do que a Noemi Jaffé escreveu: por outro lado, esse "tu te tornas eternamente responsável por aquilo
que cativas", é bem careta. cativar é tornar cativo, aprisionar. é a
definição clássica, grega mesmo, de paixão - uma doença que aprisiona o
sujeito. daí que cativar não tem nada a ver com amizade, que é, por
natureza, livre. assim sendo, sugiro: "tu te tornas temporariamente
irresponsável por aquilo que libertas". isso sim é amizade.
Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo. Porque esta noite/ Olhei-me a mim, como se tu me/ olhasses. E era como se a água Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. (Hilda Hilst)
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20 dezembro, 2013
assino embaixo
30 outubro, 2013
que não sou árvore para deitar raiz
para v.
que não sou árvore para deitar raiz. ela me diz. e eu, minhas raízes aéreas, entendo. escuto o desejo de outrar-se em novas terras, novos ares, nova água. de transplantar-se pra saber o que fica o mesmo e o que muda. e o que muda é a parte em nós que se deixa carregar - o acaso, o destino, a vontade. as raízes em suspenso, encolhidas como as pernas no avião, esperando novo porto pra espreguiçar amplo. esse jeito de não pensar, pensando, que ir é diferente de chegar. porque se a gente chega, é sempre em algum espaço dentro de nós mesmos, quando a pele cabe macia, recobre de conforto a fragilidade do que então, a cada vez, somos. era esse o trecho que eu tateava quando cheguei às margens de um rio: "os livros que a gente lê são uma espécie de raiz. outra espécie é das pessoas que a gente conhece e que vão arando a gente, plantam e quando você percebe já floresceu ficou podre caiu virou adubo. meu objetivo de vida é virar adubo, te digo"*. ela não é árvore pra deitar raiz. mas o silêncio fértil, a terra úmida, o novo que inaugurou em mim afirmando o contrário.
* Marcos Visnadi, na Biblioteca do Mundo do Saturnália, há muito tempo (o link não existe mais).
03 setembro, 2013
Amizade*
"A amizade é tão estreitamente ligada à própria definição da filosofia que se pode dizer que sem ela a filosofia não seria propriamente possível. A intimidade entre amizade e filosofia é tão profunda que esta inclui o philos, o amigo, no seu próprio nome e, como frequentemente ocorre para toda proximidade excessiva, corre o risco de não conseguir realizar-se. No mundo clássico, essa promiscuidade e quase consubstancialidade do amigo e do filósofo era presumida, e é certamente por uma intenção de alguma maneira arcaizante que um filósofo contemporâneo - no momento de colocar a pergunta extrema "O que é a filosofia?" - pode escrever que esta é uma questão para ser tratada entre amis. De fato, hoje a relação entre amizade e filosofia caiu em descrédito, e é com uma espécie de embaraço e de má consciência que aqueles que fazem da filosofia uma profissão tentam acertar as contas com este partner incômodo e, por assim dizer, clandestino de seu pensamento. [...]
É possível que para esse incômodo dos filósofos modernos tenha contribuído o particular estatuto semântico do termo "amigo". É notório que ninguém jamais conseguiu definir de modo satisfatório o significado do sintagma "eu te amo", tanto que se poderia pensar que este tenha caráter performativo - isto é, que o seu significado coincida com o ato do seu proferimento. Considerações análogas poderiam ser feitas para a expressão "sou seu amigo", mesmo se aqui o recurso à categoria do performativo não pareça possível. Ao contrário, penso que "amigo" pertença àquela classe e termos que os linguistas definem não-predicativos, isto é, termos a partir dos quais não é possível construir uma classe de objetos na qual inscrever os entes a que se atribui o predicado em questão. "Branco", "duro", "quente" são certamente termos predicativos; mas é possível dizer que "amigo" defina, nesse sentido, uma classe consistente? Por estranho que possa parecer, "amigo" compartilha essa qualidade com uma outra espécie de termos não-predicativos, os insultos. Os linguistas demonstraram que o insulto não ofende quem o recebe porque o inscreve numa categoria particular (por exemplo, aquela dos excrementos, ou dos órgãos sexuais masculinos ou femininos, segundo as línguas), o que seria simplesmente impossível ou, de qualquer modo, falso. O insulto é eficaz exatamente porque não funciona como uma predicação constativa, mas sim como um nome próprio, porque chama na linguagem de um modo que o chamado não pode aceitar, e do qual, todavia, não pode se defender (como se alguém insistisse em me chamar Gastone, sabendo que me chamo Giorgio). Isto é, aquilo que ofende no insulto é uma pura experiência da linguagem, e não um referimento ao mundo.
Se isso é verdadeiro, "amigo" compartilharia essa condição não apenas com os insultos, mas com os termos filosóficos que, como se sabe, não têm uma denotação objetiva, e, como aqueles termos, que os lógicos medievais definiam "transcendentes", significam simplesmente o ser. [...]
[Seguindo o desenvolvimento de Aristóteles, na Ética a Nicômaco] Os amigos não condividem algo (um nascimento, uma lei, um lugar um gosto): eles são com-divididos pela experiência da amizade. A amizade é a condivisão que precede toda divisão, porque aquilo que há para repartir é o próprio fato de existir, a própria vida. E é essa partilha sem objeto, esse com-sentir originário que constitui a política. [...].
(Giorgio Agamben, O amigo. In: ___. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. 5ª reimp. Chapecó: Argos, 2013. Trad.: V. N. Honesko, p.79-82).
* Com gratidão ao amigo Mauricio, por ter falado do livro com entusiasmo, por ter me levado à livraria e literalmente por ter me posto o livro às mãos. E, claro, por tudo que nos condivide.
10 junho, 2012
doçuras
a noite fria e chuvosa propõe obstáculo ao reencontro, mas em algum lugar entre a garganta e o coração um calor faz combustível para o primeiro passo fora de casa. encontramos abrigo na pequena cervejaria, mesa para dois, nem tão claro que fira a vista, nem tão escuro que os contornos do outro se borrem. a cerveja faz às vezes de champagne até no estouro educado, e o garçom derrama nos copos a promessa de memórias de frutas, ameixas e uvas. a leveza da bebida e a leveza da conversa, ainda que temas duros permeiem as risadas. envelhecer. futuro. casamento. corpo. o doce que os goles estalam na garganta amansando medos e dores. o olho no olho também: certeza de companhia e compreensão. lá fora a cidade fria e deserta - cá dentro, o queijo e mel em torno do qual arrulhamos fazendo as vezes de lareira.
30 maio, 2012
trama
abro o e-mail de manhã e uma supresa deliciosa na caixa postal - uma história, traduzida com todo carinho, dividida com esperança e alegria. devoro a história como o sr. raposo devora os livros: cheia de fome e vontade, com sal, mas sem pimenta - que não estou acostumada e a língua fica dormente, a entravar a boca pra conversa ou pra outros gostos.
e como uma boa história que a gente devora também devora a gente, no caminho de volta da escola tem mãos dadas e um novo partilhar: cada passo desenrolando a trajetória do sr. raposo, seus hábitos alimentares, seu período de fast food - forma sem conteúdo, que não sacia de jeito nenhum...; sua descoberta da biblioteca, sua carreira criminal, sua volta por cima... a cada episódio, a mãozinha quente apertando mais forte a minha e perguntando "e aí? acaba assim?". a ansiedade de conhecer o final devorando mais que a fome da hora do almoço.
a ponta lançada do outro lado do oceano amarrada à trama de cá - costurando a presença onde a saudade, ela também, insatisfeita.
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22 dezembro, 2010
un vestido y un amor
No sábado, fomos ao casamento da Tatiana e do Alex, compartilhar com eles a alegria e a festa do amor quando começa e recomeça. A Tati provavelmente é uma das noivas mais lindas que já vi, com suas unhas e sapatos vermelhos, ao mesmo tempo tão despida de véus, coroas, penteados demorados... e, por isso mesmo, tão absolutamente deslumbrante.
Não conheço muito o Alex, embora eles estejam juntos já há bastante tempo. Por alguma razão, ou por várias, a mesma vida que um dia tornou possível que a Tati e eu nos encontrássemos e construíssemos uma amizade forte e intensa, foi tornando difícil a gente participar do cotidiano uma da outra. Nem por isso o carinho que sinto por ela é qualquer vírgula menor - volta e meia esbarro com pedacinhos daquele nosso convívio miúdo, as músicas, as cartas, cartinhas e cartões, as fitas cassete que gravávamos, na casa da Ju, embaladas por insônia e álcool... Tanta gostosura, tanta partilha. Tantos fios entrelaçados - se não fosse por ela, Edu e eu nem teríamos nos conhecido, nem teríamos conversado por horas, nem teríamos construído esses nove anos de vida em comum.
Fiquei imensamente feliz e grata por poder participar desse momento. E de reencontrar tanta gente querida, de quem igualmente gosto, ainda que não nos vejamos com frequência. Ter na minha vida essas pessoas tão queridas, saber que estão bem, felizes, construindo suas vidas me faz um bem danado - dá sentido à nossa história comum, mas também me ampara e me dá consistência. É feito poder voltar para casa quando a gente se sente um pouco perdido e sozinho.
Como escrevi em algum cartãozinho para a Tati, há tanto tempo que perdi a data, "hay cosas que te ayudan a vivir". Pessoas queridas como a Tati e o Alex certamente estão entre elas.
28 novembro, 2010
açúcar
Ontem nós fomos dar um beijo na Paula e no Sérgio, pessoas muito queridas, que estão no preparo e na espera do Francisco.
A Paulinha é uma amiga queridíssima. A gente tem coisas muito parecidas - uma meninice, uma certa suavidade que disfarça nossa leonininidade - mas também coisas diferentes: a Paulinha é quinhentas vezes mais paciente e cuidadosa do que eu, mil vezes mais capaz de costurar consensos, com sua delicadeza que faz cerzidos ali mesmo onde o tecido se esgarçara a ponto de parecer rasgado... Quando a gente trabalhava junto, eu não me cansava de admirar essa habilidade de ser flexível e firme, tudo ao mesmo tempo, pavimentando caminhos sem nunca precisar de trator.
Ela esteve tão presente durante toda a minha gravidez, fosse nas reuniões aqui em casa - ela, Toninho e eu, em longas conversas que ajudavam a dar nome numa experiência que, de certa forma, fora comum a nós três -, fosse nos telefonemas de compreensão e apoio quando o fato de gerar uma vida punha a nu as fragilidades dessa coisa que é viver. Sempre querida, sempre companheira.
Quando nos falamos sobre o chá de fraldas, fiquei super feliz de poder oferecer a eles o bolo e os docinhos, aliviando um bocadinho as preocupações que ela teria em organizar o encontro. Foi uma decisão em grande medida prática. Mas ontem, vendo os dois tão felizes, e vendo a Paulinha tão linda, tão amorosa com o Francisco, tão querida por tanta gente, percebi que esse era o presente mais coerente com o que ela significa para mim, com sua amizade cheia de doçuras: puro mel, inesgotável, que a chegada do Francisco, tenho certeza, só vai fazer multiplicar.
Imagem: daqui.
18 setembro, 2010
enraizamento
05 julho, 2010
Pão com ovo
Depois da Veronika ter escrito lá no Piperca (apelido super simpático e charmoso inventado pela Neide) sobre a importância de, nos piqueniques, levarmos algo mais ao paladar dos pequenos - que, em geral, correm, exploram, brincam e pulam e quase não comem - tinha ficado pensando no que levar. E aí, na semana passada, fui começar a (tentar) trabalhar e marido tinha deixado aberto o blog do Katsuki, num post sobre piquenique. Então, resolvi: ia levar pão com ovo.
A decisão me levou longe no tempo. Quando eu estava na 5ª série (a antiga, que a gente fazia aos 10 ou 11 anos), minha melhor amiga era a Anna Carla. A gente se conhecia desde a 4ª série, e já éramos bastante amigas - eu achava o máximo o fato dela ser chilena e adorava visitá-la, para ouvir a família toda falando em espanhol... Além disso, seus pais eram separados como os meus, o que me fazia me sentir um pouco menos anormal (naquela época, eu só tinha duas amigas cujos pais tinham se separado, a Anna e a Paola).
Depois que a mãe dela se casou de novo e engravidou, eles se mudaram para uma casa mais longe, o que tornou nossas visitas menos constantes. O engraçado é que pouco me lembro da nova casa deles, mas me lembro bem do encantamento de andar no trailer da família. Era simplesmente o má-xi-mo!!
Mas me lembrei da Anna Carla porque, enquanto ela ainda morava mais perto e as visitas eram mais comuns, eu adorava dormir na casa dela. Aos finais de semana não haveria tanta graça; eu gostava mesmo era de ir dormir lá em dia de escola. A gente brincava, papeava até cansar e, no dia seguinte, a mãe dela nos acordaria cedo, nos faria café e prepararia a iguaria tão cobiçada: um sanduíche de pão com ovo, em pão francês.
Eu não sei bem o que me encantava mais - que a mãe dela preparasse o lanche (acho que eu levava bolachas de pacotinho ou, mais tarde, dinheiro para comprar algo na cantina), que ela se preocupasse com o meu lanche, que na hora do recreio (eita palavrinha velha!) eu tivesse aquele segredo de ovos guardado na mochila... O fato é que, por muito tempo, quando eu queria uma comida de conforto, daquelas que imediatamente fazem a gente se sentir acolhido e amparado, frequentemente minha escolha recaía sobre um pão francês com ovo. Comida que, pra mim, sabe a cuidado e partilha.
E que alegria foi ver a criançada comendo os tais sanduichinhos, recheadinhos de salada de ovos e de memórias de infância!
24 agosto, 2009
Coração quentinho
O Rodrigo não anda a fim de sair de casa. Simples e definitivo assim: não importa qual seja a proposta, o ser prefere ficar dentro de casa, brincando ou mesmo assistindo filmes (agora ele entrou na onda de "Princípes e Princesas", do Michel Ocelot, que é lindo e divertido mesmo). Não quer ir ao parque, não quer ir a aniversários.
Eu e o Edu já estávamos ficando preocupados. Ainda que achemos que é só uma fase, sabe como é: já estávamos cogitando problemas - em casa, na escola, sei lá - , tecendo hipóteses, imaginando soluções... Mas ontem, conseguimos convencê-lo a ir à festa de um amiguinho de quem ele gosta bastante.
Chegamos lá, mas os amigos da escola mesmo não tinham chegado. Ele então ficou tomando chocolate quente (a festa era às 10h da manhã, então era um café-da-manhã, delicioso) e se ambientando. Disse não a todas as nossas tentativas de fazê-lo experimentar os brinquedos, fez birra para a mãe do amiguinho, mas pelo menos não deu chilique nenhum, só ficou observando...
Os amiguinhos dele começaram a chegar, e, num passe de mágica, de repente ele estava brincando, pulando, correndo. De vez em quando checando para ver se não sumíamos, mas ainda assim se divertindo muito com as brincadeiras propostas pelos monitores.
[A festa foi em um buffet muito bacana, que trabalha numa linha antroposófica, então não tem nada de brinquedos barulhentos, quilos de açucar, crianças alucinadas etc. Tinha sucos naturais, espaço amplo, contação de histórias e brinquedos em sua maioria de madeira, para estimular a imaginação. Muito, muito bacana. Ao invés da exaustão de um tempo que foi vorazmente consumido, a gente sai com a sensação de paz, gratidão e encontro].
Em uma certa altura, vejo o Rodrigo passar e se aproximar de um dos amigos da escola. Aí, ele estendeu a mão e perguntou: "E., vamos brincar lá fora?". Mais que depressa, E. ignorou os apelos da mãe dele, que queria que ele parasse para comer alguma coisa, deu a mão para o Rô e lá foram os dois, explorar o quintal. Tão doce, vê-los correndo de mãos dadas! Tão queridos, em sua aprendizagem de companheirismo e amizade...
Vão vendo que o único problema que o Rodrigo aparentemente tinha era um bastante comum: preguiça :-)
Eu e o Edu já estávamos ficando preocupados. Ainda que achemos que é só uma fase, sabe como é: já estávamos cogitando problemas - em casa, na escola, sei lá - , tecendo hipóteses, imaginando soluções... Mas ontem, conseguimos convencê-lo a ir à festa de um amiguinho de quem ele gosta bastante.
Chegamos lá, mas os amigos da escola mesmo não tinham chegado. Ele então ficou tomando chocolate quente (a festa era às 10h da manhã, então era um café-da-manhã, delicioso) e se ambientando. Disse não a todas as nossas tentativas de fazê-lo experimentar os brinquedos, fez birra para a mãe do amiguinho, mas pelo menos não deu chilique nenhum, só ficou observando...
Os amiguinhos dele começaram a chegar, e, num passe de mágica, de repente ele estava brincando, pulando, correndo. De vez em quando checando para ver se não sumíamos, mas ainda assim se divertindo muito com as brincadeiras propostas pelos monitores.
[A festa foi em um buffet muito bacana, que trabalha numa linha antroposófica, então não tem nada de brinquedos barulhentos, quilos de açucar, crianças alucinadas etc. Tinha sucos naturais, espaço amplo, contação de histórias e brinquedos em sua maioria de madeira, para estimular a imaginação. Muito, muito bacana. Ao invés da exaustão de um tempo que foi vorazmente consumido, a gente sai com a sensação de paz, gratidão e encontro].
Em uma certa altura, vejo o Rodrigo passar e se aproximar de um dos amigos da escola. Aí, ele estendeu a mão e perguntou: "E., vamos brincar lá fora?". Mais que depressa, E. ignorou os apelos da mãe dele, que queria que ele parasse para comer alguma coisa, deu a mão para o Rô e lá foram os dois, explorar o quintal. Tão doce, vê-los correndo de mãos dadas! Tão queridos, em sua aprendizagem de companheirismo e amizade...
Vão vendo que o único problema que o Rodrigo aparentemente tinha era um bastante comum: preguiça :-)
05 dezembro, 2008
Sorte

Sorte, sorte mesmo é ter amigos tão, mas tão queridos, que juntam inteligência e delicadeza e, antes de mandar uma mensagem de puxões de orelha plenos de razão, ligam antes para avisar.
Maurice, meu amigo mais querido, é impossível imaginar minha vida sem você. Quer dizer, até dá. Mas é tão chato e tão mais pobre, que não vale a pena (nem o pensamento nem a vida).
Imagem: www.gettyimages.com.br
Maurice, meu amigo mais querido, é impossível imaginar minha vida sem você. Quer dizer, até dá. Mas é tão chato e tão mais pobre, que não vale a pena (nem o pensamento nem a vida).
Imagem: www.gettyimages.com.br
15 novembro, 2008
Aqueles Dois

Ontem fomos, Maurice e eu, assistir ao espetáculo Aqueles Dois, baseado no conto homônimo do Caio Fernando Abreu.
Confesso que estava bem com medo. A única vez em que vi uma montagem de textos do Caio foi "O Homem e a Mancha", encenada pelo Marcos Breda. Mas "O Homem e a Mancha" é um texto escrito para teatro e foi dirigida pelo Luiz Arthur Nunes, que era amigo e co-autor de peças do Caio. Lembro-me que também já houve uma montagem de "Dama da Noite" que fez bastante sucesso, mas não cheguei a ver. Ir assistir montagens baseadas em contos ou romances de nossos autores preferidos é sempre meio desconfortável pois significa dar corpo e voz a personagens que a gente, ao ler, recria. Se for bom, a gente acaba colando pra sempre o corpo à personagem. E se for ruim, às vezes a gente até perde o gosto da leitura...
Mas a montagem da Cia. Luna Lunera foi bastante fiel ao espírito do conto, acho. De fato, acho que essa é a primeira qualidade da montagem - um sentimento de respeito ao conto e ao autor, embora não um respeito paralisante que impeça a criação e a "tradução" do texto literário em linguagem cênica.
É claro que as leituras podem variar, mas "Aqueles Dois" é um conto muito, muito delicado. Fala de encontro, de reconhecimento. E talvez fale mais de amizade do que de amor (para seguir uma pista obscura que o Maurice me lançou há algum tempo).
Ao contrário de outros contos do Caio em que o sexo irrompe no texto, sempre expondo os personagens de um jeito um tanto cru, nesse conto não há sexo. Há talvez o susto do desejo, mas o Caio, super sacana, termina o conto deixando o leitor em suspense, só pra ver se a gente cai na mesma armadilha de mediocridade e, ao invés de apreciar a boniteza da relação, vai ficar se perguntando, mas "é namoro ou amizade?". Porque o conto todo é sobre essa violência de uma sociedade que só entende as coisas pelo viés do sexo e é incapaz de acolher o convívio de duas pessoas sem rótulos. Duas pessoas que se gostam muito, que convivem cotidianamente, que juntas são melhores do que separadas têm que ser amantes. Independente do sexo.
Fossem "aqueles dois" um homem e uma mulher e não haveria conflito; fofoca, talvez; as mulheres até suspirariam aliviadas, sentindo-se menos rejeitadas; mas ninguém se sentiria ameaçado, o mundo continuaria a rodar. E é por isso que o conto tem como subtítulo "História de aparente mediocridade e repressão".
Voltando à peça, ela flui. Momentos divertidos se alternando com momentos mais intensos, mas achei tudo afinado. Às vezes o volume (real) é um pouco alto demais, mas ainda assim, o importante é que não se perde o tom (metafórico) de que se trata de uma história de encontro e reconhecimento.
Apesar da história ser sobre "aqueles dois", são quatro atores no palco e achei que funcionou bem. A alternância dos papéis, o ritmo, acho que foi mais interessante do que se fossem só dois em cena. Mas mais do que isso, acho que esse recurso deu leveza para a idéia de que é preciso o tempo todo estar atento para se reconhecer no outro e reconhecer o outro. De algum modo, a contínua mudança de quem enunciava as falas de Raul e Saul parece sugerir que eles são especiais apenas por terem se reconhecido e, a partir daí, não terem recusado a aventura de mergulharem um no outro.
Mergulho que o sexo talvez não tivesse permitido, sendo fusão tão intensa E aqui torno de novo a essa sensação de que, no conto, não é que seja necessário recusar o sexo, mas certamente é limitador e empobrecedor desconfiar que (1) ele esteja presente em todas as relações e (2) ele seja o elemento definidor das relações.
Quando, ao final do conto, ele vão embora e todos os outros ficam ali naquela repartição, inquietos e angustiados, com a sensação de que seriam infelizes para sempre, é desses limites e dessa pobreza que se trata. A pobreza de colocar o sexo e o desejo no centro da identidade.
Apesar de na hora ter achado que de vez em quando o recurso à uma espécie de dança-capoeira era desnecessário, depois também fiquei achando que esse tatear mútuo era bem interessante, dando corpo ao exercício de tatear, marcar limite: o corpo do outro como limite. A ambiguidade de querer se aproximar e querer marcar distância.
E eu continuo me perguntando, Maurice, meu companheiro: do que é feita a amizade?
Bom. Para concluir, mesmo que abruptamente - já que tenho que voltar a trabalhar - gostei da peça e recomendo! Eles ficam em cartaz até 14/12, no Sesc da Avenida Paulista.
Para quem quiser ler, o conto está no Morangos Mofados. Eu tenho uma edição muuuuito velha, comprada em sebo na época em que o livro estava esgotado (para vocês terem uma idéia, a edição é do Círculo do Livro e a capa é a mais homoeroticamente inclinada possível! Tipo: um cara loiro de bigode olhando pela janela onde a chuva escorre. Sentiu?). A Agir, que tem reeditado as obras do Caio, já deve ter republicado, naqueles volumes imensos e irritantes divididos por década.
Imagem: www.gettyimages.com.br
Confesso que estava bem com medo. A única vez em que vi uma montagem de textos do Caio foi "O Homem e a Mancha", encenada pelo Marcos Breda. Mas "O Homem e a Mancha" é um texto escrito para teatro e foi dirigida pelo Luiz Arthur Nunes, que era amigo e co-autor de peças do Caio. Lembro-me que também já houve uma montagem de "Dama da Noite" que fez bastante sucesso, mas não cheguei a ver. Ir assistir montagens baseadas em contos ou romances de nossos autores preferidos é sempre meio desconfortável pois significa dar corpo e voz a personagens que a gente, ao ler, recria. Se for bom, a gente acaba colando pra sempre o corpo à personagem. E se for ruim, às vezes a gente até perde o gosto da leitura...
Mas a montagem da Cia. Luna Lunera foi bastante fiel ao espírito do conto, acho. De fato, acho que essa é a primeira qualidade da montagem - um sentimento de respeito ao conto e ao autor, embora não um respeito paralisante que impeça a criação e a "tradução" do texto literário em linguagem cênica.
É claro que as leituras podem variar, mas "Aqueles Dois" é um conto muito, muito delicado. Fala de encontro, de reconhecimento. E talvez fale mais de amizade do que de amor (para seguir uma pista obscura que o Maurice me lançou há algum tempo).
Ao contrário de outros contos do Caio em que o sexo irrompe no texto, sempre expondo os personagens de um jeito um tanto cru, nesse conto não há sexo. Há talvez o susto do desejo, mas o Caio, super sacana, termina o conto deixando o leitor em suspense, só pra ver se a gente cai na mesma armadilha de mediocridade e, ao invés de apreciar a boniteza da relação, vai ficar se perguntando, mas "é namoro ou amizade?". Porque o conto todo é sobre essa violência de uma sociedade que só entende as coisas pelo viés do sexo e é incapaz de acolher o convívio de duas pessoas sem rótulos. Duas pessoas que se gostam muito, que convivem cotidianamente, que juntas são melhores do que separadas têm que ser amantes. Independente do sexo.
Fossem "aqueles dois" um homem e uma mulher e não haveria conflito; fofoca, talvez; as mulheres até suspirariam aliviadas, sentindo-se menos rejeitadas; mas ninguém se sentiria ameaçado, o mundo continuaria a rodar. E é por isso que o conto tem como subtítulo "História de aparente mediocridade e repressão".
Voltando à peça, ela flui. Momentos divertidos se alternando com momentos mais intensos, mas achei tudo afinado. Às vezes o volume (real) é um pouco alto demais, mas ainda assim, o importante é que não se perde o tom (metafórico) de que se trata de uma história de encontro e reconhecimento.
Apesar da história ser sobre "aqueles dois", são quatro atores no palco e achei que funcionou bem. A alternância dos papéis, o ritmo, acho que foi mais interessante do que se fossem só dois em cena. Mas mais do que isso, acho que esse recurso deu leveza para a idéia de que é preciso o tempo todo estar atento para se reconhecer no outro e reconhecer o outro. De algum modo, a contínua mudança de quem enunciava as falas de Raul e Saul parece sugerir que eles são especiais apenas por terem se reconhecido e, a partir daí, não terem recusado a aventura de mergulharem um no outro.
Mergulho que o sexo talvez não tivesse permitido, sendo fusão tão intensa E aqui torno de novo a essa sensação de que, no conto, não é que seja necessário recusar o sexo, mas certamente é limitador e empobrecedor desconfiar que (1) ele esteja presente em todas as relações e (2) ele seja o elemento definidor das relações.
Quando, ao final do conto, ele vão embora e todos os outros ficam ali naquela repartição, inquietos e angustiados, com a sensação de que seriam infelizes para sempre, é desses limites e dessa pobreza que se trata. A pobreza de colocar o sexo e o desejo no centro da identidade.
Apesar de na hora ter achado que de vez em quando o recurso à uma espécie de dança-capoeira era desnecessário, depois também fiquei achando que esse tatear mútuo era bem interessante, dando corpo ao exercício de tatear, marcar limite: o corpo do outro como limite. A ambiguidade de querer se aproximar e querer marcar distância.
E eu continuo me perguntando, Maurice, meu companheiro: do que é feita a amizade?
Bom. Para concluir, mesmo que abruptamente - já que tenho que voltar a trabalhar - gostei da peça e recomendo! Eles ficam em cartaz até 14/12, no Sesc da Avenida Paulista.
Para quem quiser ler, o conto está no Morangos Mofados. Eu tenho uma edição muuuuito velha, comprada em sebo na época em que o livro estava esgotado (para vocês terem uma idéia, a edição é do Círculo do Livro e a capa é a mais homoeroticamente inclinada possível! Tipo: um cara loiro de bigode olhando pela janela onde a chuva escorre. Sentiu?). A Agir, que tem reeditado as obras do Caio, já deve ter republicado, naqueles volumes imensos e irritantes divididos por década.
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