Meu coração tropical tá coberto de neve. Mas ferve...
Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo. Porque esta noite/ Olhei-me a mim, como se tu me/ olhasses. E era como se a água Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. (Hilda Hilst)
10 agosto, 2009
Garrafa-mensagem
07 agosto, 2009
Trinta e dois
Quando eu era pequena e a gente fazia aquelas brincadeiras para descobrir com quem íamos casar, quantos filhos íamos ter, e (não me lembro bem) até qual carro teríamos, a idade que eu chutava era sempre em torno dos 20 e poucos anos. 24, se não me engano. Passar dos 20 anos era atingir o auge da vida adulta. Isso e chegar ao ano 2000, quando então teríamos também 20 e poucos anos. Eram dois marcos e dois alvos, ambos semelhantes em seu significado: "virar gente grande", ser dono da própria vida, casar, ter filhos, trabalhar.
Talvez eu sinta um pouco de saudade, às vezes, da ingenuidade infantil de crer que alcançar uma idade significava alcançar, como que por decreto, tudo aquilo que supostamente vem com a vida adulta. Porque os vinte chegaram e foram embora, os trinta já chegaram há algum tempo, e as metas que marcam a passagem definitiva pra vida adulta são bem mais complicados do que fazer aniversário. Ou talvez a gente é que tenha finalmente se dado conta de que a passagem definitiva não era sentar no novo degrau porque o degrau está numa escada cambiante e muda de forma e lugar na medida em que muda o significado que a gente dá a ser gente grande. E tem muito mais envolvido do que saber com quem vamos ficar, quantos filhos vamos ter, em que cidade vamos morar ou qual carro vamos dirigir.
Pra comemorar, então, já que supostamente o dia é meu (e do Caetano Veloso e da Charlize Theron), 32 micro-coisas sobre mim.
1. Nasci num dia de muito sol e minha alma leonina é viciada no dito cujo.
2. Por isso mesmo, dias cinzas me doem muito por dentro.
3. Ainda no tema "auspícios do signo", sou a terceira geração de mulheres leoninas casadas com sagitarianos (embora minha mãe tenha depois escapado da herança...).
4. Sou tímida até beirar o ridículo.
5. Mas depois que me sinto à vontade, sou palhaça (até beirar o ridículo).
6. Adoro ler gibis.
7. Adoro falar no telefone.
8. Minhas plantas preferidas são as suculentas.
9. Depois que tive o Rô, fiquei com medo de avião.
10. Prefiro subir a serra do que descê-la.
11. Tenho "síndrome de qual é a música". Se você falar alguma coisa, há sempre o risco de que - ao invés de responder - eu comece a cantar...
12. Não consigo começar o dia sem arrumar a cama.
13. Gosto muito de ler.
14. Tenho fases com cada escritor: se gosto, não sossego até ler boa parte de seus livros (mesmo os que são ruins).
15. Adoro livros infantis.
16. Não gosto de matar aranhas, lagartixas ou louva-deus, por causa da Sra. Minha Avó.
17. Cachorros não costumam latir para mim.
18. E por causa disso eu tinha uma encanação de que o diabo andava atrás de mim! (Dean, por favor, me salve!).
19. Tenho medo de chuva forte.
20. Tenho medo de mexer com energia elétrica.
21. Já fui bem mais disciplinada e organizada do que sou hoje.
22. Queria ser mais disciplinada e organizada do que sou hoje.
23. Adoro ouvir (e cantar bem alto) um cd do Gipsy Kings só de músicas românticas, que a Monika me gravou. "Un amoooooor...un amor vivi....llorandoôôôô^!"
24. Adoro produzir lembranças: guardo cartas, bilhetes, ingresso de cinema... Só para topar com elas de vez em quando e poder me lembrar.
26. Adorei ficar grávida.
27. Gostaria de parir de novo (mas tenho preguiça de começar tudo de novo e por isso me contento em cheirar as crias de minhas amigas).
28. Sou Jardim e meu marido tem um nome que significa "Fonte no Meio da Mata".
29. Tenho sono leve e demoro pra dormir.
30. Sou boba e dada a acreditar nas pessoas, de modo que às vezes demoro a perceber que elas estão brincando.
31. Sou lenta - posso até ser inteligente, mas só em relação a coisas que podem ser maturadas.
32. Estou finalmente começando a ler Balzac, mas era um plano antigo, que não tem nada a ver com ter mais de trinta anos ;-)
Imagem: Rodrigo em 2007, nos preparativos para sua festa de dois anos.
06 agosto, 2009
Arrumando livros - II
"Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios" (Mário Quintana).
Arrumando CDs - IV
MP3 pode ser muito mais prático; mas não tem coisa que se compare a fuçar CDs antigos, reencontrar pedaços da gente assim, de surpresa, só por relembrar de músicas (e histórias).
Arrumando livros - I
Parada Cardíaca
Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure
vem de dentro
Vem da zona escura
donde vem o que sinto
sinto muito
sentir é muito lento
(P. Leminski)
Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure
vem de dentro
Vem da zona escura
donde vem o que sinto
sinto muito
sentir é muito lento
(P. Leminski)
04 agosto, 2009
I hate to say...
Estava lendo a Susan Sontag, A doença como metáfora e AIDS como metáfora (Companhia de Bolso,2007. Tradução: Rubens Figueiredo/Paulo Henrique Brito) . Comecei naquele dia em que Rodrigo dormiu na Livraria Cultura e, conforme lia, me impressionava como o ensaio é vigoroso e pode nos aproximar, por vezes com mais clareza, de questões que estão no cerne da experiência do presente.
Se isso era verdade no primeiro ensaio, escrito em 1976, logo após ela ter se descoberto com câncer, quando cheguei ao "AIDS como metáfora" (que é de 1986), as coisas foram ficando assustadoramente próximas. Em parte, é claro, porque as observações que ela faz dialogam com a percepção que eu tinha, ainda que fosse criança, a respeito da "novidade" introduzida pela AIDS. Mas principalmente porque, num ensaio quase despretencioso, ela apanha tensões e transformações centrais para compreendermos o que nos acontece hoje e ilumina muito tanto sobre o funcionamento de todo o dia das relações sociais quanto sobre as significações e reações aos surtos de gripes atípicas.
Em alguns trechos, sua análise me fez lembrar o Zizek de Bem vindos ao deserto do real. Embora analisando eventos muito distintos - ela, a AIDS; ele, o 11 de setembro - como focam seu olhar sobre a sociedade americana, parece que apanham mecanismos muito semelhantes. Vejam lá:
"[...] A vontade de fazer previsões pessimistas reflete a necessidade de dominar o medo do que é considerado incontrolável. Exprime também uma cumplicidade imaginativa com o desastre. A sensação de mal-estar ou fracasso cultural dá origem à vontade de começar do zero, de fazer tábula rasa. Ninguém quer uma peste, é claro. Mas é bem verdade que seria uma oportunidade de começar algo novo. E começar algo novo é bem moderno, e bem americano, também.
É possível que a AIDS esteja tendo o efeito de nos acostumar ainda mais à idéia da destruição global, uma perspectiva à qual já fomos acostumados pelos armamentos nucleares. Quanto maior a inflação da retórica apocalíptica, mais irreal se torna a perspectiva do apocalipse. Eis uma situação que se repete constantemente no mundo moderno: o apocalipse aproxima-se... e não chega a acontecer. E continua a aproximar-se. Pelo visto, estamos sofrendo de um dos tipos de apocalipse moderno. Temos um que não está acontecendo, cujo resultado permanece suspenso: os mísseis que descrevem órbitas em torno da Terra, com uma carga nuclear capaz de destruir todas as formas de vida sobre a Terra várias vezes sucessivamente, e que (até agora) não dispararam. E temos ainda aqueles que estão acontecendo, e no entanto não tiveram (até agora) as consequências mais temíveis - como a dívida astronômica do Terceiro Mundo, a superpopulação, os desastres ecológicos; e também os que acontecem e depois (segundo nos dizem) não aconteceram - com o o colapso da bolsa de valores de outubro de 1987, que foi um crack, como o de outubro de 1929, e não foi. O apocalipse agora virou uma novela: não "Apocalipse agora", mas "Apocalipse de agora em diante". O apocalipse passou a ser um evento que está e não está acontecendo. Talvez alguns dos eventos mais temidos, como os danos irreversíveis ao meio ambiente, já tenham acontecido. Mas ainda não sabemos, porque os padrões mudaram. Ou porque ainda não conhecemos os índices apropriados para medir a extensão da catástrofe. Ou simplesmente por se tratar de uma catástrofe em câmara lenta. Ou que dá a impressão de ser em câmara lenta, porque sabemos que está acontecendo, podemos prevê-la; e agora temos que esperar que ela aconteça, para que venha a se concretizar aquilo que julgamos saber.)", (p.145-6)
Se isso era verdade no primeiro ensaio, escrito em 1976, logo após ela ter se descoberto com câncer, quando cheguei ao "AIDS como metáfora" (que é de 1986), as coisas foram ficando assustadoramente próximas. Em parte, é claro, porque as observações que ela faz dialogam com a percepção que eu tinha, ainda que fosse criança, a respeito da "novidade" introduzida pela AIDS. Mas principalmente porque, num ensaio quase despretencioso, ela apanha tensões e transformações centrais para compreendermos o que nos acontece hoje e ilumina muito tanto sobre o funcionamento de todo o dia das relações sociais quanto sobre as significações e reações aos surtos de gripes atípicas.
Em alguns trechos, sua análise me fez lembrar o Zizek de Bem vindos ao deserto do real. Embora analisando eventos muito distintos - ela, a AIDS; ele, o 11 de setembro - como focam seu olhar sobre a sociedade americana, parece que apanham mecanismos muito semelhantes. Vejam lá:
"[...] A vontade de fazer previsões pessimistas reflete a necessidade de dominar o medo do que é considerado incontrolável. Exprime também uma cumplicidade imaginativa com o desastre. A sensação de mal-estar ou fracasso cultural dá origem à vontade de começar do zero, de fazer tábula rasa. Ninguém quer uma peste, é claro. Mas é bem verdade que seria uma oportunidade de começar algo novo. E começar algo novo é bem moderno, e bem americano, também.
É possível que a AIDS esteja tendo o efeito de nos acostumar ainda mais à idéia da destruição global, uma perspectiva à qual já fomos acostumados pelos armamentos nucleares. Quanto maior a inflação da retórica apocalíptica, mais irreal se torna a perspectiva do apocalipse. Eis uma situação que se repete constantemente no mundo moderno: o apocalipse aproxima-se... e não chega a acontecer. E continua a aproximar-se. Pelo visto, estamos sofrendo de um dos tipos de apocalipse moderno. Temos um que não está acontecendo, cujo resultado permanece suspenso: os mísseis que descrevem órbitas em torno da Terra, com uma carga nuclear capaz de destruir todas as formas de vida sobre a Terra várias vezes sucessivamente, e que (até agora) não dispararam. E temos ainda aqueles que estão acontecendo, e no entanto não tiveram (até agora) as consequências mais temíveis - como a dívida astronômica do Terceiro Mundo, a superpopulação, os desastres ecológicos; e também os que acontecem e depois (segundo nos dizem) não aconteceram - com o o colapso da bolsa de valores de outubro de 1987, que foi um crack, como o de outubro de 1929, e não foi. O apocalipse agora virou uma novela: não "Apocalipse agora", mas "Apocalipse de agora em diante". O apocalipse passou a ser um evento que está e não está acontecendo. Talvez alguns dos eventos mais temidos, como os danos irreversíveis ao meio ambiente, já tenham acontecido. Mas ainda não sabemos, porque os padrões mudaram. Ou porque ainda não conhecemos os índices apropriados para medir a extensão da catástrofe. Ou simplesmente por se tratar de uma catástrofe em câmara lenta. Ou que dá a impressão de ser em câmara lenta, porque sabemos que está acontecendo, podemos prevê-la; e agora temos que esperar que ela aconteça, para que venha a se concretizar aquilo que julgamos saber.)", (p.145-6)
Susan Sontag também apanha as condições para que a AIDS seja usada eficazmente para atualizar a metáfora da "peste", numa formulação que, para mim (que venho lidando com a noção foucaltiana de biopolítica), é muito precisa: "[...] A idéia de que a AIDS vem castigar comportamentos divergentes e a de que ela ameaça os inocentes não se contradizem em absoluto. Tal é o poder, a eficácia extraordinária da metáfora da peste: ela permite que uma doença seja encarada ao mesmo tempo como um castigo merecido por um grupo de "outros" vulneráveis e como uma doença que potencialmente ameaça a todos. [...] Mais do que o câncer, e de modo semelhante à sífilis, a AIDS parece ter o poder de alimentar fantasias sinistras a respeito de uma doença que assinala vulnerabilidades individuais tanto quanto sociais. O vírus invade o organismo; a doença (ou, na versão mais recente, o medo da doença) invade toda a sociedade" (p. 127-8). Mais atual, impossível.
Igualmente fecunda é a análise que a autora faz a respeito das análises e projeções estatísticas e seus efeitos:
"A vida moderna nos habitua a conviver com a consciência intermitente de catástrofes monstruosas, impensáveis - porém, conforme nos afirmam, bem prováveis. Cada acontecimento importante tem seu duplo, além de sua representação enquanto imagem (uma duplicação já antiga da realidade, que começou com a invenção da câmara fotográfica, em 1839). Ao lado da simulação fotográfica ou eletrônica dos eventos, temos também o cálculo de suas consequências eventuais. A realidade bifurcou-se, na coisa real e em sua versão alternativa, duas vezes. Temos o evento e sua imagem. E temos o evento e sua projeção.
[...] A capacidade de avaliar o modo pelo qual as coisas evoluirão no futuro é o subproduto inevitável de uma compreensão mais sofisticada (quantificável, testável) dos processos, tanto sociais quanto científicos. A capacidade de projetar eventos futuros com certo grau de precisão ampliou a própria definição de poder, por ser ampla fonte de instruções a respeito da maneira de se lidar com o presente. Mas, na verdade, a capacidade de antever o futuro, antes associada à noção de progresso linear, transformou-se - com a aquisição de um volume de conhecimentos maior do que se poderia imaginar - numa visão da catástrofe. Cada processo é uma perspectiva que aponta para uma previsão apoiada em estatísticas. [...] Tudo na história ou na natureza, capaz de ser encarado como um processo de mudança constante, pode ser visto como algo que caminha em direção a uma catástrofe. (Ou o insuficiente, cada vez menor - decréscimo, declínio, entropia -, ou o excessivo, maior do que podemos enfrentar ou absorver - crescimento incontrolável.). A maioria dos pronunciamentos dos peritos a respeito do futuro contribui para essa nova apreensão dupla da realidade - que vem somar-se à duplicidade, à qual já nos habituamos, criada pela abrangente duplicação em imagens de todas as coisas. Temos o evento que está acontecendo agora, e temos também aquilo que é pressagiado por ele: o desastre iminente, mas não real ainda, nem completamente apreensível" (p.146-7).
Nesse modelo de conhecimento - estatístico - que altera a forma de colocar em relação passado, presente e futuro e também modifica a relação entre os elementos que são definidos como "variáveis", a duplicidade está na distância que vai das probabilidades ao acontecimento. A distribuição estatística das probabilidades é lida como duplicação da estrutura social - e dessa maneira nos é possível compreender a importância central que adquirem nos discursos, termos que estão ligados ao cálculo das probabilidades sociais, "empregabilidade', "vulnerabilidade". A ambiguidade da palavra "chance", ao mesmo tempo "oportunidade" e "probabilidade", dá notícia da importância que a idéia de jogo adquiriu em nossa sociedade. É também a ambiguidade que se expressa na idéia de que o merecimento se liga tanto ao mérito das ações, quanto à força com que se "pede ao universo"... Mas já estou misturando as estações.
Pra terminar esse post muito longo (e que talvez ainda acabe indo parar também no Margens)., vou destacar apenas mais um ponto da análise de Susan Sontag: sua observação de que o aspecto novo na utilização da AIDS como atualização da metáfora da "peste" se relaciona ao fato de ser um vírus reconhecidamente portador de duas características - a latência (sendo possível ser portador, sem estar doente) e a mutação.
Igualmente fecunda é a análise que a autora faz a respeito das análises e projeções estatísticas e seus efeitos:
"A vida moderna nos habitua a conviver com a consciência intermitente de catástrofes monstruosas, impensáveis - porém, conforme nos afirmam, bem prováveis. Cada acontecimento importante tem seu duplo, além de sua representação enquanto imagem (uma duplicação já antiga da realidade, que começou com a invenção da câmara fotográfica, em 1839). Ao lado da simulação fotográfica ou eletrônica dos eventos, temos também o cálculo de suas consequências eventuais. A realidade bifurcou-se, na coisa real e em sua versão alternativa, duas vezes. Temos o evento e sua imagem. E temos o evento e sua projeção.
[...] A capacidade de avaliar o modo pelo qual as coisas evoluirão no futuro é o subproduto inevitável de uma compreensão mais sofisticada (quantificável, testável) dos processos, tanto sociais quanto científicos. A capacidade de projetar eventos futuros com certo grau de precisão ampliou a própria definição de poder, por ser ampla fonte de instruções a respeito da maneira de se lidar com o presente. Mas, na verdade, a capacidade de antever o futuro, antes associada à noção de progresso linear, transformou-se - com a aquisição de um volume de conhecimentos maior do que se poderia imaginar - numa visão da catástrofe. Cada processo é uma perspectiva que aponta para uma previsão apoiada em estatísticas. [...] Tudo na história ou na natureza, capaz de ser encarado como um processo de mudança constante, pode ser visto como algo que caminha em direção a uma catástrofe. (Ou o insuficiente, cada vez menor - decréscimo, declínio, entropia -, ou o excessivo, maior do que podemos enfrentar ou absorver - crescimento incontrolável.). A maioria dos pronunciamentos dos peritos a respeito do futuro contribui para essa nova apreensão dupla da realidade - que vem somar-se à duplicidade, à qual já nos habituamos, criada pela abrangente duplicação em imagens de todas as coisas. Temos o evento que está acontecendo agora, e temos também aquilo que é pressagiado por ele: o desastre iminente, mas não real ainda, nem completamente apreensível" (p.146-7).
Nesse modelo de conhecimento - estatístico - que altera a forma de colocar em relação passado, presente e futuro e também modifica a relação entre os elementos que são definidos como "variáveis", a duplicidade está na distância que vai das probabilidades ao acontecimento. A distribuição estatística das probabilidades é lida como duplicação da estrutura social - e dessa maneira nos é possível compreender a importância central que adquirem nos discursos, termos que estão ligados ao cálculo das probabilidades sociais, "empregabilidade', "vulnerabilidade". A ambiguidade da palavra "chance", ao mesmo tempo "oportunidade" e "probabilidade", dá notícia da importância que a idéia de jogo adquiriu em nossa sociedade. É também a ambiguidade que se expressa na idéia de que o merecimento se liga tanto ao mérito das ações, quanto à força com que se "pede ao universo"... Mas já estou misturando as estações.
Pra terminar esse post muito longo (e que talvez ainda acabe indo parar também no Margens)., vou destacar apenas mais um ponto da análise de Susan Sontag: sua observação de que o aspecto novo na utilização da AIDS como atualização da metáfora da "peste" se relaciona ao fato de ser um vírus reconhecidamente portador de duas características - a latência (sendo possível ser portador, sem estar doente) e a mutação.
[...] "Mais promissor ainda do que a idéia de latência é o potencial da AIDS como metáfora da contaminação e da mutação. O câncer continua sendo usado como metáfora para referir-se a coisas temíveis ou condenáveis, muito embora a doença seja menos temida do que antes. Se a AIDS terminar sendo utilizada para fins semelhantes, será menos por ser ela invasora (uma característica que tem em comum com o câncer), ou mesmo por ser infecciosa, mas por causa da imagística específica que se desenvolveu em torno do vírus.
A virologia fornece todo um novo repertório de metáforas medicinais que não dependem da AIDS em particular, mas que assim mesmo reforçam a mitologia sobre ela. Foi muito antes da AIDS que William Burroughs afirmou, em tom de oráculo, e Laurie Anderson repetiu, que a 'linguagem é um vírus'. E a explicação viral é invocada cada vez mais. Até recentemente, a maioria das infecções virais conhecidas manifestava seus efeitos rapidamente, como a raiva e a gripe. Mas coma expansão da categoria dos vírus de ação lenta, a lista está aumentando. Muitas doenças progressivas e invariavelmente fatais do sistema nervoso central, algumas doenças degenerativas do cérebro capazes de se manifestar na velhice e as chamadas doenças de auto-imunização agora está sendo encaradas como possivelmente causadas por vírus lentos. [...] O vírus não é apenas um agente da infecção, da contaminação. Ele transporta "informação" genética, ele é capaz de transformar uma célula. E em muitos casos o próprio vírus evolui. [...]
Talvez não seja de surpreender o fato de que o mais novo fator de transformação do mundo moderno, a informática, esteja utilizando metáforas extraídas de nossa mais recente doença transformadora. Também não admora que as descrições do processo de infecção viral agora utilizem a linguagem da era do computador, como quando se diz que o vírus produz "cópias de si próprio". Além das descrições mecanicistas, a maneira como os vírus são caracterizados de modo animista - como uma ameaça à espreita, mutável, furtiva, biologicamente inovadora - reforça a idéia de que uma doença pode ser algo engenhoso, imprevisível, inaudito" (p.131-2).
A virologia fornece todo um novo repertório de metáforas medicinais que não dependem da AIDS em particular, mas que assim mesmo reforçam a mitologia sobre ela. Foi muito antes da AIDS que William Burroughs afirmou, em tom de oráculo, e Laurie Anderson repetiu, que a 'linguagem é um vírus'. E a explicação viral é invocada cada vez mais. Até recentemente, a maioria das infecções virais conhecidas manifestava seus efeitos rapidamente, como a raiva e a gripe. Mas coma expansão da categoria dos vírus de ação lenta, a lista está aumentando. Muitas doenças progressivas e invariavelmente fatais do sistema nervoso central, algumas doenças degenerativas do cérebro capazes de se manifestar na velhice e as chamadas doenças de auto-imunização agora está sendo encaradas como possivelmente causadas por vírus lentos. [...] O vírus não é apenas um agente da infecção, da contaminação. Ele transporta "informação" genética, ele é capaz de transformar uma célula. E em muitos casos o próprio vírus evolui. [...]
Talvez não seja de surpreender o fato de que o mais novo fator de transformação do mundo moderno, a informática, esteja utilizando metáforas extraídas de nossa mais recente doença transformadora. Também não admora que as descrições do processo de infecção viral agora utilizem a linguagem da era do computador, como quando se diz que o vírus produz "cópias de si próprio". Além das descrições mecanicistas, a maneira como os vírus são caracterizados de modo animista - como uma ameaça à espreita, mutável, furtiva, biologicamente inovadora - reforça a idéia de que uma doença pode ser algo engenhoso, imprevisível, inaudito" (p.131-2).
Quando comento a atualidade do ensaio de S. Sontag, não quero sugerir que sua análise sobre a AIDS seja imediatamente "aplicável" ao caso da gripe suína, mesmo porque entre os quadros provocados pela AIDS e os provocados pela gripe, há uma enorme distância. Minha observação é mais em relação à atualidade dos mecanismos de controle e segurança que produzem a duplicidade a que a autora se refere em relação às epidemias e pandemias: ainda que se trate, em princípio, de uma situação atípica, cujo modelo de compreensão é o "surto" ou a "crise", os eixos que a gripe tematiza - controle epidêmico, identificação dos casos e segregação dos doentes, vacinas, identificação da distribuição das vulnerabilidades, restrição da circulação - são eixos fundamentais para a compreensão daquilo que conforma nossa experiência do presente.
A frase final do livro de S. Sontag criticando as métaforas militares com que se descreve a doença e, de outro lado, com que se procura mobilizar a sociedade para combatê-la, também continua atualíssimo (e é mais um ponto de contato com Zizek):
"[...] A metáfora que estou mais interessada em aposentar, mais ainda depois do surgimento da AIDS, é a metáfora militar. Sua utilização inversa - o modelo médico do bem-estar público - provavelmente tem consequências ainda mais perigosas e extensas, pois ele não apenas fornece uma justificativa persuasiva para o autoritarismo, como também aponta implicitamente para a necessidade da repressão violenta por parte do Estado (equivalente à remoção cirúrgica ou ao controle químico das partes indesejáveis pu "doentes" do organismo político). Mas o efeito das imagens militares sobre a conceituação da doença e da saúde está longe de ser irrelevante. Elas provocam uma mobilização excessiva, uma representação exagerada, e dão uma contribuição de peso para o processo de excomunhão e estigmatização do doente.
A idéia de 'medicina total" é tão indesejável quanto a de guerra "total". [...] Não estamos sendo invadidos. O corpo não é um campo de batalha. Os doentes não são baixas inevitáveis, nem tampouco são inimigos. Nós - a medicina, a sociedade - não estamos autorizados a combater por todo e qualquer meio... Em relação a essa metáfora, a metáfora militar, eu diria, parafraseando Lucrécio: que a guardem os guerreiros", (p.150-1).
A frase final do livro de S. Sontag criticando as métaforas militares com que se descreve a doença e, de outro lado, com que se procura mobilizar a sociedade para combatê-la, também continua atualíssimo (e é mais um ponto de contato com Zizek):
"[...] A metáfora que estou mais interessada em aposentar, mais ainda depois do surgimento da AIDS, é a metáfora militar. Sua utilização inversa - o modelo médico do bem-estar público - provavelmente tem consequências ainda mais perigosas e extensas, pois ele não apenas fornece uma justificativa persuasiva para o autoritarismo, como também aponta implicitamente para a necessidade da repressão violenta por parte do Estado (equivalente à remoção cirúrgica ou ao controle químico das partes indesejáveis pu "doentes" do organismo político). Mas o efeito das imagens militares sobre a conceituação da doença e da saúde está longe de ser irrelevante. Elas provocam uma mobilização excessiva, uma representação exagerada, e dão uma contribuição de peso para o processo de excomunhão e estigmatização do doente.
A idéia de 'medicina total" é tão indesejável quanto a de guerra "total". [...] Não estamos sendo invadidos. O corpo não é um campo de batalha. Os doentes não são baixas inevitáveis, nem tampouco são inimigos. Nós - a medicina, a sociedade - não estamos autorizados a combater por todo e qualquer meio... Em relação a essa metáfora, a metáfora militar, eu diria, parafraseando Lucrécio: que a guardem os guerreiros", (p.150-1).
Para ler ouvindo "I hate to say I told you so", do The Hives.
* Este post é dedicado ao James.
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03 agosto, 2009
Eu tô voltando...
Devagarzinho, mas vou voltando.
O Rio de Janeiro continua lindo; o James continua querido e ótima companhia para papear; o Rodrigo já voltou às aulas; o marido já voltou o trabalho e eu já voltei aos milhões de coisinhas e coisonas a serem resolvidas - em pleno inferno astral que termina essa semana.
Adelante!
O Rio de Janeiro continua lindo; o James continua querido e ótima companhia para papear; o Rodrigo já voltou às aulas; o marido já voltou o trabalho e eu já voltei aos milhões de coisinhas e coisonas a serem resolvidas - em pleno inferno astral que termina essa semana.
Adelante!
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