08 março, 2013

criança de novo

Vai daí que a Tata escreveu um ótimo texto no Mamíferas sobre a leveza necessária para encararmos a vida e eu me lembrei da coleção Taba. Eis que por conta disso descobri que tem váários deles no youtube #fortesemoções.

E tava lá, uma das minhas histórias prediletas de quando eu era pequena: uma história de resistência, de insubordinação e de proposição de outros modos de viver. Então, nesse Dia Internacional da Mulher, vamos de Marinheiro Marinho - porque há várias formas de ser mulher, e ninguém é menos marinheiro por usar pintassilgo na cabeça :-)


05 março, 2013

pequeniníssima coleção de poesia feminista

(post descaradamente roubado de mim mesma, que ontem fui me meter a falar sobre gênero e cotidiano; a primeira parte foi sobre construções de gênero na publicidade dirigida ás crianças e essa segunda é que foi dedicada a essas experiências literárias de gênero).

***
Se a gente pensa as experiências de gênero como experiências que constroem lugares de enunciação, que ensinam a ser homens e a ser mulheres, e que ensinam práticas, delimitam papéis, circunscrevem o que falar, do que falar e como falar, vale a pena tomar a produção poética – um tipo de experiência literária que, em si mesma, já comporta alta dose de transfiguração e, desse modo, de transbordamento dos limites da palavra – de mulheres que se “atreveram” não só a escrever, mas a escrever poesia e, por meio de estratégias literárias, a deslocar os “lugares” possíveis para as mulheres.

Estou aqui, seguindo a definição dada por Lúcia Helena Vianna, chamando de poética feminista
[...] toda discursividade produzida pelo sujeito feminino que, assumidamente ou não, contribua para o desenvolvimento e a manifestação da consciência feminista , consciência esta que é sem dúvida de natureza política [...], já que consigna para  as mulheres a possibilidade de construir um conhecimento sobre si mesmas e sobre os outros, conhecimento de sua subjetividade,  voltada esta para o compromisso estabelecido com a linguagem em relação ao papel afirmativo do gênero  feminino  em suas intervenções no mundo público” (Vianna, 2003).

Vou trazer aqui poemas de quatro poetas. Comparecem: Alice Ruiz, Ledusha, Benédicte Houart e Adélia Prado. Quatro mulheres, quatro poetas que são brasileiras ou escrevem em português, com histórias muito diferentes, mas de quem podemos identificar algumas poesias feministas, isto é, alguns poemas em que perscrutaram literariamente a possibilidade de transbordar os limites de ser mulher.

Começo com dois poemas de Alice Ruiz, ambos de Navalhanaliga, livro de estréia em 1980. Ao final, ainda vou falar de um outro poema dela.

Alma de papoula
Lágrimas para cebolas
Dez dedos de fada
Caralho
De novo cheirando a alho


às vezes vem a certeza
a vida agora já foi vivida
era uma vez uma menina
descobrindo a rotina

De Ledusha, contemporânea de Alice Ruiz, também dois, bem curtos (e precisos e modernos):

De leve
feminista sábado domingo segunda terça quarta quinta e na sexta
lobiswoman.


Deslavada
Meu querido Antonio
Não pude ir
Pneu furou
Não sei trocar.


De Benédicte Houart, poeta nascida na Bélgica e moradora de Portugal, escreve em português.

são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia

e

já penélope não sou
nem ulisses regressa
mudo de nome noite
a noite ao sabor da saliva
dos meus amantes
de dia troco lençóis
coso bainhas
descanso os olhos
dantes tecia para
enganar a corte que
me servia de prisão
agora chamo-me eu
não tenho estado civil e
na cela que me tem cativa
tornei-me finalmente livre

Finalmente, e para ilustrar melhor o ponto de transgressão ou ultrapassamento dos limites de gênero que essas mulheres constroem por meio da linguagem, queria trazer dois últimos poemas, um de Alice Ruiz e outro de Adélia Prado, ambos referidos a um poeta famoso, Carlos Drummond de Andrade. Primeiro, Drumundana, de Alice Ruiz, que dialoga com o poema “E agora, José?”.

e agora maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria

E, finalmente, “Com licença poética”, da Adélia Prado, que dialoga com “Poema de sete faces”, do mesmo Drummond.

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Para concluir, então, esse tema das relações entre gênero e cotidiano, encerro relembrando que se há limites de gênero, há também os esforços em ampliá-los, em fazê-los mais largos e conformes o desejo de liberdade de cada um. Ainda que na maior parte do tempo estejamos sujeitos a uma série de discursos e de práticas que procuram construir as canaletas por onde nossos riozinhos devem correr, há momentos em que a gente se dá conta do absurdo das coisas, e seja por meio de bandeiras, de inversões, de lutas ou das palavras, desperta algo de caudaloso que não corre mais por canaleta alguma; ao contrário, transborda, inunda, umedece e abre espaço para o novo: é quando somos sujeitos no sentido de uma ação sobre nós mesmos e sobre o mundo. Então, que sejamos todos desdobráveis e avessos às maldições e que aos imperativos de “sê homem”, “sê mulher” com os quais nos deparamos desde o nascimento, a gente responda com flexibilidade, liberdade e inventividade.



Referências Bibliográficas
Murgel, Ana Carolina Arruda de Toledo. A poética feminista em Alice Ruiz, Ledusha e Ana Cristina César. In: Rago, Margareth (org.). Revista Aulas, Dossiê Estéticas da Existência, 2010, p.25-39. Disponível aqui.

Vianna, Lúcia Helena. Poética feminista, poética da memória. Labrys, estudos feministas, nº 4, agosto/setembro de 2003. Disponível aqui.
 

02 março, 2013

(contraponto)

alma de papoula
lágrimas
para cebolas
dez dedos de fada
caralho
de novo cheirando a alho
(Alice Ruiz, Navalhanaliga)

01 março, 2013

mais receitas vegetarianas - feridologia


Nem achou que estava distraída até que a dor fininha a acordou. Largou a faca sobre a tábua, ali mesmo por cima dos tomates, e trouxe o dedo para perto dos olhos. O corte tão fino e fundo que o sangue demorou a vir à tona, chegando manso: córrego desaguando lentamente. Enrolou um papel toalha, apertado firme, e retomou o trabalho.
Cortava os tomates grosseiramente e ia colocando no liquidificador. Todos os doze tomates – a explosão de vermelho respingando no papel toalha, manchando a tábua e o avental.
A família inteira reunida na sala. Os filhos, a nora e o novo genro. Os netos – o menorzinho ainda de colo, enquanto o mais velho já adolescente, o cabelo comprido e meio ensebado, o desajeito de pernas e braços que se acomodavam mal na poltrona da sala. E o marido, lembrou com um imperceptível esgar.
Dos trinta anos de casados, há vinte e cinco ela sabia. “Não suporto a companhia do meu marido”, ouviu-se dizer. Primeiro para si mesma, bem baixinho, nos primeiros anos de casamento, num dia em que ele – como sempre – não quis saber de ir com ela ao almoço na Paróquia. Então para a amiga querida, alguns anos depois, explicando porque estava indo para a praia só ela e os filhos. De lá pra cá, pra quem quisesse ouvir, que já estava mais velha e não tinha pudor: não suportava, nunca suportara a companhia do marido. E em vez de doer, a constatação agora lhe acalmava, pois passados tantos anos, já não provocava dentro dela nenhum ímpeto de ir embora, nenhuma pena de sua sina. Nada. Era como abrir a janela e anunciar o tempo.
Pegou os pepinos, cuidando de tirar a casca, que a filha passava mal, tinha pesadelo depois. Desde pequena era assim. Jogou os dois no liquidificador, fazendo o vermelho eclodir ainda uma vez.
Na sala, conversas e risadas entremeavam o programa de TV. Era um domingo bonito, o céu azul sem nuvens e sem vento.
Tirou a casca para descobrir o roxo da cebola. Foi quando viu o vermelho transbordando a brancura do papel toalha. Droga!
Pensava nele quando o corte a interrompeu. No bom que era a sua presença. No bom que era o cheiro dele, logo de manhã, quando se encontravam ao chegar no trabalho. Na textura da voz dele quando disse que a queria e no oco do silêncio dele quando ela disse não. A vida era mesmo engraçada, latejou.
Achou no armário do banheiro uma gaze e tornou a enrolar o dedo, ainda mais firme, os esparadrapos ajudando a contenção.
Suspirou. Pegou os pimentões coloridos, o verde, o amarelo, o vermelho. Achava graça na leveza deles, tão amplos e plenos de vazios. Não gostava muito. Mas cortava, metade de cada um, e lavava e tirava as sementes e lavava de novo e cortava fatias grossas antes de jogá-las também no liquidificador. Tudo se misturando no mar de vermelho.
Pensar nele já não era atirar uma pedra pesada na água. Ele ficara lá, em outro lugar, no passado, num futuro que não foi. Ela disse não, ponto final. E ele então mudou de emprego, de cidade, talvez até de país. Sumiu no mundo, a não ser por aquela cicatrizinha dentro dela, que ela via sempre quando um espelho refletia sua imagem – ele era aquela espécie de infelicidade gravada no fundo do seu olho. Não se arrependia, era o que dizia a si mesma. Fizera o que era certo e o que era certo era ficar ao lado do marido, ter e cuidar dos filhos, vê-los crescer.
E picar o alho, com o dedo estendido a se esquivar do contato, porque alho cutuca a ferida, dá a medida da fundura do corte. Lembrava da mãe dizendo que alho era antibiótico, recomendando chás nos resfriados e abaixando a voz para receitar o remédio certeiro para as coceiras lá embaixo durante e depois da gravidez. Alho curativo, não sem antes levar a dor até o fim. Era domingo, um dia santo, as coisas no lugar: não precisava ampliar nenhuma dor.
Colocou o alho no liquidificador, junto com o copo raso de azeite e dois copos de água. Também um pouco de sal, que se misturou à umidade e fez o corte arder. Droga!
Bateu tudo, fazendo um barulho que fez um dos netos vir à cozinha e anunciar que fecharia a porta por uns minutos. Suspirou. Viu o que era vermelho vivo empalidecer em rosa. Depois peneirou o gaspacho, cantarolando uma canção antiga, de peneiras e namoros e saias voando ao vento. O que era massa grossa virando creme suave, sem coágulos.
Picou o pão amanhecido, jogou na frigideira, deitando por cima um pouco de azeite e sal. Ainda lavou a salsinha, picou bem fininho, pra enfeitar e dar sabor na hora de servir.
Tirava o curativo para cuidar da louça, enquanto a filha abriu a porta e reclamou dos pimentões em cima da pia “mas mãe, você colocou todos esses pimentões no gaspacho? Assim não vou poder nem experimentar!”. Estava distraída mesmo, para lembrar de tirar a casca do pepino e esquecer tanto de tirar a dos pimentões quanto de diminuir a quantidade prescrita na receita. Desculpou-se, em palavras e ombros.
A ela também os pimentões não faziam bem, a digestão atrapalhada, lenta, feito nó na garganta, borboletas no estômago. Foi o que lembrou, já à hora da mesa, quando sorvia a segunda colherada.

05 fevereiro, 2013

simples


Edu conseguiu ensinar nosso cachorrico a sentar antes de ganhar a bolachinha-recompensa por ter sido um bom menino durante o seu passeio. Mas agora, é só ele ver que a gente está cozinhando ou comendo que não dá outra: ele chega animado, de rabo abanando e tchum... senta do nosso lado. E eu me espanto com esse misto de fé e de pensamento mágico, que não duvida do aprendido e insiste, qualquer que seja a situação. É tanta confiança que temjeitonão: vira e mexe o bichinho sai com uma comidinha, feliz e satisfeito que a ordem do mundo está a funcionar.

09 janeiro, 2013

três receitas vegetarianas - insistência


“A que horas eles iam mesmo chegar?”, perguntou, um olho no relógio e outro na panela, pra outra que procurava um cd novo já que o anterior acabara de acabar. As mãos cheirando ao alho e à cebola que agora fritavam shshshsh no óleo, perfumando a casa. “Encontrou os cds?”, voltou a inquirir, já distraída da pergunta anterior enquanto ia jogando na panela o arroz lavado. “Encontrei sim!”, ouviu a outra dizer ao mesmo tempo em que a voz de Madeleine Peiroux preencheu a distância da cozinha à sala. Sorriu. Adorava aquele cd. Era o que ia dizendo quando a outra alcançou a cozinha, muito animada, atirando à queima-roupa “você roubou um cd de uma biblioteca? E de uma biblioteca em Paris?!!”. A água fervente quase desviando o curso rumo à panela, o pulo das mãos tão brusco quanto a batida do coração. Não era que era isso mesmo? Não era que um dia tinha roubado um cd? A voz saiu branca “Nossa. Tinha até esquecido”. Tentou na mesma pausa se lembrar e esperar que a outra esquecesse. Não funcionou. “Tem uma boa história aí, não tem?”, a outra toda interesse e provocação. “Nem tanto”, tentou frustrar a insinuação, “Época de durezas de estudante, um pouco de irresponsabilidade e esquecimento...”. Fez uma pausa para lavar as abobrinhas que vinha descascando e pegar, embaixo da pia, o ralador. “... e, claro, um grande amor. Ou, pra ser mais justa, uma grande paixão". Tão solene essa última afirmação que a outra agora era só olhos a escutar. “Nunca tinha me dado conta, mas você me faz lembrar um pouco dela”, “Dela quem? Da paixão?”. Negou rindo enquanto quebrava os ovos, separando gemas e claras: “Dela: do objeto da paixão”.  As sobrancelhas da outra se erguendo discretas em compreensão. “A gente ficou juntas pois dois meses, pouco antes de eu voltar. E foi tão, mas tão urgente – aquele cronômetro às avessas, marcando um tempo que se esgotava. A gente tinha hora pra acabar e então acabou quando essa hora chegou. Mas acabou o tempo e não a paixão, claro, que só inflamava mais com aquele fole soprando tic-tac em tudo-tudo-tudo que a gente fazia e vivia”. Ela ia lembrando em voz alta enquanto mexia o fogo bechamel em fogo um pouco alto demais, o cheiro da noz-moscada recém-ralada inebriando levemente as palavras. “Em horas em que a gente quase desesperava da consciência de que o tempo era curto, a gente ouvia Dance me to the end of love, agarradas na sala minúscula do apartamento onde ela morava. Era tão triste. E era tão lindo”, as abobrinhas e as gemas girando piruetas no molho ainda quente. “Eu tinha emprestado esse cd na biblioteca, e depois que a conheci  fui renovando, renovando, incapaz de devolver. Até que chegou o dia de voltar e sem pensar muito enfiei o cd na mala e trouxe comigo. Se tudo o que a gente fez foi roubar o tempo, eu tinha que ficar com alguma coisa, sabe? Eu não pensei muito nisso, mas acho que eu quis salvar alguma coisa de todo aquele incêndio e foi só isso que eu consegui trazer”. A fala agora entrecortada pelos soluços do metal batendo as claras. “Não pensava nessa história há tanto tempo... parece que foi noutra vida... até assustei quando você me perguntou do roubo...”. “Logo vi que tinha uma boa história ali”, a outra rasgou o silêncio, os olhos voltando a ver e deixando a tarefa da escuta novamente pros ouvidos. As claras em neve bem firmes se dissolvendo delicadas na mistura de abobrinha, leite, queijo e gemas. “Em vinte minutos temos suflê”, anunciou, já fechando o forno. “A que horas mesmo marcamos?”. A outra agora em pé ao seu lado, servindo-se de mais vinho enquanto lhe passava a sua taça, novamente cheia. Olhando de esgueio o relógio, “Acho que ainda temos uns minutinhos”. Encostadas as duas no balcão, bebericando em silêncio. Até que a outra “Eu te faço lembrar dela?”, “Nunca tinha reparado, mas lembra sim: o jeito que o cabelo cai nas suas costas, o modo das mãos se mexerem quando contam histórias, e essa mania de morder o lábio pelos cantos, num esgar que é meio riso, meio aflição”. O disco chega em I’ll look around e a outra pergunta, a voz num fiozinho “Quer dançar comigo?”. A campainha toca e tudo já parecendo errar em desencontro. “Salvas pelo gongo”, a outra brinca, embora o nó na garganta, sem gosto nenhum de salvação. “Outro dia a gente dança, prometo. Eu te convido pra jantar, só nós duas”, ela adia atender a porta apesar dos ding-dongs insistentes. “Combinado, então. Eu venho e te faço uma receita de berinjela que quero muito experimentar”.