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24 março, 2014

(mais) bobagenzinhas

depois que assisti "Ela", fiquei imaginando qual voz no sistema operacional teria mais chances de me fazer ficar apaixonada. a não ser em casos muito especiais, raramente pensamos na voz das pessoas que nos cercam. eu, pelo menos, nunca tinha pensado. até um namorado me dizer que a primeira coisa que chamou a atenção dele foi o tom doce e suave da minha voz (o que era uma ilusão, como ele logo percebeu quando conheceu todas as outras modulações). ou até uma amiga comentar sobre a voz grave e masculina do meu marido, ao telefone - dessa vez não era ilusão: é verdade mesmo.
fato é que "Ela" incita nossa imaginação a esse respeito, já que a voz é o mais concreto e "físico" daquele "ser" que não é corpo.
logo que assistimos o filme, disse pro Edu que queria um sistema operacional com a voz do Nathan Fillion. mas aí a Bia descobriu essa banda, e o Nathan Fillion perdeu um tiquinho de seu espaço... acho que quero um com a voz grave desse moço aí (que, nesse vídeo, na verdade só aparece lá na última música).


31 agosto, 2011

em fogo brando

no final de semana assistimos novamente amor à flor da pele. é tão bonito, tão delicado... mas ao mesmo tempo de uma melancolia tão fininha que chega a doer - porque da honradez não resulta recompensa, porque o encontro não se sobrepõe ao sentido do tempo (e deve ser por isso que o Kar Wai filma tanto os relógios): há tempo para tudo, e para as personagens, o tempo do encontro parece ter passado.

e na segunda-feira assistimos 2046 (aqui saiu com o subtítulo os segredos do amor), que é um filme bem diferente, muito mais comprido, muito mais confuso, que deixa a gente sem entender muita coisa. a personagem do Tony Leung, Chow, é bem... irritante, para dizer o mínimo (dá vontade mesmo é de entrar na tela e dar uns tabefes nele, tanta cafajestagem!), mas ao mesmo tempo também melancólica: desencontrada, como se estivesse mesmo a bordo do trem metafórico que viaja eternamente, sem possibilidade (ou esperança) de encontrar o porto certo onde desembarcar.

aí hoje de manhã me peguei pensando nisso: que 2046 é um futuro onde as lembranças não se perdem, mas é sobretudo um passado que a gente não consegue abandonar. é como se o passado lançasse à frente de si seus trilhos e a gente ficasse condenado a permanecer no trem, sem escape. 2046 é um quarto, quatro paredes onde o encontro se faz possível, sob a proteção do resto do mundo. fora dele, o encontro vira segredo, peso a ser carregado e só partilhado com criaturas vivas mas silenciosas. em 2046, Kar Wai repete quase à exaustão a história dos segredos insuportáveis, dos quais nos livramos ao depositá-los num buraco de árvore e, em seguida, cobri-los com barro.

eu não sei como a vida é na china e o quanto um social tão coeso pesa sobre um individuo; não sei dizer o quanto os desencontros e a infelicidade das personagens, nessas duas narrativas do Kar Wai, podem ser creditadas à circunscrição da individualidade a um quarto [e hoje de manhã também me lembrei d'o quarto 19, da Doris Lessing, que é o segredo que torna a vida suportável]. eu só vejo daqui onde estou. e daqui onde estou, me lembro de duas frases, uma da clarice, outra da camille claudel, citada pelo caio fernando abreu em uma de suas crônicas.

"Guardo seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver" (Clarice Lispector).

"Existe sempre alguma coisa de ausente que me atormenta" (Camille Claudel).

e lembrando dessas duas frases, e pensando na recorrência com que as personagens desistem uma das outras por não encontrarem aquilo que estavam procurando - em geral, a recuperação de um amor que foi embora - fiquei pensando que o filme é sobre esses trens expressos nos quais embarcamos quando queremos nos livrar de uma lembrança/ quando queremos recuperar o que nos falta/ quando, sem companhia, não sabemos mais para onde ir: é sempre um risco, já que o trem pode nos levar ao futuro, mas também ao passado ou, pior ainda, nos deixar aprisionados em uma viagem duradoura. estar no trem é o momento-quando do abandono.

o segredo, fardo pesado, é aquilo que sempre falta mesmo quando a gente segue adiante. é a sensação de que o tempo oportuno escoou, de ter perdido o encontro certo. é o arrependimento pelo que não foi. é dor latejante que embaça os olhos e impede o reconhecimento do porto possível, condenando à errância.

queima silenciosa e mornamente, esse segredo, essa falta.

(o edu tem toda razão: para dar tal destino à personagem, o Kar Wai não deve mesmo gostar dela).

02 maio, 2011

Nós mesmos a sós*

Depois de ter escrito o último post (e de ter revisto o filme e escutado a trilha do Les chansons d'amours incontáveis vezes), fiquei pensando no amor e na solidão. Parece um pouco cinza dizer assim, como se eu andasse triste ou melancólica, mas não é bem isso: é mais um exercício de pensar que a beleza do filme se produz bem nesse interstício entre um amor duradouro, com todos os seus problemas, e certa solidão que nem mesmo a companhia parece fazer desaparecer. Ainda assim, se alguma chance de escapar existe, a aposta é ainda no amor - na presença de outro, que nos ama e a quem amamos, que nos toca, nos abraça, que modifica o mundo ao enchê-lo de sinais.

E depois de rever o filme, pensei também no conto-novela do Caio Fernando Abreu, "Pela Noite" (Estranhos Estrangeiros: São Paulo, Companhia das Letras, 2002), de que gosto tanto e que fala também de modo tão dolorido sobre desencontros e sobre a graça do encontro - reconhecimento e mergulho cego no outro, no corpo do outro. E que armadilha que, como nós, o outro também tenha um corpo por continente, um corpo vivo que pulsa, sangra e goza, mas que também muda de ideia e parte ou, exagero de abandono, morre.

Com todas essas coisas na cabeça, ainda fui ler O fuzil de caça, de Yasouchi Inoue. Quem me falou do livro havia mesmo comentado sobre a excessiva solidão da personagem, mas é realmente impressionante como Inoue - ao lançar mão das cartas para contar a história - nos coloca em uma posição de solidão parecida à de Josuke Misugi. Como a personagem, ficamos na mesma posição de ler e aceitar as decisões de três mulheres importantes em sua vida, que ao mesmo tempo em que escrevem para ele, escrevem apesar dele, escrevem para se livrar dele. É tão triste e tão exato que a personagem principal quase não apareça, senão do modo como as três mulheres o pronunciam.

O livro é de 1949 e os ecos da experiência da II Guerra aparecem aqui e ali. Não apenas por isso,  me fez lembrar, embora não imediatamente, do livro de Graham Greene, Fim de Caso. O livro de Greene é de 1951, e acabei me lembrando dele principalmente por conta de um elemento que - para mim - pareceu bastante estranho na narrativa de Inoue: a presença da ideia de pecado.

A indicação do livro de Inoue me foi feita em meio a uma conversa sobre literatura japonesa e também em meio a um comentário sobre o estranhamento provocado, numa mesa sobre desemprego e experiências de desempregados, pela apresentação de pesquisadores japoneses que apontavam a centralidade do sentimento de vergonha para a compreensão das experiências subjetivas dos desempregados japoneses. Participando da mesa, havia finlandeses, alemães, suecos... e eles eram visivelmente incapazes de compreender que fosse possível alguém sentir vergonha; culpa, certamente, mas vergonha? São matrizes de codificação moral bastante diferentes.

Por isso me espantou tanto a sedução que a ideia de pecado assume na narrativa de Inoue - algo que agrega ao "erro" o peso do segredo. O interessante é que é uma ideia de pecado ela mesma estranha (para nós, ocidentais), pois que à revelação não sucede nenhuma salvação; à revelação parece suceder a súbita compreensão justamente da inadequação da própria sensação de pecado. O peso não vai embora devido à  algo como uma expiação, mas porque é o próprio pecado que se dissipa.

A solidão, no romance de Inoue, parece vir do oco dos rituais, símbolos e códigos. A distância irremediável a que todos os personagens estão submetidos, em relação uns aos outros, marca um absoluto desencontro. E aquilo que podia assumir o caráter de ponte - as cartas honestas e claras dirigidas à Josuke Misagi - revela uma ruptura ainda mais intensa, dando realidade a uma solidão que já se inflitrava pelos poros daquela vida.

Muito diferente, portanto, da tensão e da angústia de Fim de Caso, em que o pecado nunca pode ser expiado, mas é amenizado por meio de uma distância artificialmente criada: solidão auto-infligida e imposta ao outro, visando uma salvação absolutamente mundana. O que diferencia radicalmente os dois livros, além dos sentires de raízes tão distintas, sem dúvida é a ideia de Deus - aceita como milagre ou recusada como absurda e sem sentido - presente em Fim de Caso. Em comum, além da época sombria em que foram escritas, ambos podem ser reflexões sobre solidão e amor, sobre essa espécie de inescapabilidade (existe essa palavra horrível?) da solidão e sobre as promessas e limites do amor para cutucar rachaduras onde a saída se reveste de pedra.

* verso de poema de Fernando Pessoa para Sá-Carneiro. "[...] porque ha em nós, por mais que consigamos/ Ser nós mesmos a sós sem nostalgia/ Um desejo de termos companhia [...]".

09 julho, 2008

Wall.E (cuidado: spoilers!)


Hoje fomos assistir Wall.E. Não foi a primeira vez que o Rodrigo foi no cinema, mas ele estava realmente animado - e nós também, já que somos loucos pela Pixar.

Por isso, antes de falar do filme, vou falar só um bocadinho da Pixar. Quem já assistiu ao DVD de Curtas sabe que nos extras tem um documentário ótimo sobre a história deles: basicamente ele eram visionários, necessariamente assim mesmo, no plural, porque o que eles queriam fazer não era trabalho prum homem só. É impressionante notar como eles foram lentamente construindo as ferramentas, as técnicas, numa época em que computadores eram imensos e caríssimos e rodavam um ínfimo do que rodam hoje.

Uma história que eles contam nesse documentário é, para mim, reveladora do caráter dos caras. Eles faziam os curtas para apresentar em um congresso de computação gráfica (se não me engano). Quando eles chegaram a fazer o da lampadinha, eles já haviam apresentado uns três nesse congresso. Bão! Aí começa o filme. E o povo de-li-rou. O curta não estava terminado, por falta de tempo, mas ninguém parecia perceber. Eles foram aplaudidos por mais de 10 minutos. Porque, afinal, além das histórias, os caras que estavam lá sabiam (ou ao menos mensuravam) o trabalho que tinha dado fazer aquilo lá, ? Era de cair o queixo...

Acaba o curta e um cara super tchop-tchuras vem conversar com John Lasseter e, em certa altura, diz "Posso te fazer uma pergunta?". Pânico! A única coisa que John pensava era "ele vai me perguntar a equação do movimento X e eu não sei". Então, com ares de criança curiosa, o tal cara pergunta: "A lâmpada é o pai, não é?". E John, aliviado, pensa "agora sim. agora é sobre a história e as personagens e não sobre a tecnologia. Agora acertamos".

Wall.E
não é nem de longe só um filme "bonitinho" (embora seja muito, muito bonitinho). Primeiro porque, e esta é a razão de nós amarmos a Pixar, os caras são artistas mesmos - as histórias são boas, os roteiro são bem acabados (do tipo que não tem nada fora do lugar), as sacadas são muito inteligentes...O Rodrigo é viciado nos filmes da Pixar e a gente assiste junto: feliz e com prazer (tá, de vez em quando enche o saco, mas aí a gente ouve o Marlim, pai no Nemo, falando de "controvérsia emocional" e acabou o mau-humor...).

Mas para além da qualidade da história contada, o jeito que eles escolheram para contar também é lindo.

Sou de uma geração que viu a idéia de desenvolvimento e de futuro melhor desaparecer. Basta falar de dois filmes emblemáticos: Exterminador do Futuro, em que as máquinas inteligentes tentariam nos dominar, subvertendo inclusive as fronteiras entre passado, presente e futuro, e Matrix, que pintava um futuro no qual não passaríamos de pilhas.

No presente-armadilha em que estivemos presos por um longo tempo (saímos?), a desconfiança na razão não via possibilidade nas máquinas senão de uma rebelião contra nós: Exterminador do Futuro e Matrix são filmes em que a ciência de volta contra nós - a inteligência artificial não é melhor do que a humana e nos conduz à destruição.

Wall.E já se passa em uma época diferente: esse nosso tempo, cheio de ambiguidades, mas em que a gente já foi capaz de reconhecer a própria culpa pela destruição do planeta e da vida na Terra.

Arrisco dizer também que Wall.E pode ser diferente porque foi escrita por um grupo de pessoas que, trabalhando em equipe, puseram a (alta)tecnologia à serviço de uma ação muito humana que é essa de "contar boas histórias".

Em Wall.E, foram os seres humanos os responsáveis por transformar a terra num lixão. E são os robôs, capazes de emoção e sentimento, que promovem a reversão do quadro. A tecnologia, assim, não é vilã, mas um pequeno espaço possível para a mudança.

Mas é bom notar: os robôs provocam, mas não tomam a responsabilidade pelo primeiro passo - são os homens que precisam fazer isso. E também não há milagres na recuperação da vida na Terra, só a passagem do tempo, um "respiro" para que a vida volte a ser possível.

Tem mais um monte de coisa boa no filme: as personagens, a trilha sonora...Mas eu fico por aqui para não ficar como os últimos posts, imeeeeeensos.

Wall.E é um filme otimista. E imensamente doce...Eu chorei um monte no final :-) Porque não há nada como uma história bem contada para emocionar a gente...

* Comentário do Edu
(Ele escreveu no comentário, mas eu gostei tanto que resolvi tirar de lá e publicar aqui!)
Ok, eu chorei também. Só um pouquinho. Chorar, mesmo, só em dois filmes: "Johnny vai à guerra", de Dalton Trumbo, e ... ET, vocês sabem de quem. Ah, e num filme de cachorro que eu num lembro o nome...
Wall.E é sensacional! As resenhas que eu tenho visto o comparam muito com um filme mudo, coisa que o diretor assume, no estilo de Buster Keaton e Chaplin. Mas eu acho que, na verdade, é um musical! Tem até um (spoiler alerta!) balé espacial caprichadíssimo, clichê a não poder mais, com direito a um casal correndo em plano-contraplano e tal e que mesmo assim, ou por isso mesmo, você acredita que é a primeira vez que isso tá acontecendo no universo.
E tem exército Brancaleone, tem a Sigourney Weaver, a matadora de aliens, tem Gene Kelly, e tem, acho que o primeiro filme que mostra a humanidade assustadoramente alienada e, mesmo assim, trata-a com certo carinho e esperança. E tem o começo e o fim:
O engraçadérrimo curta que abre o filme - daqueles de se torcer de rir! - e a bela sequência dos créditos finais: essa é a que parece passar, sorrateira, a mensagem do filme: a de precisamos fazer o futuro com arte.


Imagem: http://breath-away.blogspot.com/2008/06/as-oscilaes-dos-tomates-animados.html