30 abril, 2014

duas bonitezas

A entrevista que a Ecléa Bosi deu para a Revista Fapesp desse mês - Narrativas sensíveis sobre grupos fragilizados - e o belíssimo ensaio que o Marcos Visnadi fez sobre a Hilda Hilst, na revista Geni.
E se precisar de trilha sonora, tem sempre o bonito cd feito pelo Zeca Baleiro a partir da "Ode descontínua e remota para flauta e oboé, de Ariana para Dionísio" (que está em Júbilo, memória e noviciado da paixão - mesmo livro, aliás, de onde saiu o nome desse blog).
Bom feriado, então.


29 abril, 2014

k7

de um tempo que é quase outra vida chegam as notas de uma canção antiga, chegam as intensidades de nossa juventude ainda meio adolescente, e esse convite-promessa, repetido tantas vezes: vem andar comigo nessa beira de estrada, nesse lado ensolarado, que eu achei pra caminhar. ai, ai, ju, que de repente me deu tanta saudade de você...

20 abril, 2014

precisão

engoli uma gaivota anteontem
tinha um travo a mar muito suportado essa gaivota que
já lá vai
despenhando-se garganta abaixo
um acidente tão desejado
num pequeno corpo tão desastrado
embora por vezes uma gaivota o desatine
ou quase
a alegria do afogado quando regressa à tona de água
(Benédicte Houart, Reconhecimento. Lisboa: Cotovia, 2004, p.13).

16 abril, 2014

vórtice, brinquedo, promessa*


sabe,  eu tinha um sonho quando pequena de ter um autorama. nas férias que a gente passava na casa dos meus avós, eu adorava brincar com o autorama antigo, que era descido de um armário bem alto quando filhos e netos todos reunidos. a ideia nem era divertir a meninada – era mesmo pros meus tios voltarem a ser crianças. que nem acontecia com a minha tia quando, ciumenta, tirava de dentro de uma cômoda de brinquedo as roupinhas de sua susie para provocar nossa vontade.
o que eu gostava do autorama era da emoção das curvas, das pequenas faíscas, da falta de pressa de todas aquelas demoradas voltas no infinito. os ciclos, sempre eles, dobrando-se sobre si mesmos uma, duas, quantas vezes o desejo. engraçado lembrar disso agora. agora, enquanto olho pra você e penso que eu queria mesmo era convidar você pra brincar comigo, pra se juntar a mim nos passeios por esses trechos que eu armei há tanto tempo e dei o nome de “minha vida”. lembrei dessa história boba e infantil – quem sabe freud explicasse – pois pensar essas coisas todas só porque nos encontramos me faz sentir exatamente boba e infantil.
meu prato predileto quando estou triste é feito de batatas cozidas até o ponto de desmanchar, misturadas com manteiga, sal e leite: um purê sem muita densidade, quentinho, onde o garfo ara finos sulcos, onde o feijão fresco e rescendendo a louro pode escorrer. se ainda um refogado de tomates e cebolas em caçarola de ferro, onde se derramem umas ervilhas debulhadas, onde se quebre um ovo caipira e se espere a gema endurecer e empalidecer... o mundo restaura a ordem que teve uma vez durante a infância: em volta da mesa, o invólucro uterino de cuidado e proteção. estou falando demais, eu sei, talvez muito mais do que você gostava de ouvir. as palavras desgovernadas, teimando em descarrilar.
quando assisti central do brasil, lembro de ter achado tão bonito e duro e de ter especialmente gostado da honestidade quase brutal da dora em sempre enunciar os fatos crus. mas lembro de também ter achado bonita a rendição dela a uma espécie de pensamento mágico infantil, que aposta todas as fichas no encontro e na esperança. todo o contrário da monotonia do ir e vir nos trilhos nesse desvio de abrir espaço pra acreditar.
queria dizer pra você que também abro esse espaço; veja bem que enquanto falo vou abrindo picadas em tudo o que até ontem era uma selva de improbabilidade. enquanto falo vou me esquecendo de que cresci, só pra rearticular os trilhos de modo que caiba você; vou me esquecendo que cresci, e então posso tirar as calhas já montadas logo à frente e tatear outros destinos; vou me esquecendo que cresci e então nem bobagem, nem infância – agarro com força esse sentimento que me desencaminha do infinito ciclo.
esboço o gesto, ainda que sem o engate da coragem que me conduziria à conclusão:

* título a la Nuno Ramos.

07 abril, 2014

dia de visita

quando as noites de sono inquieto e frágil e os dias cheios de pausas e suspiros ela sabia bem que nome dar àquele nó – meio expectativa, meio resignação. flor de ir embora. o nome tirado de uma música antiga. música que doía um pouco, assim como a falta de ar provocada por aquela flor nascida por dentro, à revelia da ausência de sol e de terra. flor que adivinha roxa, na memória de tantas quaresmas a encobrir os santos, a aprofundar as culpas, a volta e meia cutucar bem funda a dor – até que o sábado amanheça, trazendo a festa da vida nova. a flor que traz em si é roxa, disso está certa, e quando dá de abrir, abre num repente: faz engasgar o todo-dia e pesa o peso do botão recém-aberto, a cabeça pensa no caule temerariamente fino.

pôs então a toalha de chita sobre a mesa e também dois pratos de louça branca, garfos e facas, duas xícaras de chá. os guardanapos de pano vermelho – a bainha costurada por ela numa das vezes em que a flor nascera. inebriava a todos durante aquelas florações: a vontade de liberdade, a aflição em despetalar as palavras todas, abrindo picada pelos caminhos da garganta. às vezes ocupando excessivamente as mãos para esperar o que nasceu crescer, envelhecer e morrer. insuportáveis estes ciclos, pensa.

e enquanto pensa vai amassando farinha, manteiga, iogurte e água. é quase com violência que abre a massa – o cilindro alisando e esticando o que até há pouco era só nó. coloca a massa sobre a forma, coloca a forma dentro do forno. e espera.

enquanto espera, abre o shimeji e derrete a manteiga e sente o cheiro forte e bom do acinzentado refogando: uma pequena alegria, a floração nascida no úmido e escuro se transformando em intensidade e maciez. rouba um bocadinho com os dedos, mistura à cebolinha picada. e reserva. que agora é hora de bater os ovos às natas, também um pouco de sal e noz moscada. finalmente mistura tudo e derrama sobre a massa, dourada e fofa. então devolve tudo ao útero quente do fogão.

na leiteira, derrama o leite e o pedacinho de uma fava de baunilha. a fúria do leite fervendo espumas contrasta com o entalo de sua flor, imóvel. adivinha o gosto e a textura do leite morninho a descer pela garganta, carregando consigo qualquer resquício de caule e pétalas, inaugurando um outono.

hoje não tem café preto. só o leite amansando e umedecendo a baunilha um pouco ressequida – tanto tempo desde que. a casa vazia, a mesa vazia. pra pôr o ciclo em movimento é sempre este misto de espera e ação. pensa nele e o medo e a esperança se pororocam numa única saliva, carregando finalmente aquela flor dolorida corpo adentro. o espaço, enfim, liberado. a porta destrancada por dentro.

na hora certa, toca a campainha e ela, menina antiga, só tem tempo de pensar alto: quem vem lá? como se já não soubesse. como se pega de surpresa. como se não tivesse sido ela mesma a mandar o convite.