e Mãe", vocês encontram vários links de grupos de mulheres que apoiam à amamentação. Nas páginas, existem relatos, informações, espaços para perguntas...

Como bem chamou a atenção o tema da Semana Mundial de Amamentação este ano: Apoio é fundamental!

Vejam também:
Matrice
Amigas do Peito
Relatos Matrice (no último dia da semana, é o relato da experiência de amamentação que eu e o meu filho estamos tendo)
MAMA
De Peito Aberto

27 julho, 2008

Antes da chuva


"Enquanto isso, era verão. Verão largo como o pátio vazio nas férias da escola? Dor? Nenhuma. Nenhum sinal de lágrimas e nenhum suor. Sal nenhum. Só uma doçura pesada: como a da casca lenta dos elefantes de couro ressequido. A esqualidez límpida e quente. (...) Era por ódio que não havia água. Nada escorria. A dificuldade era uma coisa parada. (...) É nessa hora que o bem e o mal não existem. É o perdão súbito, nós que nos alimentávamos com gosto secreto da punição. Agora é a indiferença de um perdão. Pois não há mais julgamento. Não é um perdão que tenha vindo depois de um julgamento. É a ausência de juiz e de condenado. E não chove, não chove. Não existe menstruação. Os ovários são dusa pérolas secas. Vou vos dizer a verdade: por ódio seco, quero isto mesmo, e que não chova. E exatamente então ela ouve alguma coisa. Uma coisa também seca que a deixa ainda mais seca de atenção. É um rolar de trovão seco, sem uma saliva, que rola, mas onde. No céu nu e absolutamente azul sem nenhuma nuvem de amor que chore. (...) A urgência é ainda imóvel mas já tem um tremor dentro. Lóri não percebe que o tremor é seu, como não percebera que aquilo que a queimava não era o fim da tarde encalorada, e sim seu calor humano. Ela só percebe que agora vai mudar, que choverá ou cairá a noite. Mas não suporta a espera de uma passagem, e antes da chuva cair, o diamante dos olhos se liquefaz em duas lágrimas. E enfim o céu se abranda".
(Clarice Lispector)

Todas as vezes em que as crianças ficavam muito agitadas, quase a ponto de enlouquecer os adultos, minha avó perguntava: -"vocês estão adivinhando chuva?". Talvez por isso eu seja capaz de reconhecer tão bem a sensação estranha de agitação e ansiedade que me acomete quando o tempo vai se fechando, armando uma tempestade que nunca chega, e tudo parece ficar suspenso: não são presságios, nem anúncios de tragédias - é antes da chuva.

Nem por isso deixo de sentir os efeitos do tempo suspenso. (Gosto mais é das tempestades de verão, que caem de repente, generosas, lavando tudo.). Já essas chuvas doloridas, feitas de expectativa e chumbo, essas me doem por dentro. Me tornam excessivamente consciente da vida a ponto de parecer insuportável.

E então, quando a primeira gota cai e atinge o chão, o alívio. O respiro. A vida que pode enfim seguir adiante.

Sempre gostei de conhecer os ciclos do meu corpo. De saber exatamente em que período do ciclo estou, não por me lembrar de cor as datas, mas por reconhecer os movimentos do que sinto - o recolhimento de antes de menstruar; o súbito alívio da menstruação, destravando por dentro as portas fechadas; a explosão de alegria dos dias férteis.

Antes da menstruação, muitas vezes é como antes da chuva - secura e aridez, intensidades que parecem que vão durar para sempre. Tudo fica tão mais agudo, que a única vontade é de me esconder, para não me ferir. Talvez também para não ferir, já que estou entre as coisas que se tornam agudas - minhas palavras, meus gestos afiados.

E uma estranheza em relação a tudo, como se as formas do dia-a-dia fossem grades. Uma imensa vontade de escapar. E a sensação igualmente imensa de que escapar é inútil.

Suspensa, na expectativa de que algo que não sei bem o que é aconteça - talvez um telefonema, ou uma carta, ou uma presença súbita para fazer essa vida descarrilar. Mas nada acontece.

Até que chorar volta a ser possível - chove, enfim - e o que antes era areia se torna brinquedo: pesquisa de novas formas. A primeira gota de sangue, e o rio volta a correr por dentro.

Quando li pela primeira vez este livro da Clarice Lispector - Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres - reconheci imediatamente essas sensações, tão femininas (o que obviamente não quer dizer que os homens não as entendam também, a partir de outros códigos). Reconheci, embora isso não me torne menos sujeita a elas: é também antes da chuva.

Imagens: ilustração de Patricia Metola, http://tipika.blogspot.com/

15 julho, 2008

Chegaram!

E minhas maquiagens da Everyday Minerals chegaram ontem! Muito rápido, gente, uns dez dias depois da compra...

Só que eu ainda não experimentei, sabem por que? Porque achei que elas só iam chegar mais perto do meu aniversário e não tenho UM único pincel de maquiagem nesta casa! (a não ser que a gente conte os pincéis de pintar o rosto que uso para as brincadeiras com o Rodrigo, que está no auge da sua onda "vamos fazer uma tatuagem de homem-aranha").

Só experimentei os gloss, que no quesito hidratação são bárbaros. O difícil mesmo foi escolher a cor pelo site, né? Uma eu acertei, mas a outra...Como o nome é "cor de boca", achei que era mais puxado para o rosa, e não era. É meio cor de nada. O jeito vai ser usar com outro por cima...

Mas é tudo tão bonitinho: os potinhos com tampa cor-de-rosa, os potinhos pequenininhos do kit de amostra. Adorei!

Assim que experimentar, dou notícia.

Mas se alguém quiser um "review" de alguém especialista no assunto, recomendo o Vende na Farmácia? Por coincidência, o post de hoje é sobre o assunto...


11 julho, 2008

De novo o papo "mulherzinha"

Então. Ainda não desisti de toda aquela história dos produtos de cuidados com a pele e maquiagens que sejam mais naturais.

A Thais me escreveu, perguntando das maquiagens. Vou contar aqui o que disse para ela, tá?

No dia em que fui fazer o remédio do Rodrigo, comprei um lipbalm da Florestas. Eu tenho um problema grave de ressecamento dos lábios no inverno: racha tudo e dói demais. Eu estava usando o Ceralip, da La Roche Posay, que é o único que ajudava a segurar a onda.

Aliás, depois lembrei que, quando o Rô nasceu, a minha irmã me passou a Lansinoh dela (salvadora da amamentação da Mari, que teve muita rachadura). Por sorte, não tive muita rachadura, mas em um dado momento, percebi que ela podia ser usada nos lábios e resolvia as fissuras que era uma beleza! Mas aí uma amiga teve filho e rachaduras no seio e eu não ia ficar com a pomada só para usar nos lábios, né?

Bom. O lipbalm da Florestas é ótimo: embalagem pequenininha, fácil de usar, e eficiência equivalente à Ceralip, com a vantagem que é natural, orgânica e um terço do preço!

Eu também comprei uma base anti-idade e uma máscara para cílios da linha Tracta, da Farmaervas. Em princípio, eles fazem fitoterápicos e fitocosméticos. Mas não tem informações quanto a ser orgânico ou desprovido de componentes químicos. Eu fiquei de pesquisar os componentes na base de dados Skin Deep, mas ainda não fiz (desculpem!).

E lá no Vida Verde, eu descobri um blog ótimo, chamado Mamãe passou açucar em mim. É o blog de uma pesquisadora e traz muitas informações sobre produtos químicos, indústria farmacêutica e até sobre as regulações envolvidas em cada um dos tipos de "dermocosméticos" que existem por aí. Ela também é uma das fundadoras do projeto Millebolleblu, que faz produtos de higiene para bebês e crianças e ainda roupas lindas de algodão orgânico. Vale a pena, para a gente entender um pouco mais que mundo é esse. Recomendo especialmente o post do dia 7 de julho de 2008.

Outro site bacana para quem quiser pesquisar mais sobre o assunto é o Beleza Inteligente, que traz vários artigos que nos ajudam a nos localizar nesse mundo.

Quando disse que esse mundo está cada vez mais complicado de se viver, eu me referia ao fato de que a gente está sujeito a tantas fontes de informação, que muitas vezes é difícil tomar decisões que sejam boas. Primeiro, porque os critérios que definem uma boa decisão variam de acordo com o que queremos: se eu estivesse muito mais interessada nos resultados imediatos, por exemplo não estaria nem aí para o fato de que os produtos que uso tem ingredientes que podem fazer mal no longo prazo, por exemplo. Ou aplaudiria de pé a tecnologia ultra-moderna de remoção de manchas, mesmo que ela não seja inteiramente saudável...

Eu ainda nem fui na dermatologista (só a semana que vem), mas sei que vou ter que ter muito tato para conversar sobre as outras possibilidades de tratamento porque ela já me acha um pouco louca por amamentar até hoje. Agora, imaginem o que vai acontecer se eu chegar lá pedindo uns produtos orgânicos, né? Eu sei que o modelo de tratamento que ela tem é o de uso de medicamentos, então não dá para chegar lá questionando tudo. Porque se fosse para ser assim, eu nem deveria mais ir e pronto. Por outro lado, acho que também é bacana expor a ela minhas preocupações, porque quem sabe isso também começa a dizer de uma nova demanda...

Ah! E o Edu me deu de presente de aniversário (é só em agosto, mas demora a chegar, então...) um kit da Everyday Minerals - e eu pedi também o kit de amostra. É maquiagem mineral, orgânica e lindinha! Quando chegar, eu conto como é usar...Eu pedi muitos gloss, porque é o que mais uso. Mas também várias bases em efeito mate. Como é mineral, não entope os poros (segundo as várias resenhas que vi sobre o assunto da maquiagem mineral).

Era isso!

* Quase esqueci: não percam o post do dia 9 de julho da Thais no Vida Verde, que tem dicas preciosas de maquiagens e produtos - todos importados, infelizmente. Mas de repente a gente se organiza para testar e faz um plano de negócios para abrir uma importadora!


07 julho, 2008

Mulherzinha, perigos, minhocas na cabeça


Na sexta-feira eu encontrei a Paulinha e estava comentando com ela como eu ando muito "mulherzinha": toda amiga de maquiagens, bolsas, roupas e sapatos. Muito mesmo - a ponto de ficar passeando por blogs com dicas de produtos, batons, bases etc. e nisso perder um baita tempo (minha gripe mal-curada e virada sinusite contribuiu para esse fenômeno, já que ficar lendo com a cabeça abaixada, nem pensar!).

Paulinha riu e comentou "Mas também, minha amiga, a gente fez ciências sociais e tem mesmo um certo atraso nessa história. E não dava pra ficar usando sandalinhas franciscanas suja-dedão pra sempre, ?". Morri de rir.

E como dizia uma outra amiga minha, "contra fatos, não há argumentos". Então relaxei mais um pouco e fiquei de novo de bem com essa fase "mulherzinha".

Vai daí que estava visitando o Vida Verde e a Thais postou (no dia 30/06) sobre os produtos de higiene pessoal, linkando para uma base de dados bacana, com o grau de periculosidade de produtos de higiene e cosméticos que usamos: Skin Deep: Cosmetic Safety Database.

Eu já tinha visto referência a este site, no Síndrome de Estocolmo. E já tinha ficado preocupada. Dessa vez não foi diferente, pois dos produtos que uso cotidianamente, alguns têm fator de risco 8 (numa escala de 10)!

A bem da verdade, a grande responsável por essa minha progressiva incursão pelo mundo "mulherzinha" foi minha dermatologista. Vou contar o causo desde o começo.

Eu sempre fui muito branca e sempre tive uns rubores, especialmente quando ficava envergonhada, quando estava em lugares fechados e quando consumia álcool. Um moço lá da faculdade inclusive achava super legal essa minha característica, dizendo que "eu era a última mulher no mundo que ruborizava". Mal sabia ele que não era pudor, e sim uma predisposição à rosácea.

Já no início da gravidez eu tinha começado a ficar com a pele bem vermelha e com alguns pontos, que à primeira vista pareciam espinhas. Eu achei que era hormonal, e minha única preocupação foi a de prevenir manchas. Para isso eu usava um filtro solar, que para meu azar continha álcool e piorou o problema...Eu realmente não estava preocupada porque achava que tudo passaria depois do parto. Fora que eu não ia tomar remédios ou fazer tratamentos agressivos (como os tratamentos dermatológicos costumam ser, vamos combinar) estando grávida, ?

Quando eu já estava por volta do sexto mês de gravidez - bem no meio desse nosso inverno seco - eu tive uma irritação na perna e fui à uma dermatologista. Era só ressecamento, mas mesmo assim ela me receitou um hidratante e uma pomada à base de cortisona. Teimosa que sou, só usei o hidratante e ficou tudo bem. E mesmo eu tendo dito que iria esperar o parto para tratar o rosto, ela me receitou uns produtos. Só que para falar a verdade eu não senti a menor confiança nela e não fiz nada do que ela mandou :-)

Bom. Pari, o vermelhão (que naquela altura já estava com manchas roxas) melhorou um pouco, mas não passou. Depois dos seis meses do , quando ele já não estava em aleitamento exclusivo, resolvi consultar uma dermatologista, outra. E foi ótimo, porque ela é uma fofa e de cara me inspirou confiança.

Foi ela que diagnosticou a rosácea, que me disse que eu tinha que parar de usar sabonetes, gels, coisas que tivesse ácidos etc. Além disso, eu tinha que observar quais situações e alimentos pioravam o vermelhão (calor, frio, seco, comidas picantes, alimentos cítricos, picos hormonais...). E como eu amamentava, me deu apenas uma pomada para usar em dias alternados e, claro, protetor solar.

Curiosa, fui pesquisando sobre rosácea e fiquei meio assustada, porque não tem cura. Ninguém sabe o que detona, não há remédio realmente efetivo, embora ácido azeláico melhore um pouco (no meu caso, perdeu a eficiência e começou a dar no efeito contrário) e um antibiótico melhore um pouco (descobri quando tive otite e por coincidência o tal antibiótico foi o indicado). Descobri também que o único tratamento que parecia dar resultados mais duradouros era o homeopático.

Além do tratamento indicado pela dermatologista, comecei então o tratamento homeopático também. E veio melhorando, realmente. Mas demorou bastante - é só pensar que o já tem quase 3 anos...

Atualmente, os cuidados incluem: creme para prevenção de acne, protetor solar fator 30 (que eu alterno com um outro que também faz às vezes de base,) e creme em volta dos olhos (tá, esse não tem nada a ver com a rosácea e sim com o fato de que tenho 30 anos...); duas vezes por dia, lavo o rosto com um produto livre de sabonete e à noite uso outro creme para redução das manchas e o creme dos olhos.

Tudo isso para contar que, dos produtos que uso todo os dias, três estão listados no site. Um como risco 8, um como 6 e outro como 3.

E aí, como dois deles estão acabando, agora estou numa baita crise e já até marquei consulta com minha dermatologista. Porque estou com medo de comprar e continuar usando; mas estou com medo de parar de usar e perder o trabalho de tantos anos...

Andei olhando as alternativas, especialmente produtos orgânicos ou naturais, mas ainda não tive coragem de comprar nada.

E agora estou aqui, cheia de minhocas na cabeça e achando que realmente este mundo está muito complicado da gente viver nele.


Imagem: http://falarsobretudoemaisalgumacoisa.blogs.sapo.pt/3894.html


21 abril, 2008

Fantasiada de mulher

"Por que rígida quanto como somos?
Bate em tecla mesma, mesmo sem querer
E bate, bate perna, procura, experimenta e não acha
Cadê?

Está ali atônita, o universo a sua volta e olha
e não encontra
Pensou um dia que queria um vestido vermelho
Talvez um sapato bem alto, para ver do alto

Mas não sabia direito, o sentimento esta este
Mas era outro
Vermelho na verdade pois queria ser mulher"
E não sabia (Joana Zatz, "Salto Alto, Altíssimo", em Tempo Oportuno)

Meu avô tinha uma expressão engraçada sempre que a gente colocava saia ou vestido. Com seu sotaque português - amenizado, mas nunca perdido em todos esses anos de Brasil - ele sorria e comentava: "Estás fantasiada de mulher?".

Como quase toda menina, quando eu era mais nova sonhava em ser como a minha mãe. Minha mãe é um mulherão - alta, loira, com mãos delicadas e unhas sempre feitas. E quando eu era pequena, ela adorava usar saias, vestidos, maquiagem... Eu sonhava crescer e ser como ela, um transbordamento de feminilidade.

Já começa que eu não sou nem alta, nem loira. Meus cabelos crespos por um longo tempo foram motivo de vergonha e, literal e metaforicamente, embaraço. Desde sempre tímida e propensa a me esconder, quando finalmente cresci não tinha muito do mulherão que gostaria de ser. Ao contrário: teve um tempo inclusive em que eu recusava essas formas de ser mulher - saia? salto? vestidos? Não. Eu descobriria uma maneira de ser mulher que não passasse pela aparência ou pelo menos não por esses artifícios mais evidentes.

O mundo gira e a lusitana roda. E hoje tenho a liberdade de gostar de saias, vestidos e maquiagens. De ser louca por sapatos. De ser louca por bolsas (embora não qualquer uma, só as da Denize). De não sair (e nem dormir) sem creme pro rosto e pras mãos. De ter uma necessaire onde tem muito mais coisa que o necessário. De andar de unhas feitas e vira e mexe pintadas de ameixa. E até de comprar - e ler - revista sobre roupa e moda.

Nada disso faz com que me sinta um mulherão, obviamente. Ao longo da vida fui entendendo que virar gente grande é muito mais que parecer gente grande. Embora óbvia, essa é uma verdade que demora a se inscrever no corpo.

Me senti um mulherão só de vez em quando nessa vida; e acho que em nenhuma delas estava fantasiada de mulher. Talvez meu avô é que esteja certo: talvez na maior parte do tempo a gente só vista a fantasia.

Mulher, mulher mesmo, com M maiúsculo, só quando - como ensinou a travesti Agrado, em Todo sobre mi madre - a gente se parece com o que sonhou para si mesma. E isso é muito mais difícil de fazer, embora eu goste de pensar que estou no caminho certo.

Fonte da imagem: hypedesire.blogtv.com.pt/.../Julho/sapato.jpg