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20 janeiro, 2009

Menina antiga


Lembram do Brock, que o Rodrigo tinha pedido de Natal? Ficou bonitinho, afinal.

O segundo, que fiz pro meu sobrinho ficou melhor, já que a prática leva... senão à perfeição, pelo menos à redução de erros.

Mas também ficou melhor porque, entre um e outro, a minha avó me deu um presente lindo: sua máquina de costura Singer. Foi sua primeira máquina, daquelas pesadonas, pretas. Linda-linda-linda. Minha avó aproveitou o gabinete dela para colocar a máquina nova, mais moderna. Mandou transformar a antiga numa portátil e guardou, pensando em mim. Quando ela me deu, quase comecei a chorar, pela boniteza do presente e pelo tamanho do carinho.

Pior foi agradecê-la e ela fazer pouco caso, dizendo que eu sou a primeira neta, além de tudo afilhada, e que ela nunca tinha me dado nada de valor. Nessa hora comecei a chorar, sim, ao dizer pra ela que isso está longe de ser verdade: são incontáveis as coisas que sou e sei porque foi ela que me ensinou. E nessas coisas, como nas histórias da Mastecard, não dá para botar preço. Ainda que sejam o que de maior valor eu carrego.

* Só para esclarecer, o nome do boneco - que eu tirei desse livro aqui - é Brock, the Builder. Por isso ele tem um cinto de utilidades, com prego e martelo :-) Aliás, para quem quer começar, esse livro é ótimo porque os moldes vem em tamanho de corte, e há vários bem tranquilos de se fazer.

10 agosto, 2008

Meu Pai (5)

Muitas das lembranças mais carinhosas que tenho do meu pai incluem um violão. Ele costumava tocar e cantar, desde as músicas das Arcas de Noé (e eu tenho ainda fitas cassete com os LPs da Arca gravados, só porque elas guardam a letra miúda e muitas vezes ilegível dele), até seus rocks.

Uma das músicas que ele cantava para mim era "Leãozinho", do Caetano Veloso, e eu demorei muito tempo para perceber que a música não tinha sido feita para mim. Porque quando ele cantava, era como se fosse. Era como se a música fosse minha, feita só para mim, uma pequena leoazinha: o leãozinho do papai.

Da última vez que nos encontramos, ele me deu um violão. Um violão que não aprendi a tocar direito, mas que me acompanhou durante todos os meus anos de faculdade, embalou festas, tornou as casas onde morei mais habitáveis. Até que numa das mudanças, o violão se perdeu.

Fiquei triste, sobretudo porque o que violão mais guardava eram as inúmeras músicas que ele cantou para mim naquelas férias, com a desculpa da afinação. Estavam gravados na madeira, uns ecos de corda e voz que tornavam a falta dele menos intensa.

Ainda que as músicas que ele cantava não fossem, afinal, feitas especialmente para mim, ali, ao lado, dele, cantando com ele ou apenas o escutando cantar, eu me sentia feliz, porque sabia que ele estava me dando e dividindo comigo uma parte dele.

Não eram só as músicas que viravam minhas. Era o pai que ficava mais meu.

Quando canto para o meu filho, tentando repetir a delicadeza do presente e o aconchego da intimidade, é parte do meu pai que divido com ele: as partes dele que ficaram em mim.



04 junho, 2008

Monika


A cidade hoje está um pouco mais colorida, porque está entre nós a querida Monika.

Faz tempo que eu conheço a Monika. Mais de oito anos. Ela é minha amiga querida, quase-irmã. Com quem divido alegrias e tristezas, saúde e doença, sanidades e loucuras...

Ela também é a melhor companhia em um jantar romântico. Adoro nossos jantares a luz de velas, regados a vinho e palavras. Depois que nossos filhos nasceram, eles ficaram mais raros. Nem por isso menos necessários.

Eu admiro muito a Monika: não conheço ninguém que, como ela, saiba mobilizar o melhor que existe nas pessoas. Às vezes brigando, às vezes acolhendo, o fato é que nenhum problema é suficientemente grande quando a gente conversa com ela. Está lá a palavra certa, dita do jeito certo.

Ela é destemida. Forte. Independente. Mesmo quando tem medo, fraqueja ou precisa.

Ela também é linda, charmosa e cheia de estilo.

É só com a Monika que posso cantar em alto e bom som Kiss me in the rain and make me fell like a child again, bring back all those memories...Kiss me in the raaaaaiin, no melhor estilo Barbra Streisand.

Por tudo isso, hoje a cidade está mais colorida, apesar do cinza, porque sei que ela está por aqui. É que a Monika me faz parecer menos só.

Imagem: http://www.sab.org.br/med-terap/liga/aquarela1.jpg

13 maio, 2008

Fausto (2)

O Fausto é mais do que amado: volta e meia o reencontro dentro de mim.

Eu nunca entendi direito porque é que ele gostava de mim e, na verdade, às vezes achava até que ele não gostava (não acho mais, querido, não acho mais). O que obviamente não me impediu de passar três anos completamente intrigada e deslumbrada por ele, misturando admiração, medo e carinho (depois, continuei intrigada e deslumbrada, só aprendi a disfarçar melhor).

Eu morria de medo de decepcioná-lo e foi por isso que não contei para ele que estava pensando em prestar artes cênicas. Porque no fundo eu achava que aquela vida de teatro não era para mim - eu era muito cérebro para estar inteira numa atividade que exigia tanto do corpo e do sentir. Não contei para ele, mas ele acabou sabendo - e por muito tempo me culpei por achar que o tinha magoado ao ir fazer Ciências Sociais (embora essa escolha também passasse por um diálogo com ele, que era também meu professor de geografia).

E agora é que me dei conta: nas duas peças em que tive um papel - "Na Carrera do Divino" e em "Por Causa de Inês" - minhas personagens estavam grávidas. A Sá Rita, uma gravidez simbólica, com direito a um parto no palco para dar a luz à vida na nova terra. Dona Constança, uma gravidez acintosa e sem final feliz.

Afinal, talvez o Fausto soubesse como eu que me faltava uma aprendizagem do sentir, uma travessia que me possibilitasse usar o corpo de uma maneira mais viva. E talvez ele soubesse que, naquela época, o papel que melhor me cabia era esse da mulher em preparação, grávida, ambígua, nem (só) mulher nem (só) mãe - representação do ponto ao meio do caminho onde eu estava.

Doze anos depois, percorrida a Via Crucis do Corpo , acho que aprendi finalmente:

"O corpo. O corpo. O corpo.
O corpo é essa garrafa que eu quebro para viver derramado" (Carpinejar).

Fausto

Sábado passado estive em São José dos Campos. Além de visitar minha mãe, desta vez eu também tinha uma razão especial para estar lá: tinha sido convidada pela minha querida professora de português para ser jurada no Festival de Poesias do colégio onde estudei durante todo o colegial e do qual tenho tantas recordações.

O programa por si só rescendia a saudosismo - ir ao colégio, estar num festival de poesia (do qual participei uma única vez, para a felicidade dos jurados e do público, já que as musas da poesia nunca foram muito com a minha cara...). Mas sobretudo eu tinha um objetivo inconfesso: rever o Fausto.

O Fausto, além de ter sido meu professor de Geografia, foi principalmente meu diretor de teatro. Na verdade, ele era (e ainda é) diretor do grupo de teatro do colégio, mas nem por isso menos meu que enchia tanto a paciência dele, com minha presença insistente na porta da sala dos professores e as inúmeras cartas e bilhetes que enviava para ele (se serve de conforto, meu querido, os períodos mais intensos da minha vida estiveram marcados por essa fúria missivista, uma certa incapacidade de conter o desejo de comunicar a descoberta do mundo).

Depois de chegar ao colégio, encontrar a C., descobrir onde e o que teria que fazer, não demorou muito até ele aparecer: tão ou mais querido do que nunca. Fiquei tão feliz em vê-lo, tão feliz...que não queria mais largá-lo. Abraçá-lo foi como percorrer um longo caminho de volta.

E fiquei pensando se de vez em quando a gente não evita rever as pessoas queridas para não perceber a imensa falta que elas nos fazem. Fiquei pensando se o reencontro mais constante com quem amamos não tornaria a vida de todo dia infinitamente insuportável pois a quem interessam tantos detalhes, tantas "coisinhas" se o que vale mesmo a pena são esses momentos em que a gente se reconhece no outro, se dá conta de que temos passado, presente e futuro - cintilam um milhão de possibilidades pelo simples fato de que nos lembramos que não estamos sozinhos no mundo: estão lá aqueles olhos, aqueles braços, aquela presença que significa estar em casa.

Na crônica "Pequenas Epifanias", o Caio Fernando Abreu diz da felicidade lançada sobre a vida por instantes em que relampeja uma possibilidade de amor - a esperança que se incorpora a nós e nos torna menos sós...Faz como o amor pro João Cabral, nos "Três mal-amados" - come a fome, a dor-de-cabeça e o medo da morte.

Reencontrar o Fausto sem dúvida significou para mim uma pequena epifania - a possibilidade de ter história, de estar marcada pela existência de alguém, de ter construído vínculos tão fortes, tão fortes que sobrevivem ao tempo, à distância e à ausência.