22 abril, 2015

o risco da segurança

"La sécurité, c'est se retenir au bord du désastre. La sécurité détermine cette temporalité du délai, du 'temps qui reste' - comme dans le qui tenet de saint Paul. La sécurité, c'est: encore un peu, toujours pareil. La sécurité reconduit, persévère, insiste. Elle tient, maintient, retient. Or la catastrophe surtout, écrivait Walter Benjamin, c'est que tout continue comme avant. Arrimé au dogme de la sécurité du marché, e néocapitalisme n'a tiré et ne tirera aucune leçon des crises. Les profiteurs du système (décideurs financiers, médiatiques, industriels, politiques) sont à ce point comblés qu'ils doivent pouvoir se dire, sauf à paraître à leurs propres yeux de monstres, que leur situation est juste, méritée, résultat d'évaluations convergentes et exactes, et qu'ils ne prennent rien aux autres. Le marché est infaillible. Tout continuera comme avant, la catastrophe insiste, et la sécurité n'est rien d'autre que cette insistance. Tant que les profiteurs seront les décideurs. L'accroissement exponentiel des inégalités sociales exigera certes toujours davantage des dispositifs 'sécuritaires' au sens cette fois où il faudra bien corriger les effects 'à la marge' des marchés prétendument autorégulés: la rage vide et la colère aveugle des dépossédes, des endettés, des rejetés, des déchets. Les régimes néolibéraux sont voués à devenir des États policiers, comme il faudra toujours plus contenir les explosions de la misère. La dégradation rapide et irréversible de l'environnement animera toujours davantage, à chaque cataclysme, en contrpoids dérisoire, le mythe d'une société reflexive, d'une modernité éclairée, consciente des risques, et prête cette fois à prendre la mesure du danger encouru par tous. Mais comme le dogme de la sécurité du marché considère toute intervertion publique, toute volonté politique comme malvenue, falsifiante, calamiteuse, on peut être certain que rien ne sera fait pour freiner la mise à sac illimitée de la planète, l'aveuglement productiviste, l'augmentation délirante des inégalités.
La sécurité (la catastrophe), c'est quand tout continue comme avant" (Fréderic Gros, Le Principe Sécurité. Paris: Éditions Gallimard, 2012: p.237-8).


- Crítica da Razão Negra (trecho do livro de Achille Mbembe).

02 abril, 2015

o que amar quer dizer

quando, no doutorado, entrei em uma imensa crise de categorias e formas de pensar e fui chegando ao Foucault, pelas notas de rodapé do Castel,  nem imaginava que era um caminho que me levaria cada vez mais perto do Mauricio. vai ver que digo errado: quando, no meio do doutorado, me peguei absolutamente perdida e sem saber como seguir, talvez tenha sido o Mauricio, brilhando intermitente feito farol naquela escuridão, que me ajudou a reencontrar um caminho. um caminho que passava pelo Foucault e me levava para mais perto dele - eu que, teimosa, tinha tentado fugir pro prédio ao lado só pra voltar, rabo entre as pernas, pro coração da sociologia; pra mais perto dele, mas também pra mais longe, tão distantes os temas daqueles que dividíamos, ele, Ana e eu, como preocupações durante a graduação.
desde aquela época, raras são as semanas em que não nos escrevemos - para falar da vida, do presente, do contemporâneo, das crises ou das bonitezas da vida...
então foi um privilégio imenso poder estar presente na defesa dele, na terça-feira. foi uma defesa linda, consonante com o trabalho belíssimo que ele fez atualizando as leituras que Foucault fez do Irã, mas atualizando também a polêmica como bloqueio à filosofia que pretenda ser uma ontologia de nós mesmos. com coragem - se o Sergio Adorno estivesse na banca, não resistiria a invocar o sapere aude que o Foucault tanto sublinhou no Kant - e uma paciência infinita, o Mauricio foi lá e mexeu no vespeiro das reportagens de Foucault sobre a revolução iraniana, tendo voltado dessa aventura com muitas histórias para contar e, certamente, um caderninho (daqueles em que se anotam planos de viagem) cheio.
foi também uma felicidade, pois naquela sala de defesa ficaram claras as razões pelas quais o Mauricio pode encontrar ali as condições para ser ele mesmo (o que, no caso dele, bem foucaultianamente, significa um incessante trabalho de diferenciar-se de si mesmo): na presença atenta dos colegas de grupo de pesquisa, no entusiasmo da orientadora, nas arguições generosas, cuidadosas e bonitas da banca, tudo dizia da partilha de um mundo comum que garante a cada um as condições de experimentar pensar. e é bom saber que quem a gente ama encontrou amparos. faz grassar um quentinho bom, misto de orgulho e gratidão.
esses dias estou lendo o Mathieu Lindon, em grande medida sobre o Foucault. logo no início, ele diz "Eu poderia nunca ter conhecido Michel, nunca ter posto os pés em seu apartamento, e, com todo o amor familiar que me cercava, sinto pena da vida que eu teria tido".
eu poderia nunca ter conhecido o Mauricio, nunca ter partilhado com ele o que nos com-divide. e sinto pena da vida que eu teria tido. pois que não tenho dúvida alguma sobre o tanto que meu amor por ele abriu (e abre) de espaços e tempos no todo dia, o tanto que me ensinou (e ensina), o tanto que sua confiança em mim e sua mão dada à minha me ajudaram (me ajudam) a ultrapassar desertos. o tanto que conviver com ele me enraíza no mundo: raízes aéreas, mas ainda assim.
parabéns, querido. e me desculpe a falta de recato da declaração pública: é que desta vez a vontade de dizer era grande demais.

30 março, 2015

e então choveu

não tem nada melhor para atravessar um ciclo seco do que essa delicadeza capaz de aplainar todas as esquinas, cantos e farpas que temos por dentro. (a segunda música que eles tocam se chama and then it rained. e é sempre bom quando à tensão e à pressão e ao cinza chumbo se segue a chuva, a aliviar o mundo de seu próprio peso. a aliviar a nós mesmos de nosso próprio peso: as portas todas destravando por dentro).


14 março, 2015

pra amansar os fantasmas


(uma vez que vários deles resolveram sair das tumbas e passear por esses tempos...).
(porque é preciso conviver com eles, acalmá-los todos os dias, para que a vida não seja um eterno recomeçar de bateres de cabeça e mergulho sempre nos mesmos erros)
(porque para ir adiante, parece que não se deve esquecer o passado, mas atualizá-lo, uma vez e outra vez e ainda mais uma vez. essa sim a verdadeira repetição no estarmos vivos).
(porque recomeçar é um misto de despedir-se dos mortos e honrá-los: é um trabalho de escuta atenta do passado).





06 março, 2015

quaresma

jejuar, nessa vida sem ritos, apenas nos dias de exame. um jejum tão sem ritmo que arrisca acordar e esquecer do compromisso – e aí toca recomeçar a contagem no dia seguinte: no mínimo doze, no máximo quatorze horas. um breve intervalo para que o sangue colhido revele seus mistérios ao invés de ocultá-los.
na sala de espera, espero. acostumados à distração da fome no correr dos dias, o mau-humor vai se instalando cada vez mais depressa nesses instantes ociosos, ritmados pela campainha a chamar o próximo de uma fila que parece, ela sim, constantemente alimentada.
é uma fome que nem chega a ser fome, claro. é somente um acordar dos músculos do estômago, que se inquietam num vazio ácido.
penso na simplicidade de uma torrada com manteiga e tomates, um pouquinho de sal. café da manhã estranho, aprendido com a amiga querida. penso no cremoso de um café com leite, temperado com uma colher de chá de extrato de baunilha. o leite gordo, a produzir natas e bigodes. penso num suco fresco de laranjas doces.
entre a irritação com a demora e os pensamentos que idealizam um café raramente possível no cotidiano não sobra espaço para nada. o livro, fechado, depois de diversas tentativas de conferir sentido àquelas letras enfileiradas. concentração nenhuma. será que algo no exame de sangue explicará essa incapacidade? ou ela se deve a essa situação momentânea?
na quaresma, o único jejum era o de carne, às sextas-feiras. de vez em quando, o embate com o corpo mais agudo, a suspensão dos doces pelos quarenta dias. atravessar o deserto, sem a ajuda do açúcar: enfrentar-se com o vazio e o seco, sem conforto algum. do outro lado, a alegria de dobrar a própria vontade.
um nome é chamado na área de exames e faz o coração quase parar. é o nome e sobrenome dela e estico o pescoço e os olhos, mesmo sem querer. mesmo sabendo que ela está morta há vinte anos. o nome, que era o dela, abrindo uma fresta de possibilidade de tudo ter sido um engano, um engodo. e então eu a encontraria, finalmente envelhecida, não mais congelada naquele corpo de dezessete anos. me sinto boba e frágil ao ter me assustado. é um nome comum, afinal.
procurando por ela, nem vejo sua homônima. não saberia reconhece-la, se o que procuro é essa outra, ainda aos dezessete anos, o corpo alto e esguio de bailarina como antes da doença. antes da travessia pelo deserto. na quaresma daquele ano, será que abri mão dos chocolates e dos doces, barganhando: um sacrifício por um milagre? minha memória me trai. só me lembro de ter ofertado a ela chocolates.
finalmente a minha vez, e a enfermeira erra a veia, me machucando. quantas marcas, um corpo hospitalizado? não deveria mais pensar nisso, mas penso. agora é só no que penso: nela, em seu corpo frágil (como o meu); nela, e no frio que sentia (e que também me provoca arrepios); nela e no tanto de amor em volta dela, ainda que insuficiente para amarrá-la a esta vida. foi depois da morte dela que jejuar deixou de fazer sentido – a urgência atravessando o tempo e fazendo do deserto, cidade de luzes e desejos.

meu braço está roxo. em casa não há tomates nem laranjas. pego na geladeira o leite: uma xícara na leiteira e outra na vasilha branca. enquanto o leite esquenta e o café passa, derramo ainda um ovo, uma colher de óleo, uma colher de fermento químico e uma xícara de farinha de trigo na vasilha onde só havia leite. uma pitada de sal e uma colher de açúcar. mexo bem e começo a cozinhar: panquecas, redondas e grossas. um improviso, mas nem parece. na primeira garfada trituro pequenos pedaços e percebo que deixei parte da casca dos ovos cair na massa. finalmente começar o dia, no esforço em chegar ao fim de mais uma travessia – a  memória da areia entre os dentes.

22 fevereiro, 2015

das surpresas bonitas da vida

essa boniteza atravessa o domingo de céu azul e deixa um rastro de nuvens, daqueles que marcam a passagem de algo que já não vemos, nem podemos ter certeza sobre o que é. mas que é bom de ver porque acorda uma sensação boa e infantil de prestar atenção e encontrar sinais.
como não sou (muito) egoísta, divido.


03 fevereiro, 2015

delicadeza



(depois de assistir Interstellar e no meio dessa secura em que andamos, é quase um alívio uma imaginação tão úmida...).

02 fevereiro, 2015

correndo para as montanhas

(pra quem precisa fazer uma semana pegar no tranco, nessa segunda-feira deliciosamente chuvosa e cinzenta!).


12 dezembro, 2014

que tempos são esses?

poema que me chegou de presente, nessa semana em que o relatório final da Comissão da Verdade veio à luz. uma atualização de Brecht, em tempos que já são outros, mas cuja natureza não cessamos de ter que interrogar. o presente, com suas canequinhas e bacias espalhadas, a conter o passado que insiste em vazar. sobre nós, que não estamos na chuva, que não construímos com nossas mãos esse telhado. e, no entanto, cá estamos: a espalhar contenções, a torcer a roupa encharcada, a procurar abrigo. interpelados a ouvir o silêncio que arrepia as árvores. a seguir os rastros que levem até essa edificação onde se ocultam os desaparecidos.

What kind of times are these? (Adrienne Rich)

There's a place between two stands of trees where the grass grows uphill
and the old revolutionary road breaks off into shadows
near a meeting-house abandoned by the persecuted
who disappeared into those shadows.

I've walked there picking mushrooms at the edge of dread, but don't be fooled
this isn't a Russian poem, this is not somewhere else but here,
our country moving closer to its own truth and dread,
its own ways of making people disappear.

I won't tell you where the place is, the dark mesh of the woods
meeting the unmarked strip of light—
ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:
I know already who wants to buy it, sell it, make it disappear.

And I won't tell you where it is, so why do I tell you
anything? Because you still listen, because in times like these
to have you listen at all, it's necessary
to talk about trees.