direto do túnel do tempo, reencontro essa música.
trilha perfeita para momentos mimimi :-)
Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo. Porque esta noite/ Olhei-me a mim, como se tu me/ olhasses. E era como se a água Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. (Hilda Hilst)
12 setembro, 2015
11 setembro, 2015
42 anos depois
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10 setembro, 2015
27 agosto, 2015
tempestivo
Momento-quando. Acho que essa é uma das imagens mais fortes que aprendi com o Caio Fernando Abreu. É quase uma categoria: o nome preciso daqueles instantes que caem do fluxo arrebatador das coisas de todo-dia. É uma paralisia: a suspensão do correr do tempo. Por vezes um respiro. Por outras, uma impossibilidade de continuar (e, acreditamos, mais dia, menos dia, será necessário continuar). Ele pesa, porque o corpo parado impõe resistência a tudo o que continua a vazar pelas comportas do cotidiano. No momento-quando, não dá para simplesmente se abandonar à correnteza.
O momento-quando é uma espécie de agosto - o que temos que atravessar, mas cuja travessia não dá para apressar. Mas, à diferença de agosto, o momento-quando nem sempre é seco. Daí o risco de que permanecer no interior dele dê tempo a deitar raízes. O que dificulta tudo: para seguir adiante, será necessário não apenas esperar setembro, mas também arrancar-se - com mais ou menos força, a depender de quanto se tenha deixado ficar. A gente talvez nunca saia inteiramente de alguns momentos-quando. Ficam uns pedaços nossos lá dentro, para sempre perdidos. Tantos mais pedaços quanto mais fundas as raízes. Ficam uns pedaços dele dentro de nós - aqueles que arrancamos no esforço de retomar o movimento. Os momentos-quando de uma vida configurando um mapa de escarpas pontilhadas, cartografia da memória. Cartografia vertiginosa da memória.
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25 agosto, 2015
resiliência
(pra atravessar agosto)
26 junho, 2015
uma boniteza
O lugar em que temos razão (Yehuda Amichai)
Do lugar em que temos razão
jamais crescerão
flores na primavera.
O lugar em que temos razão
está pisoteado e duro
como um pátio.
Mas dúvidas e amores
escavam o mundo
como uma toupeira, como a
lavradura.
E um sussurro será ouvido no
lugar
onde houve uma casa
que foi destruída.
Tradução: Nancy Rozenchan
30 maio, 2015
da rapadura
que é doce, mas não é nem um um pouco mole. boa noite, então, pra quem pode dormir. hoje eu fico entre livros (acadêmicos) e boa música. trabalhando, trabalhando e trabalhando. ao menos até o corpo aguentar!
04 maio, 2015
(sul global)
"Chego agora à minha consideração final, que é sobre a Europa e o sul da Ásia hoje. [...].
[Os] governantes dos países recém-independentes do sul da Ásia continuaram com seus projetos de construir Estados-Nação modernos. Ganhar a soberania dos poderes coloniais liberou as molas do amor pelo conceito de ocidente entre as classes médias em expansão. Não me refiro aqui à alegada paixão dos jovens indianos por roupas de marca e música pop, que muitos sentem estar ameaçando nossa tradição nacional. [...] Estou mais preocupado com a invocação da modernidade ocidental que nos diz que, ao praticar as mais recentes artes do gerenciar populações, estamos perdendo a corrida porque estamos atolados na política. Há uma crescente impaciência entre as classes médias, que sentem que não estamos alcançando o ocidente rápido o suficientes porque temos democracia demais. Ao mesmo tempo, há uma tentativa renovada de impor um ramo particular da cultura de casta alta bramânica modernizada como a verdadeira cultura nacional, baseando-se no fato de que todas as grandes nações do ocidente foram construídas através de um processo de homogeneização cultural. A mesma lógica leva os meios políticos de cada país do sul da Ásia a considerar seus vizinhos como rivais e potenciais inimigos. E, desnecessário dizer, é a mesma lógica que está levando esses meios políticos a uma corrida nuclear, fundada na crença de que essa é a única maneira de se obter o respeito das grandes potências do ocidente. Com a adequada deferência aos representantes de nossos meios políticos, possa eu afirmar que isso não reflete a sabedoria do príncipe de Maquiavel. Antes, reflete a mentalidade do pequeno batedor de carteiras que acha que o mundo é governado por grandes bandidos, e vive na fantasia de que, imitando a sua bazófia e impetuosidade, um dia será convidado a entrar para o seu clube. É uma paródia - uma paródia patética - do chauvinismo das grandes potências, destinado a fazer com que nossas elites se sintam bem consigo mesmas, mas cujo preço, como sempre, recairá sobre os pobres e sobre aqueles que não têm poder em nossa sociedade. [...]
Cabe a nós, aqueles que ainda [somos] marginais no mundo da modernidade, usar as oportunidades que ainda temos para inventar formas novas para as modernas ordens sociais, econômicas e políticas. Fizemos muitas experiências nos últimos cem anos mais ou menos. Muitas das formas a que chegamos foram consideradas, por outros assim como por nós, como adaptações imperfeitas do original - não terminadas, distorcidas, talvez até mesmo falsificadas. Vale a pena considerar se muitas dessas formas supostamente distorcidas - de instituições econômicas, leis, práticas culturais - não poderiam de fato conter a possibilidade de formas inteiramente novas de organização econômica ou governança democrática, nunca imaginadas pelas velhas formas de modernidade ocidental. Para isso, no entanto, temos de ter a coragem de virar as costas para a história dos últimos quinhentos anos e nos defrontar com o futuro com uma nova maturidade e autoconfiança, nascidas da convicção de que Vasco da Gama não deve nunca aparecer em nossas costas novamente" (Partha Chaterjee. Quinhentos anos de amor e de ódio. In: ___. Colonialismo, modernidade e política. Salvador: EDUFBA, CEAO, 2004, p.40;42).
Cabe a nós, aqueles que ainda [somos] marginais no mundo da modernidade, usar as oportunidades que ainda temos para inventar formas novas para as modernas ordens sociais, econômicas e políticas. Fizemos muitas experiências nos últimos cem anos mais ou menos. Muitas das formas a que chegamos foram consideradas, por outros assim como por nós, como adaptações imperfeitas do original - não terminadas, distorcidas, talvez até mesmo falsificadas. Vale a pena considerar se muitas dessas formas supostamente distorcidas - de instituições econômicas, leis, práticas culturais - não poderiam de fato conter a possibilidade de formas inteiramente novas de organização econômica ou governança democrática, nunca imaginadas pelas velhas formas de modernidade ocidental. Para isso, no entanto, temos de ter a coragem de virar as costas para a história dos últimos quinhentos anos e nos defrontar com o futuro com uma nova maturidade e autoconfiança, nascidas da convicção de que Vasco da Gama não deve nunca aparecer em nossas costas novamente" (Partha Chaterjee. Quinhentos anos de amor e de ódio. In: ___. Colonialismo, modernidade e política. Salvador: EDUFBA, CEAO, 2004, p.40;42).
28 abril, 2015
dos amores
"Então, quando estou lendo livros — leio muito bagunçadamente —, me sinto
como se estivesse conhecendo pessoas legais, como se estivesse naquele
momento que tinha quando era mais menino, de que toda pessoa carrega
consigo um pedaço da vida muito grande. Quando você está no colégio, no
ginásio, parece que as grandes conquistas da humanidade estão todas ali,
em quatro ou cinco amigos. E aí entra um cara novo e o cara abre um
negócio… Literatura é um pouco isso, como se você conhecesse um sujeito
novo, alguém assim".
"Acho que tem uma potência de reformulação na morte, de reordenação da
vida, tem uma potência na catástrofe. Acho que não é morte, é
catástrofe. Tenho ligação com aquela situação de depois do furacão. [...] Então, acho que a morte e do que gosto nela é dessa potência de
reordenação. É uma grande escultura, não é? Nesse sentido, acho que a
morte tem a potência de abrir o real. A violência tem isso. Agora, é
claro que a violência é cega e ela faz coisas horrorosas. Não sinto em
mim nenhum sadismo. Se sentisse, eu diria, e estou falando como artista,
não como cidadão. Não tenho gosto por sadismo, não é o lado de que
gosto. A propósito, acho o Marquês de Sade um chato. Não acho aquilo nem
sádico, acho muito metódico, francês, cartesiano. Agora, a força de
destruição da vida é algo que quero estar perto. Porque acho que ela é a
mesma força que refaz a vida. É nesse sentido que a coisa da morte está
presente na minha literatura".
Nuno Ramos, nessa entrevista saborosa.
(mais uma vez, encontro o nuno ramos num momento tão oportuno, tão preciso que até recupero meu pensamento mágico).
(e ele me faz lembrar de coisas compartilhadas com a veronika, com o tony, sobre escrever, sobre ler, sobre esse jeito de experimentar a vida e o mundo).
(conto ao marido do novo amor. "me reconheço nele", digo. e ele ri, "você gosta dele porque se vê no espelho?". é isso e não é isso. gosto dele porque vejo ali uma vitalidade que reivindico, que procuro preservar em mim. gosto dele porque, ler o que escreve é como acordar sem sono algum, inteira. porque quando leio alguns de seus textos, o "entender" passa pela pele, pelas maçãs do rosto, pelos olhos úmidos. porque ali tem alguma coisa que me põe viva. e isso nunca é pouco).
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22 abril, 2015
o risco da segurança
"La sécurité, c'est se retenir au bord du désastre. La sécurité détermine cette temporalité du délai, du 'temps qui reste' - comme dans le qui tenet de saint Paul. La sécurité, c'est: encore un peu, toujours pareil. La sécurité reconduit, persévère, insiste. Elle tient, maintient, retient. Or la catastrophe surtout, écrivait Walter Benjamin, c'est que tout continue comme avant. Arrimé au dogme de la sécurité du marché, e néocapitalisme n'a tiré et ne tirera aucune leçon des crises. Les profiteurs du système (décideurs financiers, médiatiques, industriels, politiques) sont à ce point comblés qu'ils doivent pouvoir se dire, sauf à paraître à leurs propres yeux de monstres, que leur situation est juste, méritée, résultat d'évaluations convergentes et exactes, et qu'ils ne prennent rien aux autres. Le marché est infaillible. Tout continuera comme avant, la catastrophe insiste, et la sécurité n'est rien d'autre que cette insistance. Tant que les profiteurs seront les décideurs. L'accroissement exponentiel des inégalités sociales exigera certes toujours davantage des dispositifs 'sécuritaires' au sens cette fois où il faudra bien corriger les effects 'à la marge' des marchés prétendument autorégulés: la rage vide et la colère aveugle des dépossédes, des endettés, des rejetés, des déchets. Les régimes néolibéraux sont voués à devenir des États policiers, comme il faudra toujours plus contenir les explosions de la misère. La dégradation rapide et irréversible de l'environnement animera toujours davantage, à chaque cataclysme, en contrpoids dérisoire, le mythe d'une société reflexive, d'une modernité éclairée, consciente des risques, et prête cette fois à prendre la mesure du danger encouru par tous. Mais comme le dogme de la sécurité du marché considère toute intervertion publique, toute volonté politique comme malvenue, falsifiante, calamiteuse, on peut être certain que rien ne sera fait pour freiner la mise à sac illimitée de la planète, l'aveuglement productiviste, l'augmentation délirante des inégalités.
La sécurité (la catastrophe), c'est quand tout continue comme avant" (Fréderic Gros, Le Principe Sécurité. Paris: Éditions Gallimard, 2012: p.237-8).
- Crítica da Razão Negra (trecho do livro de Achille Mbembe).
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