Se te pareço noturna e imperfeita/
Olha-me de novo. Porque esta noite/
Olhei-me a mim, como se tu me/ olhasses. E era como se a água
Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. (Hilda Hilst)
(tá tão delícia, o serzinho acordando todo dia e abrindo o maior sorriso do mundo quando escuta que não terá que ir pra escola :-) E ele me fez prometer que poderá convidar DOIS amigos de uma vez para virem em casa durante as férias. Já viram, né? Quando acabar as férias dele, eu é que vou estar precisando de férias!).
Tem pessoas que a gente ama e pronto, sem precisar de explicação ou justificativa: ama porque sim.
O Mauricio é um dos meus amigos mais queridos (como quem lê o blog já deve ter percebido, tamanha a frequência com que ele aparece por aqui) e é uma dessas pessoas a quem simplesmente amo. Nos conhecemos há pouco mais de treze anos, quando tínhamos cara de muito novinhos (e éramos!).
Foi para o Mauricio que dei "O Inventário do Ir-Remediável" de aniversário, no meio de uma aula lotada na famigerada sala... 14? (mas, felizmente, não carrego a culpa por ter apresentado o Caio a ele, já que ele só foi gostar mesmo quando leu "Os dragões não conhecem o paraíso", que tinha emprestado da Ana). Foi com ele que troquei inúmeras mensagens, em tempos de aulas e também de férias (que, naquela época, duravam um tempão), além de bilhetes durante as aulas, cartas de fim de semestre e dedicatórias e adendos nos trabalhos finais. Foi também pra ele que dediquei minha tese, querendo fazer jus à intensidade (e, sobretudo, à importância) de nosso diálogo.
Embora não precise de explicação ou justificativa, não me faltam motivos para amá-lo tanto: pela paciência que tem comigo, pela inteligência límpida e sensível, pelo humor delicioso, pelo bom gosto, por tudo que me ensina, pelas séries de TV divididas, porque ele é lindo e gostoso, porque divide comigo a paixão pelo Caio e pelo Foucault, porque é uma das pontas desse triângulo amoroso essencial entre ele - Ana Lucia e eu... Também porque ele não me rifa apesar de meus furos em suas festas de aniversário (como a do último sábado), apesar de eu sempre atrasar a entrega de seu presente (e, em muitos anos, entregar o presente dele só no meu aniversário) e apesar das minhas loucuras, inseguranças e besteiras.
Tem pessoas que a gente ama porque sim: é bater o olho, se reconhecer e pronto! Mas mesmo sabendo dessas sem-razões do amor, é bom quando a gente vai encontrando e renovando os motivos para continuar a amar, quando a gente vai adensando a memória compartilhada (que um dia o Mauricio me disse que era a amizade) até o ponto em que fica difícil separar certos momentos da vida e pedaços nossos da história do outro. Mauricio, meu querido amigo: pra você, o meu carinho infinito...
O que gosto em você é que, quando nos falamos, é como se meus ouvidos pela primeira vez reconhecessem o som de minha própria voz: você me ouve tão atentamente que, então, também sou capaz de me escutar.
E o que mais gosto em você é que quando te escuto, é como se minha boca aprendesse pela primeira vez a calar e a sorrir compreensiva: me concentro tanto para acolher o que você diz, que se inauguram dentro de mim silêncios e espaços.
Porque gosto tanto assim de você, reaprendo meu corpo e meus gestos; me reconheço e me estranho; me perco, só pra logo em seguida me encontrar.
Não tem cinza, só uma festa de confetes coloridos por dentro - borboletas no estômago, brincando alegremente. Não tem frio, só a memória do calor nas mãos, nas costas, nos pés; só a lembrança da respiração quente bem na curva do pescoço - arrepio. Não tem água, só desculpa pra abrir o guarda-chuva de gomos de arco-íris e caminhar afrontando o recolhimento - como quem a qualquer momento vai decolar.
Na sexta-feira passada, na hora do entardecer vermelho-alaranjado que tem feito por aqui, eu estava num prédio em Pinheiros. Era uma sala comercial, cheia de janelas, de maneira que a luz invadia todo o espaço. E em determinado momento, percebi que tinha sido subitamente levada para dentro de um conto do Caio: eu estava lá, ao lado do narrador de "Sem Ana, Blues", presa no momento-quando da despedida, na sala em que Ana nunca mais estaria:
Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite podiam-se ver uns restos de dourado e vermelho deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros (In: O dragões não conhecem o paraíso. São Paulo: Companhia das Letras, p. 42).
Depois disso, comecei a me lembrar de como sempre penso no Caio quando passo pela Consolação. A palavra talvez não seja nem mesmo pensar, mas sentir. Passo por lá e, não importa a hora, é noite e é frio e é chuvoso...
Tem um ponto específico, então, logo depois do Cemitério, que é impressionante: é passar e estar num conto dos Morangos Mofados, embora eu não tenha conseguido localizar exatamente qual; é que eu tinha a impressão de que era "O dia que Urano entrou em Escorpião", mas agora percebo que provavelmente fui traída pela minha memória. Porque sem dúvida eu deveria ir parar mesmo era em "Pela Noite", que algum crítico um dia aproximou de "Dois perdidos numa noite suja" (mas, de novo, minha memória tá capengando e não vou saber dizer quem é. Será que era na orelha da minha edição perdida de "Triângulo das Águas"?).
Em "Pela Noite", Pérsio e Santiago perambulam a madrugada inteira pela cidade. São Paulo é cenário, mas é também personagem, violenta e solitária, que quase interfere na relação entre eles. São Paulo, escura, fria e úmida, mas ao mesmo tempo veloz, tumultuada e frenética: a cidade se interpõe entre ambos, dificulta a comunicação, porque a noite é tão cheia de possibilidades que incita o desencontro. Ambos são estrangeiros na cidade. Mas o reconhecimento é difícil, ainda que eles falem como quem lança uma corda na direção do outro - uma brecha de delicadeza e salvação no meio do caos.
É muito significativo que o Caio tenha decidido republicar esta novela em "Estranhos Estrangeiros", em que ele quis reunir contos que falam dessa condição de não estar em casa em lugar algum, como explicita a epígrafe: "Pareço uma dessas árvores que se transplantam, que têm má saúde no país novo, mas que morrem se voltam à terra natal" (Miguel Torga).
Em "Onde andará Dulce Veiga?", que também é a história de uma viagem em busca daquilo que falta, São Paulo também é personagem - dura, seca, suja, em que o que se procura pode ser miragem, como Dulce Veiga de braço estendido em direção ao alto, na esquina. São Paulo é o lugar da solidão, da decepção, da luta feroz para sobreviver. É o lugar que se abandona para poder reencontrar o próprio nome (o nome que se perdera quando o outro foi embora - desencontro depois da luminosidade do encontro). A cidade quase estraçalha quem nela vive.
Enfim. Post sem muita lógica - só para registrar essa percepção de que há diversos lugares dessa cidade que eu amo (e de vez em quando também odeio e temo) nos quais encontro o meu autor predileto. O que só me dá ainda mais motivos para amar a ambos.
(Como em "Pela Noite", ao som de Piazolla...)
Imagem: Dimtri Kessel, São Paulo, em 1947. (Dica do Pedro, há um tempão...).
Esse peso, essa dificuldade de respirar, essa indecência de azul no céu sem nuvens? Esse desejo de ficar em silêncio, essa urgência de me comunicar, essas lembranças a um só tempo boas e doloridas? Essa estranheza por debaixo da pele, esse pressentimento de que a vida pode ser outra coisa?
Oficialmente: é agosto por dentro.
***
Mas aí, pra distrair Agosto, a gente leva o filho pra cortar o cabelo, caminha com ele de mãos dadas pelas ruas, enche o coração de tanto olhar a pessoinha querida crescendo, senta no balcão da padaria pra dividir com ele um chocolate quente e de uma só vez, ganha dois presentes: um beijo na mão, roubado pelo filho, e um olhar raso de lágrimas da moça que está ao lado, observando que "carinho assim, é coisa de criança amada". E nem Agosto resiste diante de tanta doçura...
Essa música me leva de volta ao apartamento que ela tinha na Av. Angélica, às compras à meia-noite no Pão de Açucar, às viagens de ida e volta para São José, embaladas pela fita que ela me gravou. Mas também me leva para o momento-quando eu lia o Caio com voracidade, mergulhando muito mais fundo que o aconselhável em sua literatura dolorida; me leva para a urgência que havia em escrever e experimentar a escrita; para os domingos de leitura de poesia no escritório do Chamie, com Nilton, Rodrigo e Fábio; para as festas de todas as quintas-feiras na república do Vini, do Rodrigo, do Zé e do Chico; para os domingos de Consolação vazia, em que a Márcia e eu íamos para as oficinas de teatro no Maria Antônia; me leva de volta àquela certeza de que a vida é curta e frágil que sucedeu à morte da Fá; para os tempos em que o lugar mais doce do mundo era ao lado do Emílio; me leva, enfim, para treze anos atrás. E não tenho a menor idéia de como fui parar lá, hoje. Assim. Tão de repente.