20 janeiro, 2011

abismo

No final do ano passado, eu tinha encontrado uma gravação super doída do Wado: "Mata a gente (saudade)". E desde então tinha ficado pensando em um post sobre essa coisa pungente que a gente chama de saudade. Porque a música é rica em imagens latejantes - a dor fininha do parafuso rodopiando até inflamar em ferrugens; a citação de um cordel que alerta que pra plantar saudade é preciso garantir a esterilidade da semente; o coração num desastre natural de pedra lavada...

Mas o tempo é curto e eu acabei esquecendo dessa história. Até que outro dia lembrei e fui procurar de novo a música, e aí acabei chegando nesse post bonito da Clotilde Tavares: Troncha de Saudade. [e tem palavra que combine mais com saudade que esse "troncha" de pernas enfraquecidas e corpo sempre à beira do tropeção?].

De novo, pensei em escrever sobre essa coisa da saudade, sobre como essa dor-tristeza-nostalgia-melancolia é algo que se sente em português [e sempre me lembro do finalzinho da crônica "Extremos da Paixão", do Caio Fernando Abreu, em que ele comenta: "Ah, que dor sentida e portuguesa", falando das desmedidas da paixão, mas bem podia ser sobre outras tantas intensidades...], Mas, já sabem, o tempo. Ou talvez a preguiça de cutucar gratuitamente assim as casquinhas de tantas saudades cicatrizadas, arriscando tornar o corpo pequeno para todas as distâncias dentro e fora de mim.

E então ontem a Julia postou no FB essa notícia sobre "saudade" ser das palavras mais difíceis de traduzir e eu voltei a pensar no assunto - até porque também já estava parecendo perseguição :-) E me lembrei de música do Djavan, aqui cantada junto com o Chico Buarque, e suas imagens de urgência e reconhecimento da impossibilidade de dar vazão a ela, como nessa estrofe:

"Quis chegar até o limite
De uma paixão
Baldear o oceano
Com a minha mão
Encontrar o sal da vida
E a solidão
Esgotar o apetite
Todo o apetite do coração".

Não é mesmo assim a saudade? Essa coisa infantil de tentar conter na concha das mãos o horizonte do mar? De saciar a sede com sua água salgada? De tentar estancar um apetite que se alimenta da ausência mas que também é voraz na presença - pra resgatar o tempo perdido, pra tapar o buraco, pra incrementar a saudade do depois...

O que talvez seja mais difícil de traduzir na saudade é escapar da ideia simples da "falta". Porque a saudade é mais geografia física do que operação matemática. Não é questão de menos ou da soma do jogo ser zero.  É uma distância que se amplia por dentro do corpo, afastando a gente do outro ou da gente mesmo. Dá até pra sentir saudade sem ser de alguém  ou de alguma coisa - é das saudades mais difíceis de matar, a mais sujeita a recidivas: se ainda fossemos de pano, a agulha cosendo remendos, reunindo as pontas esgarçadas na antiguidade do cerzido. Mas a gente é carne e osso e vísceras.

Lembrei também dessa música do Zeca Baleiro que está aí em baixo, Brigitte Bardot, que tão bem fala da materialidade da saudade do que se foi - e, de novo, não é de falta que se trata, mas da prisão no presente, da impossibilidade de voltar ao passado e de fazer diferente - mistura de arrependimento, impotência, vontade de cobrir a distância com berros: "A saudade é uma colcha velha que cobriu um dia numa noite fria nosso amor em brasa/".

Saudade assim, nessa intensidade que faz jus ao nome, é burra, teimosa... turrona mesmo. De frente pro abismo, aperta os olhos pra fazer de conta que o precipício é mais rasinho. Acho que tem coisa que é assim mesmo - a gente só vive até o fundo se estiver um pouco distraído.

17 janeiro, 2011

recomeços

Ano novo, sons novos no MP3. Consegui finalmente tirar alguns álbuns do Interpol e colocar coisas novas. Uma delas foi o CD do Marcelo Jeneci, Feito pra acabar. Delícia de álbum! Toda vez que ouço, mudo de música preferida.

Mas a canção que dá título ao álbum, nessa versão com Wisnik e Celso Sim, (Jeneci ao piano, também cantando), sem dúvida vira e mexe tá no topo da lista.



E essa musiquinha com a Tulipa Ruiz, que não tá no cd? Coisa mais doce... se você reparar direitinho, garanto que vai ver bolhinhas de sabão saindo da caixa de som, colorindo e fazendo a vida cintilar um bocadinho (e vejam que andamos precisando, que 2011 começou doído demais).



Então é isso: esse equilíbrio frágil da consciência de sermos feitos pra acabar com o alívio de passearmos pela vida de mãos dadas com alguém. Tão frágil, tão frágil, que eu paro mesmo é por aqui, para não estragar o arranjo delicado com minhas palavras que, confesso, andam muito muito desajeitadas.

24 dezembro, 2010

renascimentos

Nesse ano em que as intensidades tiveram, para mim, muito mais ritmo do que palavra, os desejos de Natal e novo ano não podiam ser diferentes.

Então, meus desejos de Natal para todos vocês vão nesse clipe. Que hoje à noite e que no próximo ano, nossos corações sejam fortalezas - para enfrentar o que anda tão doído nesse mundo com amor e afeto, para escapar das ausências não faltando aos encontros, para que o Natal seja a festa da brincadeira, da simplicidade e da alegria de estar vivo, para que o ano novo possa restaurar nossos cansaços e, sobretudo, nossas próprias forças, porque, como já disse o Guimarães Rosa, o que a vida quer da gente é coragem.

Então, boas festas, bons encontros, e que a pausa de tudo o que corre pelos ponteiros do relógio permita restaurar as nossas forças e alimentar nossa coragem.

22 dezembro, 2010

un vestido y un amor

No sábado, fomos ao casamento da Tatiana e do Alex, compartilhar com eles a alegria e a festa do amor quando começa e recomeça. A Tati provavelmente é uma das noivas mais lindas que já vi, com suas unhas e sapatos vermelhos, ao mesmo tempo tão despida de véus, coroas, penteados demorados... e, por isso mesmo, tão absolutamente deslumbrante.

Não conheço muito o Alex, embora eles estejam juntos já há bastante tempo. Por alguma razão, ou por várias, a mesma vida que um dia tornou possível que a Tati e eu nos encontrássemos e construíssemos uma amizade forte e intensa, foi tornando difícil a gente participar do cotidiano uma da outra. Nem por isso o carinho que sinto por ela é qualquer vírgula  menor - volta e meia esbarro com pedacinhos daquele nosso convívio miúdo, as músicas, as cartas, cartinhas e cartões, as fitas cassete  que gravávamos, na casa da Ju, embaladas por insônia e álcool... Tanta gostosura, tanta partilha. Tantos fios entrelaçados - se não fosse por ela, Edu e eu nem teríamos nos conhecido, nem teríamos conversado por horas, nem teríamos construído esses nove anos de vida em comum.

Fiquei imensamente feliz e grata por poder participar desse momento. E de reencontrar tanta gente querida, de quem igualmente gosto, ainda que não nos vejamos com frequência. Ter na minha vida essas pessoas  tão queridas, saber que estão bem, felizes, construindo suas vidas me faz um bem danado - dá sentido à nossa história comum, mas também me ampara e me dá consistência. É feito poder voltar para casa quando a gente se sente um pouco perdido e sozinho.

Como escrevi em algum cartãozinho para a Tati, há tanto tempo que perdi a data, "hay cosas que te ayudan a vivir". Pessoas queridas como a Tati e o Alex certamente estão entre elas.

11 dezembro, 2010

umidades

 
"lá fora não tem água e aqui dentro a gente chora
lá fora não tem água e aqui dentro a gente chuva"

(André Abujamra)

Que quando a secura é muita, não tem melhor que inventar umidades.

Imagem: www.gettyimages.com

10 dezembro, 2010

Coração de galinha

É sempre uma coisa difícil para mim, não tem jeito. Costumo ser empática - tenho essa facilidade (na maior parte do tempo) para compreender o lugar do outro. Mas confesso que hoje está difícil. Porque nesses tempos em que o "outro é um estorvo", se alguém se preocupa com o outro deve ser porque é tonto. Compreender as dificuldades do outro - os atrasos, a correria, o ônibus que não passou, o recado que não se deu, a impressora que quebrou - passa por bobagem. E eu sei bem por que: é porque tudo isso pode ser também revelador que o outro, esse outro em quem você tenta reconhecer a si mesmo com suas fragilidades e confusões, no fundo pode simplesmente não estar nem aí para você.

Então o dilema ético e político é saber se você vai continuar sabendo compreender, sob o risco de ser tonto, ou se vai aceitar se identificar com o outro naquilo que temos de preguiças, má-vontades, descaso, vontade de aproveitar... E daí, o contrário da compreensão e da flexibilidade é o que? Incompreensão e rigidez? Onde é que a gente risca a linha de giz? Porque, olha, hoje não estou querendo ninguém pisando dentro da minha linhazinha. Hoje, tô querendo mesmo é varrer todo mundo e passar pano molhado e cheiroso pra ver se dá jeito nessa secura.

01 dezembro, 2010

Dicionário ilustrado


No caminho para a escola, Edu e eu conversando sobre uma notícia que saiu no New York Times, de que o narcisismo vai ser retirado do manual de diagnósticos de transtornos psiquiátricos (aqui, em inglês). Papo vai, papo vem, chegamos à escola.

Mal entramos e encontramos a Lucia, mãe de uma amiguinha do Rô, que de longe exclamou: "cortou o cabelo!". Ao que respondi que não, que até queria, mas ainda não tinha conseguido e que agora era verão, bom momento de cortar. Mas no meio da frase já tinha me dado conta que não era comigo que ela estava falando e sim com o Rô que... - tchan, tchan, tchan, tchan! - tinha cortado o cabelo de manhã. Vá lá que "cortou o cabelo" é uma frase com sujeito oculto, mas...

Pelo menos esse momento-umbigo não é mais doença mental ;-)

Imagem: daqui.

29 novembro, 2010

crochê


eu também te amo. engraçado, dito assim. a ênfase esquecida da ação de amar para recair toda sobre a reciprocidade do também. dito com certeza,  aperta firme o laço lançado por aquele que começou a dizer. dito sem entusiamos, faz um laço frouxo, feio, disforme. dito jamais, abre na trama um buraco que só com dificuldade é possível costurar.

dizer eu te amo costuma acompanhar a expectativa de ouvir também. nem sempre é assim que acontece - a ponta às vezes fica solta, feito fio puxado de blusa. dá vontade de meter a agulha e esconder o fio solto pra dentro, retirar a confissão, refazer a ilusão da perfeição. mas eu te amo é tão definitivo que fica ecoando eternamente - na mesma medida de tempo que promete o enunciado.

eu também te amo é nó que vai tecendo a vida em comum - até um ponto em que o também é pura confiança. rede de trama miudinha, onde a gente descansa a cabeça como num colo, e o corpo como no do outro.

Imagem: www.gettyimages.com

28 novembro, 2010

açúcar


Ontem nós fomos dar um beijo na Paula e no Sérgio, pessoas muito queridas, que estão no preparo e na espera do Francisco.

A Paulinha é uma amiga queridíssima. A gente tem coisas muito parecidas - uma meninice, uma certa suavidade que disfarça nossa leonininidade - mas também coisas diferentes: a Paulinha é quinhentas vezes mais paciente e cuidadosa do que eu, mil vezes mais capaz de costurar consensos, com sua delicadeza que faz cerzidos ali mesmo onde o tecido se esgarçara a ponto de parecer rasgado... Quando a gente trabalhava junto, eu não me cansava de admirar essa habilidade de ser flexível e firme, tudo ao mesmo tempo, pavimentando caminhos sem nunca precisar de trator.

Ela esteve tão presente durante toda a minha gravidez, fosse nas reuniões aqui em casa - ela, Toninho e eu, em longas conversas que ajudavam a dar nome numa experiência que, de certa forma, fora comum a nós três -, fosse nos telefonemas de compreensão e apoio quando o fato de gerar uma vida punha a nu as fragilidades dessa coisa que é viver. Sempre querida, sempre companheira.

Quando nos falamos sobre o chá de fraldas, fiquei super feliz de poder oferecer a eles o bolo e os docinhos, aliviando um bocadinho as preocupações que ela teria em organizar o encontro. Foi uma decisão em grande medida prática. Mas ontem, vendo os dois tão felizes, e vendo a Paulinha tão linda, tão amorosa com o Francisco, tão querida por tanta gente, percebi que esse era o presente mais coerente com o que ela significa para mim, com sua amizade cheia de doçuras: puro mel, inesgotável, que a chegada do Francisco, tenho certeza, só vai fazer multiplicar.

Imagem: daqui.