09 junho, 2010

Das promessas


Casamento (Adélia Prado)

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

06 junho, 2010

Presença (e Ausência)

Feriado prolongado, Rodrigo desde sexta-feira fazendo febres, querendo colo, tomando pequenos e contínuos goles de água de coco... Cansaço e preocupação e também muitos pensamentos sobre essa relação de cuidado que vai se transformando: quando ele era menor, em algum ponto entre bebê e criança, o colo o acolhia, o peito o alimentava e hidratava, dormir perto nos acalentava a ambos. A doença ia e vinha e os modos de cuidar continuavam. Já faz um tempo que não é assim, que a doença vem e vai e a gente aprende o quanto ele cresceu - choraminga, quer presença, em tempo mais largo que o integral, mas já aprendeu que o colo não faz melhorar mais rápido. Me emociona, porém, saber que, apesar disso, acorda com febre à noite e procura as minhas mãos. Me emociona que apesar das minhas falhas e da minha impotência diante das dores que são só dele, ele me queira por perto mesmo que para dizer somente "eu estou aqui".

E para termnar esse post meio nonsense, registro um trechinho de Alan Pauls, selecionado pela Taísa (via Facebook), perfeito para falar desses fogos brandos que a gente vai carregando vida afora, lembranças mornas daquilo que nos falta:

"porque há estados de alma tão incandescentes que abordá-los é renovar seu ardor e arder... só é possível, então, afastar o olhar... fazer de conta que ainda resta algo no mundo que as chamas ainda não consumiram, até que o tempo, única força realmente invulnerável, capaz de afetar sem ser afetada, faça seu trabalho e o que era brasa viva seja por fim o tênue eco de um calor, uma cinza inofensiva" (Alan Pauls, O Passado).

01 junho, 2010

Agridoce



(porque todo sushi mistura a acidez do vinagre de arroz e açúcar).

28 maio, 2010

Amor

"Enfim, seria útil dispor de uma definição do amor.

Justamente, li nestes dias um livro que me tocou, "Éloge de l'Amour" (elogio do amor, Flammarion 2009, ainda não traduzido para o português), de Alain Badiou; é a transcrição de uma breve entrevista do filósofo francês.
Nela, inevitavelmente, Badiou constata que, em nossa cultura, a visão dominante do amor é a de uma espécie de "heroísmo da fusão" dos amantes, que, uma vez consumidos por sua paixão, podem sair de cena (para não se tornar ridículos) ou sair do mundo e morrer (para se tornar sublimes).

Contra essa visão, Badiou define o amor mais como um percurso do que como um acontecimento: segundo ele, o amor precisa durar um tempo porque é "uma construção".

Confesso que fiquei com medo de que o filósofo nos propusesse amores tagarelas, em que os amantes não parariam de discutir a relação (claro, para construí-la). Por sorte, não se trata disso. Então, o que constroem os amantes?

Geralmente, explica Badiou, minha experiência do mundo é organizada por minha vontade de sobreviver e por meu interesse particular: vejo o mundo só de minha janela.

Certo, ao redor de mim, há muitos outros de quem gosto e aos quais reconheço o direito de também sobreviver e promover seus interesses.

Mas o fato de eu respeitar esses meus semelhantes não muda em nada meu ângulo de visão. É só quando amo que consigo olhar, ao mesmo tempo, por duas janelas que não se confundem, a minha e a de meu amado. A estranha experiência ótica faz com que os amantes reconstruam o mundo, enxergando coisas que ficam escondidas para quem só sabe olhar por uma janela.

Entende-se que o amor assim definido exija tempo. Quanto tempo? Um mês, um ano, uma vida, tanto faz. Consumir-se na paixão pode ser rápido, mas reinventar o mundo a dois é uma tarefa de fôlego".


(Contardo Calligaris. A coragem do amor que dura).

25 maio, 2010

Pausa

Embora eu esteja bissexta, às vezes é bom avisar: hoje, só na semana que vem ;-)

Como aprendi com a Ana Lucia, que aprendeu com o Fernando Pessoa, enquanto isso, comam, durmam e não percam grammas.

21 maio, 2010

TPM


 Olha, vou dizer que não está fácil: essa TPM, misturada com a garoinha paulistana, me deixa à flor da pele, torna o que é casca uma superfície fininha e o mundo arrisca me invadir. O choro vem fácil, o salto no coração também, e mal dou por mim e meu corpo transborda. É tanta intensidade que quase não aguento. O mundo ora bonito e delicado e ora feio e violento. E no meio de tanta coisa imensa, a vida da gente fiando e desfiando. No meio de tanta coisa, as pequenas chances de interromper (Mauricio me contagiou...), de fazer brilhar no todo-dia e no mesmo essa coisa  preciosa e frágil: uma possibilidade.

Imagem: Ann Tarantino, Breath Portrait (blue and yellow pod), 2007.

19 maio, 2010

Besteirinha (2)

De novo, Lost. Tá acabando... Pra mim, ainda mais depois daquele intervalão que eles deram, demorou um pouco demais e perdeu o barato. Mas como a curiosidade matou o gato...

E aí, hoje, passeando por aí (já disse, procrastinação é meu segundo nome....), topei com esse vídeo, hilário. Com bônus do bonitão Esaú fazendo palhaçada ;-)


Aproveitando o momento besteirol, não me conformo que vão tirar o Castiel na próxima temporada de Supernatural. Não me conformo mesmo! Era o melhor personagem (vamos combinar que o último episódio da temporada deixou bem claros os limites do Sam para atuar em momentos dramáticos, né?)

Finalmente, outro comentário nada a ver, além de Lúcifer ser Jacob e o Guerra ser Esaú, Supernatural e Lost têm em comum essa problematização dos laços fraternos, né não?

15 maio, 2010

Estátua

"o passáro morto. como se enterra um pássaro? enterra-se um pássaro como enterramos os sonhos e os amores que não deram certo, como enterramos as palavras que nunca dissemos e cujo tempo passou e não volta mais? como fazemos com a esperança gasta, estúpida, andrajosa, puído o seu vestido verde, ou como lançamos à terra o gesto que guardamos nas mãos e não significa mais nada além de uma saudade? uma, duas, três, todas. meu deus, por que eu, justamente eu, que de todas as coisas que não sei fazer aceitar a morte é aquela na que sou pior? por que eu, eu que não termino nada, que jamais consegui dar um fim ao que quer que seja, que estendo os laços até esgarçá-los, que me agarro às histórias como se num naufrágio, que sou conhecida pela minha avidez por inícios e tenho plena convicção de que uma vez encontrado o amor, este amor eterno? e com tudo isso me lançam aos pés um pequenino milagre expirando, e não tenho outra saída a não ser fazer das minhas mãos em concha seu leito de morte, e é com violência que me obrigam a aceitar que ele se retire da vida, e, não satisfeitos, que isso eu assista, completamente impotente, e que seja eu quem o enterre e sozinha guarde um luto sem lágrimas, o pior. o passarinho extinguiu-se, nas minhas mãos fazia cada vez menos calor e minha boca foi ficando amarga e seca e meus olhos idem, idem. de lágrima nem arremedo - já me morreram tantos milagres que me obriguei a desaprender de chorar. defesa, covardia, estratégias de sobreviver. ou talvez tenha sido natural a secura, o processo de enrijecer. há muito sou feita de sal de tanto olhar pra trás, feita de sal mas andando, correndo, saudade do que fica para trás, eu me volto e olho, sempre olho, e a cada dia sou mais feita de sal, sou mais terra infértil, sou mais farsa, mais trapaça, eu que não aceito mortes e disfarço muito bem. de tanto olhar de volta me atraso e não importa qual revés, não me importam conselhos, tentativas de resgate, exemplos ou lições edificantes, eu faço o que quero, da maneira que me apraz: vou morrendo escondido, morrendo em silêncio, devagar, muito aos poucos, numa imitação de flor, de milagre ao contrário desistindo de voar".

14 maio, 2010

Inverno

Ultimamente, é só Tiê por aqui - over and over and over and over again...



É macio e doce: espalha pela alma feito camadinha de glacê.

12 maio, 2010

É pique-é pique- é piquenique!

Ainda que com bastante atraso, registro aqui um pouquinho do delicioso piquenique, que como eu já contei aqui e aqui, vai devagarinho se firmando como des-compromisso gostoso. E agora o piquenique tem blog próprio, com registros, receitinhas e ideias para quem também quer começar a fazer um Piquenique Perto de Casa!

O domingo amanheceu tristonho, naquele clima de antes-da-chuva que tanto me dói por dentro. Então, achamos que o piquenique tinha dançado - o combinado é o seguinte: não choveu, tem piquenique.

Mas aí, como a chuva estava indecisa, fiquei indecisa também e resolvi dar uma passadinha pela praça, para ver se alguém tinha se animado. Vi a Veronika e a Mônica dando voltas no coreto e então resolvi preparar as coisas para ir ao piquenique - em tempo: vendo a cena, achei que elas estavam procurando um lugar menos molhado para estender as toalhas, já que tinha chovido tanto no sábado. Só depois que descobri que todos estavam arrumando a bagunça que uma festa no dia anterior deixara; se soubesse, juro que tinha descido e ajudado :-)

Veronika, Neide e Mônica, enfrentando o tempo carrancudo 

Voltamos para casa e aí fui fazer os pães de queijo com o polvilho doce, enquanto Rodrigo e Edu amassavam um pão com uvas passas. Também resolvi fazer uma guacamole - ultimamente, vício por aqui.

Nessa brincadeira, levamos quase duas horas e aí, como a chuva continuasse ameaçadora, decidimos ir apenas com os pães de queijo e a guacamole mesmo, deixando a massa do pão com passas crescendo.

Guacamole, farta em cebola e coentro

Rodrigo, como sempre, estava animado para ir ao piquenique. Pôs suas botas vermelhas e seus binóculos, recusou o casaco - "eu não tenho frio, mamãe" - e logo se juntou aos meninos da Veronika para explorar a praça molhada. Como bem disse a Neide, crianças gostam de piquenique.

Exploradores: tudo vira brinquedo

E o fato é que o dia das mães foi delicioso, com conversas sem pressa, empadas abertas, bolo de maçã, biscoitinhos, saladinhas, suco de maracujá e vinho... O friozinho foi mais que equilibrado pelo quentinho que esses encontros esparramam por dentro - como bem disse a Mônica, o piquenique é encontro, é mudar a relação que temos com o entorno de onde moramos, é trocar receitas, mas também é cuidado e delicadeza com a praça, com os  demais piqueniqueiros, com as crianças que brincam  soltas no espaço e na imaginação.

Aqui em casa, o piquenique começa bem antes do domingo, na escolha do que preparar, no fazer das receitas, do sorriso sapeca do Rodrigo roubando massa crua de pão, no arranjar as coisas na sacola. E continua depois, na maciez que sucede os momentos que são plenos.

Os piqueniques têm sido pura partilha.

E a única coisa que me deixou triste neste último piquenique, depois de ver o post da Neide, foi perceber que perdemos a banana com paçoca ;-) Acho que esse é um dos cafés da manhã prediletos do Rodrigo: banana amassadinha com paçoca; eita combinação boa! E a ideia que ela teve, de fazer uns espetinhos, foi tão boa - ao ver as fotos, fiquei com água na boca!

Fotos: Neide Rigo.