Ah, que delícia encontrar essa música! (via Nassif).
"quando estou nos braços teus
sinto o mundo bocejar
quando estás nos braços meus
sinta a vida descansar
no calor do teu carinho
sou menino passarinho
com vontade de voar
sou menino passarinho
com vontade de voar"
(Luiz Vieira).
Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo. Porque esta noite/ Olhei-me a mim, como se tu me/ olhasses. E era como se a água Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. (Hilda Hilst)
29 setembro, 2010
25 setembro, 2010
boniteza
Então. Amanhã escrevo com mais calma, porque essa semana acabou meio em clima de Agosto - uma tristeza funda e dolorida frente ao desencontro entre aquilo que somos, o que podemos ser e o que está sendo feito dessas possibilidades. Eu bem acho que esse desencontro todo tem a ver com a distância que vai do cotidiano da gestão e da política que acontece no todo dia (aquilo que a gente vem chamando desde 88 de mecanismos de democracia participativa) e o espetáculo da política que se encena nos momentos rituais de celebração da democracia representativa. Acho mesmo que, à medida que a democracia se consolida, essa distância, se não pensada e nomeada, traz a sensação de descolamento entre o que somos e o que parecemos ser - porque só há pouco temos aprendido a olhar o que de político há em diferentes níveis, inclusive no mais próximo, como reclamar do mau atendimento no posto de saúde ou tentar mudar a lógica das relações sociais no próprio ato. Mesmo reconhecendo essa distância, é tão dolorido ver - naquilo que deveria ser a festa da consolidação de nossas recentes transições democráticas - o envenenamento dos ânimos, a exaltação das posições irracionais, que não só desconhece o Brasil que nos tornamos do ponto de vista econômico e social, mas também desrespeita as aprendizagens às duras penas do Brasil que nos tornamos do ponto de vista político, desmerece o recalcitrante desejo de cidadania dos homens e das mulheres que vivem e trabalham todos os dias, e que todos os dias têm que se afirmar como cidadãos mesmo quando as condições não permitiriam sequer sugerir tal coisa, porque não é assim - como cidadãos iguais, com direitos e deveres iguais - que são tratados. Desmerece também os esforços e sacríficios daqueles que têm dado suas vidas a estruturar políticas, construir e consolidar programas, fazer funcionar a máquina administrativa por vezes tão frágil que a gente chama da Estado, em prol do cidadão que reconhecem em cada indivíduo. Então, desculpem pelo desabafo, mas como disse, andou difícil, andou pesado... Por outro lado, como dizia o André Abujamra, "o açúcar é doce, e o sal é salgado", então caminhemos que a vida é assim mesmo: às vezes peso e amargor, às vezes leveza e doçura, e a maior parte do tempo as duas coisas juntas ao mesmo tempo.
Mas aí que, passeando pelo youtube, encontrei esse vídeo do Milton cantando "Clube da Esquina nº 1", e foi tão preciso que divido aqui com vocês, junto com a minha esperança de que a manhã e setembro nos cheguem, que essa pequena noite seja vencida, que as janelas se abram e que nos encontremos na esquina, nas esquinas.
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20 setembro, 2010
segunda-feira
- minha mãe esteve em Maputo e voltou tocadíssima com o país e, sobretudo, o povo. Voltou também com um quebra-cabeça muito legal de madeira, tridimensional - o do Rodrigo é um hipopótamo. Ontem, ficamos Rô e eu, ainda de pijamas, por quase duas horas montando o bichinho. Bobinhos, começamos a destacar as peças da placa de madeira antes de ler as instruções e depois tivemos que recolocar todas, para poder identificar o número das peças pela posição! Foi bem divertido... Rodrigo, de vez em quando, olhava aquilo tudo e dizia "não tô entendendo mais nada...". Pior que tinha hora que eu também não :-)
- Fomos ao Festival Internacional de Cinema Infantil, ontem, que era o último dia. Pegamos a sessão de curtas - foi bacana, mas como os curtas são muito diferentes (inclusive do ponto de vista da qualidade), Rodrigo se encheu e acabamos saindo antes do fim. Agora, esse curta aqui, que foi premiado no Festival, valeu muito a pena! É tão simples e delicado. As lagriminhas teimosas rolaram bochecas abaixo :-)
- Falando em lagriminhas teimosas, estamos desenvolvendo um projeto na disciplina que estou dando este semestre de coleta de memórias escolares. Pra quem quiser ler - e também comentar ou mesmo escrever a própria lembrança - as histórias coletadas até agora estão no blog Memórias dos Tempos de Escola. Enquanto vou subindo as histórias e lembranças, de vez em quando me acomete uma lembrança das minhas próprias experiências escolares... Agora mesmo, me lembrei da festa do estojo no começo do ano: a caixinha verde, com tampa de madeira, plena de lápis pretos, 12 lápis coloridos, apontador e borracha. Caneta bic, só na 5ª série... E o sonho de consumo era ter um daqueles estojos de pano, em que as canetas e lápis ficavam presos com elástico! (desses, eu nunca tive). Nossa! Até fui parar de repente naquela sala de 1º série, da "Tia" Déia, que parecia tão grande (embora fossémos apenas uns 15 alunos na sala) e tinha uma porta direta para a sala da direção! Não tenho saudade da escola, mas dá uma nostalgiazinha, sim, daquela percepção do tempo e do espaço, em que o mundo era amplo, o tempo era largo e tudo estava por ser conhecido.
- quando, no final do domingo, a gente percebe que esqueceu durante todo o fim de semana de tomar o remédio para ajudar a lidar com o stress, deve ser algo bom, né?
18 setembro, 2010
enraizamento
15 setembro, 2010
abandono

para v.
Assim que o filho finalmente se rendeu ao sono provocado pela monotonia da paisagem correndo indistinta pela janela, retirou da bolsa o pequeno tesouro de capa cor-de-rosa. Era muita estrada pela frente e, enquanto o ônibus vencia o asfalto, ela percorria as páginas daquela casa erigida com palavras. Com algum pudor inicial - ao invés de proteger, a casa desnudava -, embarcou na aventura prometida, balouçando (é bonita essa palavra, que sacoleja e ecoa o tilintar de louças brancas ou azuladas?) com as personagens no ritmo do trem. No começo estranhando as sentenças um pouco soltas como os pensamentos que a gente tem quando se ocupa das miudezas do viver, mas rapidamente adentrando aquela imensidão dos grãozinhos de histórias que lhe lambiam os pés e depois chegavam ao joelho e então ao umbigo e aos seios até que estava inteira mergulhada no cotidiano do ir e vir daquele trem, no ir e vir daqueles dias, no ir e vir da vida. O dia a dia cansativo e duro transformado em atenção; a atenção espelhada em encontro; as transparências do vidro em suas diversas formas cintilando, rebrilhando o invisível para permitir e fazer ver. Uma narrativa toda viva, pulsando os sustos do encontro. Até que vida milagrosamente parece recomeçar - e começa. Meio bicho, inteira humana. Ao fechar o livro - ainda longe do destino - surpreende, sem espelho, o sorriso largo em meio à cara. Um arrepio de dor assombra o músculo e sugere que estava sorrindo já há algum tempo. Já é noite fora do ônibus, o filho pequeno se aninha em seu braço. A sensação, no entanto, é de explosão de luz: madrugada alaranjada soprando brisa e fazendo festa dentro dela.
Imagem: daqui.
08 setembro, 2010
Paixão pela palavra
Linda demais a entrevista da Nélida Piñon à Revista Pesquisa FAPESP. Pelo que me lembro, nunca li nenhum livro dela; fiquei com vontade de ler.
feriado
- Sexta-feira, depois de mais de um ano e meio sem visitar meus avós, Rodrigo e eu fomos finalmente vê-los. Eu ainda não tinha conseguido ver minha avó depois que ela fez uma cirurgia no joelho, que teve uma recuperação complicada depois que ela caiu uma noite e os pontos abriram... Mas agora ela já está boa, conseguindo andar, e abusando de vez em quando de tanto ficar em pé para fazer as coisas. Vejam vocês: teimosia é herança de sangue...
- E foi uma delícia ficar só batendo papo, jogando joguinhos com Rodrigo, sabendo de como andam as coisas e as pessoas. Contar ao Rodrigo histórias de infância, estando ali nos espaços que dão suporte à memória.
- Cansada de ver meu pão ficar meio embatumado, resolvi não adiar mais e comprar a máquina de fazer pão que namorava há tempos. Estou feliz da vida! O pão cresce animado, e fica uma delícia! O problema agora é a gente conseguir manter a dieta com tantas possibilidades de pão... Ontem fiz um integral e, como Rodrigo é ciumento e não gostou nada dessa história de só a máquina se divertir e quis porque quis fazer um "pão de mão", também fizemos um pão de batata doce - para aproveitar uma que já estava assada. Modéstia à parte ficou terrivelmente gostoso ;-) E eu ainda fiz queijadinha de tabuleiro - que aprendi com a minha avó. Chama "dieta de engorda"...
- Como na sexta-feira tinha passado na biblioteca, resolvi reler Um copo de cólera, do Raduan Nassar. Eu tinha lido há uns quinze anos, mas me lembrava muito vagamente. Embora entenda que em determinado momento posso ter tido outros sentidos, detestei. Detestei-detestei. Acho que já falei, né, que tenho sérios problemas com literatura violenta, e o livro todo é de uma violência gratuita e auto-referida de dar enjôo. #prontofalei.
- Estou ouvindo o cd novo do Interpol. Tem gente que não gostou, mas vou dizer: pra mim, soou como Interpol em sua melhor forma, tipo o primeiro cd (Turn on the bright lights). Se bem que eu sou suspeitíssima, né? Tenho dois cds dos caras no MP3 (agora vão ser 3!) que não consigo tirar nem tentando me convencer que é bom ouvir coisas novas - tem dias que só Interpol resolve.
- Outro cd novo que é ótimo é o do Arcade Fire (Suburbs). De deixar na repetição um dia inteiro :-)
- Então, pra começar a semana curtíssima, bocadinho de Arcade Fire, bocadinho de Interpol.
01 setembro, 2010
Sismo
Em pleno dia. Quando no meio do rotineiro a gente nem imagina que algo possa desviar em consciência. Assim, no meio da tarde ensolarada e azul. Quase no automático, saca a agenda e se prepara para anotar as tarefas do dia seguinte e a caneta vacila - ou seria a mão a vacilar? A mão, sua mão, tonta frente à página em branco, esquecida do destino que ensaiava desenhar. O pequeno vacilo e o mundo erra. O amanhã virado em dúvida. O cotidiano todo borrado, a alegria de sol virada postiça e ela a estranhar a si mesma no vidro que está à frente. Pronto: mudou o eixo. Querendo tomar posse de si mesma, retoma a tarefa - a lista longa de afazeres vai se desenrolando sobre o papel, na letra miúda e apertada que rouba ao branco o respiro das entrelinhas. A rachadura aberta por dentro anunciando uma nova cicatriz.
Imagem: daqui.
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29 agosto, 2010
Domingo
- Vai daí que na semana passada o Rodrigo teve dor de ouvido, não foi na escola na terça, nem na quinta, nem na sexta. Não teve febre, só dor. E parou total de comer. Desde ontem está melhorzinho, mas só na segunda vamos saber se a inflamação diminuiu mesmo. E o pior é que ele está (ou está gostando de fingir que está) um pouco surdo. Na sexta-feira, eu falava com ele e ele me dizia "não tô ouvindo nada, mãe, porque esse ouvido não quer escutar".
- Então, na sexta ele foi comigo pra USP, prometendo que ia me deixar trabalhar um bocadinho. Levamos giz-de-cera, papel, caderno de pintura. E, é claro, tive que resolver as coisas que eram mais urgentes com ele falando comigo o tempo todo :-)
- Quando chegamos à biblioteca, ele pediu para pegar um livro e, enquanto escolhíamos (acabamos trazendo um ótimo, do Ricardo da Cunha Lima, chamado Cambalhota), resolvi trazer também o do Rodrigo Lacerda, Fazedor de Velhos, que já namorei várias vezes mas acabei nunca comprando. Resultado: na sexta-feira, fui deitar por volta das 10h da noite e não dormi enquanto não acabei de ler o livro! Gostei muitíssimo.
- Gostei muitíssimo por variadas razões. Primeiro porque lembrou um pouco os livros que eu lia quando tinha a idade de ler os livros "infanto-juvenis", histórias sempre um pouco doloridas sobre os lutos e os ganhos de crescer. Mas ainda que tenha lembrado, o livro é bem melhor daqueles que eu lia, provavelmente porque - tenho a sensação - é tanto uma narrativa sobre se tornar adulto quanto uma declaração de amor à literatura. Uma espécie de aposta em que as ficções, a boa literatura, a poesia e a prosa com suas figuras e ritmos, contribuem para que as passagens e transições sejam realizadas de modo amoroso - assim, tanto um livro quanto uma companhia, tornam tudo mais leve (e, paradoxalmente, mais fundo). Ensinam. Põem nome no que, na intensidade do fluxo, se perderia. Fazem o tempo que escorre sem pausa pingar mais devagar, deixando na areia uma marca legível.
- Gostei também porque me identifiquei, nas várias vezes em que me senti pouco adequada para a sociologia; em que escutei que o que fazia era teoria literária e, quando fui para a teoria literária, escutei que fazia sociologia; e quando escrevi uma dissertação com tanta preocupação com o que ouvira e vira que achei que aquilo ainda não era sociologia; e quando escrevi uma tese em que menos importância que os achados tinha o percurso e isso também não parecia sociológico. Eu sempre inadequada, juntando o rigor do trabalho e da pesquisa a uma forma pouco usual de apresentá-las, tentando usar a honestidade e a narração como parte indissociável daquilo que sai à luz. Mais preocupada com o leitor do que com a banca.
- E agora estou acabando de ler o Mia Couto, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, presente do Jorge e da Priscila. Ele tem um jeito bonito de escrever, lapidando cada frase de um jeito que a gente tem a impressão que não importa muito como a história vai se desenvolver; importam mais as trincas que cada pérola dura vai riscando dentro da gente. Eu queria mesmo ler um livro dele, desde que tinha dado pro Mauricio um livro infantil, chamado O Gato e o Escuro, que tinha me deixado muito emocionada. Estou gostando, sim, mas tenho medo do que acontece quando a gente lê até o fim um livro que vai abrindo buracos na nossa superfície: e se, ao acabar, a casca rachar inteira e eu me apanhar desprotegida?
- Tenho sonhado bem mais que o que costumava: sonhos longos, sonhos cotidianos, sonhos de trabalho, sonhos tão reais. Sonos agitados de Agosto. Ainda bem que setembro é ali, logo depois da esquina da semana.
- Ah! E ainda por cima ando sensível e de choro fácil. E fui inventar de comprar pro Rodrigo um livro chamado E o que vem depois do mil? Achando que era um livro sobre qualquer coisa, só porque é uma pergunta muito parecida com a que o Rô adora me fazer. "O que vem depois do vinte? E do cem? E do mil?". Comprei fechado mesmo. Chego em casa e abro, e decido ler. E aí é uma história de amizade entre uma neta e seu avô e ele fica doente e depois morre e eu chorei, chorei, chorei e mal consegui contar a história pro Rodrigo sem ficar toda engasgada, com um nó bem apertado me amarrando a garganta. Ninguém manda comprar livro só pelo título.
- Então é isso. por aqui: esse silêncio borbulhante. Boa semana para vocês e façamos como a Clarice Lispector - de cada domingo à noite, um reveillon modesto.
Imagem: www.gettimages.com
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23 agosto, 2010
anotado a lápis
Fim-de-semana de visita à mãe, onde topei com memórias empoeiradas - feitas de papel, de caneta, de gesso e de metal. Misturadas todas na gaveta do armário.
Tinha a embalagem do livro que o Petronio me trouxe de além-mar, registro de carinho e conspiração por e-mails com a Ana Lucia; tinha lembranças de casamentos, nascimentos e variados quinze anos; ttinha a carteira de vacinação e o último boletim do colégio, com mensagem querida da professora predileta; tinha o bilhete delicado que o Ricardo me mandou quando passei no vestibular, lembrança incandescente do vazio de maré cheia que ele deixou.
E daí encontrei trechinhos de leituras que ia fazendo. Como esta, com data de maio de 2001:
"Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruím ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero todos os pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado" (João Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas).
Encontrei também alguns bilhetes e cartas da Ana, que por alguma razão escaparam à reunião na caixa comum. Como um pequenino papel onde pousa uma borboleta amarela:
"E isso implica um trabalho sobre os limites e no limite da arte, à beira do abismo - onde o disforme resiste à forma, impele ao fracasso e deixa adivinhar o impronunciável" (Plínio W. Prado Jr, na apresentação à Descoberta do Mundo, da Clarice Lispector).
Foi tão bom jogar uma porção de coisas fora! Como se, ao perder certas chaves de mim, ficasse leve para me reinventar.
Imagem: Nacho Gómez.
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