não tem nada melhor para atravessar um ciclo seco do que essa delicadeza capaz de aplainar todas as esquinas, cantos e farpas que temos por dentro. (a segunda música que eles tocam se chama and then it rained. e é sempre bom quando à tensão e à pressão e ao cinza chumbo se segue a chuva, a aliviar o mundo de seu próprio peso. a aliviar a nós mesmos de nosso próprio peso: as portas todas destravando por dentro).
Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo. Porque esta noite/ Olhei-me a mim, como se tu me/ olhasses. E era como se a água Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. (Hilda Hilst)
30 março, 2015
e então choveu
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14 março, 2015
pra amansar os fantasmas
(uma vez que vários deles resolveram sair das tumbas e passear por esses tempos...).
(porque é preciso conviver com eles, acalmá-los todos os dias, para que a vida não seja um eterno recomeçar de bateres de cabeça e mergulho sempre nos mesmos erros)
(porque para ir adiante, parece que não se deve esquecer o passado, mas atualizá-lo, uma vez e outra vez e ainda mais uma vez. essa sim a verdadeira repetição no estarmos vivos).
(porque é preciso conviver com eles, acalmá-los todos os dias, para que a vida não seja um eterno recomeçar de bateres de cabeça e mergulho sempre nos mesmos erros)
(porque para ir adiante, parece que não se deve esquecer o passado, mas atualizá-lo, uma vez e outra vez e ainda mais uma vez. essa sim a verdadeira repetição no estarmos vivos).
(porque recomeçar é um misto de despedir-se dos mortos e honrá-los: é um trabalho de escuta atenta do passado).
06 março, 2015
quaresma
jejuar, nessa vida sem ritos, apenas nos dias de exame. um
jejum tão sem ritmo que arrisca acordar e esquecer do compromisso – e aí toca
recomeçar a contagem no dia seguinte: no mínimo doze, no máximo quatorze horas.
um breve intervalo para que o sangue colhido revele seus mistérios ao invés de
ocultá-los.
na sala de espera, espero. acostumados à distração da fome
no correr dos dias, o mau-humor vai se instalando cada vez mais depressa nesses
instantes ociosos, ritmados pela campainha a chamar o próximo de uma fila que
parece, ela sim, constantemente alimentada.
é uma fome que nem chega a ser fome, claro. é somente um
acordar dos músculos do estômago, que se inquietam num vazio ácido.
penso na simplicidade de uma torrada com manteiga e tomates,
um pouquinho de sal. café da manhã estranho, aprendido com a amiga querida.
penso no cremoso de um café com leite, temperado com uma colher de chá de
extrato de baunilha. o leite gordo, a produzir natas e bigodes. penso num suco
fresco de laranjas doces.
entre a irritação com a demora e os pensamentos que
idealizam um café raramente possível no cotidiano não sobra espaço para nada. o
livro, fechado, depois de diversas tentativas de conferir sentido àquelas
letras enfileiradas. concentração nenhuma. será que algo no exame de sangue
explicará essa incapacidade? ou ela se deve a essa situação momentânea?
na quaresma, o único jejum era o de carne, às sextas-feiras.
de vez em quando, o embate com o corpo mais agudo, a suspensão dos doces pelos
quarenta dias. atravessar o deserto, sem a ajuda do açúcar: enfrentar-se com o
vazio e o seco, sem conforto algum. do outro lado, a alegria de dobrar a
própria vontade.
um nome é chamado na área de exames e faz o coração quase
parar. é o nome e sobrenome dela e estico o pescoço e os olhos, mesmo sem
querer. mesmo sabendo que ela está morta há vinte anos. o nome, que era o dela,
abrindo uma fresta de possibilidade de tudo ter sido um engano, um engodo. e
então eu a encontraria, finalmente envelhecida, não mais congelada naquele
corpo de dezessete anos. me sinto boba e frágil ao ter me assustado. é um nome
comum, afinal.
procurando por ela, nem vejo sua homônima. não saberia
reconhece-la, se o que procuro é essa outra, ainda aos dezessete anos, o corpo
alto e esguio de bailarina como antes da doença. antes da travessia pelo
deserto. na quaresma daquele ano, será que abri mão dos chocolates e dos doces,
barganhando: um sacrifício por um milagre? minha memória me trai. só me lembro
de ter ofertado a ela chocolates.
finalmente a minha vez, e a enfermeira erra a veia, me
machucando. quantas marcas, um corpo hospitalizado? não deveria mais pensar
nisso, mas penso. agora é só no que penso: nela, em seu corpo frágil (como o
meu); nela, e no frio que sentia (e que também me provoca arrepios); nela e no
tanto de amor em volta dela, ainda que insuficiente para amarrá-la a esta vida.
foi depois da morte dela que jejuar deixou de fazer sentido – a urgência
atravessando o tempo e fazendo do deserto, cidade de luzes e desejos.
meu braço está roxo. em casa não há tomates nem laranjas.
pego na geladeira o leite: uma xícara na leiteira e outra na vasilha branca.
enquanto o leite esquenta e o café passa, derramo ainda um ovo, uma colher de
óleo, uma colher de fermento químico e uma xícara de farinha de trigo na vasilha
onde só havia leite. uma pitada de sal e uma colher de açúcar. mexo bem e
começo a cozinhar: panquecas, redondas e grossas. um improviso, mas nem parece.
na primeira garfada trituro pequenos pedaços e percebo que deixei parte da
casca dos ovos cair na massa. finalmente começar o dia, no esforço em chegar ao
fim de mais uma travessia – a memória da
areia entre os dentes.
22 fevereiro, 2015
das surpresas bonitas da vida
essa boniteza atravessa o domingo de céu azul e deixa um rastro de nuvens, daqueles que marcam a passagem de algo que já não vemos, nem podemos ter certeza sobre o que é. mas que é bom de ver porque acorda uma sensação boa e infantil de prestar atenção e encontrar sinais.
como não sou (muito) egoísta, divido.
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03 fevereiro, 2015
delicadeza
(depois de assistir Interstellar e no meio dessa secura em que andamos, é quase um alívio uma imaginação tão úmida...).
02 fevereiro, 2015
correndo para as montanhas
(pra quem precisa fazer uma semana pegar no tranco, nessa segunda-feira deliciosamente chuvosa e cinzenta!).
12 dezembro, 2014
que tempos são esses?
poema que me chegou de presente, nessa semana em que o relatório final da Comissão da Verdade veio à luz. uma atualização de Brecht, em tempos que já são outros, mas cuja natureza não cessamos de ter que interrogar. o presente, com suas canequinhas e bacias espalhadas, a conter o passado que insiste em vazar. sobre nós, que não estamos na chuva, que não construímos com nossas mãos esse telhado. e, no entanto, cá estamos: a espalhar contenções, a torcer a roupa encharcada, a procurar abrigo. interpelados a ouvir o silêncio que arrepia as árvores. a seguir os rastros que levem até essa edificação onde se ocultam os desaparecidos.
What kind of times are these? (Adrienne Rich)
There's a place between two stands of trees where the grass grows uphill
and the old revolutionary road breaks off into shadows
near a meeting-house abandoned by the persecuted
who disappeared into those shadows.
I've walked there picking mushrooms at the edge of dread, but don't be fooled
this isn't a Russian poem, this is not somewhere else but here,
our country moving closer to its own truth and dread,
its own ways of making people disappear.
I won't tell you where the place is, the dark mesh of the woods
meeting the unmarked strip of light—
ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:
I know already who wants to buy it, sell it, make it disappear.
And I won't tell you where it is, so why do I tell you
anything? Because you still listen, because in times like these
to have you listen at all, it's necessary
to talk about trees.
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24 novembro, 2014
mosaico amargo
- "O crash atual representa o acidente integral por excelência" (entrevista com Paul Virilio, de 2008).
- "Já não me restam lágrimas" (notícia sobre Carmen Martinez Ayuso, de 85 anos, despejada na Espanha após seu filho ter tomado um empréstimo).
- "Diálogos sobre o fim do mundo" (entrevista de Eduardo Viveiros de Castro e Daniele Danowski a Eliane Brum).
- "O muro de Dourados" (reportagem de Fabiano Maissonave).
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30 outubro, 2014
07 outubro, 2014
em mar aberto
nos últimos dias (duros, difíceis), lembrei da potente voz do milton nascimento cantando essa plataforma onde a gente descansa, se ancora e de onde é possível se lançar quando oportuno. pequena margem de segurança, inventada. a ficção da seguridade contida aí, nessa outra ficção de que se lançar ao mar é escolha. como se estar vivo não fosse isso aqui, esse esforço em manter a cabeça para cima da água, essa luta contra o vento e a tempestade. as fases em que dói o peito com o cansaço de nadar sem trégua.
e porque lembrei dessa canção, lembrei também de drummond.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação (Os ombros suportam o mundo. Sentimento do mundo).
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