que é doce, mas não é nem um um pouco mole. boa noite, então, pra quem pode dormir. hoje eu fico entre livros (acadêmicos) e boa música. trabalhando, trabalhando e trabalhando. ao menos até o corpo aguentar!
Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo. Porque esta noite/ Olhei-me a mim, como se tu me/ olhasses. E era como se a água Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. (Hilda Hilst)
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30 maio, 2015
22 abril, 2015
o risco da segurança
"La sécurité, c'est se retenir au bord du désastre. La sécurité détermine cette temporalité du délai, du 'temps qui reste' - comme dans le qui tenet de saint Paul. La sécurité, c'est: encore un peu, toujours pareil. La sécurité reconduit, persévère, insiste. Elle tient, maintient, retient. Or la catastrophe surtout, écrivait Walter Benjamin, c'est que tout continue comme avant. Arrimé au dogme de la sécurité du marché, e néocapitalisme n'a tiré et ne tirera aucune leçon des crises. Les profiteurs du système (décideurs financiers, médiatiques, industriels, politiques) sont à ce point comblés qu'ils doivent pouvoir se dire, sauf à paraître à leurs propres yeux de monstres, que leur situation est juste, méritée, résultat d'évaluations convergentes et exactes, et qu'ils ne prennent rien aux autres. Le marché est infaillible. Tout continuera comme avant, la catastrophe insiste, et la sécurité n'est rien d'autre que cette insistance. Tant que les profiteurs seront les décideurs. L'accroissement exponentiel des inégalités sociales exigera certes toujours davantage des dispositifs 'sécuritaires' au sens cette fois où il faudra bien corriger les effects 'à la marge' des marchés prétendument autorégulés: la rage vide et la colère aveugle des dépossédes, des endettés, des rejetés, des déchets. Les régimes néolibéraux sont voués à devenir des États policiers, comme il faudra toujours plus contenir les explosions de la misère. La dégradation rapide et irréversible de l'environnement animera toujours davantage, à chaque cataclysme, en contrpoids dérisoire, le mythe d'une société reflexive, d'une modernité éclairée, consciente des risques, et prête cette fois à prendre la mesure du danger encouru par tous. Mais comme le dogme de la sécurité du marché considère toute intervertion publique, toute volonté politique comme malvenue, falsifiante, calamiteuse, on peut être certain que rien ne sera fait pour freiner la mise à sac illimitée de la planète, l'aveuglement productiviste, l'augmentation délirante des inégalités.
La sécurité (la catastrophe), c'est quand tout continue comme avant" (Fréderic Gros, Le Principe Sécurité. Paris: Éditions Gallimard, 2012: p.237-8).
- Crítica da Razão Negra (trecho do livro de Achille Mbembe).
04 setembro, 2013
ainda Agamben (só que Nuno Ramos)
E daí que lendo "O que é um dispositivo?", me distraio e escuto mesmo o primeiro texto de Ó, livro do Nuno Ramos que a Ellen, uma aluna querida que tive por companhia no semestre passado, gentilmente me emprestou e que vou lendo aos poucos, antes de dormir - alternando com algumas HQs e o estranhíssimo Contos para crianças impossíveis, de Jacques Prévert (descaradamente emprestado do filho, que por sua vez trouxe da biblioteca circulante da escola e não estava com cara de quem ia ler).
"Como todos os processos excessivamente contínuos, é preciso que nos
lembremos do envelhecimento de um ponto de vista absolutamente exterior
(em frases como “Não tenho idade para”, “Naquela época” ou “Quando eu
era menino”) ou, ao contrário, de um interior imediato, muitas vezes
corpóreo - na completa falta de ar após uma corrida, no rompimento
estúpido de algum músculo. Mas é então, sob a sentença de um
envelhecimento inevitável, que alguma coisa em mim parece querer, e
poder, sobrevoar meu corpo, livrar-se dele - um misto de olhar para
longe e de respiração, um amálgama aflito de palavras, a melodia como
porta ou túnel, o instante que cava minha pegada numa paisagem imensa e
posso então devorar nas plantas a sua carne amarga e lançar meu pêlo
molhado sobre a minha vítima. Mas esta alegria progressiva precisa de
alimento constante e o próprio corpo, em sua casca, parece não resistir
bem a ela, tornando-se inquieto, ofegante e, aos poucos, cansado e
deprimido. Como um balão cujo gás vai escapando, a energia insana de
nossa alegria física procura abrigo - nas imagens, nos braços de outra
pessoa e, no limite, pois é a isto que sempre recorre, na linguagem. É
ali que a tentamos prender, antes que o gás escape de uma vez e sejamos
tão somente os espectadores de nossa própria decrepitude, de nossa fusão
indeterminada na matéria.
Chegamos então à beira do velho precipício - o entusiasmo das palavras vagas. É a este antigo último recurso que recorremos sempre – exclamações ou frases compulsivas que não conseguimos deixar de dizer. Talvez seja melhor tratar agora desta estranha ferramenta, a linguagem, que me põe para fora do meu corpo - tentar apreendê-la, indeciso entre o mugido daquilo que vai sob a camisa e a fatuidade grandiosa de minhas frases. Sem conseguir escolher se a vida é bênção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, micro-organismos onde a vontade é una, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, órgãos entranhados na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem? [...]
Chegamos então à beira do velho precipício - o entusiasmo das palavras vagas. É a este antigo último recurso que recorremos sempre – exclamações ou frases compulsivas que não conseguimos deixar de dizer. Talvez seja melhor tratar agora desta estranha ferramenta, a linguagem, que me põe para fora do meu corpo - tentar apreendê-la, indeciso entre o mugido daquilo que vai sob a camisa e a fatuidade grandiosa de minhas frases. Sem conseguir escolher se a vida é bênção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, micro-organismos onde a vontade é una, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, órgãos entranhados na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem? [...]
Mas talvez não importe tanto fabular sobre a origem da linguagem quanto
compreender a enorme cisão que ela causou. Pois uma vez amarrada esta
corda entre todos, uma vez expulsos ou mortos aqueles que não quiseram
valer-se dela, não há mais qualquer possibilidade de retorno, pois é
próprio da mais estranha das ferramentas, da mais exótica das invenções
(a linguagem), parecer tão natural e verdadeira quanto uma rocha, um
cajado ou uma cusparada. Este é seu verdadeiro fundamento, sua, digamos,
astúcia - a de substituir-se ao real como um vírus à célula sadia. Há
aí uma potência de esquecimento que não pode ser diminuída, uma
armadilha na agonia que serviu a alguns (e não a todos), sacrificando
violentamente aqueles que não a utilizaram.
Restam hoje apenas algumas pistas desta origem ou, para dizer de outro modo, alguns sinais fora da linguagem. Parece uma experiência cotidiana, ainda acessível a todos, estranhar subitamente o som de determinada palavra como demasiado abstrato ou inverossímil em relação àquilo que designa, e o velho jogo infantil de repetir indefinidamente um mesmo vocábulo até que perca completamente qualquer ligação com aquilo que procura indicar talvez queira nos conduzir, apenas, de volta a uma época em que cada coisa tinha seu peso sinestésico, e tanto a cor como o sabor como a imagem eram o índice livre para aquele pássaro flechado. A própria diversidade de línguas, absolutamente cômica para quem as escuta sem entender, remete também à arbitrariedade de origem, a esta reunião primeva de feridos em busca de consolo e proteção que expulsou para longe, ou mesmo matou, os primeiros heróis mudos. Quando entramos em choque com algo inaceitável ou excessivamente belo e ficamos, literalmente, sem palavras, estamos recuperando esta etapa adormecida da nossa natureza.
O problema, no entanto, é que mesmo então, por vício de origem, queremos comunicar o que está acontecendo. E para isto precisamos dela, e tudo recomeça novamente. Há aqui uma astúcia ainda mais escondida, que precisa de explicação. Voltemos à comunidade dos doentes. É claro que, passada a epidemia ou passadas as conseqüências de algum cataclisma ou ataque, os doentes vão aos poucos tornando-se sãos, ganhando de volta a antiga confiança e desprezando aqueles sinais coletivos acumulados nos últimos tempos. Querem agora retornar à existência nômade, à barca forrada de peles que os leva rio abaixo, entre animais e pomos dourados. Por que não o fazem? Por que não retomam sua condição e seguem os passos daqueles que expulsaram? Porque já não podem, contaminados pelo novo vírus? Talvez, mas o mais provável é que tenha sido por temor àqueles que expulsaram. O irônico disto tudo é que o instinto de algum modo coletivo da linguagem só pôde desenvolver-se ao transformar em vítimas os primeiros heróis mudos. É o anel de seu exílio, circundando os novos povos falantes (como Polifemos em torno da gruta de Ulisses), que preservou a linguagem, tornando-a imprescindível à sobrevivência.
Talvez estes heróis mudos, que nunca exprimiram dor, rancor nem pasmo diante da natureza, organizando-se em núcleos extremamente isolados, tenham se distanciado cada vez mais das comunidades onde grassava a linguagem, que temiam, enfrentando as adversidades a seu modo, sem qualquer previdência. Cercados por seus antigos pares, que agora já plantavam e caçavam com armas muito mais refinadas do que as suas, devem ter provado da melancolia e da tristeza que têm as vidas em extinção. E devem ter provado disso integralmente, em seus próprios ossos, na aspereza de sua pele, sem a anestesia das palavras. E o último deles, ao morrer sozinho, terá lançado àqueles estranhos seres falantes, que já lhe tomavam a gruta, uma terrível maldição calada. O enigma deste rancor, que paradoxalmente não chegou a ser exprimido em sons articulados ou gestos reconhecíveis, açoda de perto todas as línguas vivas ou mortas, amaldiçoando o seu pacto de origem" (Nuno Ramos. Ó. São Paulo: Iluminuras, 2008).
Restam hoje apenas algumas pistas desta origem ou, para dizer de outro modo, alguns sinais fora da linguagem. Parece uma experiência cotidiana, ainda acessível a todos, estranhar subitamente o som de determinada palavra como demasiado abstrato ou inverossímil em relação àquilo que designa, e o velho jogo infantil de repetir indefinidamente um mesmo vocábulo até que perca completamente qualquer ligação com aquilo que procura indicar talvez queira nos conduzir, apenas, de volta a uma época em que cada coisa tinha seu peso sinestésico, e tanto a cor como o sabor como a imagem eram o índice livre para aquele pássaro flechado. A própria diversidade de línguas, absolutamente cômica para quem as escuta sem entender, remete também à arbitrariedade de origem, a esta reunião primeva de feridos em busca de consolo e proteção que expulsou para longe, ou mesmo matou, os primeiros heróis mudos. Quando entramos em choque com algo inaceitável ou excessivamente belo e ficamos, literalmente, sem palavras, estamos recuperando esta etapa adormecida da nossa natureza.
O problema, no entanto, é que mesmo então, por vício de origem, queremos comunicar o que está acontecendo. E para isto precisamos dela, e tudo recomeça novamente. Há aqui uma astúcia ainda mais escondida, que precisa de explicação. Voltemos à comunidade dos doentes. É claro que, passada a epidemia ou passadas as conseqüências de algum cataclisma ou ataque, os doentes vão aos poucos tornando-se sãos, ganhando de volta a antiga confiança e desprezando aqueles sinais coletivos acumulados nos últimos tempos. Querem agora retornar à existência nômade, à barca forrada de peles que os leva rio abaixo, entre animais e pomos dourados. Por que não o fazem? Por que não retomam sua condição e seguem os passos daqueles que expulsaram? Porque já não podem, contaminados pelo novo vírus? Talvez, mas o mais provável é que tenha sido por temor àqueles que expulsaram. O irônico disto tudo é que o instinto de algum modo coletivo da linguagem só pôde desenvolver-se ao transformar em vítimas os primeiros heróis mudos. É o anel de seu exílio, circundando os novos povos falantes (como Polifemos em torno da gruta de Ulisses), que preservou a linguagem, tornando-a imprescindível à sobrevivência.
Talvez estes heróis mudos, que nunca exprimiram dor, rancor nem pasmo diante da natureza, organizando-se em núcleos extremamente isolados, tenham se distanciado cada vez mais das comunidades onde grassava a linguagem, que temiam, enfrentando as adversidades a seu modo, sem qualquer previdência. Cercados por seus antigos pares, que agora já plantavam e caçavam com armas muito mais refinadas do que as suas, devem ter provado da melancolia e da tristeza que têm as vidas em extinção. E devem ter provado disso integralmente, em seus próprios ossos, na aspereza de sua pele, sem a anestesia das palavras. E o último deles, ao morrer sozinho, terá lançado àqueles estranhos seres falantes, que já lhe tomavam a gruta, uma terrível maldição calada. O enigma deste rancor, que paradoxalmente não chegou a ser exprimido em sons articulados ou gestos reconhecíveis, açoda de perto todas as línguas vivas ou mortas, amaldiçoando o seu pacto de origem" (Nuno Ramos. Ó. São Paulo: Iluminuras, 2008).
Este primeiro texto do livro você encontra na íntegra na revista Modo de Usar & Co, onde também há uma bonita resenha.
03 setembro, 2013
Amizade*
"A amizade é tão estreitamente ligada à própria definição da filosofia que se pode dizer que sem ela a filosofia não seria propriamente possível. A intimidade entre amizade e filosofia é tão profunda que esta inclui o philos, o amigo, no seu próprio nome e, como frequentemente ocorre para toda proximidade excessiva, corre o risco de não conseguir realizar-se. No mundo clássico, essa promiscuidade e quase consubstancialidade do amigo e do filósofo era presumida, e é certamente por uma intenção de alguma maneira arcaizante que um filósofo contemporâneo - no momento de colocar a pergunta extrema "O que é a filosofia?" - pode escrever que esta é uma questão para ser tratada entre amis. De fato, hoje a relação entre amizade e filosofia caiu em descrédito, e é com uma espécie de embaraço e de má consciência que aqueles que fazem da filosofia uma profissão tentam acertar as contas com este partner incômodo e, por assim dizer, clandestino de seu pensamento. [...]
É possível que para esse incômodo dos filósofos modernos tenha contribuído o particular estatuto semântico do termo "amigo". É notório que ninguém jamais conseguiu definir de modo satisfatório o significado do sintagma "eu te amo", tanto que se poderia pensar que este tenha caráter performativo - isto é, que o seu significado coincida com o ato do seu proferimento. Considerações análogas poderiam ser feitas para a expressão "sou seu amigo", mesmo se aqui o recurso à categoria do performativo não pareça possível. Ao contrário, penso que "amigo" pertença àquela classe e termos que os linguistas definem não-predicativos, isto é, termos a partir dos quais não é possível construir uma classe de objetos na qual inscrever os entes a que se atribui o predicado em questão. "Branco", "duro", "quente" são certamente termos predicativos; mas é possível dizer que "amigo" defina, nesse sentido, uma classe consistente? Por estranho que possa parecer, "amigo" compartilha essa qualidade com uma outra espécie de termos não-predicativos, os insultos. Os linguistas demonstraram que o insulto não ofende quem o recebe porque o inscreve numa categoria particular (por exemplo, aquela dos excrementos, ou dos órgãos sexuais masculinos ou femininos, segundo as línguas), o que seria simplesmente impossível ou, de qualquer modo, falso. O insulto é eficaz exatamente porque não funciona como uma predicação constativa, mas sim como um nome próprio, porque chama na linguagem de um modo que o chamado não pode aceitar, e do qual, todavia, não pode se defender (como se alguém insistisse em me chamar Gastone, sabendo que me chamo Giorgio). Isto é, aquilo que ofende no insulto é uma pura experiência da linguagem, e não um referimento ao mundo.
Se isso é verdadeiro, "amigo" compartilharia essa condição não apenas com os insultos, mas com os termos filosóficos que, como se sabe, não têm uma denotação objetiva, e, como aqueles termos, que os lógicos medievais definiam "transcendentes", significam simplesmente o ser. [...]
[Seguindo o desenvolvimento de Aristóteles, na Ética a Nicômaco] Os amigos não condividem algo (um nascimento, uma lei, um lugar um gosto): eles são com-divididos pela experiência da amizade. A amizade é a condivisão que precede toda divisão, porque aquilo que há para repartir é o próprio fato de existir, a própria vida. E é essa partilha sem objeto, esse com-sentir originário que constitui a política. [...].
(Giorgio Agamben, O amigo. In: ___. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. 5ª reimp. Chapecó: Argos, 2013. Trad.: V. N. Honesko, p.79-82).
* Com gratidão ao amigo Mauricio, por ter falado do livro com entusiasmo, por ter me levado à livraria e literalmente por ter me posto o livro às mãos. E, claro, por tudo que nos condivide.
14 maio, 2013
para atravessar (outra) noite de trabalho
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11 maio, 2013
27 abril, 2013
em boa companhia
Trilha sonora para uma noite de trabalho. E para um mês de espera até sair o novo álbum - a ter em consideração as músicas que eles já circularam, vai rapidamente virar vício!
22 abril, 2013
pra começar a semana
já que tem vezes que só uma boa trilha sonora nos leva adiante:
27 junho, 2012
crítica
Roger Bastide, sobre Antonio Candido:
"Não estou contente com seus últimos livros. A rigor aceito que o sociólogo e o filósofo precisam se esforçar para serem entendidos por todo mundo; que atenuem suas pesquisas e escondam todo o material sobre o qual repousa seu edifício, seus trabalhos pacientes de aproximação, suas fichas documentárias, suas elaborações estatísticas. Mas, noto no senhor uma tendência mais grave - fazer da poesia um método de sociologia" (citado por Luiz Carlos Jackson. A tradição esquecida. Estudo sobre a sociologia da Antonio Candido. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 16, n. 47, outubro, 2001, p.127-140.
* e pensar que da última vez que fui organizar uma fala por pouco não ia brincando que aprendi mesmo a fazer sociologia lendo a Hilda Hilst ;-)
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26 junho, 2012
experiências
"A experiência, e não a verdade, é o que dá sentido à escritura. Digamos, com Foucault, que escrevemos para transformar o que sabemos e não para transmitir o já sabido. Se alguma coisa nos anima a escrever é a possibilidade de que esse ato de escritura, essa experiência em palavras, nos permita liberar-nos de certas verdades, de modo a deixarmos de ser o que somos para ser outra coisa, diferentes do que vimos sendo.
Também a experiência, e não a verdade, é o que dá sentido à educação. Educamos para transformar o que sabemos, não para transmitir o já sabido. Se alguma coisa nos anima a educar é a possibilidade de que esse ato de educação, essa experiência em gestos, nos permita liberar-nos de certas verdades, de modo a deixarmos de ser o que somos, para ser outra coisa para além do que vimos sendo".
(Jorge Larrosa e Walter Kohan, na apresentação da Coleção Educação: Experiência e Sentido, coordenada por ambos na Editora Autêntica).
26 outubro, 2011
epígrafe futura
via Juan Yanes, a quem vale muito visitar para conhecer as fotos com que ilustra este texto.
(Texto que fica ainda mais perfeito depois de ter ouvido falar, hoje de manhã, a Jeanne-Marie Gagnebin, sobre Paul Ricouer e uma ética da memória, capaz de nos ajudar a sepultar os mortos, fazendo justiça a Fulanos, Cicranos e Beltranos).
¡Si en la historia no hubiera más que batallas; si sus únicos actores fueran las celebridades personales, cuán pequeña sería! Está en el vivir lento y casi siempre doloroso de la sociedad, en lo que hacen todos y en lo que hace cada uno. En ella nada es indigno de la narración, así como en la Naturaleza no es menos digno de estudio el olvidado insecto que la inconmensurable arquitectura de los mundos. Los libros que forman la capa papirácea de este siglo, como dijo un sabio, nos vuelven locos con su mucho hablar acerca de los grandes hombres, de si hicieron esto o lo otro, o dijeron tal o cual cosa. Sabemos por ellos las acciones culminantes, que siempre son batallas, carnicerías horrendas, o empalagosos cuentos de reyes y dinastías, que preocupan al mundo con sus riñas o con sus casamientos; y entretanto la vida interna permanece oscura, olvidada, sepultada. Reposa la sociedad en el inmenso osario sin letreros ni cruces ni signo alguno: de las personas no hay memoria, y sólo tienen estatuas y cenotafios los vanos personajes… Pero la posteridad quiere registrarlo todo: excava, revuelve, escudriña, interroga los olvidados huesos sin nombre; no se contenta con saber de memoria todas las picardías de los inmortales desde César hasta Napoleón; y deseando ahondar lo pasado quiere hacer revivir ante sí a otros grandes actores del drama de la vida, a aquellos para quienes todas las lenguas tienen un vago nombre, y la nuestra llama Fulano y Mengano. Benito Pérez Galdós (Las Palmas de Gran Canaria, 1843 – Madrid, 1920)
20 setembro, 2010
segunda-feira
- minha mãe esteve em Maputo e voltou tocadíssima com o país e, sobretudo, o povo. Voltou também com um quebra-cabeça muito legal de madeira, tridimensional - o do Rodrigo é um hipopótamo. Ontem, ficamos Rô e eu, ainda de pijamas, por quase duas horas montando o bichinho. Bobinhos, começamos a destacar as peças da placa de madeira antes de ler as instruções e depois tivemos que recolocar todas, para poder identificar o número das peças pela posição! Foi bem divertido... Rodrigo, de vez em quando, olhava aquilo tudo e dizia "não tô entendendo mais nada...". Pior que tinha hora que eu também não :-)
- Fomos ao Festival Internacional de Cinema Infantil, ontem, que era o último dia. Pegamos a sessão de curtas - foi bacana, mas como os curtas são muito diferentes (inclusive do ponto de vista da qualidade), Rodrigo se encheu e acabamos saindo antes do fim. Agora, esse curta aqui, que foi premiado no Festival, valeu muito a pena! É tão simples e delicado. As lagriminhas teimosas rolaram bochecas abaixo :-)
- Falando em lagriminhas teimosas, estamos desenvolvendo um projeto na disciplina que estou dando este semestre de coleta de memórias escolares. Pra quem quiser ler - e também comentar ou mesmo escrever a própria lembrança - as histórias coletadas até agora estão no blog Memórias dos Tempos de Escola. Enquanto vou subindo as histórias e lembranças, de vez em quando me acomete uma lembrança das minhas próprias experiências escolares... Agora mesmo, me lembrei da festa do estojo no começo do ano: a caixinha verde, com tampa de madeira, plena de lápis pretos, 12 lápis coloridos, apontador e borracha. Caneta bic, só na 5ª série... E o sonho de consumo era ter um daqueles estojos de pano, em que as canetas e lápis ficavam presos com elástico! (desses, eu nunca tive). Nossa! Até fui parar de repente naquela sala de 1º série, da "Tia" Déia, que parecia tão grande (embora fossémos apenas uns 15 alunos na sala) e tinha uma porta direta para a sala da direção! Não tenho saudade da escola, mas dá uma nostalgiazinha, sim, daquela percepção do tempo e do espaço, em que o mundo era amplo, o tempo era largo e tudo estava por ser conhecido.
- quando, no final do domingo, a gente percebe que esqueceu durante todo o fim de semana de tomar o remédio para ajudar a lidar com o stress, deve ser algo bom, né?
25 julho, 2010
Falando da vida, falando da morte
O post que eu tinha começado a semana passada continua do mesmo jeitinho - inacabado.
Mas pelo menos o post que também estava no rascunho há tempos, no Margens, hoje deu pra escrever: Quando a vida é uma ordem. É sobre cuidados paliativos. Eu sei, o assunto não é exatamente agradável, mas nem por isso é menos necessário pensá-lo e falar sobre ele.
Tem uma expressão de que gosto muito e que, apesar dela se referir especificamente a tratamentos alternativos em saúde, acho que cabe em discussões como essas: "medicina doce". Pra mim, como paciente e usuária do sistema de saúde, quando penso em como gostaria de ser não somente tratada, mas cuidada pelos profissionais de saúde, é com essa "doçura" de que os cuidados paliativos também são exemplo: respeito à vida, informações claras e claramente comunicadas, o mínimo de exames e tratamentos agressivos ou invasivos...
Mudando de alhos para buganvílias (meu avó falava de alhos para bugalhos, mas a Veronika subverteu a expressão e todos concordamos que bungavílias são tudo de bom nessa vida...), hoje assisti comediazinha romântica com o moço bonito que eu adoro... bobinha e previsível (como todas as comédias românticas), mas gostosinha. Pra botar o coração de molho no vinho e ver se a segunda-feira amanhece macia...
Ah! Pra terminar com boniteza:
Orvalho
O poema se vestiu de nuvem
e no horizonte adormeceu lilás.
E o frio que seguiu foi culpa do vento:
espalhou a poesia em gotas.
e no horizonte adormeceu lilás.
E o frio que seguiu foi culpa do vento:
espalhou a poesia em gotas.
Thalita Martins, nos Pássaros Achados. Lindo, não? E uma das coisas que eu mais gosto nessa vida é grama molhada de orvalho - o cheiro, a sensação de pés descalços... "poesia em gotas", que a gente sorve homeopaticamente, mais para alimentar a sede do que para saciá-la.
Imagem: www.gettyimages.com
05 abril, 2010
Sete dias na vida de uma luz
durante sete dias
uma luz transformou
a dor em dia
uma luz que eu não sabia
se vinha comigo
ou nascia sozinha
durante sete dias
uma luz brilhou
na ala dos queimados
queimou a falta
queimou tudo
que precisava ser cauterizado
milagre além do pecado
que sentido pode ter
mais significado?
(Paulo Leminski)
uma luz transformou
a dor em dia
uma luz que eu não sabia
se vinha comigo
ou nascia sozinha
durante sete dias
uma luz brilhou
na ala dos queimados
queimou a falta
queimou tudo
que precisava ser cauterizado
milagre além do pecado
que sentido pode ter
mais significado?
(Paulo Leminski)
Mesmo com o Rodrigo aqui do meu lado, meio doentinho da virose que o acometeu essa madrugada, vou roubar uns minutinhos pra escrever sobre a semana passada. Entre segunda e quinta-feira, eu estive prestando um concurso para professor, na Faculdade de Educação da USP. O processo de inscrição começou no final do ano passado, com o preparo do Memorial e do Plano de Trabalho e há um pouco mais de um mês ficamos sabemos na data.
Quando decidi me inscrever, foi pensando em conhecer um processo de concurso público, já que fazer pesquisa e dar aulas têm sido meus objetivos há anos e anos. Não tinha expectativas de passar, porque afinal sou recém-doutora e o concurso era pra Sociologia da Educação, ou seja, tinha toda uma bibliografia que ou eu tinha lido pouco ou não tinha lido. À medida que eu ia fazendo as leituras, porém, fui ficando bastante animada, não especialmente com a possibilidade de passar (que eu achava ser remota) mas com a possibilidade de ler coisas não estritamente ligadas ao que vim pesquisando ao longo desses anos, com as fichas que iam caindo, com o novo universo de questões que se abriam.. Estudar para esse concurso foi um processo intenso, que me fez rever minha relação com a "herança" intelectual dos meus professores e da escola onde estudei - a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP -, reacendeu a minha paixão pela pesquisa e pela Sociologia, me fez reavaliar algumas das minhas escolhas, enfim: talvez não tenha sido coincidência que esses trinta dias de preparação mais intensa tenham ocorrido dentro do tempo de Quaresma - foi tempo de reflexão, concentração e, em certo sentido, de cura de todas as cicatrizes que o final do doutorado deixou em mim.
O concurso começou na segunda-feira, com a lista de pontos; na terça-feira fizemos a prova escrita (cinco horas de prova!) e a leitura pública da prova; passamos três para a segunda fase, assim, na quarta fomos sortear o ponto da prova didática e, na quinta-feira, foram as aulas de manhã e a arguição do Memorial à tarde. E então, por volta das 17h, ficamos sabendo do resultado: eu passei! Sabe quando a gente não entende bem o que está acontecendo? Eu ouvi a leitura da ata da banca examinadora, depois olhava aquelas notas projetadas na parede, e não sabia se deveria comemorar ou se aquilo era um universo paralelo... Fiquei lá, sentada, tentando ter certeza se era isso mesmo. É que é sempre um pouco estranho quando uma coisa que a gente sonhou e planejou por tanto tempo acontece.
Então é isso. No final de semana, descansamos, encontramos a familiagem toda e curtimos a notícia. Porém, a volta das minhas insônias me alerta que daqui pra frente é muito trabalho e novos desafios. Mas é ansiedade boa, fecunda, de borboletas no estômago voando em festa.
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vastas emoções
29 março, 2010
Anotação rápida
"O Brasil é feito por nós. Só falta agora desatar os nós".
Barão de Itararé
Barão de Itararé
16 fevereiro, 2010
Associação Livre
Estou revisando uma dissertação em Psicologia, muito bacana, e por causa disso confesso que tenho tido sonhos mais estranhos que o normal. E aí, hoje, trabalhando, me veio à cabeça com muita clareza uma música do Caetano Veloso, que eu conheço de tanto ouvir numa fita cassete com a trilha de Malu Mulher. (Afinal, quer coisa mais associada à Freud do que a pergunta "o que é que quer uma mulher?").
A música chama Pecado Original e a versão da trilha sonora não é cantada pelo Caetano, mas pela Zezé Motta e eu acho até que a versão é ainda mais eloquente do que a do Caetano. Teve uma época em que eu ouvia muito essa música, porque ela é tão boa, tão exata, tão leonina. Adoro.
Então, às vésperas do início da Quaresma, nada melhor que lembrar que em tudo há inferno e céu.
* Esse clipe foi a única versão (postável num blog familiar) da música. Abstraiam as legendas, please!
22 novembro, 2009
Livros
Nesta sexta-feira,dia 27 de novembro de 2009, a Annablume realizará o lançamento de quatro títulos que integram a Coleção Trabalho e Contemporaneidade, dentre os quais o meu "Entre Desalento e Invenção":
Para quem quiser saber mais sobre o livro, um pouquinho dele pelo mundo:
Desalento Paulistano (Boletim FAPESP, em 19/10/2009)
Matéria Rede Brasil Atual (9/11/2009)
Entrevista ao Pesquisa Brasil (Eldorado AM e Revista FAPESP)
Esta semana tem ainda a Feira de Livros na USP, com diversas editoras vendendo a pelo menos 50% de desconto. De 4ª a 6ª feira, no Prédio da História e Geografia (na Cidade Universitária).
- Entre Desalento e Invenção: experiências de desemprego e desenraizamento em São Paulo. Fabiana Jardim.
- Em busca do "novo": intelectuais brasileiros e movimentos populares nos anos 1970/80. Marco Antonio Perruso
- O trabalho reconfigurado: ensaios sobre Brasil e México. Marcia de Paula Leite e Angela Maria Carneiro Araújo
- Entre a solidariedade e o risco: sindicatos e fundos de pensão em tempos de governo Lula. Maria A. Chaves Jardim
Para quem quiser saber mais sobre o livro, um pouquinho dele pelo mundo:
Desalento Paulistano (Boletim FAPESP, em 19/10/2009)
Matéria Rede Brasil Atual (9/11/2009)
Entrevista ao Pesquisa Brasil (Eldorado AM e Revista FAPESP)
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Esta semana tem ainda a Feira de Livros na USP, com diversas editoras vendendo a pelo menos 50% de desconto. De 4ª a 6ª feira, no Prédio da História e Geografia (na Cidade Universitária).
28 outubro, 2009
Sagarana
Vixe, que anda difícil roubar tempo para sentar e escrever! A semana passada foi uma trabalheira interminável, fim-de-semana corrido (felizmente, por razões boas, já que só corremos tanto porque temos gente muito querida, que nos faz largar a casa de perna pro ar só para poder estar presente...) e muita estrada percorrida entre domingo e ontem - fomos e voltamos de Caxambu, parando em São José para deixar o Rô, que ficou três dias com os avós.
Sábado começou com encontro gostoso e há muito planejado, no Parque da Água Branca, com a Eli, o Joha e os meninos deles - que não víamos há um ano! O tempo obviamente foi curto, mas nem por isso deixou de ser gostoso... E o Rodrigo, tadinho, que acho que estava tão cansado do mofo dos fins de semana chuvosos e que, mal pôs o pé no Parque, soltou: "Ai, que delícia estar no Parque!".
Aliás, o Rô tá uma coisa de querido. Tão absurdamente companheiro, tão esperto e falante... Depois do parque fomos almoçar, e o cara simplesmente não pára de tagarelar: tudo é assunto - lembranças, observações, projetos... O corpinho pequeno mal contém tanta vida, e deve ser por isso que a palavra predileta dele ultimamente é transbordar. A vida transborda pela boca, pelas mãos, pelas pernas, e inunda todo mundo ao redor. Meu coração também transborda, cheio de ternura e alegria, mas também de um pouco de medo e de vontade de ser imortal: não quero perder nem uma vírgula de tudo isso!
Depois fomos na festa dos meninos da Veronika, deliciosa e cheia de crianças contentes e açucaradas pulando e se divertindo. Rodrigo subiu em árvores, fez malabarismos com a A. M., escorregou com a A. Mas chegou em casa ainda agitado, frente à perspectiva de arrumar as malas e ficar na casa da avó, fazendo planos de brincadeiras com o primo e o avô e de aconchegos com a avó.
Domingo, saímos tarde e chegamos em SJC na hora do almoço. Demos uma de cachorro magro e saímos de casa antes das duas; mesmo assim, foram 4 horas pra andar 200 km, já que os últimos 100 km são bem sinuosos e ainda tinha chuva e neblina em alguns trechos. Edu matou sua vontade de dirigir em estrada antimonotonia, e eu enchi os olhos de paisagens, já que o fato de ter vivido grande parte da minha vida no Vale do Paraíba provavelmente me trouxe um gosto pelas montanhas. Adoro-adoro-adoro, bem mais que praia.
Domingo à noite, ainda assistimos Distrito 9, que por enquanto só posso classificar como surpreendente. Mas confesso que fiquei um pouco impactada com tantas cenas de guerra - o filme parece partir de uma perspectiva crua - nas cenas, nos sons, a gente tem a impressão de estar diante de algo que é difícil digestão, algo que é quase repulsivo, e que a gente bem queria que estivesse só no Outro...
Como o lançamento do livro era só na segunda à noite, passeamos um bocadinho, descansamos outro bocadinho e comemos uns bocadões, que a comida era boa, saborosa e leve.
A arquitetura do hotel em que ficamos me deu nostalgia da casa velha da minha avó, que ficava na beira da ferrovia... Era uma casa antiga, com seus azulejos velhos, louças antigas e amarelas... Nas minhas lembranças, a casa inteira tem um tom amarelecido: lembro dos banhos de bacia, do cachorro que ficou doente e que deve ter sido minha primeira experiência com a morte, dos ratos e baratas que infestaram a garagem abarrotada de recortes de jornal, do piano da minha mãe que só mais tarde foi morar na nossa casa, da banheira amarelo-claro, do chão de cimento queimado vermelho da varanda, dos vasos de arruda na beirada da porta, de onde o Seu Zé sempre pegava um galho para colocar atrás da orelha... No Hotel, várias dessas lembranças latejaram.
Na segunda à noite, junto com a abertura do 33º Encontro da ANPOCS, foi o lançamento dos muitos livros. A Annablume estava lá com 5 títulos da mesma coleção que o meu (Trabalho e Contemporaneidade) e mais um livro, que parece muito interessante, e é uma etnografia sobre o modelo de prevenção de AIDS e DSTs entre travestis. Foi bom rever tantas caras conhecidas, entre professores e colegas desde o tempo da graduação, embora eu confesse que sempre tenho dificuldades em lidar com essas relações velozes, de contatos abreviados... Eu sou lenta, não adianta, e depois fico remoendo a resposta que faltou ou aquela que, expressa rapidamente, saiu fora de tom.
De todo jeito, fiquei bem contente com o livro, porque foi um trabalho bacana mesmo - modéstia, modo off ;-). Aliás, há um tempo falei sobre ele para a Agência FAPESP (Desalento Paulistano) e a matéria ficou bem bacana - mesmo a entrevista tendo contado com a participação de certa criatura pequena que interrompia com frequência para me pedir para desenhar círculos ou cobrar o brigadeiro prometido como forma de descarado suborno, caso ele se comportasse durante a entrevista :-)
Ontem voltamos, parando na hora do almoço para resgatar Rodrigo, numa viagem que começou às 8h e terminou às 17h... E ainda saí correndo pra dar aula, super baqueada e querer-querendo ficar gripada, mas no fim deu tudo certo. Ufa!
Vamos ver se agora voltamos à programação normal.
Imagem: daqui.
Sábado começou com encontro gostoso e há muito planejado, no Parque da Água Branca, com a Eli, o Joha e os meninos deles - que não víamos há um ano! O tempo obviamente foi curto, mas nem por isso deixou de ser gostoso... E o Rodrigo, tadinho, que acho que estava tão cansado do mofo dos fins de semana chuvosos e que, mal pôs o pé no Parque, soltou: "Ai, que delícia estar no Parque!".
Aliás, o Rô tá uma coisa de querido. Tão absurdamente companheiro, tão esperto e falante... Depois do parque fomos almoçar, e o cara simplesmente não pára de tagarelar: tudo é assunto - lembranças, observações, projetos... O corpinho pequeno mal contém tanta vida, e deve ser por isso que a palavra predileta dele ultimamente é transbordar. A vida transborda pela boca, pelas mãos, pelas pernas, e inunda todo mundo ao redor. Meu coração também transborda, cheio de ternura e alegria, mas também de um pouco de medo e de vontade de ser imortal: não quero perder nem uma vírgula de tudo isso!
Depois fomos na festa dos meninos da Veronika, deliciosa e cheia de crianças contentes e açucaradas pulando e se divertindo. Rodrigo subiu em árvores, fez malabarismos com a A. M., escorregou com a A. Mas chegou em casa ainda agitado, frente à perspectiva de arrumar as malas e ficar na casa da avó, fazendo planos de brincadeiras com o primo e o avô e de aconchegos com a avó.
Domingo, saímos tarde e chegamos em SJC na hora do almoço. Demos uma de cachorro magro e saímos de casa antes das duas; mesmo assim, foram 4 horas pra andar 200 km, já que os últimos 100 km são bem sinuosos e ainda tinha chuva e neblina em alguns trechos. Edu matou sua vontade de dirigir em estrada antimonotonia, e eu enchi os olhos de paisagens, já que o fato de ter vivido grande parte da minha vida no Vale do Paraíba provavelmente me trouxe um gosto pelas montanhas. Adoro-adoro-adoro, bem mais que praia.
Domingo à noite, ainda assistimos Distrito 9, que por enquanto só posso classificar como surpreendente. Mas confesso que fiquei um pouco impactada com tantas cenas de guerra - o filme parece partir de uma perspectiva crua - nas cenas, nos sons, a gente tem a impressão de estar diante de algo que é difícil digestão, algo que é quase repulsivo, e que a gente bem queria que estivesse só no Outro...
Como o lançamento do livro era só na segunda à noite, passeamos um bocadinho, descansamos outro bocadinho e comemos uns bocadões, que a comida era boa, saborosa e leve.
A arquitetura do hotel em que ficamos me deu nostalgia da casa velha da minha avó, que ficava na beira da ferrovia... Era uma casa antiga, com seus azulejos velhos, louças antigas e amarelas... Nas minhas lembranças, a casa inteira tem um tom amarelecido: lembro dos banhos de bacia, do cachorro que ficou doente e que deve ter sido minha primeira experiência com a morte, dos ratos e baratas que infestaram a garagem abarrotada de recortes de jornal, do piano da minha mãe que só mais tarde foi morar na nossa casa, da banheira amarelo-claro, do chão de cimento queimado vermelho da varanda, dos vasos de arruda na beirada da porta, de onde o Seu Zé sempre pegava um galho para colocar atrás da orelha... No Hotel, várias dessas lembranças latejaram.
Na segunda à noite, junto com a abertura do 33º Encontro da ANPOCS, foi o lançamento dos muitos livros. A Annablume estava lá com 5 títulos da mesma coleção que o meu (Trabalho e Contemporaneidade) e mais um livro, que parece muito interessante, e é uma etnografia sobre o modelo de prevenção de AIDS e DSTs entre travestis. Foi bom rever tantas caras conhecidas, entre professores e colegas desde o tempo da graduação, embora eu confesse que sempre tenho dificuldades em lidar com essas relações velozes, de contatos abreviados... Eu sou lenta, não adianta, e depois fico remoendo a resposta que faltou ou aquela que, expressa rapidamente, saiu fora de tom.
De todo jeito, fiquei bem contente com o livro, porque foi um trabalho bacana mesmo - modéstia, modo off ;-). Aliás, há um tempo falei sobre ele para a Agência FAPESP (Desalento Paulistano) e a matéria ficou bem bacana - mesmo a entrevista tendo contado com a participação de certa criatura pequena que interrompia com frequência para me pedir para desenhar círculos ou cobrar o brigadeiro prometido como forma de descarado suborno, caso ele se comportasse durante a entrevista :-)
Ontem voltamos, parando na hora do almoço para resgatar Rodrigo, numa viagem que começou às 8h e terminou às 17h... E ainda saí correndo pra dar aula, super baqueada e querer-querendo ficar gripada, mas no fim deu tudo certo. Ufa!
Vamos ver se agora voltamos à programação normal.
Imagem: daqui.
06 outubro, 2009
Nasceu!
Meu livrinho querido, fruto do meu trabalho no mestrado. No site da editora já dá pra comprar (e tá em promoção).
Vai ser lançado no Encontro da ANPOCS, em Caxambu, mas assim que tivermos uma data de lançamento em São Paulo, aviso!
Vai ser lançado no Encontro da ANPOCS, em Caxambu, mas assim que tivermos uma data de lançamento em São Paulo, aviso!
30 setembro, 2009
Pra rir um pouco
Quando estou escrevendo, tenho sempre um dicionário por perto, pra poder checar se a palavra que me vem à cabeça significa mesmo o que necessito que ela diga... Também costumo manter aberta uma janela com um dicionário online, e o Priberam é minha escolha predileta.
Tudo isso pra dizer que hoje, pela primeira vez, prestei atenção na nuvem de palavras mais procuradas e percebi que, entre elas, está "auspicioso".
Alguém aí quer apostar que quando passarem os efeitos da última novela das oito, essa palavra vai sumir dali?
Tudo isso pra dizer que hoje, pela primeira vez, prestei atenção na nuvem de palavras mais procuradas e percebi que, entre elas, está "auspicioso".
Alguém aí quer apostar que quando passarem os efeitos da última novela das oito, essa palavra vai sumir dali?
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