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30 junho, 2012

estranheza

Penso a palavra fase e o poema da Cecília Meireles me vem à cabeça: tenho fases como a lua/fases de andar escondida/fases de vir para a rua. A fase pendulando extremos - inscrevendo os picos da vida no que é ciclo e, assim, domando o imprevisível.
Penso a palavra fase e sei que meu filho, quando a escuta, imagina jogos de videogame ou computador: algo a se cumprir para continuar a brincadeira. Fase como obstáculo, como intermediária, sem sentido em si mesma. Bandeirolas largadas num caminho pré-definido.
Penso a palavra fase e ressoam as aulas de física: as fases da tensão elétrica, contínuas ou alternadas, o papel do dijuntor. A fase como o grilo que se esconde no quadro de força, cricrilando a alta tensão de chuveiros ou ferros de passar. De novo os picos, agora de energia.
Como pode uma pessoa pensar tanto a palavra fase? eu a pronuncio,  e a estranho enquanto ela ainda está suspensa no ar. Desde então, dou voltas em torno dela, escavando seus sentidos. Não me preocupo: essa estranheza dos termos mais banais há de ser somente uma fase.

13 junho, 2012

(im)potência

de uma conversa muito antiga com ele, sobre magia, linguagem e ação:

"Eu tenho à medida que designo - e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mão vazias. Mas - volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu. E é inútil procurar encurtar o caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição. A desistência é uma revelação." (Clarice Lispector, na Paixão segundo G.H.).

31 agosto, 2011

em fogo brando

no final de semana assistimos novamente amor à flor da pele. é tão bonito, tão delicado... mas ao mesmo tempo de uma melancolia tão fininha que chega a doer - porque da honradez não resulta recompensa, porque o encontro não se sobrepõe ao sentido do tempo (e deve ser por isso que o Kar Wai filma tanto os relógios): há tempo para tudo, e para as personagens, o tempo do encontro parece ter passado.

e na segunda-feira assistimos 2046 (aqui saiu com o subtítulo os segredos do amor), que é um filme bem diferente, muito mais comprido, muito mais confuso, que deixa a gente sem entender muita coisa. a personagem do Tony Leung, Chow, é bem... irritante, para dizer o mínimo (dá vontade mesmo é de entrar na tela e dar uns tabefes nele, tanta cafajestagem!), mas ao mesmo tempo também melancólica: desencontrada, como se estivesse mesmo a bordo do trem metafórico que viaja eternamente, sem possibilidade (ou esperança) de encontrar o porto certo onde desembarcar.

aí hoje de manhã me peguei pensando nisso: que 2046 é um futuro onde as lembranças não se perdem, mas é sobretudo um passado que a gente não consegue abandonar. é como se o passado lançasse à frente de si seus trilhos e a gente ficasse condenado a permanecer no trem, sem escape. 2046 é um quarto, quatro paredes onde o encontro se faz possível, sob a proteção do resto do mundo. fora dele, o encontro vira segredo, peso a ser carregado e só partilhado com criaturas vivas mas silenciosas. em 2046, Kar Wai repete quase à exaustão a história dos segredos insuportáveis, dos quais nos livramos ao depositá-los num buraco de árvore e, em seguida, cobri-los com barro.

eu não sei como a vida é na china e o quanto um social tão coeso pesa sobre um individuo; não sei dizer o quanto os desencontros e a infelicidade das personagens, nessas duas narrativas do Kar Wai, podem ser creditadas à circunscrição da individualidade a um quarto [e hoje de manhã também me lembrei d'o quarto 19, da Doris Lessing, que é o segredo que torna a vida suportável]. eu só vejo daqui onde estou. e daqui onde estou, me lembro de duas frases, uma da clarice, outra da camille claudel, citada pelo caio fernando abreu em uma de suas crônicas.

"Guardo seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver" (Clarice Lispector).

"Existe sempre alguma coisa de ausente que me atormenta" (Camille Claudel).

e lembrando dessas duas frases, e pensando na recorrência com que as personagens desistem uma das outras por não encontrarem aquilo que estavam procurando - em geral, a recuperação de um amor que foi embora - fiquei pensando que o filme é sobre esses trens expressos nos quais embarcamos quando queremos nos livrar de uma lembrança/ quando queremos recuperar o que nos falta/ quando, sem companhia, não sabemos mais para onde ir: é sempre um risco, já que o trem pode nos levar ao futuro, mas também ao passado ou, pior ainda, nos deixar aprisionados em uma viagem duradoura. estar no trem é o momento-quando do abandono.

o segredo, fardo pesado, é aquilo que sempre falta mesmo quando a gente segue adiante. é a sensação de que o tempo oportuno escoou, de ter perdido o encontro certo. é o arrependimento pelo que não foi. é dor latejante que embaça os olhos e impede o reconhecimento do porto possível, condenando à errância.

queima silenciosa e mornamente, esse segredo, essa falta.

(o edu tem toda razão: para dar tal destino à personagem, o Kar Wai não deve mesmo gostar dela).

01 junho, 2011

dia 13

na categoria "poema cantado", poema de Hilda Hilst musicado por Zeca Baleiro e cantado pela Angela Roro. O cd inteiro é lindo (Ode descontínua para flauta e oboé. De Ariana para Dionísio), mas a pungência da Angela Roro me fez decidir pela Canção V.

Os dez cantos fazem parte do livro Júbilo, Memória e Noviciado da Paixão. É um dos meus livros prediletos nessa vida - inclusive, o nome do blog tem a ver com um poema que está na primeira parte do livro (Dez chamamentos ao Amigo).

Eu já tinha falado do cd aqui, logo que o ganhei. Continuo achando que os poemas, enquanto falam de amor e ausência, falam também dessa potência da palavra: capaz de tornar o mundo habitável, preenchendo de sentido o vazio ao jorrar umas intensidades inventadas por sobre as pedras nuas e os caminhos de terra batida.

05 maio, 2011

fluxo

porque tem dia ou melhor tem dias assim no plural e unidos no mesmo fio da pressa em que o folêgo falta e atravessar as horas exige pernas fortes pulmão amplo coração acostumado à rapidez e esses tempos corridos não são nem cansativos porque cansar exige pausa e "quanto mais coisa a gente faz mais coisa consegue fazer" me disseram e logo depois um encontro com alguém que sinceramente não sei como pode tanta coisa o trabalho a escola o casamento o curso de línguas e eu me espanto porque não entendo tanta pressa escolhida eu se pudesse escolhia meu próprio tempo e ele é quase sempre lento que meu folêgo é curto e vira e mexe é preciso vir à tona e redescobrir o ar no meio da pressa as pessoas mesmo as mais queridas e interessantes se perdem viram ponto luminoso no horizonte e o mundo gira pro lado oposto e constrói distâncias onde a gente queria palmilhar um caminhozinho e esse desencontro me dói como uma perda um vislumbre de alegria enterrada na areia que escorre sem parar da ampulheta implacável como é que faz para virá-la começar de novo recordar e planejar e esquecer as mesas sempre empilhadas de livros e textos e tarefas nunca concluídas e a pia empilhada de xícaras e pratos e lembranças de refeições apressadas e o quarto empilhado de roupas usadas e não usadas esperando um lugar na preocupação e no armário tantas pilhas e a gente escorrendo por entre elas no meio delas já sem saber o que importa e eu te convido vamos fugir? a fuga difícil mas só a promessa já me tira do peito um peso já me infla uma esperança no oceano agitado ainda por algum tempo é preciso seguir a correnteza  ainda por algum tempo abandonar-se a ela deve ser isso o que chamam de ser adulto quando ser criança ainda era tomar o tempo em goles largos agora não sei que angústias as crianças de hoje espero que só as inescapáveis e eu perpendiculo as mãos em T e peço pausa digo não finco o pé porque daqui do meio do fluxo vejo um pouso que me interessa e então sei que é preciso interromper.

26 abril, 2011

maré

Parar para escrever não tem sido nada fácil. Já perdi a conta de quantas vezes cliquei em Nova Postagem, provocada pela vontade de colocar em palavras uma impressão, uma experiência ou mesmo a dificuldade de reservar um tempo para deixar a maré baixar e ficar à espreita do que emerge.

Escrever exige de mim um respirar mais lento. Um pouco de silêncio ou um pouco de música recém-descoberta em loop. É que tem música que ressoa tanto que amplia o silêncio, delineia  melhor os cantos por dentro da gente. A de hoje é essa aqui:



Quem me deu o filme foi o Mauricio. E estou morrendo de saudade do Mauricio. Mas me lembrei das músicas porque reencontrei a Monika no feriado e essa foi uma das coisas que ouvimos. Ouvimos também  (e contamos) histórias, desejos, cotidianos, descobertas... Reencontrei também a Mércia e a Tarsila, queridas e companheiras, tão suaves que demandavam a maciez do silêncio para não acordar as dores ainda cicatrizando.

E então a chuva e o frio e o cinza. A morte e a dor tão próximas dos que amamos. É do silêncio, portanto, que escrevo. Do vazio cavado à força, por dentro de um tempo roubado ao do relógio. Deveria estar trabalhando, terminando a declaração do IR, respondendo mensagens. E no entanto paro e escrevo para tentar segurar o mar com as pontas dos pés: o esforço inútil esquecido na brincadeira de cavar buracos na areia, de ver os pés se cobrindo de areia molhada - ampulheta sem redoma.

Por três vezes nas últimas semanas cruzei desconhecidos que pouco depois reencontrei - num outro andar, algumas ruas adiante, em frente ao mesmo elevador... Engraçado, né? A desconfiança de que as coincidências são pequenos sinais de alguma ordem oculta que governa o mundo...

Tão vendo? Desaprendi de escrever. Começo e não sei terminar. Espero a maré baixar, começo,  apenas para me abandonar no excesso de água e sal. Não vou me debater para não me afogar. Vou confiar, como o Quintana, que continuarei vindo "à tona de todos os naufrágios".

Então acho que por enquanto é isso: essas letras um tanto borradas, ainda úmidas e rescendendo à maresia. Um barulho indistinto que nem é silêncio, nem é conversa: é só o eco da saudade doída que a gente ameniza levando a concha aos ouvidos.

19 novembro, 2010

adolescência

Talvez nem seja mesmo comigo que ele está falando, mas, ainda que não seja, alguns de meus próprios incômodos com o que anda rolando aqui nestes Noturnos resolveram começar um diálogo com algumas das questões que o Tony colocou.

Não tenho conseguido muito escrever por aqui, vocês já perceberam. Por vezes, me angustia um pouco, pois escrever aqui é também reservar um tempo para tatear um bocadinho tudo aquilo que vai acontecendo no todo dia: nomear as pedrinhas que vão sobrando na margem e fazendo indícios de caminhos. Por outro lado, escrever aqui também é um pouco escrever para um mundo geral demais (com exceção dos queridos visitantes habituais e seus comentários que por vezes me espantam imensamente, porque - como está escrito aí do lado, com as palavras da Rita Apoena, eu só escrevo mesmo para encurtar distâncias e fico tão grata quando em alguns momentos elas se tornam mesmo menores por meio dessas cordas feitas de palavras) e eu tenho preferido interlocuções mais próximas: e-mails, telefonemas, piqueniques, jantarzinhos, cafés e até recadinhos no facebook me apetecem mais do que um texto no blog, que pode tanto trazer para perto como ser um grito no vazio.

Talvez também eu ultimamente me sinta por vezes tão exposta - não num sentido ruim, mas no sentido de estar mais vulnerável ao imprevisível da vida, principalmente no espaço da sala de aula - que o silêncio ou o dito de forma torta (teve jeito não... vesti total a carapuça ;-) sejam modos de me esconder, de criar pra mim ilusões de sombra, como se escrever num blog já não fosse me expor e como se eu não achasse que o dito, mesmo por vias tortas, é ainda assim tão transparente e revelador.

Nas vezes em que me angustia não conseguir escrever com mais frequência, tento pensar o quanto a dificuldade de escrever se relaciona com a falta de tempo para ler literatura, para ver bons livros, portanto, para ampliar meus 'arsenais de ficção" (como o Tony me ensinou) e exercitar sentir a vida de outros modos que não o cru da "realidade".

Aí me lembro que a vida também é feita desses movimentos pendulares e que às vezes é bom mergulhar em outros mundos que não os da ficção. E penso no que foi este último semestre, cheio de intensidades, de construção de mundos comuns nessa nova casa onde estou, com os novos colegas, com os meus queridíssimos alunos, com as pessoas com as quais discutimos sobre as eleições, projetos de país, desafios à interpretação do que é o Brasil hoje... Nos últimos anos, a intensidade esteve quase sempre cheia de angústia e, assim, me sinto imensamente grata de poder viver agora esses momentos intensos de encontro - que trazem crises, é claro, que propõem novas questões e novos problemas, mas também são férteis (até sonhei  esta semana que estava grávida de novo, e sei bem que não é um desejo literal, mas a sensação boa de embriões de coisas novas querendo sair a luz). E me lembro que não escrever aqui tem sido escrever no Margens, ler posts e textos que nem são apenas para preparar aula, assistir bobagenzinhas de mãos dadas com o marido no sofá, ficar debaixo do edredom assistindo SoobyDoo com o filho, jogar jogos de cartas, cozinhar quitutes e às vezes até - ó suprema glória pós-furacão de mestrado e doutorado e concurso - fazer nada.

Claro que nada é tão preto e branco assim: meu corpo anda um pouco revoltado comigo e, confesso, eu também ando um pouco revoltada com ele. Ele me enche de espinhas, dores nas costas, feridinhas que nem explodem nem secam, às vezes se espalham e outras vezes coçam sem parar... E o remédio de fundo que tomei há cerca de duas semanas parece que piorou tudo, colocou tudo para fora. Toda a história do "inoportuna" começou daí - dessa sensação de uma adolescência extemporânea, que reforça o jeito de menina que eu teimo em ter e que, nas situações de trabalho, às vezes é um problema. A espinha é inoportuna, porque contrasta com aquilo que eu desejaria parecer - me faz sentir adolescente aos trinta e poucos anos. Embora eu mesma, que me sinto com trinta anos desde os 25, esteja agora achando que trinta anos é mesmo muito mais perto da adolescência do que a gente gostaria de pensar.

E adolescência tem isso de transição, de inadequação, de nem estar mais cá, nem ter ainda chegado lá. Da voz sair fora de tom, da roupa não cair bem - às vezes revelar a meninice; às vezes fazer um adulto postiço. Do de dentro não combinar com o de fora. Com se sentir de um jeito e ser visto de outro. A depender de qual dos lados se quer estar, inoportuno é tudo que lembra que ainda estamos no meio. E o post nasceu da tentativa de deixar uma bandeirinha nesse meio de caminho, num momento em que tudo isso latejava e me deixava à flor da pele.

E tudo teria sido mais fácil se eu tivesse me tocado que, apesar de não ser hora, grande parte disso tudo era uma TPM - ela mesma inoportuna, fora de seu tempo, atravessando o ritmo ciclíco e me confundindo. Quando tudo transbordou, as coisas ficaram mais leves. Porque a inconstância também é parte da adolescência e de uma hora pra outra, a maré vira de lado ;-)

01 setembro, 2010

Sismo


 Em pleno dia. Quando no meio do rotineiro a gente nem imagina que algo possa desviar em consciência. Assim, no meio da tarde ensolarada e azul. Quase no automático, saca a agenda e se prepara para anotar as tarefas do dia seguinte e a caneta vacila - ou seria a mão a vacilar? A mão, sua mão, tonta frente à página em branco, esquecida do destino que ensaiava desenhar. O pequeno vacilo e o mundo erra. O amanhã virado em dúvida. O cotidiano todo borrado, a alegria de sol virada postiça e ela a estranhar a si mesma no vidro que está à frente. Pronto: mudou o eixo. Querendo tomar posse de si mesma, retoma a tarefa - a lista longa de afazeres vai se desenrolando sobre o papel, na letra miúda e apertada que rouba ao branco o respiro das entrelinhas. A rachadura aberta por dentro anunciando uma nova cicatriz.

Imagem: daqui.

25 junho, 2010

Deleite

Deleite é palavra erótica: cheia de abandono e gozo, de maciez e quentura. Deleite é cremoso e esparrama depois de cravada a primeira mordida, exigindo da boca e da língua o esforço inútil de não deixar nada se perder. Deleite é massagem sem pressa, mãos mornas deslizando, desfazendo nós, inaugurando lugares do corpo. É a água escorrendo quente pelo cabelo, pelo pescoço, pelos ombros, límpida e clara, lavando todo o peso do mundo. Deleite é embalo de rede, memória de útero tramada no pano. É música que escorre por dentro, acendendo arrepios e acordando meios-sorrisos. É escalda-pés ao fim do dia, os pés afundando na água fervente, avermelhando e depois se deixando ficar até se acostumarem à quentura (e à dor). Deleite é palavra boa, saborosa e úmida: derrete na boca feito doce aerado - os vazios dando lugar à plenitude do gosto. Pronunciá-la é estalar o prazer, no fundo da boca, no fundo do corpo.

23 junho, 2010

Quando o corpo consente*

Então que tomei chá de sumiço nos últimos tempos...Primeiro por correria mesmo: teve Brasília, linda e na lua cheia, plena de encontros e família; depois teve São Paulo fria e garoenta em inglês, já que fui a um seminário acompanhar duas estrangeiras - uma americana e uma canadense - que foram super pacientes com as ferrugens do meu inglês, e passeamos pela Paulista e pela Augusta, almoçamos no MASP e até tomamos café na Oscar Freire (o tempo era curto; eu queria mesmo era tê-las levado ao Centro); e depois teve feriado com filhote doente e, uma semana depois, quando ele melhorava, a gripe dele passou pra mim e ainda não foi embora.

Por conta da gripe não pude ir ao piquenique desse mês, num dia tão luminoso que só podia mesmo ter sido precedido de um longo período de cinza: o sol daquele domingo parece ter sido gestado devagarinho, para renovar as esperanças e tornar o encontro possível...

Pelo menos, uma semana depois, torcer pelo Brasil deu - embora o jogo mesmo tenha passado batido, tanta conversa e comida boa havia a ser partilhada.

E também deu para ir à defesa do Marcus - que sendo amigo da família Rillo Alencar só podia mesmo ser especial -, participar mais um pouquinho do trabalho bonito que ele fez (eu já tinha tido o prazer de revisar).

Só não deu para ir dar um abraço de verdade no Mauricio - mais um ano e mais um furo. Querido, não sei como você não me rifa! Mil perdões.

Depois de tanta coisa, tá tudo meio de perna pro ar: prazos de trabalho atrasadíssimos, textos empilhados, trabalhos de alunos a corrigir - tudo em meio a muito cof, cof, cof. Fora as pequeninas chateações, como a perícia médica para a contratação na USP, que tinha me liberado (já fui lá por três vezes) e agora pediu mais exames. Como se para ser contratada eu tivesse que estar perfeitamente adequada a todo e qualquer intervalo de normalidade... Dá uma réiva, que nem conto...

De todo jeito, estou tentando voltar a escrever, mesmo que seja difícil. E nem é pelo tempo. Acho que tem um pequeno agosto se formando por aqui, querendo abrir espaço para o novo florescer, querendo interromper essa correnteza sucessiva e incessante. É sempre um pouco dolorido e, por vezes, exige silêncio.

Por isso, quando fui dar título ao post, me veio à cabeça o título desse livro, composto pelos relatos de três mulheres sobre a gravidez e o parto de uma delas (escrevem a mãe, a filha - grávida - e uma parteira). Não, não estou grávida, nem pensando no assunto. É que não é só engravidar e parir que dependem do consentimento do corpo; depois dessa gripe, e dessa incômoda lembrança que o meu corpo pode me deixar na mão, fiquei pensando que adoecer também depende do corpo consentir. Adoecer também exige uma espécie de abandono, de confiança no próprio corpo, de respeito ao que ele pede - descanso, silêncio, muita água... Nesses nossos tempos, assim como parir naturalmente, adoecer não é fácil. Tem sempre imperativos  que nos atropelam, exigindo da gente estar bem e produtivo. Eu mesma acho que venho arrastando o adoecer pelo menos desde a entrega da tese (e lá se vai mais de um ano!). Dessa vez não deu: meu corpo me deu um ultimato e exigiu de mim parar um pouco.

Então, parei. E estou tentando retomar o movimento devagarinho.

Ainda bem que, no meio de tudo, tem a voz da Tulipa Ruiz para me embalar... Gentes, ela é linda demais! Eu comprei o cd e não canso de ouvir - parece que cada vez descubro uma coisa nova, uma música que vira preferida... (No domingo, eu cozinhava e ouvia a Tulipa e aí o Rodrigo chegou na cozinha e por lá ficou, voltando inúmeras vezes a faixa 9, dançando e pulando. Coisa querida da vida!).

Então, para encerrar o post e voltar (devagarinho) para a lista de afazeres, mais um pouquinho de Tulipa, falando inclusive de uma temporalidade lenta e própria ao amor.



* Título de Marie Bertherat, Thérèse Bertherat, Paule Brung (São Paulo: Martins Fontes, 1997).

07 maio, 2010

Mãos


Passei um tempão na fase de usar esmalte escuro: ameixa, jaboticaba, vinho reserva, havana... Em parte era uma questão prática, já que o único jeito de eu não roer as unhas era mantê-las pintadas de escuro, transparentes até à menção de colocar a mão na boca. Mas também era por gosto de tê-las coloridas e compridas.

Há umas três semanas que não quero saber de cor escura. Agora, tem sido um tal de renda, condessa, coral... E me lembrei da expressão "mão de noiva". Sabe? Quando a gente passa esmalte bem clarinho e delicado, típico de "mocinha". Ou "noiva". Ou "princesa" (nome, aliás, de um desses esmaltes claros que eu me recusei a comprar, confesso, só por conta do nome e aí troquei pelo condessa, que pelo menos é título de mulher poderosa com alguma liberdade pra fazer o que lhe dá na telha ;-). É todo um imaginário da feminilidade dócil e pura contido na expressão.

E aí lembrei ainda de outra expressão relacionada às mãos - "mãos de fada". Também é adjetivo de delicadeza e transcendência. A expressão foi quase motivo de uma briga entre uma amiga e eu, porque eu estava fazendo bolinhos de chuva e o moço de quem ela gostava 'garrou comer os bolinhos e dizer que eu tinha "mãos de fada". O Zé tinha dessas expressões antigas; acho até que ele mesmo sempre foi um menino antigo... E era o primeiro ano de faculdade, então tenho certeza que grande parte do sabor dos bolinhos vinha da ideia de lar que eles rememoravam - os tempos de criança que deixavámos definitivamente para trás...

Mas já estou começando a me perder. Estava falando das expressões ligadas às mãos e que "mãos de fada" é uma expressão que tem sua dimensão de milagre - quando alguém faz alguma coisa deliciosa ou bela, que transcende os ingredientes iniciais. Quem tem mãos de fada imprime magia ao que faz.

Tem também a expressão "mão de trabalhador", que deve ser calejada, típica de quem "põe a mão na massa" (outra expressão em que as mãos aparecem). Mão de pele fininha e tratada, unha muito limpa e cortada não pega bem: pode revelar preguiça ou vida mansa. O caráter se revela nas mãos, no sofrimento e nas marcas que o trabalho deixou impressas.

Como os olhos, as mãos são janela da alma. Mas enquanto os olhos observam e contemplam, as mãos agem, transformam o mundo - acarinham, amassam o pão, são estendidas ao céu, carregam bandeiras, ressoam melodias. Também podem lutar, ferir, destruir, fazer barulho. E podem simplesmente restar cruzadas. 

As mãos são portadoras da ação - transportam o pensamento ao ato ou, às vezes, se antecipam ao pensamento. Tateiam e modelam. Reconhecem e inauguram.

Imagem: M. C. Escher, tirado daqui.

09 março, 2010

Gostosuras e alguns Espantos

Vontade de escrever não falta, mas o tempo anda escasso, pelo menos pelas próximas três semanas... É uma pena, mas pelo menos dá para preservar espaço para encontros, como o brunch que fizemos há dois finais de semana - cheio de comilanças, chazinhos e muito papo gostoso - ou o piquenique que começou há pouco tempo e já vai se firmando como des-compromisso delícia, que estende as bordas do tempo e torna os domingos ensolarados tão esticados quanto as toalhas reunidas no coreto e mesmo um café rapidinho, com alguém que até hoje eu só conhecia de trocar e-mails e que, além de ser um ótimo interlocutor, parece também ser cheio de doçuras.

E como a Neide dessa vez estava em terras cariocas, deixou pra Veronika a tarefa de fazer as fotos e a Veronika, por sua vez,  me incumbiu a tarefa de registrar aqui, com algumas fotos e pelo menos uma receita :-) Então, mesmo que já seja terça-feira, aqui vai o meu registro do nosso piquenique.

Enquanto esperava Edu e Rodrigo voltarem da visita à minha mãe (que gentilmente os acolheu para que eu pudesse estudar no sábado), acordei cedo e fui na quitanda comprar umas coisinhas que faltavam - em princípio, eu ia fazer duas receitas, ambas do livro Culinária vegetariana com sabor da Índia: pãezinhos de laranja com coco e muffins de maçã.

Pães de laranja com coco (receita no final do post)

Por fim, acabei levando apenas os pãezinhos de laranja, porque os muffins não renderam como eu achava, e eu não tinha conseguido ir comprar as forminhas - de modo que acabei fazendo em potinhos de cerâmica e... enfim, não rolou (mas eles ficaram bons!). Também levei uma geleia de jaboticaba, não muito doce, que veio de Caxambu, e suco de carambola.

Chegamos lá por volta do meio-dia e já tinha bastante gente animada, comendo e conversando, enquanto as crianças estavam todas se divertindo no parquinho (deviam estar felícissimas com o sol, depois de tanto frio e chuva!). Antes mesmo de chegarmos ao coreto, Rodrigo parou umas três vezes, para experimentar brinquedos, encontrar preciosidades em meio à grama ou observar as placas das árvores.

Eu e a Fátima, na certa refletindo sobre o próximo quitute a atacar!

Teve bastante gente que foi pela primeira vez e, como bem explicou a Veronika para o J., esse é mesmo o espírito: que as pessoas possam se incorporar à bagunça e à festa, que afinal o espaço é público e quem quiser chegar, que chegue...

Dessa vez, tinha mais gente na praça, eu achei. Mais crianças brincando, mais gente andando, mais gente passeando o cachorro. E a Fernanda, que foi professora de várias das crianças que estavam lá, apareceu com o marido e o seu Otto, cachorro lindo, gostoso e saltitante, fazendo a alegria da meninada.

Outro momento de muita emoção foi quando tentamos fazer uma fogueira...


Eu tinha comentado com o Rô, que tem um espírito lenhador e adora catar gravetos, que ia ensiná-lo a construir uma fogueira. Vejam bem: construir, não acender... E ele catou um montão de gravetos, maiores e menores, então, a uma certa altura, como ele estava meio cansado, decidi que ia montar uma com ele. Mais rápido que fogo, a notícia se espalhou e, de repente, tinha uma porção de criança em volta de mim, todo mundo muito animado pra fazer a tal da fogueira.

Até tentamos disfarçar, dizendo que depois de montar a fogueira eles iam ter que fazer fogo esfregando pauzinho ou pedra, mas aí o Rô e o C. decidiram que iam "entrevistar" as pessoas para ver quem tinha isqueiro e voilá! Espertos que são, pediram sem explicar pra que e eis que surgiu um isqueiro e então tivemos que acender a tal da fogueira. Ainda bem que os gravetos estavam úmidos e que a fogueira acabou ficando muito mequetrefe porque 1) não deu para fixar um eixo onde apoiar os gravetos (que funcionariam como uma espécie de pavio; 2) não tinha papel de pão, só guardanapos e 3) as crianças resolveram pôr bastante pedrinhas no meio da fogueira ;-) - E só estou explicando muito bem explicadinho pra ninguém duvidar das minhas habilidades de ex-escoteira!

Fato é que, mesmo sem acender, a fogueira foi divertida e eles ainda ficaram um tempo depois matutando como raios poderiam fazer para melhorar a arquitetura dela, pra ela acender direito! Espero que ninguém tenha feito xixi na cama depois de brincar com fogo...

Pão de minuto feito pela Monica, que também trouxe um antúrio lindo, em uma garrafa charmosíssima

Ah! Apesar de não ter foto, não posso deixar de falar do molho de sardinha que a Veronika levou que estava ma-ra-vi-lho-so (já estava de saída mas, depois que comi um pedaço de pão com o molho, tive que enrolar mais um bocadinho e comer mais um!), do pão com pistache que a Lucia levou, do bolo de cenoura que mais parecia um pudim, super gostoso, da garrafa linda e charmosa com iogurte feito pela Veronika... E com certeza estou esquecendo de muita coisa porque a "mesa" tem sido farta e a companhia também: farta e saborosa.

PÃES DE LARANJA COM COCO
Observações: fiz meia receita e rendeu cerca de quarenta pãezinhos; achei que o gosto do leite de coco some, não sei dizer o porquê... Tinha até esquecido que ia o coco; só lembrei ao falar da receita para a Lucia, que também achou que o coco não aparecia, mas depois - influenciada pelo conhecimento dos ingredientes - achou que dá pra sentir o coco no final :-)

1 quilo de farinha branca
2 xícaras de farinha integral
2 xícaras de suco de laranja
2 xícaras de leite de coco
1 tablete de fermento
1/2 xícara de óleo vegetal
3 xícaras de açúcar mascavo

Dissolva o fermento no suco de laranja, adicione o leite de coco, o óleo, a farinha integral e o açúcar mascavo. Numa tigela grande coloque esta mistura e vá adicionando a farinha branca aos poucos. Amasse bastante até todos os ingredientes estarem bem ligados. Forme pequenas bolinhas e deixe-as crescer até dobrarem de tamanho. Coloque-os numa assadeira untada. Asse em forno moderado pré aquecido até que fique com a casca dourada.

Receita do livro Culinária vegetariana com sabor da Índia, de Syamala Devi Dasi.

Pra terminar o post, vou só registrar os dois espantos do título, ambos acontecidos ontem.

Fui pra USP cedo e, no meio da elaboração da ideia de não ser mais estudante com vínculo formal, decidi variar de biblioteca e ir estudar na Educação. Tudo bem. Cheguei, deixei minhas coisas no guarda-volumes, entrei e ia procurando um lugar pra sentar quando surge um funcionário da biblioteca, todo preocupado. Aí ele me pergunta:
- Esses livros você trouxe com você?
- Sim.
- Ah, então sinto muito mas você não pode ficar dentro da biblioteca.
Eu, certamente com uma cara de absoluta incompreensão do que ele tentava me dizer:
- Mas...
- Não pode. Esse livro é daqui?
- Não. É de outra biblioteca.
- Pior ainda. As pessoas esquecem aqui os livros, a gente mistura ao nosso acervo e aí o livro fica perdido pra sempre.
- Mas...
Ele já me encaminhando pra porta:
- Temos acima uma ampla sala de estudos, onde você pode ler os seus livros, sem nenhum problema.
Então tá. Lá fui eu, em estado de choque, pra tal da sala de estudos, depois de ter sido expulsa de uma biblioteca por estar com livros. (E, por fim, tinha uma família de cigarras tão animadas próximas à janela onde sentei que acabei indo parar, depois de um tempo, na boa e velha (na verdade, nova) biblioteca da FLLCH).

O outro espanto nem chega a ser espanto, é mais curiosidade mesmo. Tenho o meu exemplar de "Vigiar e Punir" desde 1998, e o comprei num sebo. Aí, ontem, talvez por conta de toda a recente aventura com tribunais e júris,  pela primeira vez percebi que há uma dedicatória no livro. Infelizmente, não é do Foucault, mas de um juiz de direito que, muito admiravelmente, deu de presente a um colega - outro juiz ou promotor, será? Mas aparentemente, o tal colega ou leu e não gostou ou nem leu... Pena... Seria melhor que tentar sacar o código de doenças psiquiátricas no meio do julgamento...

Aliás, falando nisso, não vou resistir a deixar uma citação, que tem tudo a ver com a participação, no julgamento, de uma série de técnicas e conceitos que são externos ao julgamento do ato, mas fundamentais para o julgamento de quem os praticou. Foucault chega a falar da constituição de um corpo de  "juízes anexos" que, embora não sejam juízes de fato, participam da execução da pena, por meio de pareceres sobre o caráter (ou "alma") do criminoso que podem abrandar a pena ou torná-la mais rígida:

A alma do criminoso não é invocada no tribunal somente para explicar o crime e introduzi-la como um elemento na atribuição jurídica das responsabilidades; se ela é invocada com tanta ênfase, com tanto cuidado de compreensão e tão grande aplicação 'científica', é para julgá-la, ao mesmo tempo que o crime, e fazê-la participar da punição" (FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petropólis: Vozes, 1987, p.22).

E é sempre impressionante a capacidade que o Foucault tinha de identificar os "lugares" a partir de onde as técnicas de sujeição eram mais fecundamente identificáveis e localizáveis. Eis aí o outro espanto: o pensamento sempre interessante do Foucault...

28 janeiro, 2010

Ultimamente



Ultimamente este não tem sido o espaço no qual sinto urgência de escrever.
Sinto muito; não é de propósito. Eu gostaria de poder escrever aqui, fluentemente, sem pressões, simplesmente porque este espaço tem sido uma ótima companhia (e me dá de presente ótimas companhias, também). Mas, ultimamente, as palavras dentro de mim desejam tatear outras coisas que não meu cotidiano. E as minhas mãos, quando tecem, é para inventar objetos, misturar ingredientes, fazer a casa habitada de aromas, e não narrativas no teclado do computador.
E em meio a tudo isso, quase sem mais nem menos, visitando a querida Veronika, uma ideia começou a tomar forma e aí nasceu o Contando os Dias. Um espaço de experimentação, ainda engatinhando, mas que me deu ânimo novo - para escrever, mas também para ler, pesquisar, olhar com olhos de ver, escutar com ouvidos de ouvir. Vamos ver por onde vai.
Não vou parar de escrever por aqui e vou tentar ser menos bissexta. Mas também vou cuidar dessas outras partes de mim, que exigem atenção. E aí vou descobrindo o que pode ser a nova "programação normal" destes Noturnos Imperfeitos.

18 janeiro, 2010

Enleares



Tanto tempo que ela procurava lembrar uns pedaços de seu passado, que lhe ajudassem a entender. Terapia, diários, hipnoses e as lembranças ainda escondidas, avessas a qualquer relance de lanterna. Ela estava sempre abandonada no presente, incapaz de puxar qualquer fio que a levasse de volta: solta. Mas uma soltura sem leveza, ao contrário do balão cheio de ar, que inspirava e ia longe colorir as nuvens. A soltura dela era mais pesada que corrente de metal, de maneira que por vezes ela se sentia como assombração, arrastando-se pelas madrugadas de insônia, quando esperava acordada pra ver se alguma memória riscaria o ar.

Mas aí o banho quente, a cor e o cheiro do shampoo novo, e o banheiro da casa dos pais, os banhos da volta do clube, o sábado de sol desmaiando na janela do box, e quando abriu os olhos ainda cheio de sabão teve que se esforçar por reconhecer aonde estava. O presente tão estranho, tão súbito em relação ao banho que tomava no passado, na toda-importância de usar banheiro e shampoo da mãe.

E depois a visita ao mar, a água na canela, a alegria de uma criança pequena na beira da praia e o quente do sol sem protetor sobre a pele, o alaranjado morno das cenouras cozidas que a avó preparava na volta da praia, a aspereza dos beliches das casas alugadas durante o verão, o fogão vermelho que borrava de antiguidade as lembranças vívidas.

Depois ainda o pão assando no forno, espalhando pela casa as histórias que a mãe contava; o primeiro namorado já esquecido, reencontrado num estranho; a solidão das tardes no apartamento; o compasso dolorido de um LP no repeat; a paixão proibida mal disfarçada e até o arrepio do antes-do-beijo no namoro de portão.

Quando viu, não precisava mais de esforço - misturava passado e presente como quem prepara bolo e fermentava tudo com seu despudorado abandono às lembranças. Os cheiros, os sons, as sensações, os pedaços de conversa, tudo bem sovado e descansando debaixo da sua pele. Leveza boa e saborosa, de quem está livre para voar.

Imagem: daqui.

25 dezembro, 2009

Natal e 2010

Querido filho Rodrigo,

desde seu nascimento que as mensagens de final de ano passaram a ter você como interlocutor privilegiado, como se no momento de "fechar para balanço" e celebrar a renovação das esperanças, me coubesse - como sua mãe - tentar organizar o que aprendemos juntos no ano que passou.

Este ano foi bastante intenso, cheio de desafios mas também conquistas. No primeiro semestre, a família toda finalmente se livrou da tese que, embora de minha responsabilidade, mobilizava todo mundo. Em julho, pela primeira vez em toda a sua vida, você ficou de férias com uma mãe que não tinha mais um relógio correndo por dentro! E no segundo semestre teve a defesa, teve o lançamento do livro e - nos espaços que o fim do doutorado abriu - teve muito softie sonhado e costurado, teve bolsinhas costuradas à mão, brincadeiras de massinha, cartas e cartões, muito colo, filminho e pipoca, teve fazer cookies para dar de presente, teve pesca com seu pai... Teve encontro e reencontro, sem pressa: como se finalmente os pés reaprendessem a dureza e a maciez de pisar o chão.

Também foi ano pleno de companhias. Mais próximas ou mais à distância, é difícil explicar o quanto houve amparo e mãos dadas no meio do furacão. Você também me deu a mão, filho: não sei se cedo demais ou se na hora certa, mas aprendeu que adultos também se perdem e têm dúvidas, e me deu de presente seu carinho e sua presença, verdadeiras âncoras para que as tempestades não me levassem pra muito longe.

Observação óbvia, você cresceu muito neste ano. E acho que todos nós crescemos junto com você, filho. Suas perguntas, seus desconcertos, seu estranhamento frente a este mundo ao qual já quase nos acostumamos são preciosos e os ajudam a descobrir novos significados para essa coisa de estar vivo. Nas suas alegrias, e também nas suas tristezas.

Como em nossa recente experiência com a perda. Mal chegamos de viagem e descobrimos que nossos pequeninos gerbis, a Thelma e a Louise, tinham morrido. Não sabemos como, nem porquê, e a falta de explicação só reforçou nosso desconcerto diante de um sono profundo demais do qual não pudemos acordá-las. Choramos juntos, por nossas pequeninas companheiras, e talvez eu tenha chorado também por ter que te ensinar tão cedo a se despedir, dessas despedidas definitivas.

Juntos, demos nosso tchau pra elas, agradecemos por tê-las em nossa vida por tanto tempo, avisamos que iremos sentir saudade. E o que mais achei bonito na sua dor foi sua coragem em enfrentá-la, em não se distrair dela, em chorar, peguntar, enunciar a saudade e a tristeza na falta do que você chamou de "suas companhias". É doído sim, filho, mas é tão bom ter afetos, não? Tão bom ter amigos queridos cuja presença no mundo nos conforta, e de quem sentimos falta. Tão bom não andar indiferente e poder ser afetado por presenças ou ausências...

Que no ano que começa, filho, a gente possa continuar caminhando de mãos dadas e prestando atenção aos caminhos que escolhemos.

Muitos beijos,

mamãe.

08 dezembro, 2009

Contagem Regressiva


Calma! Ainda não tô falando do Natal e nem do Ano-Novo...  Por aqui estou me preparando mesmo é para as férias do Rô, que começam na próxima quarta-feira e só terminam no fim de janeiro. Estou tentando correr com as coisas que preciso fazer porque depois de terça que vem... trabalho só de noite e aos finais de semana.

Ele está muito contente que as férias estão chegando. Este ano não foi mole pra ele, com mãe doida terminando tese... E mesmo que ele tenha ficado em casa em julho, eu não estava propriamente de férias, já que estava naquela transição fim-antecipado-de-bolsa + procurar trabalho + pegar o que aparecesse.... Mas agora não: pelo menos até a primeira quinzena de janeiro tô por conta dele.

Temos nos preparado para as férias: já checamos o estoque de guache; estamos colecionando sucata; eu já selecionei alguns projetos, como softies, dragões e uma coroa de feltro... Até estamos planejando coisas gostosas para fazer e comer: cookies, bolos, pães, cuscuz baiano (tem uma milharina comprada faz tempo, mas quem disse que no café da manhã conseguimos fazer? E eu tenho ótimas lembranças de comer o cuscuz que a Vanuzia fazia de manhã, com manteiga derretendo, acompanhado de um café feito na hora. Podia ser segunda-feira que passava a parecer domingo!). Eita! Depois das férias, vou ter que passar um mês num spa ;-)

(Vou abrir um parêntese: sexta passada eu estava no Centro Público de Economia Solidária de Osasco e um empreendimento estava produzindo uma encomenda no Café Oficina. Eu parei lá uns minutos, para comprar um suco de laranja e fiquei olhando o cuidado delas, fazendo esfihas de escarola, e me deu uma saudade das tardes na casa da minha avó... do processo de fazer recheio, mexer a massa e depois sentar para enrolar coxinhas e bolinhas de queijo ou fazer esfihas e empadas. Já falei disso antes: de como aquelas tardes, passadas no espaço de uma casa que estava repleta de pessoas e de histórias, tem um sabor especial e constituem um tempo querido dentro de mim. Sexta-feira, tive a sorte de reviver um bocadinho disso...).

Para encerrar este post meio nonsense, acho que estou tão animada com essas que são as primeiras férias do Rodrigo sem que eu tenha que pensar em tese porque ele parece estar me fazendo há tempos um pedido que o Zé Miguel Wisnik colocou lindamente em uma canção chamada "Tempo sem tempo": "vê se encontra um tempo pra me encontrar sem contratempo por algum tempo...".

Vamos lá, então: subverter o tempo, desviar da sua linearidade, brincar de esticá-lo em tardes preguiçosas, horários flexíveis... fazer da casa um espaço de cheiros, sabores e texturas... assistir TV de tarde, ficar de pijama o dia todo... Deixar o tempo vazio pra gente não ter que pensar no que quer, até querer.

Imagem: Relógio Salvador Dalí,  tirado daqui.

02 dezembro, 2009

Constatação

Da vida eu gosto é crua.

Quando dói, dói mesmo: dói o corpo e dói a alma. E então sei que estou viva, porque meu corpo é carne, sangue, músculo e fibra. Nasceu, cresceu e um dia vai morrer. Mas quando dói não tem passado, nem futuro: é só presente, latejando como só coisa que está viva.

Quando é bom, é bom mesmo. De um bom que pode ser manso e amplo ou súbita explosão de cintilâncias. Mas é bom no corpo e na alma. E eu então sei que estou viva, na paz ou no cansaço do meu corpo que é carne, sangue, músculo e fibra. Sem passado, nem futuro - no ondular da minha respiração de coisa viva.

Sem anestesia, sem subterfúgios, sem caminho fácil. Cheia de sabor, cheiro e textura, rescendendo à terra donde acabou de sair (e pra onde vai voltar). Crua, para afiar os dentes e instigar o que em mim é também bicho e instinto.

Da vida, eu gosto crua.

16 novembro, 2009

(silêncio)

vontade de ficar sozinha
só para saber
se você ia
ou vinha
quando deixou
esse bagaço
no meu peito
pedaço estreito
defeito na mercadoria
do jeito que você queria

(Alice Ruiz)

20 outubro, 2009

August Day Song*


Era chuva fina quando fui deitar

daquelas eternas, que acinzentam por dentro.

No meu sonho, porém, tudo explodia em luz

e mesmo a dor era mansa

e mesmo a paixão era tranquila -

instante, mas também futuro.

Tinha gosto de beijo roubado,

tinha vertigem de abismo bem debaixo dos pés,

tinha alegria sem sombra de angústia.

Era bom o sonho. Era sonho de agosto.

E acordei relutante,

quase com vontade de ficar morando nele.


* Título de uma canção da Bebel Gilberto.

Imagem: Alicia Varela

25 setembro, 2009

Silêncio (em alto volume)

Vai daí que depois de tantas coisas (e tão intensas), ando me sentindo um pouco "vazia", um pouco sem palavras. Sintomaticamente, já na terça acordei meio moída e com a garganta doendo, e na quarta tive que ficar praticamente de cama (embora seja mais exato dizer "de sofá", já que aproveitei e assisti muitos episódios da primeira temporada de In Treatment). Ontem consegui trabalhar, ainda com a garganta reclamando e hoje acabei ficando com o Rodrigo o dia todo - era pra ser só de manhã, mas a gente foi se atrasando, se arrastando e no fim achei que ele estava precisando de um dia de mãe só pra ele, ou vai ver que eu é que estava precisando de um dia de ser só mãe pra ele, não sei.

O fato é que estou meio lenta e aérea, ainda que esteja colocando os pés no chão devagar, bem devagar, pra ver se não esfolo os pés, nem aterriso de trambolhão. Sem pressa alguma, como se pra compensar a violência de tantos tempos desencontrados dos últimos anos.

Vontade de ficar quietinha, só pra poder ouvir com calma tudo aquilo que dentro de mim sussurra, fala e de vez em quando berra. Se por fora ando cheia de silêncios é porque aqui dentro tá assim, ó: puro zumzumzum.