Se te pareço noturna e imperfeita/
Olha-me de novo. Porque esta noite/
Olhei-me a mim, como se tu me/ olhasses. E era como se a água
Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. (Hilda Hilst)
En el borde, en el límite, en la frontera, en el riesgo, en la inseguridad, en la incertidumbre, en donde empiezan las cosas que no han sido dichas, los fenómenos que no tienen nombre, las formas que no han sido definidas, los objetos que todavía nadie ha nombrado. Sólo vale la pena vivir donde empieza el vértigo.
***
A vertigem inebriante à beirada do abismo, tontura e cansaço do esforço que levou até ali. Como se na fundura morassem todas as palavras conhecidas, e elas esperassem nosso salto para se revelarem outras. Na base do poço, o que sabemos virado em ainda não? Engano meu: em pleno vôo, a iminência do infinito.
Finalmente, o desafio musical chega ao fim. Por isso, nada melhor que grupo Rumo cantando "Essa é pra acabar". Para terminar com bom humor, "antes tarde que mais tarde":
O vôo emaranhado na antena do caminhão. Caminhão-pipa: o sonho dos meninos domesticado na literalidade da imagem. Me assombro. E logo a ideia me ultrapassa.
na categoria "trilha sonora de infância", Fire Inc. (!), na cena final de Ruas de Fogo - filme que passava toda santa Sessão da Tarde. "Tonight is what it means to be young" é tudo de bão nessa vida: praticamente uma passagem de volta aos anos 80 ;-)
abro a caixa de ferramentas. página a página procurando aquela capaz de abrir a porta. do outro lado, a esperança de um espelho que me revele diferente de mim: aquilo que ainda não sou, apenas intuo. mexo e remexo as páginas. menos confiando descobrir a palavra certa, assim a esmo, e mais na ocupação das mãos. encontrando respiro no ar fresco levantado pelo desfolhar: bem-me-quer-mal-me-quer figurado. tem dias que o bem-me-quer resulta em arranjos de pétalas com alguma beleza; tem dias que o mal-me-quer aprofunda o silêncio. hoje, por exemplo, as pétalas amontoadas em desordem e a porta fechada. hoje, eu ainda igual a mim mesma.
na categoria "pra ninar gente grande", a doçura da voz da Ceumar, cantando Dindinha. A letra é do Zeca Baleiro, que é mestre na delicadeza de arranjar palavras de modo preciso e bonito. Adoro!
Dindinha parece mesmo cantiga infantil, cheia de rimas e ensinamentos que só com o tempo a gente entende em todas as consequências. Tão bonita e certeira...
é a música que toca em Pontes de Madison, num radinho de pilha que faz a voz de Billie Holiday vir direto do passado. é uma música linda, que fala de urgência e de presente. por causa dela, paguei o preço mais caro num cd importado, apenas para para descobrir que a versão era diferente é que não era nem de longe tão bonita quanto essa. uns anos depois, a supresa: a música nessa versão, encontrada numa banquinha das Americanas por R$7,90. o misterioso sentido de justiça do universo.
o Zizek não gosta das Pontes de Madison. acho que é o Zizek, posso ter me confundido. mas não, não me confundi: ao falar da relação entre o indivíduo e um Outro (outra pessoa, uma instituição, o Estado...) que sabe, Zizek comenta sobre a reversão final de A era da inocência e pensa se essa não seria uma forma de redimir As Pontes de Madison: que ao fim do filme ficássemos sabendo que o marido, simplório e caipira, sempre soube do que ocorreu entre ela e o fotógrafo:
[...] Esse é o enigma do conhecimento: como é possível que toda a economia psiquíca de uma situação se altere radicalmente, não quando o herói fica sabendo diretamente de algo (um segredo há muito reprimido), mas quando ele é informado de que o outro (que ele imaginava ignorar) também sabia o tempo todo e só fingia não saber para manter as aparências - existe coisa mais humilhante que a situação de um marido que, depois de um longo caso secreto de amor, fica sabendo de repente que sua mulher sabia de tudo há muito tempo, mas guardou segredo por educação ou, o que é pior, por amor a ele?" (Slavoj Zizek, Bem vindo ao deserto do real. São Paulo: Boitempo, 2003, p.83).
(o texto é sobre outra coisa - é sobre a fantasia totalitária de poupar os indivíduos de toda dor, inclusive a de saber que o outro sabe algo que ele próprio não deve saber, justamente para não sofrer. mas não há possibilidade ética de prevenção de todo o sofrimento e de toda dor, porque é esse mesmo pressuposto que está equivocado na medida em que ele é oposto à ideia de vida).
(para partir é preciso coragem; para ficar, também. mas partir também pode ser covardia; e ficar, também).
mesmo antes de casar, no fim do filme eu também me agarrava à porta do carro como a uma certeza puída, e molhava o mundo com as minhas dúvidas. esperando que dessa vez a mulher criasse pernas para ir embora. esperando que dessa vez o nó atado doesse menos ao se apertar tão firme. a fita vhs que a Ana me deu, porém, teimando em permanências.
Hoje vamos de novo de Chico Buarque e Telma Costa, cantando as confusões do amor, com sua bagunça de roupas entrelaçadas no armário, de corpos misturados, de enleios de sonhos e esperanças e planos, de fratura com o tempo do relógio e do cotidiano. Tantas desordens. Tanto presente.
Dizer eu te amo é estar assim, enraizado no agora? Sem veículo, sem rumo, sem pernas, sem vergonha. Sem possibilidade de partir.