20 dezembro, 2013

assino embaixo

do que a Noemi Jaffé escreveu: por outro lado, esse "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas", é bem careta. cativar é tornar cativo, aprisionar. é a definição clássica, grega mesmo, de paixão - uma doença que aprisiona o sujeito. daí que cativar não tem nada a ver com amizade, que é, por natureza, livre. assim sendo, sugiro: "tu te tornas temporariamente irresponsável por aquilo que libertas". isso sim é amizade.

24 novembro, 2013

na beirada da semana

(a trilha inteira do filme é ótima - assim como o filme, ainda melhor do que o primeiro. mas essa música é de colocar no modo repeat, ad infinitum).
(bom domingo chuvoso para você, que também está trabalhando).
(e ótimo domingo chuvoso para você, que não está trabalhando, claro!).


10 novembro, 2013

paragem

“Nada em nós ventila, só o vento dentro do vento nos alcança, sem notícia, nem claridade, nem viagem nem sal marinho” (Nuno Ramos).

Coloco o grão-de-bico deixado de molho, desde ontem, pra cozinhar na panela de pressão. Histórias antigas de panelas explodindo passam rápido pela minha memória, a pele solta do grão inchado entupindo os buracos por onde o ar deveria escapar. Penso no meu irmão, sempre tão mais artesão de virar o sentimento em palavra. Penso nele conversando com a mãe. Tateando a coragem. Pedindo ajuda pra se desvencilhar de si mesmo e colocar um pé adiante de outro pé adiante. As conversas lentas na cozinha onde a luz do dia fazia contraste e em vez de iluminar, protegia as sombras.
Eles conversavam naqueles meios de tarde, a louça já lavada, as panelas de alumínio brilhando, o café já começando a pingar no bule comprido, também ele de alumínio. Eles conversavam e eu ouvia. Do que falavam não era nenhum segredo, mas ainda assim eu me esgueirava para escutar, espichava o ouvido, o coração quase atrapalhando a missão de tanto que tum-tum-tum.
Pego na cesta um gengibre já querendo murchar, tanta secura por dentro. Vou no quintal, agora mato alto, e encontro coentro, florindo brancuras. Também ele meio amarelando, o sol do meio dia paralisando até a vontade tênue. Faz calor. Um calor modorrento.
Penso no meu irmão para desviar de pensar na mãe. Em seus sabimentos. No jeito de ensinar as coisas mais duras, mais fundas, como quem ensina a cortar a lenha ou a dar ponto de tricô. Ela nem lia. Nem escrevia. O mundo não era um livro aberto – as páginas brancas ordenadas em sentenças, encadeamentos, sentido. O mundo dela era cheio de recônditos e entranhas. Sentidos só vezemquando revelados. A mãe era toda poesia, os cabelos soltos, as mãos rugosas, os olhos transluzindo todos os universos que ela tornava habitados.
Pensar nela me paralisa, agora. Devia ser o contrário: sem ela, sem o pai, eu navio subindo as âncoras e capaz de errar, tantos mares. Mas lembro dela, lembro essa minha orfandade e ai. Falta o ar.
Na caçarola jogo cebola, gengibre, cominho. Também duas folhas de louro. Três dentes de alho, inteiros. Azeite, bem pouquinho.
Quando eu tinha medo, ela falava de sol e chuva, de secas e umidades, de estações. Eu entendia, sem entender. Que o presente é frágil. Que a vida é ciclo. Que tem tempos de aridez e estio. E outros de festa úmida e florescências. Que a coragem está no passo, mas também na espera – pelo tempo certo e oportuno.
O ar que me falta, há de voltar a soprar? Quando eu doente, um amor derramado em caldos, nem todos bons. A canja, claro, imitando um sol desmaiado, pra não provocar a doença. O chá grosso de açúcar queimado, cravo, canela e gengibre. Tomado quente, só quando a cama já feita e o sono já próximo. A suadeira exorcizando o que quer que estivesse ali, roubando as forças. O chá de alho também – no limiar entre o ruim e o bom.
O irmão dominava as palavras e assim arrancava da mãe bonitezas e filosofias – ele queria aprender a viver, e mãe lhe passava as chaves com que abria o cada dia. Eu sempre fui de silêncios. De dores apertadas no peito ou no pescoço. Da mãe eu só arrancava os cuidados práticos – os remédios na doença; a comida no todo dia; o cerzido nas roupas; a cama feita nas manhãs.
Corto em cubinhos a cenoura e a vagem. Ponho pra cozinhar no vapor. O ponto certo entre o nem cru, nem cozido demais.
Penso na mãe, no pai e nessas podas à revelia. Eu agora menos afeito à minha terra, à casa e à rua onde cresci. Mas incapaz ainda assim de me lançar.
Acendo o fogo debaixo da caçarola e sinto o cheiro do gengibre, do cominho, da cebola. Todos os cheiros misturados, tão fortes, tão bons. Coloco o grão de bico. A cenoura. As vagens. O dahl vai ganhando corpo, o caldo grosso, os sabores intensos.
Antecipo o gosto, sabendo o calor, preparando as bochechas e o estômago quentes. Sabendo, sem saber, que é comida de curar. Cortando o coentro e jogando ali, ainda que nem faça sentido comer comida tão quente num dia tão quente. É estranho. Tão estranho que pra criar refresco, seja necessário ainda aumentar o calor.
Sento pra comer. Sozinho, na mesa onde aprendemos a ser família. O irmão, bem ensinado nas coragens, agora do outro lado do mundo. A comida aquece a boca, desce esquentando peito e barriga. Fervura. O gengibre, o cominho, o coentro clareando as maçãs do rosto, ensinando ao ar os caminhos por onde inflar os pulmões.
Dentro de mim, algo faz vento e finalmente sou capaz de respirar.

30 outubro, 2013

que não sou árvore para deitar raiz

para v.

que não sou árvore para deitar raiz. ela me diz. e eu, minhas raízes aéreas, entendo. escuto o desejo de outrar-se em novas terras, novos ares, nova água. de transplantar-se pra saber o que fica o mesmo e o que muda. e o que muda é a parte em nós que se deixa carregar - o acaso, o destino, a vontade. as raízes em suspenso, encolhidas como as pernas no avião, esperando novo porto pra espreguiçar amplo. esse jeito de não pensar, pensando, que ir é diferente de chegar. porque se a gente chega, é sempre em algum espaço dentro de nós mesmos, quando a pele cabe macia, recobre de conforto a fragilidade do que então, a cada vez, somos. era esse o trecho que eu tateava quando cheguei às margens de um rio: "os livros que a gente lê são uma espécie de raiz. outra espécie é das pessoas que a gente conhece e que vão arando a gente, plantam e quando você percebe já floresceu ficou podre caiu virou adubo. meu objetivo de vida é virar adubo, te digo"*. ela não é árvore pra deitar raiz. mas o silêncio fértil, a terra úmida, o novo que inaugurou em mim afirmando o contrário.

* Marcos Visnadi, na Biblioteca do Mundo do Saturnália, há muito tempo (o link não existe mais).

25 outubro, 2013

baloiço

o sol ensaia sua aparição:
hoje deu pra borboletas
no estômago
e não reúne a coragem
necessária, tão necessária
quando a gente precisa das as caras
para bater.

enquanto ele não vem,
venta.
na rede encharcada, o ar
se deita, se espalha
faz dela balão
dançando lento
como quem se embala
sozinho, em meio à casa vazia.

pra colorir a sexta-feira



23 outubro, 2013

política abissal II (conversas chilenas)


Foto: Cristiane Fernandes
nós sempre falamos muito de política. sempre. mas o exercício de memória por ocasião desses quarenta anos quase torna a política um tabu: não tem mais discussão, parece torcida organizada. mal se começa a falar e já se está brigando. tudo muito dolorido. houve especiais de tv, alguns muito bonitos e bem-feitos, falou-se muito de tudo que passou, mas não apenas as vozes então silenciadas se manifestaram e alguns, aqueles, saíram à rua para reconhecer "exageros" ou até mesmo pedir perdão. perdão. e a resposta foi clara: não perdoamos. não é possível perdoar, ao menos não assim, como o pedido sugere - como se um aceno de cabeça ou um meneio de mãos dissipasse toda dor, ainda insepulta.

***

Foto: Cristiane Fernandes

os cachorros de santiago são muitos. e grandes. e bonitos. e saudáveis. andam entre os transeuntes, altivos. alguns têm roupas. outros, morada coletiva em casas construídas nas praças. provavelmente para que se abriguem no frio. não brigam entre si, ao menos não cotidianamente. os latidos que ouvi, somente dos cachorros com dono. esperam o sinal fechar para latir com veemência para a fila de carros. dormem, em meio à calçada, com serenidade que revela a confiança de que estarão seguros. não recebem afagos a todo o tempo, mas de vez em quando alguém se senta para lhes coçar a orelha. são parte da paisagem. são signo vivo de certa forma de tratar a vida?

***
creio que não ia gostar do brasil. o chile é um país maravilhoso: caminhando para um lado, temos sol forte e calor; caminhando para o outro, temos frio e neve. meus tios me convidam sempre, mas eu nunca vou. prefiro aqui. vou pegar um azul para você, que está muito lindo. sou gráfico, faço silk para camisetas. mas ganho dinheiro mesmo aqui, vendendo sapatos. quase o dobro. para passar as férias, prefiro o chile, já estou acostumado. meus pais vão sempre ao brasil, eu não. fico aqui. e o vermelho? você não gosta? é couro, todo sapato chileno é feito de couro de verdade. aqui nesse país, agora é assim: se as coisas estão bem ou se estão mal, depende de pra quem se pergunta. e não tem a ver com posição social, não, é uma questão de fé. há os que crêem que tudo vai melhorando e está bem. há os que crêem que tudo está piorando e está mal. e a verdade é que ninguém entende nada do que está se passando. por isso vivo cada dia de uma vez, me concentro no que estou fazendo agora. acho que o verde é que ficou bom, não é verdade?

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nos ônibus que passam, vários, a placa lembra que tentar viajar sem dinheiro para a passagem é crime, dá multa vultuosa e faz o barato sair caro. no jornal entregue na porta do metrô, ficamos sabendo de lei recentemente aprovada, que torna todos os cidadãos doadores compulsórios de órgãos, a menos que eles se dirijam a um cartório e paguem uma pequena quantia para registrar seu desejo de não doar. é uma pequena quantia mesmo, entre seiscentos e cinquenta e oitocentos e cinquenta pesos. mas juntando o conhecimento da lei, o deslocamento, o tempo de ir ao cartório, a taxa, o custo aumenta e torna os pobres apenas doadores compulsórios. os pobres que a gente quase não vê nas ruas centrais de santiago e que minha amiga me explica que é porque estão longe. que é porque sabem o seu lugar. que é muito importante saber seu lugar. dormirão tão tranquilos quanto os cachorros nas esquinas? terão a coragem de provocar os motoristas dos carros, enfileirados, em sua inexorável rota?

19 setembro, 2013