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30 abril, 2014

duas bonitezas

A entrevista que a Ecléa Bosi deu para a Revista Fapesp desse mês - Narrativas sensíveis sobre grupos fragilizados - e o belíssimo ensaio que o Marcos Visnadi fez sobre a Hilda Hilst, na revista Geni.
E se precisar de trilha sonora, tem sempre o bonito cd feito pelo Zeca Baleiro a partir da "Ode descontínua e remota para flauta e oboé, de Ariana para Dionísio" (que está em Júbilo, memória e noviciado da paixão - mesmo livro, aliás, de onde saiu o nome desse blog).
Bom feriado, então.


01 junho, 2011

dia 13

na categoria "poema cantado", poema de Hilda Hilst musicado por Zeca Baleiro e cantado pela Angela Roro. O cd inteiro é lindo (Ode descontínua para flauta e oboé. De Ariana para Dionísio), mas a pungência da Angela Roro me fez decidir pela Canção V.

Os dez cantos fazem parte do livro Júbilo, Memória e Noviciado da Paixão. É um dos meus livros prediletos nessa vida - inclusive, o nome do blog tem a ver com um poema que está na primeira parte do livro (Dez chamamentos ao Amigo).

Eu já tinha falado do cd aqui, logo que o ganhei. Continuo achando que os poemas, enquanto falam de amor e ausência, falam também dessa potência da palavra: capaz de tornar o mundo habitável, preenchendo de sentido o vazio ao jorrar umas intensidades inventadas por sobre as pedras nuas e os caminhos de terra batida.

14 maio, 2008

Noturnos Imperfeitos


"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tento tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento"
(Hilda Hilst, primeiro poema de Júbilo, Memória e Noviciado da Paixão).

Sempre gostei deste poema. Muito, aliás. Em tempos de recolhimento e silêncio, essas idéias arranjadas em palavras me ajudam a manter a esperança.

Minhas mãos têm tido desejo de terra; por isso andei comprando argila. E agora, a cada vez que não consigo pôr o que sinto em palavras, corro para a terra úmida e permito que meu corpo aprenda outras formas de dizer. Minhas escrivaninha vai ficando pequena para tantas imagens.

Durante algum tempo, no convívio com este poema, o que me chamava a atenção eram os versos Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. Imaginava o espanto de uma mulher apaixonada que, nos olhar do amante, descobre-se outra. Não mais o rio, mas seu transbordamento: a mulher que se entende terra, úmida, vida e morte.

Terra é um elemento que se liga ao desejo: siderare é o nome que se dá aos astros, donde considerare significa ter os olhos fixos aos céus, tendo a vida orientada pelos astros. Finalmente, desiderare: perder o alto como orientação, cessar de ver os astros, estar fixo ao chão. O desejo nada tem de transcendente; ao contrário: ele nos liga à terra e nos condena à errância.

O poema me impressionava, portanto, pela delicadeza com que falava do desejo e do movimento que pode gerar em nós haver um outro que nos olha; me impressionava pela boniteza da imagem de reconhecer-se terra.

No entanto, das últimas vezes em que voltei ao poema, ele me falou de outra coisa. Me pareceu o apelo dolorido da mulher que teme que seu homem não seja capaz de vê-la em sua inteireza. por isso ela começa: Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo". Olha-me de novo e me dê a liberdade da noite e da imperfeição. "Olha-me de novo. Porque esta noite/Olhei-me a mim como se tu me olhasses". Olha-me, porque me vendo através de seus olhos, descobri-me outras, tantas; descobri-me água e terra, fogo e ar. Te olhei e o meu desejo por ti me prendeu ao chão, ao barro, ao imoldado. Então, olha-me de novo para que possamos dar forma a esta matéria de que somos feitos. Olha-me de novo para revivermos o gênesis.

Trata-se de um poema de amor e desejo. Mas agora estou mais marcada pelo apelo pungente que, no fundo, é o apelo que nos fazemos reciprocamente, cotidianamente, mudamente: Olha-me de novo. Porque todos entendemos que somos terra. E que um olhar atento nos faria novos, outros, restaurados.

O pedido desesperado dessa mulher apaixonada é o nosso próprio: olha-me de novo para que eu não me acostume com minha própria imagem desgastada, refletida em seu olhar. Olha-me com olhos novos. Olha-me de novo porque não sou sempre a mesma...

O poema é outra forma de dizer aquilo que Ana Cristina César também diz: "Você me ama? Então se concentre".

Olhar de novo exige concentração. Resumindo toda essa falação proponho-nos um novo mandamento: olhemo-nos de novo.

Imagem: "O fazer artístico", Paula Lyn Carvalho. Em: http://www.superimagens.com/sp/galeria/

06 maio, 2008

Pobre do homem que é amado por uma poeta


"Nem é justo, Dionísio, pedires ao poeta

Que seja sempre terra o que é celeste
E que terrestre não seja o que é só terra".
(Canto VIII, na voz linda de Olívia Byington)


Ainda não consegui escrever direito sobre o CD dos poemas da Hilda Hilst, musicados pelo Zeca Baleiro. Tenho algumas primeiras impressões, outras tantas segundas, terceiras e quartas...Mas está difícil transformá-las em palavras.

Deixo aqui então só um pedacinho do canto IV, cantado pela Jussara Silveira:

"Porque te amo, Dionísio,
É que me faço assim tão simultânea

Madura, adolescente

E por isso talvez
Te aborreças de mim"
, (Hilda Hilst, Canto IV, Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé)

Como já disse, adoro esses amores que despertam a imensa liberdade de se experimentar, de ser várias, de parecer outras.

E, anunciando uma primeira impressão, uma das sensações que tive escutando o CD pela primeira vez foi: pobre do homem que é amado por uma poeta. Porque ele pode se sentir escolhido, enaltecido pelas virtudes de quem está lhe amando. Mas o fato é que o amor está na poeta, à espera de objeto mas, em certo sentido, à despeito de qualquer objeto.

Os poemas da Ode Descontínua... falam mais sobre ausência e falta do que sobre a presença de Dionísio. Em parte porque foram escritos para um amor clandestino - biograficamente falando. Mas poeticamente falando, é a falta que dá impulso às palavras. O primeiro canto, aliás, diz:

"É bom que seja assim, Dionísio,
que não venhas",
(na voz de Rita Ribeiro)

E ela segue dizendo que, se o amado estivesse ali, presente, ela estaria com ele mas perderia o mundo. O próprio mundo que ela usa (em palavras) para se preparar, para estar sempre preparada quando ele vier.

E no canto II (Verônica Sabino):

"(...) Tu sabes,
Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira
Poeta".

E no canto III (Maria Bethânia), é como poeta que ela vai se inconformar com a ausência (igualada à falta de amor):

"A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla e argonauta

Por que recusas amor e permanência?"


A referência a si mesma como poeta é constante. Não é apenas uma mulher apaixonada que fala, louvando ou cobrando o amado. É a poeta que fala, é a poeta que ama, é a poeta que constrói um universo inteiro a partir de um amor que poderia nem existir de fato:

"E fingindo altivez digo à minha estrela
Essa que é inteira prata, dez mil sóis
Sírius pressaga

Que Ariana pode estar sozinha
Sem Dionísio, sem riqueza ou fama
Porque há dentro dela um sol maior:

Amor que se alimenta de uma chama
Movediça e lunada, mais luzente e alta

Quando tu, Dionísio, não estás".
(Canto VI, lindamente cantado pela Ná Ozzetti)

Essa mulher que aparentemente espera e suporta a ausência, é ativa na criação e na transfiguração da vida:

"Tenho meditado e sofrido (...)
Pensando

Que se a mim não me deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: a palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida".
(Canto IX, na voz da Mônica Salmaso).

Embora fale de falta, não há falta alguma: há sim a presença do amor, encarnado nas palavras e cantos. Uma preparação constante para um Outro, Dionísio; mas tanto faz se ele virá ou não porque se ele viesse, não apenas a poeta continuaria atuando, como se transfiguraria ela mesma em melodia:

"Se todas as suas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa

E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia"
(Canto X, na voz de Ângela Maria).

Se o amado estivesse presente, portanto, não lhe restaria alternativa a não ser se transformar também em poeta: o que essa mulher quer mesmo é ser transformada em pura poesia, consubstanciar-se com a palavra (e não com qualquer homem...).

Portanto: pobre do homem que é amado por uma poeta. Julga estar sendo amado por quem é, mas apenas merece amor por dar corpo ao imenso amor que na poeta sempre se prepara.

Bom. Não consegui ainda falar do CD propriamente dito. Mas já foi um começo...

* Este post é dedicado à Juliana B., meu anjo torto. Há muito tempo que não nos vemos, mas ela continua sendo minha companhia nessa beira de estrada, desse lado ensolarado que eu achei para caminhar.

Imagem: http://astronomia-algarve.blogspot.com/2007/04/o-sol-2.html

17 abril, 2008

As margens do feminino

Até que me provem o contrário, tenho para mim a Hilda Hilst como nossa poeta mais bem resolvida - e por "bem resolvida" entenda-se a capacidade de reunir conteúdo e forma sem deixar sobrar nada.

Faz um tempo já que pensava em escrever sobre ela. Mas hoje, depois de ler um texto que José Castello escreveu sobre ela e que se chama “Hilda Hilst ou a derrota das palavras”, é que veio essa urgência de escrever sobre ela agora.

Que as palavras são sempre insuficientes, a gente sabe. Tem coisa que é mesmo inominável: poderíamos dizer, escrever infinitos tomos e não seria suficiente para nomear – um encontro, um adeus, um filho nos braços, um carinho antes que se feche o caixão...Existem momentos em que tudo é tão maior que dizer é impossível.

Quem me conhece sabe: sofro de um profundo amor pelas palavras. Gosto da liberdade que elas me dão, gosto do esforço da pesquisa pela palavra exata, pelo lugar exato, gosto de como elas sabem, de sua textura.

E é por isso que gosto tanto da poesia da Hilda Hilst. Do jeito que ela arranja as palavras, transbordando o seu vazio, ensinando a palavra a ser outra, aprendendo com a palavra a ser outra.

Um dos poemas que mais me impressiona diz assim: Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo. Porque esta noite/Olhei-me a mim, como se tu me olhasses./E era como se a água/ Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio/ E deslizando apenas, nem tocar a margem. /Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra”. Trata-se de um pedido, para o amante, para o leitor, para que não se preocupe em conforma-la, em entende-la, pois seu poema é ele mesmo inominável e o que quer é escapar do leito, é transformar água em terra e terra em água. Transfiguração – e afinal também não é disso que é feita a poesia?

A força da palavra é imensa: “Se te pronuncio/ Retomo um Paraíso/ onde a luz se faz dor/ E gelo a claridade”.

Não há, de maneira alguma uma derrota das palavras. Porque se aceitarmos que ela pode ser derrotada, nada mais nos resta – nem consolo, nem colo, nem a possibilidade de comunicação.

***

Tinha começado a escrever esse texto há algum tempo. Depois, achando que a poesia da Hilda merecia um cuidado maior, me impus a tarefa de reler seus livros para ilustrar melhor esses pontos – aí, já sabem: fase de terminar dissertação, festas de fim de ano, e acabei esquecendo ou adiando.

Mas hoje, ao abrir as notícias e descobrir sua morte, não é possível deixar passar em branco o vazio que ela deixa na nossa poesia. Sem a Hilda Hilst, todos nós ficamos mais silenciosos, mais pobres mesmos de imagens e palavras que tão bem tateavam – e nesse tatear construíam e ampliavam – as margens de estar vivo. Então, essa mensagem fica como lamento, mas ao mesmo tempo como a reafirmação de que, com sua poesia, seus contos, suas novelas “pornográficas”, Hilda tornou nosso mundo mais habitável, mais humano. Essa mensagem inacabada fica como o reconhecimento do imenso poder criador da palavra, de que Hilda Hilst nos deixa testemunho.

* Queridos, Rodrigo está doente e precisando da mãe 24 horas por dia. Por isso hoje vamos de texto requentado, só um bocadinho editado, escrito por ocasião da morte da Hilda Hilst (e lá se foram 4 anos...).

** E o engraçado é que se tivessse me lembrado deste texto antes, teria postado no lugar daquele sobre Cem Anos de Solidão já que este tem tudo a ver com o próprio nome do blog.