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03 dezembro, 2015

dor

(porque não dá, não dá para falar de flores).

(os dois poemas são da nayyihra waheed, ambos de salt., ambos traduzidos por mim).

não estar seguro
sobre a terra.
simplesmente
por conta
da cor da
sua pele.
como uma
existência sobrevive
a isso.

- trayvon martin

você já
escutou
uma mulher negra
chorar sobre o
corpo assassinado de
seu filho.
é a di-
visão de átomos.
são bilhões
de
vozes gri-
tando os
nomes de suas

crianças
através
de seu lamento de morte.

-  trayvon martin ii
---

to not be safe
on the earth.
simply
because
of the color of
your skin.
how does a
being survive
this.
- trayvon martin

have you ever
heard
a black woman
weep over her
skinmurdered
child.
it is the split-
ting of atoms.
it is billions
of
voices screa-
ming their
children's
names
through
her death wail.
-  trayvon martin ii

29 outubro, 2015

desertos

Foto: Mario Ruiz. (no El País Brasil)

que o deserto às vezes é só a espera da umidade. que demora, demora, demora. mas quando chega encontra as sementes mais-que prontas para a floração. e o deserto vira mar: horizonte de flor e cor. fluindo por entre as montanhas. convidando a gente a pegar uma folha, dobrar e dobrar e dobrar até voltar no tempo, em que qualquer papel virava chapéu e, mais umas viradinhas, um barco. convidando a gente a lançar o barco frágil nesse deserto mareado de flor, a flutuar como as últimas esperanças.
tenho certeza (escuto daqui.) que cada flor sussurra ao vento que trouxe a chuva: "you were three years of water" (nayyihra waheed).
parece o fim do mundo. parece o começo do mundo.

12 outubro, 2015

em tempos sombrios

(tradução apressada de fabiana jardim)

ponha um pouco de mel e água do mar
ao lado da cama.
reconheça. que sua existência
necessita doçura e ablução.
que ela está dolorida.
que você está. enfraquecido*.

- orixás

* podia ser também - uma vez que ainda não encontrei em português uma solução para o convívio desses dois significados simultâneos (e especialmente tendo em conta outros poemas e a importância que ela dá ao cultivo da umidade e do macio):
que você é. suave.

put some honey and sea water
by your bed.
acknowledge. that your being
needs sweetness and cleansing.
that it is sore.
that your are. soft.

- orishas

(Nayyhira Waheed. nejma)

22 abril, 2015

o risco da segurança

"La sécurité, c'est se retenir au bord du désastre. La sécurité détermine cette temporalité du délai, du 'temps qui reste' - comme dans le qui tenet de saint Paul. La sécurité, c'est: encore un peu, toujours pareil. La sécurité reconduit, persévère, insiste. Elle tient, maintient, retient. Or la catastrophe surtout, écrivait Walter Benjamin, c'est que tout continue comme avant. Arrimé au dogme de la sécurité du marché, e néocapitalisme n'a tiré et ne tirera aucune leçon des crises. Les profiteurs du système (décideurs financiers, médiatiques, industriels, politiques) sont à ce point comblés qu'ils doivent pouvoir se dire, sauf à paraître à leurs propres yeux de monstres, que leur situation est juste, méritée, résultat d'évaluations convergentes et exactes, et qu'ils ne prennent rien aux autres. Le marché est infaillible. Tout continuera comme avant, la catastrophe insiste, et la sécurité n'est rien d'autre que cette insistance. Tant que les profiteurs seront les décideurs. L'accroissement exponentiel des inégalités sociales exigera certes toujours davantage des dispositifs 'sécuritaires' au sens cette fois où il faudra bien corriger les effects 'à la marge' des marchés prétendument autorégulés: la rage vide et la colère aveugle des dépossédes, des endettés, des rejetés, des déchets. Les régimes néolibéraux sont voués à devenir des États policiers, comme il faudra toujours plus contenir les explosions de la misère. La dégradation rapide et irréversible de l'environnement animera toujours davantage, à chaque cataclysme, en contrpoids dérisoire, le mythe d'une société reflexive, d'une modernité éclairée, consciente des risques, et prête cette fois à prendre la mesure du danger encouru par tous. Mais comme le dogme de la sécurité du marché considère toute intervertion publique, toute volonté politique comme malvenue, falsifiante, calamiteuse, on peut être certain que rien ne sera fait pour freiner la mise à sac illimitée de la planète, l'aveuglement productiviste, l'augmentation délirante des inégalités.
La sécurité (la catastrophe), c'est quand tout continue comme avant" (Fréderic Gros, Le Principe Sécurité. Paris: Éditions Gallimard, 2012: p.237-8).


- Crítica da Razão Negra (trecho do livro de Achille Mbembe).

30 março, 2015

e então choveu

não tem nada melhor para atravessar um ciclo seco do que essa delicadeza capaz de aplainar todas as esquinas, cantos e farpas que temos por dentro. (a segunda música que eles tocam se chama and then it rained. e é sempre bom quando à tensão e à pressão e ao cinza chumbo se segue a chuva, a aliviar o mundo de seu próprio peso. a aliviar a nós mesmos de nosso próprio peso: as portas todas destravando por dentro).


14 março, 2015

pra amansar os fantasmas


(uma vez que vários deles resolveram sair das tumbas e passear por esses tempos...).
(porque é preciso conviver com eles, acalmá-los todos os dias, para que a vida não seja um eterno recomeçar de bateres de cabeça e mergulho sempre nos mesmos erros)
(porque para ir adiante, parece que não se deve esquecer o passado, mas atualizá-lo, uma vez e outra vez e ainda mais uma vez. essa sim a verdadeira repetição no estarmos vivos).
(porque recomeçar é um misto de despedir-se dos mortos e honrá-los: é um trabalho de escuta atenta do passado).





24 novembro, 2014

mosaico amargo

- "O crash atual representa o acidente integral por excelência" (entrevista com Paul Virilio, de 2008).
- "Já não me restam lágrimas" (notícia sobre Carmen Martinez Ayuso, de 85 anos, despejada na Espanha após seu filho ter tomado um empréstimo).
- "Diálogos sobre o fim do mundo" (entrevista de Eduardo Viveiros de Castro e Daniele Danowski a Eliane Brum).
- "O muro de Dourados" (reportagem de Fabiano Maissonave).

07 outubro, 2014

em mar aberto

nos últimos dias (duros, difíceis), lembrei da potente voz do milton nascimento cantando essa plataforma onde a gente descansa, se ancora e de onde é possível se lançar quando oportuno. pequena margem de segurança, inventada. a ficção da seguridade contida aí, nessa outra ficção de que se lançar ao mar é escolha. como se estar vivo não fosse isso aqui, esse esforço em manter a cabeça para cima da água, essa luta contra o vento e a tempestade. as fases em que dói o peito com o cansaço de nadar sem trégua.


e porque lembrei dessa canção, lembrei também de drummond.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação (Os ombros suportam o mundo. Sentimento do mundo).

25 junho, 2014

como um mantra



Clube da Esquina nº 1 (Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges)


Noite chegou outra vez de novo na esquina
Os homens estão, todos se acham mortais
Dividem a noite, lua e até solidão
Neste clube, a gente sozinha se vê, pela última vez
À espera do dia, naquela calçada
Fugindo pra outro lugar.
Perto da noite estou,
O rumo encontro nas pedras
Encontro de vez, um grande país eu espero
Espero do fundo da noite chegar
Mas agora eu quero tomar suas mãos
Vou buscá-la aonde for
Venha até a esquina, você não conhece o futuro
Que tenho nas mãos.
Agora as portas vão todas se fechar
No claro do dia, o novo encontrarei
E no curral D'el Rey
Janelas se abram ao negro do mundo lunar
Mas eu não me acho perdido
No fundo da noite partiu minha voz
Já é hora do corpo vencer a manhã
Outro dia já vem e a vida se cansa na esquina
Fugindo, fugindo pra outro lugar, pra outro lugar.

13 junho, 2014

pra onde o vento sopra

(não custa nada um pouco de esperança e fé numa sexta-feira treze de lua cheia: o horror à espreita - mas também a magia).
(que, seres de carne e história que somos, "a manhã, meu bem, é uma volta").


05 março, 2014

pra inaugurar a quaresma

(pensamentos em três tempos, na quarta-feira de cinzas de 2014).

- Quando eu era pequena, adorava ouvir as histórias em disquinhos, ainda que bem no meio, às vezes no melhor da história, tivesse que virar... A gente tinha duas coleções - uma da Disney, e outra que chamava Taba. Essa era minha preferida - com seus diferentes universos, as músicas deliciosas. Já comentei que adorava a do Marinheiro Marinho,  uma pequena lição de inconformação. A segunda em preferência era a do Bom-Dia Todas as Cores, sobre um camaleão que queria muito agradar. Mas uma que eu também adorava era a do Sapo Vira Rei Vira Sapo, também da Ruth Rocha (acho que em livro chama "A volta do Reizinho Mandão"). Era uma lição sobre autoritarismo, sobre como a lei pode ser absurda, sobre desobediência civil. E era uma lição importante para uma geração como a minha, que nasceu quando a ditadura já ia "acabando". Mas ultimamente a história toda ganhou atualidade, infelizmente não pelo trabalho da memória...


- E aí leio a coluna da Eliane Brum, de novo tão precisa ao cutucar nossas feridas; de novo tão relacionada às reflexões que estou propondo na minha disciplina optativa este semestre, em seu apelo para que escutem o louco.

- Passei uma parte do feriado lendo K, do Bernardo Kucinski, que a Cosac acaba de republicar. É lindo e duro, muito duro. E foi bem interessante ler depois de ter lido, em janeiro, Poder e Desaparecimento, da Pilar Calveiro. Pois o desvendamento desse mecanismo de poder, que intencionalmente faz desaparecer - e não apenas por encobrimento, mas para produzir um tipo bastante específico de terror e medo - é um tema comum a ambos os livros. Talvez também comum a ambos seja a crítica incisiva à uma espécie de transe em que parte da esquerda se lançou, levando muitos jovens em direção à morte por um tipo específico de alienação. (No texto de Calveiro, isso aparece ao longo das reflexões; no de Kucinski, aparece condensada na carta que encerra o livro).
Embora se trate de algo absolutamente distinto, em parte dos relatos de sobreviventes da Shoah há a manifestação da determinação em sobreviver para contar, para narrar o horror, para testemunhar o absurdo; pois o sentido sacrificial de purgação era dado pelo outro lado, o dos nazistas (daí a recusa de parte dos sobreviventes do termo Holocausto, que reafirmaria tal sentido). E é como se entre a esquerda latino-americana se passasse o inverso - como se o poder desaparecedor tivesse consciência de seu sentido pragmático (embora em alguns casos também houvesse a crença da purgação necessária em nome de um projeto nacional, da ordem ou do enfrentamento dos inimigos internos), mas os que foram tragados no sorvedouro acreditassem que, em sua ausência, a história se encarregaria de esclarecer os sentidos do sacrifício de suas vidas. Deixaram tarefa aos vivos, que não têm como "recuperar" os sentidos de coisa alguma: podem somente tentar atribuir sentido a partir do presente. O problema está em que por vezes esse sentido se ausenta, espirra nas mãos ensaboadas e aí é tênue a linha que separa o labor do luto da tentação do juízo - em especial quando a possibilidade efetiva de julgamento está, como em nosso caso, interditada.

- "E no entanto é preciso cantar/mais que nunca é preciso cantar/ é preciso cantar e alegrar a cidade".

06 agosto, 2013

política abissal

"O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas" (Carlos Drummond de Andrade).
***
a memória de ter ouvido é vaga, mas o lembrado ficou impresso com força. até acho que eu era pequena, não mais que oito ou nove anos. talvez tenha sido uma reportagem de tv. que dizia que que no ano dois mil muitas pessoas estariam morando e vivendo no lixo. veja bem: não existiam catadores como hoje. naqueles tempos, o lixo não era reciclável – era só fedor e putrefação. era montanha adornada por pássaros imensos de rapina. urubus. eu era pequena, de família de classe média. pais separados e uma certa consciência de decaimento depois disso, o que talvez explique a forte impressão que a imagem me causou. porque ao ouvir aquela informação, eu soube: pode acontecer comigo. a qualquer tempo. independente de qualquer esforço meu para evita-lo. o que se tem é frágil e nenhum destino é improvável. eles e nós não existe. somos todos igualmente sujeitos às vicissitudes disso que a anete ivo definiu tão bem quanto viver por um fio.
***
o pensamento era ingênuo, é claro. eles e nós existe e as chances não são igualmente distribuídas. nem as de galgar degraus acima, nem as de resvalar abaixo. mas é provável que exageremos a distância. que a vida só seja suportável se afastarmos com a mão essa consciência brusca e avassaladora de que pode ser com a gente. o que quer que seja que nos assuste no destino dos pobres: a moradia precária. a fome. o trabalho que mais parece um ciscar às cegas, feito galinha em terreno lavado. o corpo fragilizado pelas necessidades, tantas, mesmo aquelas quase esquecidas diante das mais imediatas. como a de ser visto. como a de se sentir limpo e digno e autossuficiente. bastar-se a si e aos seus. não depender. pra seguir vivendo, os nossos pés virados pro lado oposto desse abismo. olhos no horizonte da terra firme.
***
aí eu leio a história de alguém que caiu nesse abismo. que assistiu, impotente, o pedaço de terra firme se inclinando de modo a lançar primeiro algumas, depois muitas, ainda depois cada vez mais gentes pelo despenhadeiro recém-descoberto. e a quem resta muito pouco. resta a palavra. e a gente gosta de pensar que a palavra é bote. palavra-paraquedas. depois de puxar o cordão de emergência, aliviando ploft a gravidade num ir-e-vir suave na direção do chão. duro e definitivo. linha de chegada para aquém do que... nada. a essa mulher resta a palavra. e os papéis do despejo. e a raiva incontida. e a sopa da cruz vermelha.
***
eu leio e choro. um choro manso. porém árido – as lágrimas rasgando caminho no seco dos olhos e a garganta num travo de banana verde. choro por ela. pelos seus filhos. pelos seus conterrâneos. pela quebra da ilusão da distância do abismo. pela dolorosa consciência, forjada na dor, de ser parte da estatística. de ver acontecer consigo. de ter que abrir mão das explicações que responsabilizam o outro por sua própria situação para reconhecer que aos bons também lhes ocorrem maus destinos. porque não somos tão indivíduos assim. porque calhamos de nascer agora e aqui.
***
eu leio e choro e volto para a rua do sindicato onde eu fazia entrevistas durante o mestrado. a rua por onde eu ia e vinha. por vezes, por onde eu ia e vinha sem sequer entrar no prédio. covarde do ato de abordar quem na beirada desse abismo. incapaz de ver e ouvir sem doer. incapaz de pedir que me dessem o que restava: a palavra. a narrativa bote. paraquedas. salva-vidas. aquela boia onde eu apoiaria meu pensamento, mas inútil para trazer para margem quem em pleno alto-mar. naquele começo de milênio, o frio cortante da manhã, os copos de plástico ainda rescendendo a café ou chocolate, e as pessoas na fila onde ilustram-se as estatísticas. aquelas eram de desemprego. de desalento. de desalojados das certezas que garantiam que a vida seguisse seu curso. dez, quinze, vinte por cento da população economicamente ativa que aprendeu que a crise não é passageira e que por ser duradoura rouba – pouco a pouco, de início, depois com violência – o que se leva uma vida a construir.
***
se a crise passa, a vida até reencontra um normal. demora, mas é preciso seguir em frente e a consciência do abismo atrapalha o fluxo. as mãos doem e sangram do esforço em não cair, ou do esforço em escalar a parede escarpada. mas os pés se esparramam no chão recém-redescoberto e trilham aos poucos o caminho que parece levar para longe daquele desvão. o arrepio nas costas agora somente um pequeno mal-estar. de vez em quando. ou pesadelo, do qual se acorda com o coração acelerado, entre o alívio e o terror.
***
e se a crise não passa? a consciência também se perde? não sei. alguns a tentam fixar, talvez os que mais perderam e os que mais foram tomados de surpresa pela facilidade com que foi possível perder tanto. a narrativa envolvendo cuidadosamente essa consciência frágil, cuidando de advertir e ensinar. a despejada que narra fala daí, desse espaço que só conhece quem perdeu o seu lugar. vira o espelho para mim, para você e diz: somos iguais. suas chances de cair eram as minhas. o mérito não conta tanto mais do que a sorte (e o azar, ela sussurra). a estatística que me engolfou te lambe os pés.
***
o espelho é incômodo e dá vontade de virar o rosto. nos últimos dez anos, caminhamos de costas para o abismo, cada vez mais gente se afastando dessa vertigem e seus perigos. mas talvez seja a consciência da beirada que nos permita ir mais longe do que já viemos. “comunidade de destino”, era o nome que a Ecléa Bosi dava. à duração dessa consciência da artificialidade que separa o nós do eles. à persistência da memória de que enquanto o abismo for largo e fundo, nenhuma distância é segura o suficiente. e que isso deveria pôr nós e eles num movimento comum.

03 julho, 2012

coragem

pra responder ao chamado dessa lua indecorosa e se jogar na vida, com um tanto de coragem e outro tanto de alegria. pra já começar a reunir forças para atravessar agosto.



* o clipe do R.E.M. vi lá na Dani. O da Robyn foi dica da Bia e da Júlia.

30 junho, 2012

estranheza

Penso a palavra fase e o poema da Cecília Meireles me vem à cabeça: tenho fases como a lua/fases de andar escondida/fases de vir para a rua. A fase pendulando extremos - inscrevendo os picos da vida no que é ciclo e, assim, domando o imprevisível.
Penso a palavra fase e sei que meu filho, quando a escuta, imagina jogos de videogame ou computador: algo a se cumprir para continuar a brincadeira. Fase como obstáculo, como intermediária, sem sentido em si mesma. Bandeirolas largadas num caminho pré-definido.
Penso a palavra fase e ressoam as aulas de física: as fases da tensão elétrica, contínuas ou alternadas, o papel do dijuntor. A fase como o grilo que se esconde no quadro de força, cricrilando a alta tensão de chuveiros ou ferros de passar. De novo os picos, agora de energia.
Como pode uma pessoa pensar tanto a palavra fase? eu a pronuncio,  e a estranho enquanto ela ainda está suspensa no ar. Desde então, dou voltas em torno dela, escavando seus sentidos. Não me preocupo: essa estranheza dos termos mais banais há de ser somente uma fase.

11 junho, 2012

em pleno vôo

no meio de um domingo, o amigo morreu de repente: sem nenhum sinal, sem nenhum aviso. a família reunida na sala e o coração falseou, escorregando entre uma e outra batida, desacertando o passo.
numa terça-feira, alguém que me era tão caro, tão caro que me atava ao que na vida é perfeição se descobriu frágil: sem sinal ou aviso. o coração tropeçando as batidas, o sangue se perdendo no caminho, braços e pernas falhando no susto de saber-se mortal.
na sexta-feira, o professor se foi num sobressalto: sem sinal e sem aviso, o coração (de novo ele) desistindo de bater, feito soluço que interrompesse a respiração.
quando eu era pequena, achava que as pessoas só morriam velhas. ou de acidente: o mau encontro antecipando o natural das coisas. depois, à medida que a lista dos meus mortos aumentava, fui descobrindo que morre-se velho e novo, triste e feliz, solteiro e casado, quando a vida acaba e quando começa, sem filhos e com filhos, estando eles grandes e ainda na barriga, na lua de mel e nas bodas de ouro. morre-se. feito pássaro apanhado em pleno vôo.

08 junho, 2012

carne viva

vezemquando a vida lateja mais. eu achava que era a falta de sol, a monotonia do cinza que faz dia e noite se parecerem. em dias de garoa fina, é como se o corpo ficasse sem pele e a alma arroxeasse a qualquer toque - rememoração de quaresma a pedir delicadeza e silêncio. mas não sei se é só a saudade do azul e amarelo que explica o coração em sobressalto, como se entre as batidas morasse uma tristeza fina querendo escapar. acho que é a dificuldade de respirar quando a gente caminha sentindo a vida passando, em toda suas intensidades, agridoce. tempo de lembrar os mortos, os caminhos abandonados. tempo de ouvir atentamente os prenúncios de vida - a primavera que mora dentro do inverno. tempo de respirar mais fundo, a leveza do suspiro pontuando o contínuo escorrer - da vida, da água, do tempo.

So may the sunrise bring hope where it once was forgotten:







04 junho, 2012

alongamento

na vida-fluxo, a impossibilidade de parar desgasta os músculos e dormir é apenas breve intervalo sem sonho. na vida-fluxo, sentir sem distração já é interromper: mesmo seguindo a correnteza, dar às braçadas uma direção.
às vezes, porém,  o corpo escapa para as margens e encontra alívio na beirada. o estiramento da luta constante ansiando pelo repouso. braços e pernas se alongam. sem o risco do afogamento, a alma se alonga também: relembra o horizonte, o céu, as nuvens. e também as pedras, a terra, os pássaros. rememora o ar quando entra sem esforço.
escrever é cravar as unhas nessas precárias bordas - inventar o repouso onde ele é difícil, amarrar as redes em pleno espaço.

17 fevereiro, 2012

limão

o telefone toca várias vezes, mas só tem alguém na linha mesmo em duas. a primeira vez, aviso que o joão não está porque não mora aqui. o banco itaú na voz da mocinha pede desculpas. da segunda vez, quando querem falar com o joão, pergunto "de novo?" e o banco itaú na mão na mocinha desliga na minha cara, sem pedido de desculpas. pensar bem, pedir desculpa para quê?
desculpa, quando a gente pede, é para aliviar a nossa alma, que pro outro mesmo, nem adianta: o tempo já foi gasto, a tigela já quebrou, o sapato pedido emprestado já ralou. desculpas, quando a gente dá, é para aliviar a nossa alma, fingindo que a responsabilidade nem é nossa e pro outro mesmo, nem adianta: o trabalho ficou por fazer, o feijão já queimou, o cachorro já fugiu.
não ando querendo desculpa. nem desculpas.
o que eu queria pedir e dar era mesmo perdão, assim, grandioso e magnânimo. pra ver se adoçava um pouco tudo isso que anda meio azedo.