essa música não é só uma música: é um lugar e um tempo. é o apartamento que eu dividia com o vinicius. é o sofá em que a gente assistia o vídeo de um especial com a marilia pêra gravado da tv, na época em que ainda era necessário rebobinar para ouvir à mesma música mais de uma vez. é um momento úmido em um ciclo seco duradouro. é repetição da lição de que ser mulher é desdobrar-se, reinventar-se, estar disposta à mudança. é idealização de um feminino que não existe em parte alguma, mas que apesar disso reconheço em mim, nesse corpo, nisso que podia ser chamado de alma. um lugar e um tempo bons de voltar. tanto mais nesses tempos difíceis, que raspam até o tacho a energia que a gente tem pra viver.
Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo. Porque esta noite/ Olhei-me a mim, como se tu me/ olhasses. E era como se a água Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. (Hilda Hilst)
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12 agosto, 2014
14 maio, 2014
procrastinando
Tantas coisas para fazer e uma gripe que não me deixa... fui olhar um vídeo da Sia no youtube e como aquilo ali é o labirinto do tempo perdido, cheguei numa batalha de sincronização de lábios, hilária:
Ao Joseph Gordon Levitt, todo amor que houver nessa vida!
Mas o pior, o pior mesmo foi PRECISAR ouvir A-Ha depois da performance do Jimmy Fallon:
Tem noção de quantas paixões foram embaladas por Stay on these roads? Quantas danças em bailinhos? Quantas tardes voltando a agulha do LP pra escutar só essa música (isso, claro, antes da invenção da fita K7, em que a gente podia gravar a mesma música infinitas vezes e assim evitar de ter que voltar a faixa :-)
A única conclusão possível depois de tudo isso é: envelheci. Que tudo parece há tanto tempo. Que tudo parece que foi ontem.
29 abril, 2014
k7
de um tempo que é quase outra vida chegam as notas de uma canção antiga, chegam as intensidades de nossa juventude ainda meio adolescente, e esse convite-promessa, repetido tantas vezes: vem andar comigo nessa beira de estrada, nesse lado ensolarado, que eu achei pra caminhar. ai, ai, ju, que de repente me deu tanta saudade de você...
14 abril, 2014
sôdade
bonito demais:
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06 agosto, 2013
política abissal
"O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas" (Carlos Drummond de Andrade).
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas" (Carlos Drummond de Andrade).
***
a memória de ter ouvido é vaga, mas
o lembrado ficou impresso com força. até acho que eu era pequena, não mais que
oito ou nove anos. talvez tenha sido uma reportagem de tv. que dizia que que no
ano dois mil muitas pessoas estariam morando e vivendo no lixo. veja bem: não
existiam catadores como hoje. naqueles tempos, o lixo não era reciclável – era
só fedor e putrefação. era montanha adornada por pássaros imensos de rapina.
urubus. eu era pequena, de família de classe média. pais separados e uma certa
consciência de decaimento depois disso, o que talvez explique a forte impressão
que a imagem me causou. porque ao ouvir aquela informação, eu soube: pode
acontecer comigo. a qualquer tempo. independente de qualquer esforço meu para
evita-lo. o que se tem é frágil e nenhum destino é improvável. eles e nós não
existe. somos todos igualmente sujeitos às vicissitudes disso que a anete ivo definiu tão bem quanto viver por um fio.
***
o pensamento era ingênuo, é claro.
eles e nós existe e as chances não são igualmente distribuídas. nem as de galgar
degraus acima, nem as de resvalar abaixo. mas é provável que exageremos a
distância. que a vida só seja suportável se afastarmos com a mão essa
consciência brusca e avassaladora de que pode ser com a gente. o
que quer que seja que nos assuste no destino dos pobres: a moradia precária. a
fome. o trabalho que mais parece um ciscar às cegas, feito galinha em terreno
lavado. o corpo fragilizado pelas necessidades, tantas, mesmo aquelas quase
esquecidas diante das mais imediatas. como a de ser visto. como a de se sentir
limpo e digno e autossuficiente. bastar-se a si e aos seus. não depender. pra
seguir vivendo, os nossos pés virados pro lado oposto desse abismo. olhos no
horizonte da terra firme.
***
aí eu leio a história de alguém que caiu nesse abismo. que assistiu, impotente, o
pedaço de terra firme se inclinando de modo a lançar primeiro algumas, depois
muitas, ainda depois cada vez mais gentes pelo despenhadeiro recém-descoberto.
e a quem resta muito pouco. resta a palavra. e a gente gosta de pensar que a
palavra é bote. palavra-paraquedas. depois de puxar o cordão de emergência, aliviando
ploft a gravidade num ir-e-vir suave
na direção do chão. duro e definitivo. linha de chegada para aquém do que...
nada. a essa mulher resta a palavra. e os papéis do despejo. e a raiva incontida. e a sopa da cruz vermelha.
***
eu leio e
choro. um choro manso. porém árido – as lágrimas rasgando caminho no seco dos
olhos e a garganta num travo de banana verde. choro por ela. pelos seus filhos.
pelos seus conterrâneos. pela quebra da ilusão da distância do abismo. pela
dolorosa consciência, forjada na dor, de ser parte da estatística. de ver
acontecer consigo. de ter que abrir mão das explicações que responsabilizam o
outro por sua própria situação para reconhecer que aos bons também lhes ocorrem
maus destinos. porque não somos tão indivíduos assim. porque calhamos de nascer
agora e aqui.
***
eu leio e
choro e volto para a rua do sindicato onde eu fazia entrevistas durante o
mestrado. a rua por onde eu ia e vinha. por vezes, por onde eu ia e vinha sem
sequer entrar no prédio. covarde do ato de abordar quem na beirada desse
abismo. incapaz de ver e ouvir sem doer. incapaz de pedir que me dessem o que
restava: a palavra. a narrativa bote. paraquedas. salva-vidas. aquela boia onde
eu apoiaria meu pensamento, mas inútil para trazer para margem quem em pleno
alto-mar. naquele começo de milênio, o frio cortante da manhã, os copos de
plástico ainda rescendendo a café ou chocolate, e as pessoas na fila onde
ilustram-se as estatísticas. aquelas eram de desemprego. de desalento. de
desalojados das certezas que garantiam que a vida seguisse seu curso. dez,
quinze, vinte por cento da população economicamente ativa que aprendeu que a
crise não é passageira e que por ser duradoura rouba – pouco a pouco, de
início, depois com violência – o que se leva uma vida a construir.
***
se a crise
passa, a vida até reencontra um normal. demora, mas é preciso seguir em frente
e a consciência do abismo atrapalha o fluxo. as mãos doem e sangram do esforço
em não cair, ou do esforço em escalar a parede escarpada. mas os pés se
esparramam no chão recém-redescoberto e trilham aos poucos o caminho que parece
levar para longe daquele desvão. o arrepio nas costas agora somente um pequeno
mal-estar. de vez em quando. ou pesadelo, do qual se acorda com o coração acelerado, entre o alívio e o terror.
***
e se a crise
não passa? a consciência também se perde? não sei. alguns a tentam fixar,
talvez os que mais perderam e os que mais foram tomados de surpresa pela
facilidade com que foi possível perder tanto. a narrativa envolvendo
cuidadosamente essa consciência frágil, cuidando de advertir e ensinar. a
despejada que narra fala daí, desse espaço que só conhece quem perdeu o seu
lugar. vira o espelho para mim, para você e diz: somos iguais. suas chances de
cair eram as minhas. o mérito não conta tanto mais do que a sorte (e o azar,
ela sussurra). a estatística que me engolfou te lambe os pés.
***
o espelho é incômodo e dá vontade de virar o rosto. nos
últimos dez anos, caminhamos de costas para o abismo, cada vez mais gente se
afastando dessa vertigem e seus perigos. mas talvez seja a consciência da
beirada que nos permita ir mais longe do que já viemos. “comunidade de
destino”, era o nome que a Ecléa Bosi dava. à duração dessa consciência da
artificialidade que separa o nós do eles. à persistência da memória de que enquanto
o abismo for largo e fundo, nenhuma distância é segura o suficiente. e que isso
deveria pôr nós e eles num movimento comum.
17 maio, 2013
voragem
é a imagem dela dentro de mim - essa memória frágil e amarelada - que me
dá força pra de vez em quando odiar. a imagem relampeja e logo se fixa
no céu da lembrança, feito a primeira estrela na noite nebulosa. ela no
chão. ela ajoelhada no chão de uma cozinha. ela e a bacia presa entre os
joelhos. ela e as mãos, incansáveis, virando e revirando a massa. a
massa de pão. o avental entre o colo e a bacia. e a massa virando e
revirando. ela está envelhecendo, mas é uma heroína pros meus olhos
infantis. ela e a amplidão de seu espaço. ela e a fazenda de rio gelado,
porcos gordos, mato farto. a mulher que no fim da tarde me ensina a
modelar a raiva: um quilo de farinha de trigo. três copos do leite gordo e forte que me salvou
os olhos quando, ingênua, achei que a pimenta guardava dentro de si o
seu ardido. uma colher de sopa de açúcar. dois tabletes de fermento
biológico. meio copo de manteiga. sal a gosto. a receita pra aplainar o
que farpeja por dentro. os cabelos loiros dela presos enquanto as mãos,
ágeis, virando e revirando a massa. ela vê meu olho espantado de criança
frente àquele estranho rito e me confidencia: é pra usar bem a fúria. e pára de virar e revirar para socar, bater, lançar plafts
a massa no solo duro da bacia. a imagem dela ecoando mais luminosa no
prateado do alumínio. a bacia inteira amassada. marcada pelo sem-número
de vezes que numa vida, numa vida de mulher, numa vida de esposa, numa
vida de mãe, fermenta-se o pão na ebulição do sentimento. ela é tão
bonita, assim sem contornos claros na minha memória. sinto falta dela.
então recupero, palavra por palavra, essa imagem. especialmente
quando eu também viva, uma vida de mulher, uma vida de esposa, uma vida
de mãe. fermentando o pão na quentura do sentimento. depois colocando
pra descansar a massa. e polvilhando de farinha a ira agora ovalada.
cortando xis antes de levar ao forno. depositando a raiva crua no
forno pré-aquecido e esperando crescer, crescer. e cozer. e dourar. e
por fim recolher ainda quente o milagre. ela de volta, quase viva
novamente. e então eu agradeço a ela, por ela. por saber o que fazer do
meu rancor. no pão ainda quente, a vida finalmente amansa. o búfalo alimentado se deita amplo e fecha os olhos.
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28 junho, 2012
pudor
livro usado é duplo encontro: com o autor, com o primeiro dono. essa semana, durante a leitura, além das margens todas preenchidas do trabalho de compreender, e das frases sublinhadas, e das exclamações de quem congratula o autor ("ótima conclusão!"), também umas censuras - imputar, desgraça, danada, todas palavras com alguma letra riscada, como se parti-las ao meio salvasse o texto do pecado. neta da minha avó, entendo bem esse pudor. as palavras são mágicas: pronunciá-las é borrar limites, misturar à terra os mistérios do céu.
14 junho, 2012
modorra
dentro da palavra modorra moram as tardes de férias na casa da minha avó. moram o sol quente de verão e os tatu-bolas que investigávamos no jardim. moram também os cheiros: de xixi e cocô de cachorro evaporando no quintal recém-lavado pela chuva; de sabão de côco e amaciante, estendidos no varal.
no mapa da minha imaginação infantil, modorra fica ao lado do pecado, nas fronteiras com sodoma e gomorra. e é cidade inteira de pedra.
modorra é mais chão do que parede porque é mais cama que poltrona.
a palavra modorra está grávida e logo deve parir a lassidão.
06 junho, 2012
sabedoria
na aula de ginástica, o professor explica o exercício "abre os braços e fecha as pernas". a voz da bisavó ecoa, firme através dos tempos, ensinando os cuidados em ser mulher. os braços, abertos para a acolhida. as pernas, fechadas para o desejo. atrás do beijo, vem o desejo. sabedoria antiga que alerta para a voragem e seus perigos.
essas vozes me alcançam, mas não me enredam. já todo o caminho na pele que o veludo do primeiro beijo abriu, esse sim me envolve sem salvação. me perco, de novo e de novo e de novo, imprudente. braços e pernas abertos ao mesmo tempo, dizendo sim às águas turvas e seus tragos.
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13 janeiro, 2012
luz
minha avó sempre acende uma vela
quando sabe que um dos seus precisa de luz: quando a decisão é dura; quando a
estrada é comprida; quando o desafio é imenso, certamente haverá aquela chama
acesa com todo o amor do mundo, a envolver o destinatário nas teias invisíveis
da fé e da esperança. quando vim viver em são paulo, e a cidade me assustava
tanto, me amparava a ideia de que sua oração noturna, diariamente repetida, me protegia – a mim que sou sua neta e afilhada. estar nas orações delas era quase estar em casa.
minha mãe herdou a tradição e
também acende velas nos momentos críticos.
eu sempre entendi o gesto, mas
hoje em dia, com enteadas que andam pela cidade e viajam sozinhas, com a
autonomia que a vida dos membros da família vai ganhando, com as viagens, as
novidades, os novos passos do rodrigo pelo mundo, entendo mais. entendo melhor
essa vontade de recolher os queridos, de estender sobre eles a proteção e a
luz, de ajudá-los a não se perderem, de esperar que vão e voltem a salvo.
acendendo esse farol para, imaginariamente, reconstituir a proteção uterina da
casa, enquanto os filhos todos à vista e a imensidão do mundo no quintal.
acendendo esse farol também, deusnoslivre, para que em caso do pior, eles terem o que lhes guie no outro mundo.
acender velas é o que resta às
mães e às mulheres quando a família se amplia, transborda o portão da casa.
me crescem os filhos e também eu sinto essa urgência em renovar os modos de dar a luz.
me crescem os filhos e também eu sinto essa urgência em renovar os modos de dar a luz.
31 dezembro, 2011
água
Ontem, arrumando o escritório, resolvi lavar as santas, coitadas, empoeiradas a valer. No instante em que decidi sabia que podia chover.
Quando Vinicius e eu nos mudamos para o apartamento que dividimos por alguns anos, era julho e era uma secura insuportável. A gente ia e vinha a pé na Eusébio Matoso - e em cima da ponte o seco era mais intenso - para equipar a casa com talheres, copos e tudo o mais que precisava para fazer daquele espaço o nosso lugar. Naquele julho a gente lavou vários santos quase todos os dias tentando amainar a aridez. Se lá fora não funcionou, pelo menos dentro de casa deu certo: as palavras sempre úmidas, amolecidas pelo café quentinho e doce que a gente fazia nos fins de tarde, no coador de pano, mesmo que às vezes a preguiça o virasse em nescafé. A secura amenizada pelos tons de alaranjado que entravam pelas nossas janelas sem cortina. Apesar de dífices, bons aqueles tempos... (depois ainda veio Petronio, que não bebia café, mas também dividia doçuras).
No último dia do ano, acordei lembrando de mais de dez anos atrás. Vai ver que tem ciclo que é mais longo que doze meses. Vai ver que "arrumar a casa" para o novo e se sentir grato pelo que passou pode ir mais longe que o passado recente. Vai ver que eu precisava dessa umidade tranquila para aquietar o coração antes de me sentir pronta para recomeçar.
As santas, de todo jeito, parecem felizes e frescas.
26 junho, 2011
dia 30
na categoria "trilha sonora de infância", Fire Inc. (!), na cena final de Ruas de Fogo - filme que passava toda santa Sessão da Tarde. "Tonight is what it means to be young" é tudo de bão nessa vida: praticamente uma passagem de volta aos anos 80 ;-)
05 junho, 2011
dia 18
na categoria "cabeludos dos anos 80", Bon Jovi, cantando "Living on a prayer". Lindo-lindo-lindo! Diretamente da época em que eu assistia cliptrip para vê-los e tinha posters do Jon Bon Jovi espalhados pelo quarto. Ah, a adolescência... Ah, os anos 80..
Acho que esse desafio musical tá desenterrando várias memórias musicais. Porque confesso que fazia tempos que não pensava nem em Dalto, nem em Skid Row (coloquei 18 and life na categoria "cabeludos..." no facebook), muito menos em Duran Duran. Mas estou curtindo bastante: é ótima desculpa para fuçar no youtube, em busca do tempo perdido. Menos espontâneo, mas mais saboroso que madeleines ;-)
22 maio, 2011
dia 3
Essa é na categoria "música para cantar com a Ana Lucia no ônibus e ouvir de um velhinho que a gente desafina".
Nos idos anos de 1996, 97, num ônibus subindo a Brigadeiro Luiz Antonio, Ana e eu nos esforçávamos para lembrar a letra dessa música. Nossa memória ainda não era tão falha e lacunar como hoje em dia, de modo que puxa dali, larareia dali, fomos cantando a música enquanto o ônibus resfolegava nas duas últimas quadras antes da Paulista. Finalmente, nosso ponto e descemos, ainda cantando. Junto, saltou um velhinho, comentando alguma coisa que já não me lembro direito, mas que tinha o inequívoco sentido de reprovar nossa afinação. A gente deve ter arregalado os olhos e dado risada. Mas parar de cantar a gente não parou não - que vezemquando é bom distrair o ferro do suplício e cantar uma esperança.
26 fevereiro, 2011
Do fundo do baú
Hoje tive que dar uma pequena arrumada no escritório, que está um caos de livros e papéis, e acabei encontrando um troço muito antigo, acho que do segundo ano de faculdade. Feito numa das noites de música, vinho Sinuelo e muita, mas muita conversa e risada que tínhamos na casa dela, um "teste vocacional para as ciências sociais". Escrito pela Tati, pela Ju e por mim, é só trocadilho bobo ao longo de todo o "teste", mas ainda dá para ouvir o eco das nossas descobertas e esperanças de antes dos vinte anos.
Teste vocacional para as ciências sociais
(Diga-me quem sois e te direi quem és).
DADOS PESSOAIS:
Nome:
( ) próprio
( ) alugado
( ) financiado
( ) clonado
( ) irrelevante
Idade:
( ) jovem
( ) maduro
( ) senil
( ) ancião
Signo
( ) próprio
( ) somente ascendente
( ) chinês, nê?
( ) N.B.A.
Estado civil:
( ) SP
( ) solteiro
( ) casado
( ) indefinido
PERFIL
Quando você se olha no espelho, você vê alguém:
( ) egocêntrico
( ) etnocêntrico
( ) antropocêntrico
Responda SIM ou NÃO:
- Você se acha maisque Weber?
- Você tem pés-francos (ou frankfoot, como eles dizem lá)?
- Você seria capaz de um hobbes a banco?
- Às vezes você se sente mauss ou menos?
- Durkheim na prova?
- Você já viu sua mãe de Bobbio?
- Você acha que A Oleira Ciumenta é um livro de auto-ajuda para mulheres com crise no casamento?
- Você toca baixo, alto Xingu ou não é o tipo de pessoa que classifica as coisas em um sistema binário?
Qual o tipo de abordagem do problema "Com quantos paus se faz uma canoa" se parece com você?
- marxista: qual a força de trabalho gasta para se fazer uma canoa?
- weberiana: qual o espírito dos homens que precisam de canoas para navegar?
SOBRE SEUS HÁBITOS:
- Você dorme de hobbes ou de pijama?
- Qual é o seu hobbes?
O mais interessante é que o teste acaba assim, abruptamente e sem nenhuma tipologia orientadora da leitura dos resultados. A única anotação ao final, com a letra da Ju, diz apenas "parem de xingar o meu vinho" :-)
13 outubro, 2010
pequenino conto de terror e ternura

Ele foi minha primeira paixão. Amor, já tinha tido alguns; poucos, já que nem acabara de dobrar a esquina da infância. Alguns: platônicos, enrolados, feitos de olhares de longe na hora do intervalo escolar ou de timidez, nos bailinhos e festas. Mas paixão? Só com ele mesmo.
Uma noite, devia ser dezembro, estávamos namorando na rua dele quando ouvimos uma freada brusca e, em seguida, um carro acelerando. Corremos para ver o que era e encontramos já uma pequena aglomeração se formando, em torno de um gatinho atropelado. Não olhei direto, aflita com a morte tão próxima - ainda mais tão de repente, esquecida que estava de que o corpo é também peso frágil (naquele momento, o corpo era só leveza de pelos arrepiados). Ele sim, mais corajoso, olhou, chegou perto, reconheceu o bichinho, lamentou. Lamentamos. A morte do gato e a covardia do motorista.
Constatada a morte, era a hora de contar à dona. De novo, o único corajoso foi ele - tocou a campainha, acolheu os conselhos de ser suave... e, mal a dona do gatinho surgiu à porta, disparou à queima-roupa: "um motorista atropelou um gato. Era o seu".
Boquiaberta a menina. Boquiabertos todos nós, ali em volta. Era isso então a suavidade? Atropelar as palavras, atropelar com palavras?
Me deu um susto, aquele menino. As farpas do desajeito fazendo cicatriz no veludo da sua companhia. Me encantou, também, sua honestidade crua, sua coragem sem o pudor da pena. Os pés turvados de paixão se deixando lamber pela água límpida da ternura.
Uma noite, devia ser dezembro, estávamos namorando na rua dele quando ouvimos uma freada brusca e, em seguida, um carro acelerando. Corremos para ver o que era e encontramos já uma pequena aglomeração se formando, em torno de um gatinho atropelado. Não olhei direto, aflita com a morte tão próxima - ainda mais tão de repente, esquecida que estava de que o corpo é também peso frágil (naquele momento, o corpo era só leveza de pelos arrepiados). Ele sim, mais corajoso, olhou, chegou perto, reconheceu o bichinho, lamentou. Lamentamos. A morte do gato e a covardia do motorista.
Constatada a morte, era a hora de contar à dona. De novo, o único corajoso foi ele - tocou a campainha, acolheu os conselhos de ser suave... e, mal a dona do gatinho surgiu à porta, disparou à queima-roupa: "um motorista atropelou um gato. Era o seu".
Boquiaberta a menina. Boquiabertos todos nós, ali em volta. Era isso então a suavidade? Atropelar as palavras, atropelar com palavras?
Me deu um susto, aquele menino. As farpas do desajeito fazendo cicatriz no veludo da sua companhia. Me encantou, também, sua honestidade crua, sua coragem sem o pudor da pena. Os pés turvados de paixão se deixando lamber pela água límpida da ternura.
Imagem: Nacho Gomez
20 setembro, 2010
segunda-feira
- minha mãe esteve em Maputo e voltou tocadíssima com o país e, sobretudo, o povo. Voltou também com um quebra-cabeça muito legal de madeira, tridimensional - o do Rodrigo é um hipopótamo. Ontem, ficamos Rô e eu, ainda de pijamas, por quase duas horas montando o bichinho. Bobinhos, começamos a destacar as peças da placa de madeira antes de ler as instruções e depois tivemos que recolocar todas, para poder identificar o número das peças pela posição! Foi bem divertido... Rodrigo, de vez em quando, olhava aquilo tudo e dizia "não tô entendendo mais nada...". Pior que tinha hora que eu também não :-)
- Fomos ao Festival Internacional de Cinema Infantil, ontem, que era o último dia. Pegamos a sessão de curtas - foi bacana, mas como os curtas são muito diferentes (inclusive do ponto de vista da qualidade), Rodrigo se encheu e acabamos saindo antes do fim. Agora, esse curta aqui, que foi premiado no Festival, valeu muito a pena! É tão simples e delicado. As lagriminhas teimosas rolaram bochecas abaixo :-)
- Falando em lagriminhas teimosas, estamos desenvolvendo um projeto na disciplina que estou dando este semestre de coleta de memórias escolares. Pra quem quiser ler - e também comentar ou mesmo escrever a própria lembrança - as histórias coletadas até agora estão no blog Memórias dos Tempos de Escola. Enquanto vou subindo as histórias e lembranças, de vez em quando me acomete uma lembrança das minhas próprias experiências escolares... Agora mesmo, me lembrei da festa do estojo no começo do ano: a caixinha verde, com tampa de madeira, plena de lápis pretos, 12 lápis coloridos, apontador e borracha. Caneta bic, só na 5ª série... E o sonho de consumo era ter um daqueles estojos de pano, em que as canetas e lápis ficavam presos com elástico! (desses, eu nunca tive). Nossa! Até fui parar de repente naquela sala de 1º série, da "Tia" Déia, que parecia tão grande (embora fossémos apenas uns 15 alunos na sala) e tinha uma porta direta para a sala da direção! Não tenho saudade da escola, mas dá uma nostalgiazinha, sim, daquela percepção do tempo e do espaço, em que o mundo era amplo, o tempo era largo e tudo estava por ser conhecido.
- quando, no final do domingo, a gente percebe que esqueceu durante todo o fim de semana de tomar o remédio para ajudar a lidar com o stress, deve ser algo bom, né?
23 agosto, 2010
anotado a lápis
Fim-de-semana de visita à mãe, onde topei com memórias empoeiradas - feitas de papel, de caneta, de gesso e de metal. Misturadas todas na gaveta do armário.
Tinha a embalagem do livro que o Petronio me trouxe de além-mar, registro de carinho e conspiração por e-mails com a Ana Lucia; tinha lembranças de casamentos, nascimentos e variados quinze anos; ttinha a carteira de vacinação e o último boletim do colégio, com mensagem querida da professora predileta; tinha o bilhete delicado que o Ricardo me mandou quando passei no vestibular, lembrança incandescente do vazio de maré cheia que ele deixou.
E daí encontrei trechinhos de leituras que ia fazendo. Como esta, com data de maio de 2001:
"Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruím ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero todos os pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado" (João Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas).
Encontrei também alguns bilhetes e cartas da Ana, que por alguma razão escaparam à reunião na caixa comum. Como um pequenino papel onde pousa uma borboleta amarela:
"E isso implica um trabalho sobre os limites e no limite da arte, à beira do abismo - onde o disforme resiste à forma, impele ao fracasso e deixa adivinhar o impronunciável" (Plínio W. Prado Jr, na apresentação à Descoberta do Mundo, da Clarice Lispector).
Foi tão bom jogar uma porção de coisas fora! Como se, ao perder certas chaves de mim, ficasse leve para me reinventar.
Imagem: Nacho Gómez.
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05 julho, 2010
Pão com ovo
Depois da Veronika ter escrito lá no Piperca (apelido super simpático e charmoso inventado pela Neide) sobre a importância de, nos piqueniques, levarmos algo mais ao paladar dos pequenos - que, em geral, correm, exploram, brincam e pulam e quase não comem - tinha ficado pensando no que levar. E aí, na semana passada, fui começar a (tentar) trabalhar e marido tinha deixado aberto o blog do Katsuki, num post sobre piquenique. Então, resolvi: ia levar pão com ovo.
A decisão me levou longe no tempo. Quando eu estava na 5ª série (a antiga, que a gente fazia aos 10 ou 11 anos), minha melhor amiga era a Anna Carla. A gente se conhecia desde a 4ª série, e já éramos bastante amigas - eu achava o máximo o fato dela ser chilena e adorava visitá-la, para ouvir a família toda falando em espanhol... Além disso, seus pais eram separados como os meus, o que me fazia me sentir um pouco menos anormal (naquela época, eu só tinha duas amigas cujos pais tinham se separado, a Anna e a Paola).
Depois que a mãe dela se casou de novo e engravidou, eles se mudaram para uma casa mais longe, o que tornou nossas visitas menos constantes. O engraçado é que pouco me lembro da nova casa deles, mas me lembro bem do encantamento de andar no trailer da família. Era simplesmente o má-xi-mo!!
Mas me lembrei da Anna Carla porque, enquanto ela ainda morava mais perto e as visitas eram mais comuns, eu adorava dormir na casa dela. Aos finais de semana não haveria tanta graça; eu gostava mesmo era de ir dormir lá em dia de escola. A gente brincava, papeava até cansar e, no dia seguinte, a mãe dela nos acordaria cedo, nos faria café e prepararia a iguaria tão cobiçada: um sanduíche de pão com ovo, em pão francês.
Eu não sei bem o que me encantava mais - que a mãe dela preparasse o lanche (acho que eu levava bolachas de pacotinho ou, mais tarde, dinheiro para comprar algo na cantina), que ela se preocupasse com o meu lanche, que na hora do recreio (eita palavrinha velha!) eu tivesse aquele segredo de ovos guardado na mochila... O fato é que, por muito tempo, quando eu queria uma comida de conforto, daquelas que imediatamente fazem a gente se sentir acolhido e amparado, frequentemente minha escolha recaía sobre um pão francês com ovo. Comida que, pra mim, sabe a cuidado e partilha.
E que alegria foi ver a criançada comendo os tais sanduichinhos, recheadinhos de salada de ovos e de memórias de infância!
09 maio, 2010
Os trabalhos da mão*
Depois do último post, minha memória começou a funcionar e aí hoje de manhã me lembrei de um texto do Alfredo Bosi sobre mãos. Primeiro pensei que estava em "O ser e o Tempo na poesia", mas, quando procurei e não encontrei, percebi que se tratava de uma citação feita pela Ecléa Bosi, no Memória e Sociedade - Lembrança de Velhos.
Então, abaixo parte da citação. Linda e cheia de poesia, como em geral são os escritos de ambos...
Antes, posso ter um momento tiete? No final de março, fui ao lançamento de um livro do José de Souza Martins e a Ecléa e o Alfredo Bosi estavam lá, junto com o neto deles. Quando cheguei, estavam todos conversando sobre netos e a experiência de ser avô/avó. Dali a pouco, o Alfredo Bosi comenta, despretencioso:
Antes, posso ter um momento tiete? No final de março, fui ao lançamento de um livro do José de Souza Martins e a Ecléa e o Alfredo Bosi estavam lá, junto com o neto deles. Quando cheguei, estavam todos conversando sobre netos e a experiência de ser avô/avó. Dali a pouco, o Alfredo Bosi comenta, despretencioso:
- Ah! Mas netos são a sobremesa da vida!
Como eu estava de fora da roda, fiquei lá sorrindo e saboreando a delícia da frase, tão simples e tão precisa.
No final do ano passado, pela primeira vez ouvi a Ecléa Bosi falando em um curso e também foi um troço de bonito - sua fala tão delicada, tão densa e tão cheia de poesia... Ela acabou de falar e eu lá, engasgada, olhos transbordando, tentando não dar muito vexame :-)
Mas vamos à citação, que serve de (longa) epígrafe a um capítulo entitulado "Memória do Trabalho":
"Parece ser próprio do animal simbólico valer-se de uma só parte do seu organismo para exercer funções diversíssimas. A mão sirva de exemplo.
A mão arranca da terra a raiz e a erva, colhe da árvore o fruto, descasca-o, leva-o à boca. A mão puxa e empurra, junta e espalha, arrocha e afrouxa, contrai e distende, enrola e desenrola; roça, toca, apalpa, acaricia, belisca, unha, aperta, esbofeteia, esmurra; depois, massageia o músculo dolorido.
A mão tateia com as pontas dos dedos, apalpa e calca com a polpa, raspa, arranha, escarva, escarifica e escarafuncha com as unhas. Com o nó dos dedos, bate.
A mão abre a ferida e a pensa. Eriça o pêlo e o alisa. Entrança e destrança o cabelo. Enruga e desenruga o papel e o pano. Unge e esconjura, asperge e exorcisa.
[...] Apanha com gestos o eu, o tu, o ele; o aqui, o aí; o hoje, o ontem, o amanhã; o pouco, o muito, o mais ou menos; o um, o dois, o três, os números até dez e os seus múltiplos e quebrados. O não, o nunca, o nada.
É voz do mudo, é voz do surdo, é leitura do cego.
Faz levantar a voz, amaina o vozerio, impõe silêncio. Saúda o amigo balançando leve ao lado da cabeça e, no mesmo acina, estira o braço e diz adeus, urge e manda parar. Traz ao mundo a criança, esgana o inimigo.
[...] A mão, portadora do sagrado. As mãos postas oram, palma contra palma ou entrançando os dedos. Com a mão o fiel se persigna. A mão, doadora do sagrado. A mão mistura o sal à agua do batismo e asperge o novo cristão; a mão unge de óleo no crisma enquanto com a destra o padrinho toca no ombro do afilhado; os noivos estendem as mãos para celebrar o sacramento do amor e dão-se mutuamente os anulares para receber o anel da aliança; a mão absolve do pecado o penitente; as mãos servem o pão da eucaristia ao comungante; as mãos consagram o novo sacerdote; as mãos levam à extrema-unção ao que vai morrer; e ao morto, a benção e o voto da paz. In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum" (Alfredo Bosi, citado por Éclea Bosi. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p.468-9).
A citação ainda segue, falando das mudanças nos usos das mãos com as invenções de máquinas, ferramentas e instrumentos, e mostrando como são justamente as mãos as que primeiro sofrem com a distração do homem frente à máquina: se poupam os músculos do trabalhador, o preço que cobram também é alto - dedos ou mãos decepados, acidentes de trabalho que marcam o trabalhador.
É que não quero fazer um post muito comprido, mas amanhã, quando for escrever sobre o nosso piquenique de hoje - no friozinho úmido que fez por aqui - acho que volto a falar sobre mãos e trabalho. A gente não chama assim mesmo, trabalho manual, a tudo aquilo que se faz de modo quase orgânico? Mexer, cavar, plantar, moldar, amassar, costurar, bordar, recortar? Pois então. Amanhã falo do piquenique, de cozinha e de trabalhos manuais. E também de tempo, vagar e herança.
* Título da citação de Alfredo Bosi no corpo do post.
* Título da citação de Alfredo Bosi no corpo do post.
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