mas olha só que perdi a receita inteira nesse fogo alto
demais e agora vou ter que começar tudo de novo que disso não se salva nada:
tudo com cheiro e gosto de fumaça e ai que tem dia que é assim mesmo que parece
que as mãos excretam o limão que trazemos por dentro e azedam tudo e talham
tudo que tocam e é que me dá tanta pena o trigo o óleo os ovos as maçãs e todo
esse desperdício que chega a me doer e ainda mais porque tudo o que eu queria
hoje era um pequenino natal do cheiro da canela espalhando pela casa varrendo as
melancolias recentes e agudas e as nozes penetrando doces nas
frestinhas das dores antigas feito bálsamo mas agora as pequenas epifanias ressecadas
logo hoje que eu acordei precisando tanto-tanto desse milagre de recomeço e me
pus a cozinhar ainda de camisola azul de renda acordando os músculos no esforço
de mexer essa massa desse bolo que eu adoro e que é tão ruim de mexer mas eu
não sabia fazer outra coisa pra espantar os fantasmas dos sonhos e suas sombras
no meu dia ainda porvir e assim fui passando na peneira as três xícaras de
farinha de trigo ao mesmo tempo em que o café passava pelo filtro de pano que
eu trouxe de outras vidas e passei na peneira também a colher de bicarbonato e
a colher de sal e a colher de canela em pó já tão fininhas e leves mas também
escondendo seus minúsculos nódulos e enquanto o pão esquentava na torradeira eu
ia quebrando os ovos numa outra tigela torcendo pra que nenhum deles estivesse
estragado que me aflige tanto esse mistério do ovo às vezes galado me enche de
tristeza o galo que não foi que mal chegou a ser pintinho mas hoje que eu me
esqueci de quebrar num potinho os ovos antes de coloca-lo na tigela definitiva
nenhum ovo fecundado só aquela festa de amarelo forte os pequenos sóis ajudando
a acordar o dia e então o açúcar que eu também fui peneirando aos poucos já me
sentindo mais protegida pela mistura de ovos e açúcar que ia ficando clarinha
clarinha e era como se fosse se diluindo o que em mim
acordou doendo e me amansassem os medos e os sustos conforme o café quente e
doce amornava a boca e o hálito ainda faltava a xícara de óleo que se
incorporou fácil à mistura e enquanto tudo isso descansasse fui cortar as
últimas três maçãs que tinha em casa tirando a casca e as sementes e fatiando
cubos e deixando ainda um pouco de ímpeto para triturar as nozes apenas com as
mãos para me livrar do que em mim é violência e com tudo pronto e o café tomado
finalmente fui misturando a parte úmida à parte seca bem devagar que essa massa
é consistente e pensar bem por que é que fui me meter a fazer isso logo de
manhã logo precisada de levezas se a massa é pesada e meus braços reclamaram e
nem vai fermento para fazer as pequenas bolhas de ar só bicarbonato pruma massa
que mal cresce e só quando a massa finalmente misturada e quando as maçãs
finalmente incorporadas e quando as nozes finalmente incluídas caindo na forma untada
e enfarinhada é que fui tomar um banho e lavar os cabelos e me arrumar praquela
festa que tinha acabado de inventar mesmo que fosse apenas para distrair o
chumbo instalado entre o peito e o estômago e já ia me sentindo salva o alívio
de ter transformado a dor em bolo e o dia esquisito em celebração quando o
cheiro da canela errou em cinza e sem que eu saiba ainda localizar o
momento-quando a alegria desviou em acidente agora estou aqui nessa beirada do
choro tão-tão espantada que minha chance de recusar a melancolia tenha se
transformado em carvão e destampado esse fluxo aberto as comportas de tanta
coisa que só precariamente a gente contém e eu sei bem que é porque esse
acidente sem vítima o que fez foi reabrir ferida na minha esperança.
Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo. Porque esta noite/ Olhei-me a mim, como se tu me/ olhasses. E era como se a água Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. (Hilda Hilst)
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19 abril, 2013
receitas vegetarianas - destempero
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01 março, 2013
mais receitas vegetarianas - feridologia
Nem achou que estava distraída até que a dor fininha a acordou. Largou a faca sobre a tábua, ali mesmo por cima dos tomates, e trouxe o dedo para perto dos olhos. O corte tão fino e fundo que o sangue demorou a vir à tona, chegando manso: córrego desaguando lentamente. Enrolou um papel toalha, apertado firme, e retomou o trabalho.
Cortava os tomates grosseiramente e ia colocando no liquidificador.
Todos os doze tomates – a explosão de vermelho respingando no papel toalha,
manchando a tábua e o avental.
A família inteira reunida na sala. Os filhos, a nora e o novo
genro. Os netos – o menorzinho ainda de colo, enquanto o mais velho já
adolescente, o cabelo comprido e meio ensebado, o desajeito de pernas e braços
que se acomodavam mal na poltrona da sala. E o marido, lembrou com um
imperceptível esgar.
Dos trinta anos de casados, há vinte e cinco ela sabia. “Não
suporto a companhia do meu marido”, ouviu-se dizer. Primeiro para si mesma, bem
baixinho, nos primeiros anos de casamento, num dia em que ele – como sempre –
não quis saber de ir com ela ao almoço na Paróquia. Então para a amiga querida,
alguns anos depois, explicando porque estava indo para a praia só ela e os
filhos. De lá pra cá, pra quem quisesse ouvir, que já estava mais velha e não
tinha pudor: não suportava, nunca suportara a companhia do marido. E em vez de
doer, a constatação agora lhe acalmava, pois passados tantos anos, já não
provocava dentro dela nenhum ímpeto de ir embora, nenhuma pena de sua sina.
Nada. Era como abrir a janela e anunciar o tempo.
Pegou os pepinos, cuidando de tirar a casca, que a filha
passava mal, tinha pesadelo depois. Desde pequena era assim. Jogou os dois no
liquidificador, fazendo o vermelho eclodir ainda uma vez.
Na sala, conversas e risadas entremeavam o programa de TV.
Era um domingo bonito, o céu azul sem nuvens e sem vento.
Tirou a casca para descobrir o roxo da cebola. Foi quando
viu o vermelho transbordando a brancura do papel toalha. Droga!
Pensava nele quando o corte a interrompeu. No bom que era a
sua presença. No bom que era o cheiro dele, logo de manhã, quando se
encontravam ao chegar no trabalho. Na textura da voz dele quando disse que a
queria e no oco do silêncio dele quando ela disse não. A vida era mesmo engraçada,
latejou.
Achou no armário do banheiro uma gaze e tornou a enrolar o
dedo, ainda mais firme, os esparadrapos ajudando a contenção.
Suspirou. Pegou os pimentões coloridos, o verde, o amarelo,
o vermelho. Achava graça na leveza deles, tão amplos e plenos de vazios. Não
gostava muito. Mas cortava, metade de cada um, e lavava e tirava as sementes e
lavava de novo e cortava fatias grossas antes de jogá-las também no
liquidificador. Tudo se misturando no mar de vermelho.
Pensar nele já não era atirar uma pedra pesada na água. Ele
ficara lá, em outro lugar, no passado, num futuro que não foi. Ela disse não,
ponto final. E ele então mudou de emprego, de cidade, talvez até de país. Sumiu
no mundo, a não ser por aquela cicatrizinha dentro dela, que ela via sempre
quando um espelho refletia sua imagem – ele era aquela espécie de infelicidade gravada
no fundo do seu olho. Não se arrependia, era o que dizia a si mesma. Fizera o
que era certo e o que era certo era ficar ao lado do marido, ter e cuidar dos
filhos, vê-los crescer.
E picar o alho, com o dedo estendido a se esquivar do
contato, porque alho cutuca a ferida, dá a medida da fundura do corte. Lembrava
da mãe dizendo que alho era antibiótico, recomendando chás nos resfriados e abaixando
a voz para receitar o remédio certeiro para as coceiras lá embaixo durante e depois da gravidez. Alho curativo, não sem
antes levar a dor até o fim. Era domingo, um dia santo, as coisas no lugar: não
precisava ampliar nenhuma dor.
Colocou o alho no liquidificador, junto com o copo raso de
azeite e dois copos de água. Também um pouco de sal, que se misturou à umidade
e fez o corte arder. Droga!
Bateu tudo, fazendo um barulho que fez um dos netos vir à
cozinha e anunciar que fecharia a porta por uns minutos. Suspirou. Viu o que
era vermelho vivo empalidecer em rosa. Depois peneirou o gaspacho, cantarolando
uma canção antiga, de peneiras e namoros e saias voando ao vento. O que era massa
grossa virando creme suave, sem coágulos.
Picou o pão amanhecido, jogou na frigideira, deitando por
cima um pouco de azeite e sal. Ainda lavou a salsinha, picou bem fininho, pra
enfeitar e dar sabor na hora de servir.
Tirava o curativo para cuidar da louça, enquanto a filha
abriu a porta e reclamou dos pimentões em cima da pia “mas mãe, você colocou
todos esses pimentões no gaspacho? Assim não vou poder nem experimentar!”.
Estava distraída mesmo, para lembrar de tirar a casca do pepino e esquecer tanto
de tirar a dos pimentões quanto de diminuir a quantidade prescrita na receita.
Desculpou-se, em palavras e ombros.
A ela também os pimentões não faziam bem, a digestão
atrapalhada, lenta, feito nó na garganta, borboletas no estômago. Foi o que lembrou, já à hora da mesa,
quando sorvia a segunda colherada.
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09 janeiro, 2013
três receitas vegetarianas - insistência
“A que horas eles iam mesmo
chegar?”, perguntou, um olho no relógio e outro na panela, pra outra que
procurava um cd novo já que o anterior acabara de acabar. As mãos cheirando
ao alho e à cebola que agora fritavam shshshsh no óleo, perfumando a casa. “Encontrou
os cds?”, voltou a inquirir, já distraída da pergunta anterior enquanto ia
jogando na panela o arroz lavado. “Encontrei sim!”, ouviu a outra dizer
ao mesmo tempo em que a voz de Madeleine Peiroux preencheu a distância da
cozinha à sala. Sorriu. Adorava aquele cd. Era o que ia dizendo quando a outra
alcançou a cozinha, muito animada, atirando à queima-roupa “você roubou um cd
de uma biblioteca? E de uma biblioteca em Paris?!!”. A água fervente quase
desviando o curso rumo à panela, o pulo das mãos tão brusco quanto a batida do
coração. Não era que era isso mesmo? Não era que um dia tinha roubado um cd? A
voz saiu branca “Nossa. Tinha até esquecido”. Tentou na mesma pausa se lembrar
e esperar que a outra esquecesse. Não funcionou. “Tem uma boa história aí, não
tem?”, a outra toda interesse e provocação. “Nem tanto”, tentou frustrar a
insinuação, “Época de durezas de estudante, um pouco de irresponsabilidade e
esquecimento...”. Fez uma pausa para lavar as abobrinhas que vinha descascando
e pegar, embaixo da pia, o ralador. “... e, claro, um grande amor. Ou, pra ser
mais justa, uma grande paixão". Tão solene essa última afirmação que a outra
agora era só olhos a escutar. “Nunca tinha me dado conta, mas você me
faz lembrar um pouco dela”, “Dela quem? Da paixão?”. Negou rindo enquanto
quebrava os ovos, separando gemas e claras: “Dela: do objeto da paixão”. As sobrancelhas da outra se erguendo
discretas em compreensão. “A gente ficou juntas pois dois meses, pouco antes de
eu voltar. E foi tão, mas tão urgente – aquele cronômetro às avessas, marcando
um tempo que se esgotava. A gente tinha hora pra acabar e então acabou quando essa hora chegou. Mas
acabou o tempo e não a paixão, claro, que só inflamava mais com aquele fole
soprando tic-tac em tudo-tudo-tudo que a gente fazia e vivia”. Ela ia lembrando em
voz alta enquanto mexia o fogo bechamel em fogo um pouco alto demais, o cheiro
da noz-moscada recém-ralada inebriando levemente as palavras. “Em horas em que
a gente quase desesperava da consciência de que o tempo era curto, a gente
ouvia Dance me to the end of love, agarradas na sala minúscula do apartamento
onde ela morava. Era tão triste. E era tão lindo”, as abobrinhas e as gemas
girando piruetas no molho ainda quente. “Eu tinha emprestado esse cd na
biblioteca, e depois que a conheci fui
renovando, renovando, incapaz de devolver. Até que chegou o dia de voltar e sem
pensar muito enfiei o cd na mala e trouxe comigo. Se tudo o que a gente fez foi
roubar o tempo, eu tinha que ficar com alguma coisa, sabe? Eu não pensei muito
nisso, mas acho que eu quis salvar alguma coisa de todo aquele incêndio e foi
só isso que eu consegui trazer”. A fala agora entrecortada pelos soluços do
metal batendo as claras. “Não pensava nessa história há tanto tempo... parece
que foi noutra vida... até assustei quando você me perguntou do roubo...”.
“Logo vi que tinha uma boa história ali”, a outra rasgou o silêncio, os olhos
voltando a ver e deixando a tarefa da escuta novamente pros ouvidos. As claras
em neve bem firmes se dissolvendo delicadas na mistura de abobrinha, leite,
queijo e gemas. “Em vinte minutos temos suflê”, anunciou, já fechando o forno.
“A que horas mesmo marcamos?”. A outra agora em pé ao seu lado, servindo-se de
mais vinho enquanto lhe passava a sua taça, novamente cheia. Olhando de esgueio
o relógio, “Acho que ainda temos uns minutinhos”. Encostadas as duas no balcão,
bebericando em silêncio. Até que a outra “Eu te faço lembrar dela?”, “Nunca
tinha reparado, mas lembra sim: o jeito que o cabelo cai nas suas costas, o
modo das mãos se mexerem quando contam histórias, e essa mania de morder o
lábio pelos cantos, num esgar que é meio riso, meio aflição”. O disco chega em
I’ll look around e a outra pergunta, a voz num fiozinho “Quer dançar comigo?”.
A campainha toca e tudo já parecendo errar em desencontro. “Salvas pelo gongo”,
a outra brinca, embora o nó na garganta, sem gosto nenhum de salvação. “Outro
dia a gente dança, prometo. Eu te convido pra jantar, só nós duas”, ela adia
atender a porta apesar dos ding-dongs insistentes. “Combinado, então. Eu venho
e te faço uma receita de berinjela que quero muito experimentar”.
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17 outubro, 2012
três receitas vegetarianas - festa
Depois de tantos anos de idas e vindas, de distâncias e
aproximações tateantes, finalmente chegaram ali. Aqui, melhor dizendo: aqui
nessa cidade, nesse bairro, nessa casa. Aqui, um frente ao outro.
Os quarenta anos derretidos em vinte, feito o alho-poró que
começava a fritar no azeite e espalhava um cheiro bom de tempero e mato pela
cozinha. “Mas você já fez essa receita antes?” ele desconfiou, com medo que o
trabalho fosse maior que o esperado. “Nunca fiz, mas já comi”. “E adianta,
saber o final?”. “Bom, é mais fácil que não ter menor ideia de como as
coisas devem parecer...”, sorriu, pensando agora não no sabor do prato mas nos
casamentos anteriores – o dele, o dela. Ele, porém, falando só da comida.
Taça de vinho na mão, ele estava em pé ao lado dela,
rodeando a bancada onde descansavam a couve-flor, a vagem cortada grosseiramente,
o pimentão amarelo e os palmitos de pupunha, luas cheias naquele céu de
picadinhos. Entre o morno que emanava do fogão e a respiração dele, também
morna, sentia-se amparada: naqueles parênteses de quentura e aconchego cabia um
infinito.
“O pimentão não devia ser verde ou vermelho? Amarelo na
paella vai ficar apagadinho...”, ele palpitou. Ela sorriu antes dizer “pode até
ser, mas pimentões verdes e vermelhos não me fazem bem, são fortes demais, só
consigo comer se tirar a casca, aferventar... até gosto, mas nessa altura da
vida, só quero o que me vai bem”. De novo, não sabia bem se estava falando da
comida ou daquela novidade de tê-lo ao lado todos os dias e noites, nos dias
úteis e finais de semana, na rotina e nas férias. Sentiu-se de um só golpe
sábia e velha – a recusar a festa completa por pura preguiça.
“Já tem as vagens e as ervilhas: acho que não atrapalha a
paleta de cores...”, desconversou, jogando os legumes, as ervilhas frescas e o pimentão na
panela. E a cozinha ficou inteira perfumada de intensidades. Enquanto isso, pegou
os tomates já lavados, pelados e sem sementes e os passou pelo processador.
Também pegou a água fervente da chaleira elétrica e jogou na pequenina
caçarola, sobre o caldo de legumes congelado.
Cutucou a couve-flor e a vagem, a ver se já estavam macias,
mas ainda não. As coisas têm seu próprio tempo, não adianta a nossa vontade. “Minha
avó sempre vinha com um o apressado come
quente e cru quando a gente circundava a panela com nossa gula”, contou. “A
minha também falava algo como isso. Os adultos, desde sempre a tentar domar
nossas voragens”, ele filosofou, servindo-se de mais um pouco de vinho.
Jogou finalmente as grandes rodelas de pupunha,
não sem antes quebrar uma no meio e dividir com ele – espécie de comunhão. Mal
acreditando no coração disparado no simples gesto, na ternura borbulhando perigosa feito a fervura do caldo de legumes enquanto passava a mão no rosto
recém-barbeado. Quarenta anos e a meninice recém-descoberta.
Virou-se ligeira, numa desconversa de corpos, e jogou o
caldo sobre os legumes. Também um bocadinho de sal, um bocadinho de pimenta.
Cuidadosa, abriu no centro um espaço para mais azeite, o alho bem picadinho a
dourar. Então a páprica, o tomate, o açafrão. A colorir o já colorido,
reforçando tons, descobrindo matizes. Inaugurando o novo no familiar.
“Paella é uma comida tão simples e tão elaborada, né?”, ele mapeou
o caminho de seus pensamentos enquanto ela colocava o arroz na panela. E era
mesmo: arroz, legumes, grãos. Mas os cheiros e cores, tão diversos do nosso tododia,
a prometer ocasião especial. Ela jogou ainda um raminho de alecrim fresco e
colocaram-se a esperar, a conversa cheia de pausas e silêncios, cuidadosa como o cozinheiro diante da receita nova.
Meia hora depois, o
limão siciliano ainda com a casca amarela a espalhar seus gomos por entre a
panela. “Era esse o prato que você imaginava?”, ele perguntou. “É um pouco
diferente”, confessou diante daquela imensidão de amarelo pontuada de verde e
branco. Sentaram-se à mesa, experimentando em pequenas garfadas. “É um pouco
diferente”, ela disse de novo, “mas ainda assim bom”.
Aqui, agora mesmo – o pequeno rito a prometer um para
sempre.
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12 outubro, 2012
três receitas vegetarianas - veludo
para Veronika
Era nas tardes de domingo, aquelas tardes quentes e densas,
o céu azul sem nuvens esticando sobre o tempo sua colcha de infinito. Era
nessas tardes de domingo que doía mais. Doía tanto e tão fundo que às vezes era
difícil caminhar. Mais um domingo em que acordava sem ele, que descia as
escadas sem ele, em que era ela mesma a colocar na cafeteira o filtro, o pó, a
água. E ele fazia falta em cada brecha entre os gestos, de modo que ao final de
meia hora estava já exausta.
No quintal, o cachorro dormindo atento, fazendo menção de se
aproximar ao mínimo sinal de atenção. Já o filho, desde sempre silencioso, sem
vontade alguma de chegar perto. Pra ele também doía, ainda que ele cerrasse o
queixo bem forte e represasse a enxurrada de lágrimas no fundo da pupila negra.
Naquele domingo, enquanto ela acabava de lavar a louça do
café, o filho veio espiar a geladeira apesar da falta de vontade de comer.
Abriu, fechou. Olhou na fruteira, voltou a abrir a geladeira. Inquieto. Até que
comentou “mas pra que tanta maçã?”.
Surpresa, veio de luvas e espuma nas mãos verificar. Contou
três sacos de maçã, de diferentes feiras. Talvez um deles ainda tivesse sido
comprado por ele, pensou e doeu entre a constatação e a decisão. Deixadas ali,
iriam estragar. Que agora eram dois, só os dois, a comer as frutas no café da
manhã ou depois do almoço.
“Acho que vou fazer
uma torta de maçã”, finalmente pensou em voz alta, e o rosto do filho se
iluminou em vontade. “Posso ajudar?”, ele perguntou e ela aceitou, oferecendo a
ele uma cadeira para que a tarefa de lavar com cuidado as maçãs ficasse mais
fácil.
Tirou a manteiga da geladeira, viu se tinha iogurte
natural... Pegou a cerâmica branca e foi colocando, sem medir. Primeiro pouco mais de meio tablete
de manteiga, que foi cortando em cubos e fatias. Depois o mesmo tanto de farinha, que
resolveu peneirar para que o ponto ficasse mais fácil – foi então que se deu
conta, sem pensar, que estava a desejar um domingo sem coágulos. Pôs as mãos na
tigela e começou a misturar.
Na bancada, o filho esfregava as maçãs para depois secá-las,
caprichoso.
Ainda na tigela, colocou uma colher de sopa iogurte natural
e uma colher de chá de fermento químico. E então passou a contar as dez
colheres de água. Uma, duas, três, quatro... sempre perdia a conta. Continuou a
misturar a massa, sentindo o gelado do iogurte indeciso em se dissipar. Já nem
se distinguiam mais os ingredientes, mas a ponta dos dedos sabia que ele estava
ali, sem se decompor. Feito memória que mina água mansa nas brechas da vida a
continuar.
O filhou acabou de lavar as maçãs e se cansou da ajuda. Foi
para a sala, assistir tv.
Ela ficou ali, esticando a massa, colocando farinha, no
esforço de esticar sem esgarçar a massa. Doía um pouco menos ver-se outra:
massa fina e podre a procurar as bordas sem se rasgar. Não era mais ela mesma a
se alongar cotidianamente, a tentar cobrir o buraco que ele deixou. Era só a
massa, a massa de uma inesperada torta de maçã.
Abriu o armário para buscar o leite condensado. Pôs sobre o
fogão a caçarola, a colher de pau atravessada, e a lata de leite condensado a
escorrer. Pensou em chamar o filho, para ver se ele queria raspar o fundo, mas
lembrou de um corte na mão e desistiu. Na geladeira, pegou o leite e os ovos.
Uma lata de leite. Duas gemas, para o creme ter cor. Duas colheres de sopa de
maisena. Mexeu bem antes de ligar o fogo – não queria nada empelotando, só a
maciez do creme. “Creme veludo”, dizia a receita da avó. Sim, era
de um pouco de veludo que precisava. O veludo da companhia dele, da quentura da
sua presença macia. Mas tinha que se contentar com o doce na caçarola.
Mexeu bastante, até engrossar. Enquanto o creme esfriava,
pôs-se a cortar as maçãs em meia-lua: tirou as sementes, cortou as fatias
finas, jogou algumas gotas de limão para atrasar a oxidação.
O filho apareceu para roubar umas fatias, mas não se
interessou em ficar. “já vai ficar pronto?”, mas a resposta negativa o levou de
volta à sala, dessa vez para um desenho colorido.
Assou a massa até dourar. E quando o creme estava frio,
colocou as duas gotas de baunilha e a lata de creme de leite, sem soro.
Misturou bem, regozijando-se na textura lisa e amarelada. Na panela, a vida era
macia e sem tumores.
Suspirou demoradamente antes de pegar a travessa com a massa
e despejar, pão-duro em punho, o creme amarelado até quase as beiradas. Por
cima, arranjou delicada as fatias finas de maçã, concêntricas. E só então se
lembrou da cobertura, então correu para espremer duas laranjas e leva-las ao
fogo com duas colheres de maisena. Ufa! Caldo engrossado, despejou-o sobre a
torta, as meias-luas eclipsadas de laranja, já começando a cozinhar antes mesmo
de entrar no forno.
Quantos anos não fazia aquela torta. Nos vinte anos que
viveram juntos, nunca. Não era nem o trabalho, mas o medo de errar o ponto do
creme, de servir as maçãs dançando soltas no branco aguado. Hoje, porém, o
creme no ponto em poucos minutos. Agora, porém, o arrependimento até pelos
erros não cometidos.
Depois do jantar – o dia chegando ao fim e a ilusão de
eternidade dos domingos a se romper – ela e o filho inaugurando a torta. Meio a
medo, o filho afirma “dessa torta o papai ia gostar”. O peito encharcado
transbordando no olho enquanto corta o segundo pedaço. “Ele ia, não é?”. A
torta derretendo na boca feito a vida no correr tempo.
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31 maio, 2012
proximidade
a criança brincando na praça enuncia a falta com poesia: vem, mãe, aqui no meu perto! de perto, a gente atenta o momento em que a escuta rebrilha os olhos em compreensão ou turva nos lábios um sorriso. de perto, as mãos traem o nervoso mal contido e se contorcem, travando os dedos como dentes que se cerrassem duros. de perto, o perfume percorre o caminho do nariz à pele, se esparramando sem pedir licença, inaugurando memórias. de perto é ainda longe quando - tropeço que interrompe a distração - a vertigem de beira de abismo acorda o desejo de pular. na lonjura mora a saudade. no perto, habita a urgência.
21 maio, 2012
urgência
sentada na biblioteca silenciosa, experimenta o livro com cuidado. o índice, o texto desejado. é só depois de levar o livro para casa, porém, que ao acaso abre o volume do avesso - a quarta capa confundida com a primeira. e então a surpresa: demora a perceber que a letra caprichada não é impressa - o esmero camuflando a subversão. mas se a forma engana, o texto não deixa dúvidas: rabanada e pudim de natal. o cheiro de ambos sobe dentre as páginas, assim como o desterro das festas de trabalho minorado pela delícia das comidas, das companhias, dos novos sabores. na pressa, retira da bolsa o único papel possível: a brancura da página final quase um novo presente de natal. sem pressa, anota a receita, devagar, saboreando em cada torneio da caneta o doce dos quitutes natalinos. o gosto inaugura lembranças, como aquela festa inaugura vida nova. nascer, renascer. a dureza do texto acadêmico afrouxando no vestígio de vida. é sobre o trabalho de pesquisa e sobre cotidiano o livro - e a receita quase impressa, misturando-se aos outros caracteres, ilustrando o momento em que o uso fez do livro outra coisa: improviso de caderno, inscrição urgente do momento que um desejo quis preservar.
17 novembro, 2011
na sala de espera
sempre está lá quando eu chego, acompanhando o marido. não sei direito que tratamento ele faz, mas ela, infalível, lendo enquanto espera. hoje, o chumbo do céu prestes a desabar e a tristeza também, mal contida e querendo escorrer. comento o resfriado, a falta de voz durante o feriado, e do tempo enlouquecido e não-cíclico passamos aos sentimentos enlouquecidos e sem tempo para serem cíclicos. que ontem teve um tempo só para si mesma e chorou sem estancar. que o marido se operou há oito meses e nunca mais foi o mesmo. que se recusa a sair, passear, fazer-lhe companhia enquanto ela desfia a conta dos dias de intenso cuidado. que ele só quer dormir. que ela desejaria acordá-lo mesmo que aos trancos, para rever o homem com quem casou (isso ela não fala, mas eu escuto). que a filha, consoladora, lhe escreve que deus não dá cruz maior que possamos carregar e ela se dói em reconhecer no marido um peso e chora mais, agora a culpa misturada ao cansaço. que o marido nunca parava e tinha medo do que aconteceria à família caso faltasse e que agora ela já sabe que pode sobreviver, mas não quer mais sentir essa falta (isso também, ela não diz, embora se ouça). parco conforto, conto-lhe histórias semelhantes para que se sinta menos só. ela, ele, subitamente minha avó, meu pai, minha amiga querida, eu mesma. ela, nós, e nossa dificuldade de parar, nosso medo de envelhecer, nosso teimoso apego a certa imagem de nós mesmos. ela fala e eu escuto, preenchendo entrelinha por entrelinha. até que a porta do consultório se abre, o marido chega e ela reencontra a energia que buscava no gole de café para ampará-lo na saída. tchau, boa semana. oxalá seja mesmo, boa e límpida, a próxima semana.
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