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25 setembro, 2015

"montemos nos cavalos para escaparmos juntos do abatedouro global"

Paul B. Preciado

Parece que os gurus da velha Europa colonial estão ultimamente obstinados a querer explicar aos ativistas dos movimentos Occupy Indignados, aleijado-trans-bicha-intersexual e pospornô, que nós não poderemos fazer a revolução porque nós não temos uma ideologia. Eles dizem “ideologia” como minha mãe dizia “marido”. Ora, nós não precisamos nem de ideologia nem de marido. Nós as novas feministas não precisamos de marido porque não somos mulheres. Da mesma forma que não precisamos de ideologia porque não somos um povo. Nem comunismo nem liberalismo. Nem a ladainha católico-muçulmana-judia. Falamos outra língua. Eles dizem representação. Nós dizemos experimentação. Eles dizem identidade. Nós dizemos multidão. Eles dizem domesticar a periferia. Nós dizemos mestiçar a cidade. Eles dizem dívida. Nós dizemos cooperação sexual e interdependência somática. Eles dizem capital humano. Nós dizemos aliança multi-espécies. Eles dizem carne de cavalo nos nossos pratos. Nós dizemos “montemos nos cavalos para escaparmos juntos do abatedouro global”. Eles dizem poder. Nós dizemos potência. Eles dizem inclusão. Nós dizemos código aberto. Eles dizem homem-mulher, branco-negro, humano-animal, homossexual-heterossexual, Israel-Palestina. Nós dizemos: vocês sabem muito bem que seu aparelho de produção de verdades não funciona mais… De quantos Galileus precisaremos desta vez para reaprendermos a nomear as coisas nós mesmos? Eles nos proporcionam a guerra econômica a golpes de facão digital neoliberal. Mas nós não vamos chorar pelo fim do Estado-providência porque o Estado providência era também o hospital psiquiátrico, o centro de inclusão de deficientes, a prisão, a escola patriarcal-colonial-heterocentrada. É tempo de colocar Foucault na dieta aleijado-queer e escrever a Morte da clínica. É tempo de convidar Marx para um atelier eco-sexual. Nós não vamos encenar o Estado disciplinar contra o mercado neoliberal. Esses dois aí já fizeram um acordo: na nova Europa, o mercado é a única razão governamental, o Estado se torna um braço punitivo cuja única função é a de recriar a ficção da identidade nacional através do medo securitário. Nós não queremos nos definir nem como trabalhadores cognitivos nem como consumidores farmacopornográficos. Não somos Facebook, nem Shell, nem Nestlé, nem Pfizer-Wyeth. Não queremos produzir franceses, tampouco produzir europeus. Não queremos produzir. Somos a rede viva descentralizada. Recusamos uma cidadania definida por nossa força de produção ou nossa força de reprodução. Queremos uma cidadania total definida pela divisão das técnicas, dos fluidos, das sementes, da água, dos saberes… Eles dizem que a nova guerra limpa se fará com drones. Nós queremos fazer amor com os drones. Nossa insurreição é a paz, o afeto total. Eles dizem crise. Nós dizemos revolução.

(Daqui. O original em francês aqui). (Dá vontade de grifar o texto todo, mas tentei limitar meus grifos só àquilo que dava vontade de sair gritando).

16 junho, 2012

um abraço

aproximou-se de mim já refrigerante morno em copo de plástico - as paredes inúteis para conter o líquido e a espuma, o tenso limite entre controle e transbordamento.
a experiência ainda difícil nas frases interrompidas pelas lágrimas. que carregou, em segredo, uma festa. que seria o primeiro filho, bem-vindo. que de repente tudo borrou em marrom e vermelho e a felicidade escorreu, por entre os dedos e as pernas. que talvez tenha esperado demais. que ainda sente vazar a ferida aberta pelo medo.
eu tentei dizer coisas como: embora ninguém fale, isso é comum e por isso mesmo não é sinal de que é tarde demais. e nem de menos. que ser mãe já é esse abismar-se diante da vida. que mesmo quando a gente não crê, a vida é milagre pois há improváveis sementes que brotam no tronco da árvore enquanto outras dormem para sempre no fundo da terra mais fértil. que o filho sonhado já começa a virar verdade nesse enfrentamento com o próprio desejo e com os próprios limites. que haverá novamente o tempo da graça.
tentei dizer tudo isso, mas não quis espantar com certezas as bolhas frágeis das dúvidas. então, só falei com os braços.

25 setembro, 2010

boniteza

Então. Amanhã escrevo com mais calma, porque essa semana acabou meio em clima de Agosto - uma tristeza funda e dolorida frente ao desencontro entre aquilo que somos, o que podemos ser e o que está sendo feito dessas possibilidades. Eu bem acho que esse desencontro todo tem a ver com a distância que vai do cotidiano da gestão e da política que acontece no todo dia (aquilo que a gente vem chamando desde 88 de  mecanismos de democracia participativa) e o espetáculo da política que se encena nos momentos rituais de celebração da democracia representativa. Acho mesmo que, à medida que a democracia se consolida, essa distância, se não pensada e nomeada, traz a sensação de descolamento entre o que somos e o que parecemos ser - porque só há pouco temos aprendido a olhar o que de político há em diferentes níveis, inclusive no mais próximo, como reclamar do mau atendimento no posto de saúde ou tentar mudar a lógica das relações sociais no próprio ato. Mesmo reconhecendo essa distância, é tão dolorido ver - naquilo que deveria ser a festa da consolidação de nossas recentes transições democráticas - o envenenamento dos ânimos, a exaltação das posições irracionais, que não só desconhece o Brasil que nos tornamos do ponto de vista econômico e social, mas também desrespeita as aprendizagens às duras penas do Brasil que nos tornamos do ponto de vista político, desmerece o recalcitrante desejo de cidadania dos homens e das mulheres que vivem e trabalham todos os dias, e que todos os dias têm que se afirmar como cidadãos mesmo quando as condições não permitiriam sequer sugerir tal coisa, porque não é assim - como cidadãos iguais, com direitos e deveres iguais - que são tratados. Desmerece também os esforços e sacríficios daqueles que têm dado suas vidas a estruturar políticas, construir e consolidar programas, fazer funcionar a máquina administrativa por vezes tão frágil que a gente chama da Estado, em prol do cidadão que reconhecem em cada indivíduo. Então, desculpem pelo desabafo, mas como disse, andou difícil, andou pesado... Por outro lado, como dizia o André Abujamra, "o açúcar é doce, e o sal é salgado", então caminhemos que a vida é assim mesmo: às vezes peso e amargor, às vezes leveza e doçura, e a maior parte do tempo as duas coisas juntas ao mesmo tempo.

Mas aí que, passeando pelo youtube, encontrei esse vídeo do Milton cantando "Clube da Esquina nº 1", e foi tão preciso que divido aqui com vocês, junto com a minha esperança de que a manhã e setembro nos cheguem, que essa pequena noite seja vencida, que as janelas se abram e que nos encontremos na esquina, nas esquinas.