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18 agosto, 2013

projeto para um próximo final de semana

Vai daí que estava fuçando no site do pessoal do Studio Ghibli Brasil (incrível descoberta do marido) e sei lá como, acabei encontrando um tutorial para fazer inarisushi de Totoro. Morri!

 
Aí,  marido perguntou se não rolava um tutorial ou uns moldes para fazer um Tororo de pano. E a mesma mocinha também ensina. Morri de novo!


E agora, vou esperar a semana passar voando, só para eu fazer um Totoro pra mim. E pro Rô. E pro Edu. E tem grandes chances de eu começar  distribuir Totoros por aí :-)

E esse site, gente, de onde a mocinha tirou os moldes do Totoro? Por que, meu deus, por que eu fui descobrir isso? Efeitos nefastos sobre  meu currículo lattes em três, dois... :-)

19 abril, 2013

receitas vegetarianas - destempero

mas olha só que perdi a receita inteira nesse fogo alto demais e agora vou ter que começar tudo de novo que disso não se salva nada: tudo com cheiro e gosto de fumaça e ai que tem dia que é assim mesmo que parece que as mãos excretam o limão que trazemos por dentro e azedam tudo e talham tudo que tocam e é que me dá tanta pena o trigo o óleo os ovos as maçãs e todo esse desperdício que chega a me doer e ainda mais porque tudo o que eu queria hoje era um pequenino natal do cheiro da canela espalhando pela casa varrendo as melancolias recentes e agudas e as nozes penetrando doces nas frestinhas das dores antigas feito bálsamo mas agora as pequenas epifanias ressecadas logo hoje que eu acordei precisando tanto-tanto desse milagre de recomeço e me pus a cozinhar ainda de camisola azul de renda acordando os músculos no esforço de mexer essa massa desse bolo que eu adoro e que é tão ruim de mexer mas eu não sabia fazer outra coisa pra espantar os fantasmas dos sonhos e suas sombras no meu dia ainda porvir e assim fui passando na peneira as três xícaras de farinha de trigo ao mesmo tempo em que o café passava pelo filtro de pano que eu trouxe de outras vidas e passei na peneira também a colher de bicarbonato e a colher de sal e a colher de canela em pó já tão fininhas e leves mas também escondendo seus minúsculos nódulos e enquanto o pão esquentava na torradeira eu ia quebrando os ovos numa outra tigela torcendo pra que nenhum deles estivesse estragado que me aflige tanto esse mistério do ovo às vezes galado me enche de tristeza o galo que não foi que mal chegou a ser pintinho mas hoje que eu me esqueci de quebrar num potinho os ovos antes de coloca-lo na tigela definitiva nenhum ovo fecundado só aquela festa de amarelo forte os pequenos sóis ajudando a acordar o dia e então o açúcar que eu também fui peneirando aos poucos já me sentindo mais protegida pela mistura de ovos e açúcar que ia ficando clarinha clarinha e era como se fosse se diluindo o que em mim acordou doendo e me amansassem os medos e os sustos conforme o café quente e doce amornava a boca e o hálito ainda faltava a xícara de óleo que se incorporou fácil à mistura e enquanto tudo isso descansasse fui cortar as últimas três maçãs que tinha em casa tirando a casca e as sementes e fatiando cubos e deixando ainda um pouco de ímpeto para triturar as nozes apenas com as mãos para me livrar do que em mim é violência e com tudo pronto e o café tomado finalmente fui misturando a parte úmida à parte seca bem devagar que essa massa é consistente e pensar bem por que é que fui me meter a fazer isso logo de manhã logo precisada de levezas se a massa é pesada e meus braços reclamaram e nem vai fermento para fazer as pequenas bolhas de ar só bicarbonato pruma massa que mal cresce e só quando a massa finalmente misturada e quando as maçãs finalmente incorporadas e quando as nozes finalmente incluídas caindo na forma untada e enfarinhada é que fui tomar um banho e lavar os cabelos e me arrumar praquela festa que tinha acabado de inventar mesmo que fosse apenas para distrair o chumbo instalado entre o peito e o estômago e já ia me sentindo salva o alívio de ter transformado a dor em bolo e o dia esquisito em celebração quando o cheiro da canela errou em cinza e sem que eu saiba ainda localizar o momento-quando a alegria desviou em acidente agora estou aqui nessa beirada do choro tão-tão espantada que minha chance de recusar a melancolia tenha se transformado em carvão e destampado esse fluxo aberto as comportas de tanta coisa que só precariamente a gente contém e eu sei bem que é porque esse acidente sem vítima o que fez foi reabrir ferida na minha esperança.

01 março, 2013

mais receitas vegetarianas - feridologia


Nem achou que estava distraída até que a dor fininha a acordou. Largou a faca sobre a tábua, ali mesmo por cima dos tomates, e trouxe o dedo para perto dos olhos. O corte tão fino e fundo que o sangue demorou a vir à tona, chegando manso: córrego desaguando lentamente. Enrolou um papel toalha, apertado firme, e retomou o trabalho.
Cortava os tomates grosseiramente e ia colocando no liquidificador. Todos os doze tomates – a explosão de vermelho respingando no papel toalha, manchando a tábua e o avental.
A família inteira reunida na sala. Os filhos, a nora e o novo genro. Os netos – o menorzinho ainda de colo, enquanto o mais velho já adolescente, o cabelo comprido e meio ensebado, o desajeito de pernas e braços que se acomodavam mal na poltrona da sala. E o marido, lembrou com um imperceptível esgar.
Dos trinta anos de casados, há vinte e cinco ela sabia. “Não suporto a companhia do meu marido”, ouviu-se dizer. Primeiro para si mesma, bem baixinho, nos primeiros anos de casamento, num dia em que ele – como sempre – não quis saber de ir com ela ao almoço na Paróquia. Então para a amiga querida, alguns anos depois, explicando porque estava indo para a praia só ela e os filhos. De lá pra cá, pra quem quisesse ouvir, que já estava mais velha e não tinha pudor: não suportava, nunca suportara a companhia do marido. E em vez de doer, a constatação agora lhe acalmava, pois passados tantos anos, já não provocava dentro dela nenhum ímpeto de ir embora, nenhuma pena de sua sina. Nada. Era como abrir a janela e anunciar o tempo.
Pegou os pepinos, cuidando de tirar a casca, que a filha passava mal, tinha pesadelo depois. Desde pequena era assim. Jogou os dois no liquidificador, fazendo o vermelho eclodir ainda uma vez.
Na sala, conversas e risadas entremeavam o programa de TV. Era um domingo bonito, o céu azul sem nuvens e sem vento.
Tirou a casca para descobrir o roxo da cebola. Foi quando viu o vermelho transbordando a brancura do papel toalha. Droga!
Pensava nele quando o corte a interrompeu. No bom que era a sua presença. No bom que era o cheiro dele, logo de manhã, quando se encontravam ao chegar no trabalho. Na textura da voz dele quando disse que a queria e no oco do silêncio dele quando ela disse não. A vida era mesmo engraçada, latejou.
Achou no armário do banheiro uma gaze e tornou a enrolar o dedo, ainda mais firme, os esparadrapos ajudando a contenção.
Suspirou. Pegou os pimentões coloridos, o verde, o amarelo, o vermelho. Achava graça na leveza deles, tão amplos e plenos de vazios. Não gostava muito. Mas cortava, metade de cada um, e lavava e tirava as sementes e lavava de novo e cortava fatias grossas antes de jogá-las também no liquidificador. Tudo se misturando no mar de vermelho.
Pensar nele já não era atirar uma pedra pesada na água. Ele ficara lá, em outro lugar, no passado, num futuro que não foi. Ela disse não, ponto final. E ele então mudou de emprego, de cidade, talvez até de país. Sumiu no mundo, a não ser por aquela cicatrizinha dentro dela, que ela via sempre quando um espelho refletia sua imagem – ele era aquela espécie de infelicidade gravada no fundo do seu olho. Não se arrependia, era o que dizia a si mesma. Fizera o que era certo e o que era certo era ficar ao lado do marido, ter e cuidar dos filhos, vê-los crescer.
E picar o alho, com o dedo estendido a se esquivar do contato, porque alho cutuca a ferida, dá a medida da fundura do corte. Lembrava da mãe dizendo que alho era antibiótico, recomendando chás nos resfriados e abaixando a voz para receitar o remédio certeiro para as coceiras lá embaixo durante e depois da gravidez. Alho curativo, não sem antes levar a dor até o fim. Era domingo, um dia santo, as coisas no lugar: não precisava ampliar nenhuma dor.
Colocou o alho no liquidificador, junto com o copo raso de azeite e dois copos de água. Também um pouco de sal, que se misturou à umidade e fez o corte arder. Droga!
Bateu tudo, fazendo um barulho que fez um dos netos vir à cozinha e anunciar que fecharia a porta por uns minutos. Suspirou. Viu o que era vermelho vivo empalidecer em rosa. Depois peneirou o gaspacho, cantarolando uma canção antiga, de peneiras e namoros e saias voando ao vento. O que era massa grossa virando creme suave, sem coágulos.
Picou o pão amanhecido, jogou na frigideira, deitando por cima um pouco de azeite e sal. Ainda lavou a salsinha, picou bem fininho, pra enfeitar e dar sabor na hora de servir.
Tirava o curativo para cuidar da louça, enquanto a filha abriu a porta e reclamou dos pimentões em cima da pia “mas mãe, você colocou todos esses pimentões no gaspacho? Assim não vou poder nem experimentar!”. Estava distraída mesmo, para lembrar de tirar a casca do pepino e esquecer tanto de tirar a dos pimentões quanto de diminuir a quantidade prescrita na receita. Desculpou-se, em palavras e ombros.
A ela também os pimentões não faziam bem, a digestão atrapalhada, lenta, feito nó na garganta, borboletas no estômago. Foi o que lembrou, já à hora da mesa, quando sorvia a segunda colherada.

09 janeiro, 2013

três receitas vegetarianas - insistência


“A que horas eles iam mesmo chegar?”, perguntou, um olho no relógio e outro na panela, pra outra que procurava um cd novo já que o anterior acabara de acabar. As mãos cheirando ao alho e à cebola que agora fritavam shshshsh no óleo, perfumando a casa. “Encontrou os cds?”, voltou a inquirir, já distraída da pergunta anterior enquanto ia jogando na panela o arroz lavado. “Encontrei sim!”, ouviu a outra dizer ao mesmo tempo em que a voz de Madeleine Peiroux preencheu a distância da cozinha à sala. Sorriu. Adorava aquele cd. Era o que ia dizendo quando a outra alcançou a cozinha, muito animada, atirando à queima-roupa “você roubou um cd de uma biblioteca? E de uma biblioteca em Paris?!!”. A água fervente quase desviando o curso rumo à panela, o pulo das mãos tão brusco quanto a batida do coração. Não era que era isso mesmo? Não era que um dia tinha roubado um cd? A voz saiu branca “Nossa. Tinha até esquecido”. Tentou na mesma pausa se lembrar e esperar que a outra esquecesse. Não funcionou. “Tem uma boa história aí, não tem?”, a outra toda interesse e provocação. “Nem tanto”, tentou frustrar a insinuação, “Época de durezas de estudante, um pouco de irresponsabilidade e esquecimento...”. Fez uma pausa para lavar as abobrinhas que vinha descascando e pegar, embaixo da pia, o ralador. “... e, claro, um grande amor. Ou, pra ser mais justa, uma grande paixão". Tão solene essa última afirmação que a outra agora era só olhos a escutar. “Nunca tinha me dado conta, mas você me faz lembrar um pouco dela”, “Dela quem? Da paixão?”. Negou rindo enquanto quebrava os ovos, separando gemas e claras: “Dela: do objeto da paixão”.  As sobrancelhas da outra se erguendo discretas em compreensão. “A gente ficou juntas pois dois meses, pouco antes de eu voltar. E foi tão, mas tão urgente – aquele cronômetro às avessas, marcando um tempo que se esgotava. A gente tinha hora pra acabar e então acabou quando essa hora chegou. Mas acabou o tempo e não a paixão, claro, que só inflamava mais com aquele fole soprando tic-tac em tudo-tudo-tudo que a gente fazia e vivia”. Ela ia lembrando em voz alta enquanto mexia o fogo bechamel em fogo um pouco alto demais, o cheiro da noz-moscada recém-ralada inebriando levemente as palavras. “Em horas em que a gente quase desesperava da consciência de que o tempo era curto, a gente ouvia Dance me to the end of love, agarradas na sala minúscula do apartamento onde ela morava. Era tão triste. E era tão lindo”, as abobrinhas e as gemas girando piruetas no molho ainda quente. “Eu tinha emprestado esse cd na biblioteca, e depois que a conheci  fui renovando, renovando, incapaz de devolver. Até que chegou o dia de voltar e sem pensar muito enfiei o cd na mala e trouxe comigo. Se tudo o que a gente fez foi roubar o tempo, eu tinha que ficar com alguma coisa, sabe? Eu não pensei muito nisso, mas acho que eu quis salvar alguma coisa de todo aquele incêndio e foi só isso que eu consegui trazer”. A fala agora entrecortada pelos soluços do metal batendo as claras. “Não pensava nessa história há tanto tempo... parece que foi noutra vida... até assustei quando você me perguntou do roubo...”. “Logo vi que tinha uma boa história ali”, a outra rasgou o silêncio, os olhos voltando a ver e deixando a tarefa da escuta novamente pros ouvidos. As claras em neve bem firmes se dissolvendo delicadas na mistura de abobrinha, leite, queijo e gemas. “Em vinte minutos temos suflê”, anunciou, já fechando o forno. “A que horas mesmo marcamos?”. A outra agora em pé ao seu lado, servindo-se de mais vinho enquanto lhe passava a sua taça, novamente cheia. Olhando de esgueio o relógio, “Acho que ainda temos uns minutinhos”. Encostadas as duas no balcão, bebericando em silêncio. Até que a outra “Eu te faço lembrar dela?”, “Nunca tinha reparado, mas lembra sim: o jeito que o cabelo cai nas suas costas, o modo das mãos se mexerem quando contam histórias, e essa mania de morder o lábio pelos cantos, num esgar que é meio riso, meio aflição”. O disco chega em I’ll look around e a outra pergunta, a voz num fiozinho “Quer dançar comigo?”. A campainha toca e tudo já parecendo errar em desencontro. “Salvas pelo gongo”, a outra brinca, embora o nó na garganta, sem gosto nenhum de salvação. “Outro dia a gente dança, prometo. Eu te convido pra jantar, só nós duas”, ela adia atender a porta apesar dos ding-dongs insistentes. “Combinado, então. Eu venho e te faço uma receita de berinjela que quero muito experimentar”.

17 outubro, 2012

três receitas vegetarianas - festa



Depois de tantos anos de idas e vindas, de distâncias e aproximações tateantes, finalmente chegaram ali. Aqui, melhor dizendo: aqui nessa cidade, nesse bairro, nessa casa. Aqui, um frente ao outro.
Os quarenta anos derretidos em vinte, feito o alho-poró que começava a fritar no azeite e espalhava um cheiro bom de tempero e mato pela cozinha. “Mas você já fez essa receita antes?” ele desconfiou, com medo que o trabalho fosse maior que o esperado. “Nunca fiz, mas já comi”. “E adianta, saber o final?”. “Bom, é mais fácil que não ter menor ideia de como as coisas devem parecer...”, sorriu, pensando agora não no sabor do prato mas nos casamentos anteriores – o dele, o dela. Ele, porém, falando só da comida.
Taça de vinho na mão, ele estava em pé ao lado dela, rodeando a bancada onde descansavam a couve-flor, a vagem cortada grosseiramente, o pimentão amarelo e os palmitos de pupunha, luas cheias naquele céu de picadinhos. Entre o morno que emanava do fogão e a respiração dele, também morna, sentia-se amparada: naqueles parênteses de quentura e aconchego cabia um infinito.
“O pimentão não devia ser verde ou vermelho? Amarelo na paella vai ficar apagadinho...”, ele palpitou. Ela sorriu antes dizer “pode até ser, mas pimentões verdes e vermelhos não me fazem bem, são fortes demais, só consigo comer se tirar a casca, aferventar... até gosto, mas nessa altura da vida, só quero o que me vai bem”. De novo, não sabia bem se estava falando da comida ou daquela novidade de tê-lo ao lado todos os dias e noites, nos dias úteis e finais de semana, na rotina e nas férias. Sentiu-se de um só golpe sábia e velha – a recusar a festa completa por pura preguiça.
“Já tem as vagens e as ervilhas: acho que não atrapalha a paleta de cores...”, desconversou, jogando os legumes, as ervilhas frescas e o pimentão na panela. E a cozinha ficou inteira perfumada de intensidades. Enquanto isso, pegou os tomates já lavados, pelados e sem sementes e os passou pelo processador. Também pegou a água fervente da chaleira elétrica e jogou na pequenina caçarola, sobre o caldo de legumes congelado.
Cutucou a couve-flor e a vagem, a ver se já estavam macias, mas ainda não. As coisas têm seu próprio tempo, não adianta a nossa vontade. “Minha avó sempre vinha com um o apressado come quente e cru quando a gente circundava a panela com nossa gula”, contou. “A minha também falava algo como isso. Os adultos, desde sempre a tentar domar nossas voragens”, ele filosofou, servindo-se de mais um pouco de vinho.
Jogou finalmente as grandes rodelas de pupunha, não sem antes quebrar uma no meio e dividir com ele – espécie de comunhão. Mal acreditando no coração disparado no simples gesto, na ternura borbulhando perigosa feito a fervura do caldo de legumes enquanto passava a mão no rosto recém-barbeado. Quarenta anos e a meninice recém-descoberta.
Virou-se ligeira, numa desconversa de corpos, e jogou o caldo sobre os legumes. Também um bocadinho de sal, um bocadinho de pimenta. Cuidadosa, abriu no centro um espaço para mais azeite, o alho bem picadinho a dourar. Então a páprica, o tomate, o açafrão. A colorir o já colorido, reforçando tons, descobrindo matizes. Inaugurando o novo no familiar.
“Paella é uma comida tão simples e tão elaborada, né?”, ele mapeou o caminho de seus pensamentos enquanto ela colocava o arroz na panela. E era mesmo: arroz, legumes, grãos. Mas os cheiros e cores, tão diversos do nosso tododia, a prometer ocasião especial. Ela jogou ainda um raminho de alecrim fresco e colocaram-se a esperar, a conversa cheia de pausas e silêncios, cuidadosa como o cozinheiro diante da receita nova.
Meia hora depois, o limão siciliano ainda com a casca amarela a espalhar seus gomos por entre a panela. “Era esse o prato que você imaginava?”, ele perguntou. “É um pouco diferente”, confessou diante daquela imensidão de amarelo pontuada de verde e branco. Sentaram-se à mesa, experimentando em pequenas garfadas. “É um pouco diferente”, ela disse de novo, “mas ainda assim bom”.
Aqui, agora mesmo – o pequeno rito a prometer um para sempre.

12 outubro, 2012

três receitas vegetarianas - veludo

para Veronika

Era nas tardes de domingo, aquelas tardes quentes e densas, o céu azul sem nuvens esticando sobre o tempo sua colcha de infinito. Era nessas tardes de domingo que doía mais. Doía tanto e tão fundo que às vezes era difícil caminhar. Mais um domingo em que acordava sem ele, que descia as escadas sem ele, em que era ela mesma a colocar na cafeteira o filtro, o pó, a água. E ele fazia falta em cada brecha entre os gestos, de modo que ao final de meia hora estava já exausta.
No quintal, o cachorro dormindo atento, fazendo menção de se aproximar ao mínimo sinal de atenção. Já o filho, desde sempre silencioso, sem vontade alguma de chegar perto. Pra ele também doía, ainda que ele cerrasse o queixo bem forte e represasse a enxurrada de lágrimas no fundo da pupila negra.
Naquele domingo, enquanto ela acabava de lavar a louça do café, o filho veio espiar a geladeira apesar da falta de vontade de comer. Abriu, fechou. Olhou na fruteira, voltou a abrir a geladeira. Inquieto. Até que comentou “mas pra que tanta maçã?”.
Surpresa, veio de luvas e espuma nas mãos verificar. Contou três sacos de maçã, de diferentes feiras. Talvez um deles ainda tivesse sido comprado por ele, pensou e doeu entre a constatação e a decisão. Deixadas ali, iriam estragar. Que agora eram dois, só os dois, a comer as frutas no café da manhã ou depois do almoço.
 “Acho que vou fazer uma torta de maçã”, finalmente pensou em voz alta, e o rosto do filho se iluminou em vontade. “Posso ajudar?”, ele perguntou e ela aceitou, oferecendo a ele uma cadeira para que a tarefa de lavar com cuidado as maçãs ficasse mais fácil.
Tirou a manteiga da geladeira, viu se tinha iogurte natural... Pegou a cerâmica branca e foi colocando, sem medir. Primeiro pouco mais de meio tablete de manteiga, que foi cortando em cubos e fatias. Depois o mesmo tanto de farinha, que resolveu peneirar para que o ponto ficasse mais fácil – foi então que se deu conta, sem pensar, que estava a desejar um domingo sem coágulos. Pôs as mãos na tigela e começou a misturar.
Na bancada, o filho esfregava as maçãs para depois secá-las, caprichoso.
Ainda na tigela, colocou uma colher de sopa iogurte natural e uma colher de chá de fermento químico. E então passou a contar as dez colheres de água. Uma, duas, três, quatro... sempre perdia a conta. Continuou a misturar a massa, sentindo o gelado do iogurte indeciso em se dissipar. Já nem se distinguiam mais os ingredientes, mas a ponta dos dedos sabia que ele estava ali, sem se decompor. Feito memória que mina água mansa nas brechas da vida a continuar.
O filhou acabou de lavar as maçãs e se cansou da ajuda. Foi para a sala, assistir tv.
Ela ficou ali, esticando a massa, colocando farinha, no esforço de esticar sem esgarçar a massa. Doía um pouco menos ver-se outra: massa fina e podre a procurar as bordas sem se rasgar. Não era mais ela mesma a se alongar cotidianamente, a tentar cobrir o buraco que ele deixou. Era só a massa, a massa de uma inesperada torta de maçã.
Abriu o armário para buscar o leite condensado. Pôs sobre o fogão a caçarola, a colher de pau atravessada, e a lata de leite condensado a escorrer. Pensou em chamar o filho, para ver se ele queria raspar o fundo, mas lembrou de um corte na mão e desistiu. Na geladeira, pegou o leite e os ovos. Uma lata de leite. Duas gemas, para o creme ter cor. Duas colheres de sopa de maisena. Mexeu bem antes de ligar o fogo – não queria nada empelotando, só a maciez do creme. “Creme veludo”, dizia a receita da avó. Sim, era de um pouco de veludo que precisava. O veludo da companhia dele, da quentura da sua presença macia. Mas tinha que se contentar com o doce na caçarola.
Mexeu bastante, até engrossar. Enquanto o creme esfriava, pôs-se a cortar as maçãs em meia-lua: tirou as sementes, cortou as fatias finas, jogou algumas gotas de limão para atrasar a oxidação.
O filho apareceu para roubar umas fatias, mas não se interessou em ficar. “já vai ficar pronto?”, mas a resposta negativa o levou de volta à sala, dessa vez para um desenho colorido.
Assou a massa até dourar. E quando o creme estava frio, colocou as duas gotas de baunilha e a lata de creme de leite, sem soro. Misturou bem, regozijando-se na textura lisa e amarelada. Na panela, a vida era macia e sem tumores.
Suspirou demoradamente antes de pegar a travessa com a massa e despejar, pão-duro em punho, o creme amarelado até quase as beiradas. Por cima, arranjou delicada as fatias finas de maçã, concêntricas. E só então se lembrou da cobertura, então correu para espremer duas laranjas e leva-las ao fogo com duas colheres de maisena. Ufa! Caldo engrossado, despejou-o sobre a torta, as meias-luas eclipsadas de laranja, já começando a cozinhar antes mesmo de entrar no forno.
Quantos anos não fazia aquela torta. Nos vinte anos que viveram juntos, nunca. Não era nem o trabalho, mas o medo de errar o ponto do creme, de servir as maçãs dançando soltas no branco aguado. Hoje, porém, o creme no ponto em poucos minutos. Agora, porém, o arrependimento até pelos erros não cometidos.
Depois do jantar – o dia chegando ao fim e a ilusão de eternidade dos domingos a se romper – ela e o filho inaugurando a torta. Meio a medo, o filho afirma “dessa torta o papai ia gostar”. O peito encharcado transbordando no olho enquanto corta o segundo pedaço. “Ele ia, não é?”. A torta derretendo na boca feito a vida no correr tempo.

22 abril, 2012

talho

a semana passa rápido e o leite que ia ser iogurte se recusa a ferver: erra em soro e azedo. o inesperado acorda atavismos e decido fazer doce de leite. não sem antes consultar a minha avó - na casa dela, o leite direto da fazenda da D. Helena a borbulhar longamente, espalhando pela cozinha o cheiro doce da espuma assanhada na fervura. ela me manda colocar uma xícara de açúcar e me explica que, se eu quiser que fique pronto mais rápido, melhor é tirar o soro. eu agradeço, desligo o telefone e logo vou tratar de transformar o que estava coalhado em grãozinhos de doçura: sem pressa, misturo açúcar, acendo o fogo, e me distraio com o almoço, com as bolachinhas de chocolate, com o bolo de fubá. uma, duas, três horas pro que era azedume coagular em brandura. o branco amarelando, amarelando, até o marrom característico. o cheiro bom perfumando o domingo cinzinha e úmido, fazendo a alegria do filho pequeno a roubar uma colherada da compota recém-feita.
me talhou o leite, mas o que era catástrofe cotidiana virou festa: guiando a minha mão, os hábitos e habilidades da minha avó e antes dela a tia-avó e antes dela... uma, duas, três gerações pro que era necessidade transfigurar em capricho. no talhar do leite, o talho de uma linhagem.

19 julho, 2010

Variadas


* Até tinha começado outro post, no final de semana, mas aí Rodrigo está de novo baqueado de gripe, de modo que passamos o final de semana meio de molho. Mas também, como é que podia ser diferente, com o frio dolorido que andou fazendo? So da mesmo vontade é de ficar amontoadinho, enrolado no edredom, tomando chá de hortelã e comendo...

* E por falar em comer, para distrair o Rodrigo uma estratégia que é (quase) sempre um sucesso é cozinhar. Na sexta-feira à tarde, decidimos então fazer muffins de blueberry (a partir da receita da Neide, de muffins de pitanga) e cookies de banana (a partir da receita que ele trouxe do Familiarte).

Os muffins ficaram deliciosos e a gente fez direitinho como manda a receita, com exceção, talvez, das raspas de limão, pois em casa só tinhamos do limão tahiti (quero dizer, até tinha um restinho de limão rosa, mas a casca não estava convidativa à experiências...). 

Vou confessar: estava traumatizada de experiências com muffins - eu tinha tentado fazer duas vezes, para levar ao piquenique, os muffins de maçã de um livrinho que tenho em casa. Da primeira vez eles não cresceram - fiasco total. Da segunda, foi pior: os tais ficaram salgados (culpa minha que li na pressa e botei bicarbonato a mais). Mas a receita do Come-se estavam tão convidativos... Quando saíram do forno, marido exclamou "agora sim!!!".

E respondendo ao pedido da Priscila, a receita dos cookies de banana é a seguinte:

Ingredientes

1 xícara (chá) de manteiga
1 banana amassada
2 colheres (sopa) de água
1 e 1/2 xícara (chá) de açúcar mascavo
1 xícara (chá) de çúcar cristal
2 xícaras (chá) de farinha de trigo (branca, integral ou meio a meio)
2 xícaras (chá) de aveia em flocos finos
1 colher (chá) de fermento em pó

Numa tigela, junte a manteiga, a água, os açucares e a banana amassada. Em outra tigela, coloque a farinha, o fermento, a aveia e misture bem.
Feito isso, misture todos os ingredientes formando uma massa homogênea com bastante liga. Unte uma assadeira grande e pré-aqueça seu forno. Enquanto isso, vá fazendo bolinhas, achate-as e depois as coloque na assadeira. Leve para assar em fogo baixo por 15 minutos e assim que as bordas dos cookies ficarem douradas, é hora de tirá-las.
Você pode também acrescentar na massa gotas de chocolate (granulados costumam ressecar), passas ou nozes.

Fica simplesmente maravilhoso. Os daqui de casa, mesmo eu tendo deixado passar do ponto e ficar mais durinhos, acabaram rapidinho!

* Ontem, fiquei assistindo a entrevista do Zizek no Roda-Viva. Vale muito a pena!

* E acho que por enquanto é isso: essa navegação mansa pelas superfícies do viver... É que às vezes a gente precisa mesmo disso - tomar folêgo e despressurizar antes de empreender um novo mergulho.