10 novembro, 2013

paragem

“Nada em nós ventila, só o vento dentro do vento nos alcança, sem notícia, nem claridade, nem viagem nem sal marinho” (Nuno Ramos).

Coloco o grão-de-bico deixado de molho, desde ontem, pra cozinhar na panela de pressão. Histórias antigas de panelas explodindo passam rápido pela minha memória, a pele solta do grão inchado entupindo os buracos por onde o ar deveria escapar. Penso no meu irmão, sempre tão mais artesão de virar o sentimento em palavra. Penso nele conversando com a mãe. Tateando a coragem. Pedindo ajuda pra se desvencilhar de si mesmo e colocar um pé adiante de outro pé adiante. As conversas lentas na cozinha onde a luz do dia fazia contraste e em vez de iluminar, protegia as sombras.
Eles conversavam naqueles meios de tarde, a louça já lavada, as panelas de alumínio brilhando, o café já começando a pingar no bule comprido, também ele de alumínio. Eles conversavam e eu ouvia. Do que falavam não era nenhum segredo, mas ainda assim eu me esgueirava para escutar, espichava o ouvido, o coração quase atrapalhando a missão de tanto que tum-tum-tum.
Pego na cesta um gengibre já querendo murchar, tanta secura por dentro. Vou no quintal, agora mato alto, e encontro coentro, florindo brancuras. Também ele meio amarelando, o sol do meio dia paralisando até a vontade tênue. Faz calor. Um calor modorrento.
Penso no meu irmão para desviar de pensar na mãe. Em seus sabimentos. No jeito de ensinar as coisas mais duras, mais fundas, como quem ensina a cortar a lenha ou a dar ponto de tricô. Ela nem lia. Nem escrevia. O mundo não era um livro aberto – as páginas brancas ordenadas em sentenças, encadeamentos, sentido. O mundo dela era cheio de recônditos e entranhas. Sentidos só vezemquando revelados. A mãe era toda poesia, os cabelos soltos, as mãos rugosas, os olhos transluzindo todos os universos que ela tornava habitados.
Pensar nela me paralisa, agora. Devia ser o contrário: sem ela, sem o pai, eu navio subindo as âncoras e capaz de errar, tantos mares. Mas lembro dela, lembro essa minha orfandade e ai. Falta o ar.
Na caçarola jogo cebola, gengibre, cominho. Também duas folhas de louro. Três dentes de alho, inteiros. Azeite, bem pouquinho.
Quando eu tinha medo, ela falava de sol e chuva, de secas e umidades, de estações. Eu entendia, sem entender. Que o presente é frágil. Que a vida é ciclo. Que tem tempos de aridez e estio. E outros de festa úmida e florescências. Que a coragem está no passo, mas também na espera – pelo tempo certo e oportuno.
O ar que me falta, há de voltar a soprar? Quando eu doente, um amor derramado em caldos, nem todos bons. A canja, claro, imitando um sol desmaiado, pra não provocar a doença. O chá grosso de açúcar queimado, cravo, canela e gengibre. Tomado quente, só quando a cama já feita e o sono já próximo. A suadeira exorcizando o que quer que estivesse ali, roubando as forças. O chá de alho também – no limiar entre o ruim e o bom.
O irmão dominava as palavras e assim arrancava da mãe bonitezas e filosofias – ele queria aprender a viver, e mãe lhe passava as chaves com que abria o cada dia. Eu sempre fui de silêncios. De dores apertadas no peito ou no pescoço. Da mãe eu só arrancava os cuidados práticos – os remédios na doença; a comida no todo dia; o cerzido nas roupas; a cama feita nas manhãs.
Corto em cubinhos a cenoura e a vagem. Ponho pra cozinhar no vapor. O ponto certo entre o nem cru, nem cozido demais.
Penso na mãe, no pai e nessas podas à revelia. Eu agora menos afeito à minha terra, à casa e à rua onde cresci. Mas incapaz ainda assim de me lançar.
Acendo o fogo debaixo da caçarola e sinto o cheiro do gengibre, do cominho, da cebola. Todos os cheiros misturados, tão fortes, tão bons. Coloco o grão de bico. A cenoura. As vagens. O dahl vai ganhando corpo, o caldo grosso, os sabores intensos.
Antecipo o gosto, sabendo o calor, preparando as bochechas e o estômago quentes. Sabendo, sem saber, que é comida de curar. Cortando o coentro e jogando ali, ainda que nem faça sentido comer comida tão quente num dia tão quente. É estranho. Tão estranho que pra criar refresco, seja necessário ainda aumentar o calor.
Sento pra comer. Sozinho, na mesa onde aprendemos a ser família. O irmão, bem ensinado nas coragens, agora do outro lado do mundo. A comida aquece a boca, desce esquentando peito e barriga. Fervura. O gengibre, o cominho, o coentro clareando as maçãs do rosto, ensinando ao ar os caminhos por onde inflar os pulmões.
Dentro de mim, algo faz vento e finalmente sou capaz de respirar.

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