10 abril, 2012

palomar

1. Na cômoda, no topo da pilha de livros, a capa amarela é objeto e lembrança. Dentro do livro, paulics à caneta. O livro mesmo uma partilha. Abro e fecho o livro; leio e releio a estrutura até não mais notá-la: um, dois e três, da descrição à meditação. Do ver o mundo a estar no mundo e de estar no mundo a pensá-lo. Vejo o mundo e antes de finalmente dormir ele é: a capa amarela, o miolo das letras, a companhia de palomar.

2. Nas férias de janeiro, os dias na praia se alternavam (1) no calor do sol,  tanta luz, tanto quente capaz de esvaziar pensamentos; (2) no assombro do menino crescido e destemido e companheiro; (3) em olhar e olhar e olhar a paisagem, silenciando o turbilhão com o ir e vir das ondas.
Sou pessoa de montanha - os contornos claros, sublinhados à contraluz, bordeando até onde a vista alcança. Mas por vezes é bom o mar e seus horizontes, ilusão de infinito, sem margem. O olho cresce, o azul e o cinza se inscrevem no corpo ao mesmo tempo que o sal. Ao menos brevemente, perco as bordas de mim.
Na volta das férias, na ida dos amigos, um livro emprestado no coreto da praça, como quem apresentasse um amigo antigo: "esse é palomar, aquele de quem te falei". O prazer, muito, subentendido.
Além da correria, o medo da saudade adia a leitura até que fica impossível adiar.
Então, ultimamente, conversas rápidas com palomar, um bocadinho por dia, sempre antes de dormir.  Por enquanto, ainda à beira da praia. Passeios homeopáticos, para esticar as páginas por trezentos e sessenta e cinco dias, uma tessitura fina a compor mosaico com as notícias-diário, os encontros breves no skype, os piqueniques de perto e de longe, se estendendo feito colcha atlântica.

3. Que um livro é vivo, faz companhia e chega mesmo a dar a mão. Apresentar a alguém um livro é um risco: livro e amigo podem não se gostar e a gente fica nu, como se tivessem desgostado da gente na lombada do outro. Podem também não se entender, e aí a gente cria desconfiança no amigo, que não vê beleza no que a gente vê; que não vê sentido onde a gente vê; que não admira o arranjo de palavras costurado em páginas-buquê. Apresentar amigo e livro predileto, então, é risco demais, quase entregar pulsante um teco do próprio coração. De palomar me aproximo devagar, admiração, reconhecimento. Um pouco também de esperança que ele traga um pedacinho da veronika que conheci, agora estrangeira. já outra. Um pouco também de esperança que ele traga um pedacinho de mim quando recebi o livro e adiei a leitura e perdi a chance de ler o livro que ele seria então - eu mesma também estrangeira e já outra. A saudade, essa ausência presente que às vezes amansa quando palomar me estende a mão. E eu sempre estendo de volta, o passeio com ele aplainando a saudade, os vários dias dentro de um dia, a preocupação... os sonhos deslizando suaves no caminho récem-pavimentado.

4 comentários:

  1. estou no onde a vista já não alcança. mas sua mão ali, do outro lado, aqui oceano e profundezas. suas mãos mágicas a reler um livro. um beijo, também com saudade. muita. feliz páscoa. v.

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  2. Respostas
    1. Adoro a montanha e estou preso em Copacabana.
      Já vivi nas montanhas da Serra do Mar onde ainda tenho a minha casa.
      A experiência de forrar o chão e dormir na mata é única e um privilégio. Construi minha casa dentro da mata no interior de SP.
      Hoje fico no nono andar de um apartamento pertinho da praia, mas a mata não me sai da memória.

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