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30 maio, 2012

trama

abro o e-mail de manhã e uma supresa deliciosa na caixa postal - uma história, traduzida com todo carinho, dividida com esperança e alegria. devoro a história como o sr. raposo devora os livros: cheia de fome e vontade, com sal, mas sem pimenta - que não estou acostumada e a língua fica dormente, a entravar a boca pra conversa ou pra outros gostos.
e como uma boa história que a gente devora também devora a gente, no caminho de volta da escola tem mãos dadas e um novo partilhar: cada passo desenrolando a trajetória do sr. raposo, seus hábitos alimentares, seu período de fast food - forma sem conteúdo, que não sacia de jeito nenhum...; sua descoberta da biblioteca, sua carreira criminal, sua volta por cima... a cada episódio, a mãozinha quente apertando mais forte a minha e perguntando "e aí? acaba assim?". a ansiedade de conhecer o final devorando mais que a fome da hora do almoço.
a ponta lançada do outro lado do oceano amarrada à trama de cá - costurando a presença onde a saudade, ela também, insatisfeita.

29 agosto, 2010

Domingo


- Vai daí que na semana passada o Rodrigo teve dor de ouvido, não foi na escola na terça, nem na quinta, nem na sexta. Não teve febre, só dor. E parou total de comer. Desde ontem está melhorzinho, mas só na segunda vamos saber se a inflamação diminuiu mesmo. E o pior é que ele está (ou está gostando de fingir que está) um pouco surdo. Na sexta-feira, eu falava com ele e ele me dizia "não tô ouvindo nada, mãe, porque esse ouvido não quer escutar".

- Então, na sexta ele foi comigo pra USP, prometendo que ia me deixar trabalhar um bocadinho. Levamos giz-de-cera, papel, caderno de pintura. E, é claro, tive que resolver as coisas que eram mais urgentes com ele falando comigo o tempo todo :-)

- Quando chegamos à biblioteca, ele pediu para pegar um livro e, enquanto escolhíamos (acabamos trazendo um ótimo, do Ricardo da Cunha Lima, chamado Cambalhota), resolvi trazer também o  do Rodrigo Lacerda, Fazedor de Velhos, que já namorei várias vezes mas acabei nunca comprando. Resultado: na sexta-feira, fui deitar por volta das 10h da noite e não dormi enquanto não acabei de ler o livro! Gostei muitíssimo.

- Gostei muitíssimo por variadas razões. Primeiro porque lembrou um pouco os livros que eu lia quando tinha a idade de ler os livros "infanto-juvenis", histórias sempre um pouco doloridas sobre os lutos e os ganhos de crescer. Mas ainda que tenha lembrado, o livro é bem melhor daqueles que eu lia, provavelmente porque - tenho a sensação - é tanto uma narrativa sobre se tornar adulto quanto uma declaração de amor à literatura. Uma espécie de aposta em que as ficções, a boa literatura, a poesia e a prosa com suas figuras e ritmos, contribuem para que as passagens e transições sejam realizadas de modo amoroso - assim, tanto um livro quanto uma companhia, tornam tudo mais leve (e, paradoxalmente, mais fundo). Ensinam. Põem nome no que, na intensidade do fluxo, se perderia. Fazem o tempo que escorre sem pausa pingar mais devagar, deixando na areia uma marca legível.

- Gostei também porque me identifiquei, nas várias vezes em que me senti pouco adequada para a sociologia; em que escutei que o que fazia era teoria literária e, quando fui para a teoria literária, escutei que fazia sociologia; e quando escrevi uma dissertação com tanta preocupação com o que ouvira e vira que achei que aquilo ainda não era sociologia; e quando escrevi uma tese em que menos importância que os achados tinha o percurso e isso também não parecia sociológico. Eu sempre inadequada, juntando o rigor do trabalho e da pesquisa a uma forma pouco usual de apresentá-las, tentando usar a honestidade e a narração como parte indissociável daquilo que sai à luz. Mais preocupada com o leitor do que com a banca.

- E agora estou acabando de ler o Mia Couto, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, presente do Jorge e da Priscila. Ele tem um jeito bonito de escrever, lapidando cada frase  de um jeito que a gente tem a impressão que não importa muito como a história vai se desenvolver; importam mais as trincas que cada pérola dura vai riscando dentro da gente. Eu queria mesmo ler um livro dele, desde que tinha dado pro Mauricio um livro infantil, chamado O Gato e o Escuro, que tinha me deixado muito emocionada. Estou gostando, sim, mas tenho medo do que acontece quando a gente lê até o fim um livro que vai abrindo buracos na nossa superfície: e se, ao acabar, a casca rachar inteira e eu me apanhar desprotegida?

- Tenho sonhado bem mais que o que costumava: sonhos longos, sonhos cotidianos, sonhos de trabalho, sonhos tão reais. Sonos agitados de Agosto. Ainda bem que setembro é ali, logo depois da esquina da semana.

- Ah! E ainda por cima ando sensível e de choro fácil. E fui inventar de comprar pro Rodrigo um livro chamado E o que vem depois do mil? Achando que era um livro sobre qualquer coisa, só porque é uma pergunta muito parecida com a que o Rô adora me fazer. "O que vem depois do vinte? E do cem? E do mil?". Comprei fechado mesmo. Chego em casa e abro, e decido ler. E aí é uma história de amizade entre uma neta e seu avô e ele fica doente e depois morre e eu chorei, chorei, chorei e mal consegui contar a história pro Rodrigo sem ficar toda engasgada, com um nó bem apertado me amarrando a garganta. Ninguém manda comprar livro só pelo título.

- Então é isso. por aqui: esse silêncio borbulhante. Boa semana para vocês e façamos como a Clarice  Lispector - de cada domingo à noite, um reveillon modesto.

Imagem: www.gettimages.com

03 julho, 2009

Ternura

Gravei para pôr , mas quem disse que minha corujice resiste a dividir a vozinha doce e tagarela do meu pequeno contador de história, que quase perde o fôlego a cada estrofe, já que a voz não acompanha o ritmo da memória - e de tão "influída" pela cadência da poesia, acabei fazendo rima ;-)

Coisa doce da vida!



* A história que ele está contando é "Agora é minha vez", de Zeca Sampaio, ilustrado por Elen Pestili (da Brinquebook).

04 julho, 2008

Como se fora brincadeira de roda...

Antes mesmo de engravidar e ter o Rô, eu já tinha uma pequena coleção de livros infantis. Uns que eu lia quando criança, outros que comprei porque gostei e pronto!

Um deles é Guilherme Augusto Araújo Fernandes, de Mem Fox. Choro todas as vezes em que leio até hoje. Acho lindo e singelo.

E pensando nesse livro foi que outro dia comecei a me lembrar...

Um dos primeiros livros de sociologia que li - sem que tivesse sido indicado pelos professores, entenda-se - foi o maravilhoso Memória e Sociedade: Lembrança de Velhos, da Ecléa Bosi. Foi uma revelação.

Eu estava no primeiro ano da faculdade e encontrei o livro por acaso. As bibliotecas ainda eram todas separadas, e a nossa ficava num espaço escuro, abarrotado. Encontrei o livro num dos carrinhos de devolução, achei o título interessante e parei para olhar. Li a orelha, uns trechinhos da arguição da Marilena Chauí e decidi levar.

Ainda que seja um trabalho defendido na Psicologia Social, o livro mudou completamente minha maneira de entender o que é a sociologia, o que é o trabalho de pesquisa e, principalmente, o que é uma pesquisa de campo. O livro é um registro muito bonito das lembranças e memórias dos velhos que falaram com Ecléa, e as análises que ela faz são tão delicadas - não pesam no texto, dialogam com os entrevistados, deixam clara a importância tanto de uma escuta atenta quanto de "bons" informantes, dispostos a narrar parte de sua história.

E logo em seguida, saiu o livro do Carlos Heitor Cony: Quase-Memória (recentemente republicado). Eu li, reli, treli aquele livro. Li tantas vezes e sempre com a mesma grata surpresa. É um livro que fala da relação de um menino e de um homem com seu pai, e das lembranças inventadas que a gente põe no lugar da falta que sente...

Como eu tinha gostado desse livro, o Padilha (meu padrasto) me indicou o do Mário Martins: Valeu a pena. Um livro de memórias, super gostoso de ler, cujo ghost-writer foi Franklin Martins, filho de Mário.

Minha empolgação com o tema da memória continuava. E então resolvi escrever um projeto de iniciação científica, para tentar comparar o livro do Cony com as lembranças do Mário Martins. Livros absolutamente diferentes em estilo, objetivo etc. Por fim, uma professora ofereceu a mim e à Ana uma bolsa de iniciação e meu projeto ficou deixado de lado.

Acho que também por essa época que decidimos fazer um trabalho de campo, em Antropologia III - sobre velhice. Lembro que era III porque a gente também estava fazendo Sociologia III e lendo Marx :-) De maneira que nossa leitura da velhice estava toda enviesada pela questão do valor pessoal ligado ao valor produtivo etc. e tal.

Mas não era só isso. A gente entevistou jovens e velhos, resenhou filmes, interpretou contos e livros...Foi um trabalho daqueles tão ambiciosos que a gente só faz mesmo nos primeiros anos de faculdade, quando é jovem e sem-noção.

Eu tenho as fitas até hoje: histórias de São Paulo quando o condutor do bonde eletrético ainda esperava pelos passageiros usuais atrasados, por exemplo, ou histórias tão grandes que as fitas não venciam a quantidade de coisas que havia a contar.

Eu sempre gostei de ouvir histórias. Criança séria e tímida, os livros foram meus primeiros amigos. Mas o que eu mais gostava mesmo era de "ouvir" histórias. Para mim, nada havia de mais gostoso do que as férias na casa dos meus avós maternos, em que os adultos - tios, primos, tias-avó, tios-avô - se reuniam em torno da mesa para relembrar as artes e experiências que tiveram como crianças, as brigas, as gostosuras, as viagens malogradas, os apertos e apuros que haviam consolidado nossa família como uma família.

A cozinha também eram um espaço mágico e sagrado, onde todas as mulheres da família se apertavam depois das refeições para arrumar a bagunça mas também, principalmente, para conversar. Era na cozinha que circulavam as informações sobre as crises, se dividiam alegrias, se negociavam saídas...

Mais tarde, na época em que morei em Londrina, eu corria com minhas lições só para poder desfrutar das conversas da minha avó e da D. Cida, sua ajudante. Naquela época, minha avó fazia salgados para vender e eu sentava lá na cozinha e ficava observando e escutando as duas conversarem, filosofarem, relembrarem namoricos e emoções de menina. Enquanto uma abria a massa e a outra cortava os círculos, enquanto uma colocava o recheio e a outra ia fechando as esfihas com os dedos levemente molhados em água, enquanto uma passava o pincel com gema e a outra arrumava as esfihas na assadeira, eu ia aprendendo a ser mulher, a ser esposa, a cozinhar e a tecer os fios da minha própria história.

Depois, com Walter Benjamin, eu aprenderia a importância do trabalho manual e da distensão que ele propicia para a atividade de narrar. A narração que possibilita a experiência, em contraposição às vivências que se sucedem linearmente sem significar. Narrar é peneirar os significados das vivências, é reter o que importa, é distinguir no fluxo do tempo as marcas que constroem o fio de uma vida.

Talvez o que mais me emocione na história do Guilherme Augusto Araujo Fernandes é sua disposição em ouvir, em não aceitar que as memórias se percam - ainda que ele não saiba muito bem o que é uma memória. É assim que as memórias são recuperadas - porque há alguém disposto a ouvi-las, a revive-las. Alguém que encontra pretextos para a conversa - esses pequenos ganchos nos quais as lembranças podem se ancorar: como um livro infantil, a necessidade de escrever em um blog ou a coincidência de ouvir falar da Éclea Bosi duas vezes no mesmo dia...

05 junho, 2008

Mãe Monstro


Rodrigo parece estar descobrindo a raiva: reclama quando é contrariado, tenta bater e chutar, atira as coisas ao longe. Uma delícia... A gente às vezes briga, às vezes põe de castigo (não ele, mas o filme predileto, o brinquedo querido), às vezes tenta conversar com ele a ajudá-lo a entender o que está acontecendo.

De umas semanas para cá, ele cismou com a história Quando Mamãe virou um Monstro (Joanna Harrison, BrinqueBook).

Pede para contar várias vezes e, depois que terminamos, começa a contar ele mesmo, com ênfase nos detalhes mais deliciosos: - E então...ela soltava fumaça, e fogo e um urro terrííível...E ele adora a parte em que ela esquece de tirar o cabelo de monstro e quase atende a porta toda descabelada.

Um dia, enquanto lia, comentei que de vez em quando eu também virava um monstro. Ao que ele, em toda a sua sabedoria, respondeu: - Eu também virei, mamãe! E o papai, e a Júlia e a Bia...

Moral da história: todo mundo de vez em quando vira monstro. Com pés, orelha, cabelo e rabão.

Hoje de manhã, eu ainda estava de pijamas, toda descabelada. E Rodrigo achou um pente. Foi então que ele teve uma idéia super carinhosa: - Vem aqui, mamãe, que eu vou pentear o seu cabelo de monstro.

Bem penteada, fiquei um pouquinho menos monstra.


Imagem: http://www.weno.com.br/blog/archives/2007_02.html