Se te pareço noturna e imperfeita/
Olha-me de novo. Porque esta noite/
Olhei-me a mim, como se tu me/ olhasses. E era como se a água
Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. (Hilda Hilst)
faz um tempo que notamos a folhagenzinha verde que despontou: frágil, mas também decidida, foi crescendo, crescendo. mãe de um filho, sabia que o jeito era deixar crescer. mesmo sem saber o que era, mesmo sem pistas de como aparecera. do outro lado do vaso, outro brotinho igual a lhe fazer companhia.
hoje, mexendo nas plantas, descobri-lhe a identidade: é pé de nêspera, brotada de sementes há muito tempo lá depositadas, junto com a esperança de que pudessem renascer. com a revelação, uma felicidade infantil de quem se surpreende com a vida inesperada.
especialmente hoje, em que a dor que tem epicentro do outro lado do mundo me atinge e me inunda, que lindo ver a brotar duas nesperanças, para relembrar que do silêncio e do fim também se ressurge.
Hoje tive que dar uma pequena arrumada no escritório, que está um caos de livros e papéis, e acabei encontrando um troço muito antigo, acho que do segundo ano de faculdade. Feito numa das noites de música, vinho Sinuelo e muita, mas muita conversa e risada que tínhamos na casa dela, um "teste vocacional para as ciências sociais". Escrito pela Tati, pela Ju e por mim, é só trocadilho bobo ao longo de todo o "teste", mas ainda dá para ouvir o eco das nossas descobertas e esperanças de antes dos vinte anos.
Então, "porque hoje é sábado", divido com vocês estas bobagens adolescentes.
Teste vocacional para as ciências sociais
(Diga-me quem sois e te direi quem és).
DADOS PESSOAIS:
Nome:
( ) próprio
( ) alugado
( ) financiado
( ) clonado
( ) irrelevante
Idade:
( ) jovem
( ) maduro
( ) senil
( ) ancião
Signo
( ) próprio
( ) somente ascendente
( ) chinês, nê?
( ) N.B.A.
Quando você se olha no espelho, você vê alguém:
( ) egocêntrico
( ) etnocêntrico
( ) antropocêntrico
Responda SIM ou NÃO:
- Você se acha maisque Weber?
- Você tem pés-francos (ou frankfoot, como eles dizem lá)?
- Você seria capaz de um hobbes a banco?
- Às vezes você se sente mauss ou menos?
- Durkheim na prova?
- Você já viu sua mãe de Bobbio?
- Você acha que A Oleira Ciumenta é um livro de auto-ajuda para mulheres com crise no casamento?
- Você toca baixo, alto Xingu ou não é o tipo de pessoa que classifica as coisas em um sistema binário?
Qual o tipo de abordagem do problema "Com quantos paus se faz uma canoa" se parece com você?
- marxista: qual a força de trabalho gasta para se fazer uma canoa?
- weberiana: qual o espírito dos homens que precisam de canoas para navegar?
SOBRE SEUS HÁBITOS:
- Você dorme de hobbes ou de pijama?
- Qual é o seu hobbes?
O mais interessante é que o teste acaba assim, abruptamente e sem nenhuma tipologia orientadora da leitura dos resultados. A única anotação ao final, com a letra da Ju, diz apenas "parem de xingar o meu vinho" :-)
Primeiro o homem, todo menino, no meio da rua. Os braços pensos para baixo, como quem devolve ao outro o enigma que foi incapaz de resolver. As mãos espalmando a pergunta. Depois a moça, toda antiga, emoldurada pela janela do quarto. Dura e distante, afirmando enfaticamente a resposta que o outro não quer ouvir. Por último a chuva, suspensa, recusando interromper e transformar a cena. Nos filmes românticos, o reencontro sempre uma umidade de pingos grossos e lágrimas. Não ali. Não agora. Finda a história.
comprei na feira um quarto de melancia: linda, madura, de um vermelho fresco e vigoroso que põe água na nossa boca antes mesmo do primeiro bocado. cabe mal na geladeira. daí da ideia de transformá-la em suco, no meio da tarde quente e abafada. chego a pegar a jarra, mas me falta coragem. melancia bonita e doce assim não é de se saborear em pasta. não: coisas doces e suculentas assim só valem a pena inteiras - os pedaços estalando, o sumo escorrendo pelos cantos da boca, as sementes interrompendo e completando a fruição. que o bom da vida não é de se tomar aos goles, mas de se cravar os dentes.
Primeiro pensei em colocar no Margens. Mas é tão bonito, tão bonito, que decidi colocar aqui mesmo, para dividir com as pessoas queridas que costumam vir me visitar :-)
"Um livro é produzido, evento minúsculo, pequeno objeto manejável. A partir daí, é aprisionado num jogo contínuo de repetições; seus duplos, a sua volta e bem longe deles, formigam; cada leitura atribui-lhe, por um momento, um corpo impalpável e único; fragmentos de si próprio circulam como sendo sua totalidade, passando por contê-lo quase todo e nos quais acontece-lhe, finalmente, encontrar abrigo; os comentários desdobram-no, outros discursos no qual enfim ele mesmo deve aparecer, confessar o que se recusou dizer, libertar-se daquilo que, ruidosamente, fingia ser.
[...]
Gostaria que um livro, pelo menos da parte de quem o escreveu, nada fosse além das frases de que é feito; que ele não se desdobrasse nesse primeiro simulacro de si mesmo que é um prefácio, e que pretende oferecer sua lei a todos que, no futuro, venham a formar-se a partir dele. Gostaria que esse objeto-evento, quase imperceptível entre tantos outros, se recopiasse, se fragmentasse, se repetisse, se simulasse, se desdobrasse, desaparecesse enfim sem que aquele a quem aconteceu escrevê-lo pudesse alguma vez reivindicar o direito de ser seu senhor, de impor o que queria dizer, ou dizer o que o livro devia ser. Em suma, gostaria que um livro não se atribuísse a si mesmo essa condição de texto ao qual a pedagogia ou a crítica saberão reduzi-lo, mas que tivesse a desenvoltura de apresentar-se como discurso: simultaneamente batalha e arma, conjunturas e vestígios, encontro irregular e cena repetível".
(Michel Foucault, no novo prefácio à História da Loucura na idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 2008).
No final do ano passado, eu tinha encontrado uma gravação super doída do Wado: "Mata a gente (saudade)". E desde então tinha ficado pensando em um post sobre essa coisa pungente que a gente chama de saudade. Porque a música é rica em imagens latejantes - a dor fininha do parafuso rodopiando até inflamar em ferrugens; a citação de um cordel que alerta que pra plantar saudade é preciso garantir a esterilidade da semente; o coração num desastre natural de pedra lavada...
Mas o tempo é curto e eu acabei esquecendo dessa história. Até que outro dia lembrei e fui procurar de novo a música, e aí acabei chegando nesse post bonito da Clotilde Tavares: Troncha de Saudade. [e tem palavra que combine mais com saudade que esse "troncha" de pernas enfraquecidas e corpo sempre à beira do tropeção?].
De novo, pensei em escrever sobre essa coisa da saudade, sobre como essa dor-tristeza-nostalgia-melancolia é algo que se sente em português [e sempre me lembro do finalzinho da crônica "Extremos da Paixão", do Caio Fernando Abreu, em que ele comenta: "Ah, que dor sentida e portuguesa", falando das desmedidas da paixão, mas bem podia ser sobre outras tantas intensidades...], Mas, já sabem, o tempo. Ou talvez a preguiça de cutucar gratuitamente assim as casquinhas de tantas saudades cicatrizadas, arriscando tornar o corpo pequeno para todas as distâncias dentro e fora de mim.
E então ontem a Julia postou no FB essa notícia sobre "saudade" ser das palavras mais difíceis de traduzir e eu voltei a pensar no assunto - até porque também já estava parecendo perseguição :-) E me lembrei de música do Djavan, aqui cantada junto com o Chico Buarque, e suas imagens de urgência e reconhecimento da impossibilidade de dar vazão a ela, como nessa estrofe:
"Quis chegar até o limite
De uma paixão
Baldear o oceano
Com a minha mão
Encontrar o sal da vida
E a solidão
Esgotar o apetite
Todo o apetite do coração".
Não é mesmo assim a saudade? Essa coisa infantil de tentar conter na concha das mãos o horizonte do mar? De saciar a sede com sua água salgada? De tentar estancar um apetite que se alimenta da ausência mas que também é voraz na presença - pra resgatar o tempo perdido, pra tapar o buraco, pra incrementar a saudade do depois...
O que talvez seja mais difícil de traduzir na saudade é escapar da ideia simples da "falta". Porque a saudade é mais geografia física do que operação matemática. Não é questão de menos ou da soma do jogo ser zero. É uma distância que se amplia por dentro do corpo, afastando a gente do outro ou da gente mesmo. Dá até pra sentir saudade sem ser de alguém ou de alguma coisa - é das saudades mais difíceis de matar, a mais sujeita a recidivas: se ainda fossemos de pano, a agulha cosendo remendos, reunindo as pontas esgarçadas na antiguidade do cerzido. Mas a gente é carne e osso e vísceras.
Lembrei também dessa música do Zeca Baleiro que está aí em baixo, Brigitte Bardot, que tão bem fala da materialidade da saudade do que se foi - e, de novo, não é de falta que se trata, mas da prisão no presente, da impossibilidade de voltar ao passado e de fazer diferente - mistura de arrependimento, impotência, vontade de cobrir a distância com berros: "A saudade é uma colcha velha que cobriu um dia numa noite fria nosso amor em brasa/".
Saudade assim, nessa intensidade que faz jus ao nome, é burra, teimosa... turrona mesmo. De frente pro abismo, aperta os olhos pra fazer de conta que o precipício é mais rasinho. Acho que tem coisa que é assim mesmo - a gente só vive até o fundo se estiver um pouco distraído.
Ano novo, sons novos no MP3. Consegui finalmente tirar alguns álbuns do Interpol e colocar coisas novas. Uma delas foi o CD do Marcelo Jeneci, Feito pra acabar. Delícia de álbum! Toda vez que ouço, mudo de música preferida.
Mas a canção que dá título ao álbum, nessa versão com Wisnik e Celso Sim, (Jeneci ao piano, também cantando), sem dúvida vira e mexe tá no topo da lista.
E essa musiquinha com a Tulipa Ruiz, que não tá no cd? Coisa mais doce... se você reparar direitinho, garanto que vai ver bolhinhas de sabão saindo da caixa de som, colorindo e fazendo a vida cintilar um bocadinho (e vejam que andamos precisando, que 2011 começou doído demais).
Então é isso: esse equilíbrio frágil da consciência de sermos feitos pra acabar com o alívio de passearmos pela vida de mãos dadas com alguém. Tão frágil, tão frágil, que eu paro mesmo é por aqui, para não estragar o arranjo delicado com minhas palavras que, confesso, andam muito muito desajeitadas.
Nesse ano em que as intensidades tiveram, para mim, muito mais ritmo do que palavra, os desejos de Natal e novo ano não podiam ser diferentes.
Então, meus desejos de Natal para todos vocês vão nesse clipe. Que hoje à noite e que no próximo ano, nossos corações sejam fortalezas - para enfrentar o que anda tão doído nesse mundo com amor e afeto, para escapar das ausências não faltando aos encontros, para que o Natal seja a festa da brincadeira, da simplicidade e da alegria de estar vivo, para que o ano novo possa restaurar nossos cansaços e, sobretudo, nossas próprias forças, porque, como já disse o Guimarães Rosa, o que a vida quer da gente é coragem.
Então, boas festas, bons encontros, e que a pausa de tudo o que corre pelos ponteiros do relógio permita restaurar as nossas forças e alimentar nossa coragem.
No sábado, fomos ao casamento da Tatiana e do Alex, compartilhar com eles a alegria e a festa do amor quando começa e recomeça. A Tati provavelmente é uma das noivas mais lindas que já vi, com suas unhas e sapatos vermelhos, ao mesmo tempo tão despida de véus, coroas, penteados demorados... e, por isso mesmo, tão absolutamente deslumbrante.
Não conheço muito o Alex, embora eles estejam juntos já há bastante tempo. Por alguma razão, ou por várias, a mesma vida que um dia tornou possível que a Tati e eu nos encontrássemos e construíssemos uma amizade forte e intensa, foi tornando difícil a gente participar do cotidiano uma da outra. Nem por isso o carinho que sinto por ela é qualquer vírgula menor - volta e meia esbarro com pedacinhos daquele nosso convívio miúdo, as músicas, as cartas, cartinhas e cartões, as fitas cassete que gravávamos, na casa da Ju, embaladas por insônia e álcool... Tanta gostosura, tanta partilha. Tantos fios entrelaçados - se não fosse por ela, Edu e eu nem teríamos nos conhecido, nem teríamos conversado por horas, nem teríamos construído esses nove anos de vida em comum.
Fiquei imensamente feliz e grata por poder participar desse momento. E de reencontrar tanta gente querida, de quem igualmente gosto, ainda que não nos vejamos com frequência. Ter na minha vida essas pessoas tão queridas, saber que estão bem, felizes, construindo suas vidas me faz um bem danado - dá sentido à nossa história comum, mas também me ampara e me dá consistência. É feito poder voltar para casa quando a gente se sente um pouco perdido e sozinho.
Como escrevi em algum cartãozinho para a Tati, há tanto tempo que perdi a data, "hay cosas que te ayudan a vivir". Pessoas queridas como a Tati e o Alex certamente estão entre elas.