a chuva contínua já quase nem se percebe (tão rápido nos acostumamos às mudanças, mesmo as mais cinzentas). caminhando por entre os pingos, a atenção é atraída para o estranho bicho pousado: no tronco do poste, uma mariposa de nylon descansa. o frágil guarda-chuva chinês que o vento virou, revirado em beleza. descartável. e ainda assim, capaz de acordar no rosto uma alegria.
Se te pareço noturna e imperfeita/ Olha-me de novo. Porque esta noite/ Olhei-me a mim, como se tu me/ olhasses. E era como se a água Desejasse/ Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há tanto tempo/ Entendo que sou terra. (Hilda Hilst)
09 junho, 2012
PP
(pós-post): depois de escrever o post de ontem, me lembrei do Drummond, em Relógio do Rosário (Claro Enigma):
{...} Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,
a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.
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bonitezas,
Drummond de Andrade: Carlos
08 junho, 2012
carne viva
vezemquando a vida lateja mais. eu achava que era a falta de sol, a monotonia do cinza que faz dia e noite se parecerem. em dias de garoa fina, é como se o corpo ficasse sem pele e a alma arroxeasse a qualquer toque - rememoração de quaresma a pedir delicadeza e silêncio. mas não sei se é só a saudade do azul e amarelo que explica o coração em sobressalto, como se entre as batidas morasse uma tristeza fina querendo escapar. acho que é a dificuldade de respirar quando a gente caminha sentindo a vida passando, em toda suas intensidades, agridoce. tempo de lembrar os mortos, os caminhos abandonados. tempo de ouvir atentamente os prenúncios de vida - a primavera que mora dentro do inverno. tempo de respirar mais fundo, a leveza do suspiro pontuando o contínuo escorrer - da vida, da água, do tempo.
So may the sunrise bring hope where it once was forgotten:
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07 junho, 2012
correnteza
porque escrever tem sido urgente, acordei pensando nisso: que escrever é exercício - às vezes ioga, com sua força e flexibilidade, às vezes cardio boxe, com sua fúria e violência. lutar com palavras é a luta mais vã, Drummond já dissera.
e porque já acordei pensando a escrita, imaginei que escrever é também trabalho manual - entre a alquimia da cozinha, misturando ingredientes e temperaturas, e a precisão do ikebana, no esforço delicado de arranjar as palavras em formas um pouco estranhas, ocupar espaços, redefinir a beleza. (já a escrita acadêmica, essa é a arte perdida da relojoaria: as palavras, engrenagens a fazer funcionar a maquinaria da explicação).
a possibilidade da escrita relampeja entre a distração e a concentração. a distensão que permite ser surpreendido, o susto arrancando a gente do que no tododia também é banal; a atenção que torna possível agarrar em pleno ar a estrela cadente: o escritor, um ninja.
escrever é estender a mão como caule que se projetasse repentino do fundo da terra. entre o desejo de comunicação e a pura e simples vontade de distribuir a beleza inventada.
a escrita, sempre entre uma coisa e outra, rio comprimido entre as margens. às vezes quase seco, às vezes cheia, às vezes a confusão do encontro com o mar. outras vezes, como agora, caudalosa e irresistível correnteza.
06 junho, 2012
sabedoria
na aula de ginástica, o professor explica o exercício "abre os braços e fecha as pernas". a voz da bisavó ecoa, firme através dos tempos, ensinando os cuidados em ser mulher. os braços, abertos para a acolhida. as pernas, fechadas para o desejo. atrás do beijo, vem o desejo. sabedoria antiga que alerta para a voragem e seus perigos.
essas vozes me alcançam, mas não me enredam. já todo o caminho na pele que o veludo do primeiro beijo abriu, esse sim me envolve sem salvação. me perco, de novo e de novo e de novo, imprudente. braços e pernas abertos ao mesmo tempo, dizendo sim às águas turvas e seus tragos.
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05 junho, 2012
espera
a chuva escorre o cinza clarinho que sufoca o azul. tem dias em que para sempre é quanto a chuva dura. no ponto de ônibus os bancos estão todos encharcados, mas o sentimento é ainda de úmida gratidão - que a chuva é fina e não molha em rajadas quem se abriga sob o teto frágil. o trânsito, os motores acelerando, os aviões ao longe: tudo é ríspido e farpeja por dentro. e então o susto. desafiando o chumbo, uma revoada dança, uma vez para perto, outra vez para longe e ainda outra vez para perto. o contrário da pressa de alcançar o destino enfeita o céu a se despir: volteiam, procuram, tateiam o melhor pouso. olhos em festa, afrouxo como se tivesse chegado. nas poças do banco, a espera namorica a permanência.
04 junho, 2012
alongamento
na vida-fluxo, a impossibilidade de parar desgasta os músculos e dormir é apenas breve intervalo sem sonho. na vida-fluxo, sentir sem distração já é interromper: mesmo seguindo a correnteza, dar às braçadas uma direção.
às vezes, porém, o corpo escapa para as margens e encontra alívio na beirada. o estiramento da luta constante ansiando pelo repouso. braços e pernas se alongam. sem o risco do afogamento, a alma se alonga também: relembra o horizonte, o céu, as nuvens. e também as pedras, a terra, os pássaros. rememora o ar quando entra sem esforço.
escrever é cravar as unhas nessas precárias bordas - inventar o repouso onde ele é difícil, amarrar as redes em pleno espaço.
03 junho, 2012
entrelinhas
Frente a frente, derramando enfim
todas as palavras, dizemos, com os
olhos, do silêncio que não é mudez.
(Ana Cristina César. A teus pés).
todas as palavras, dizemos, com os
olhos, do silêncio que não é mudez.
(Ana Cristina César. A teus pés).
02 junho, 2012
inflamação
há alguns anos ganhei uma flor de maio. que só dava flor em setembro - flores branquinhas e rosadas, que de repente enfeitavam as pontas do verde. o vaso foi ficando estreito para tanta raiz, e o que era um virou cinco. cinco vasos que na primavera pingenteavam delicadezas. no início do ano, novo milagre de multiplicação e mais duas novas mudas, essas ainda frágeis, tênues fios como raízes. desconfiei que não iam vingar.
na semana passada, porém, descobri em todas elas os botões: as pequenas contas arvoradas feito rosário que se rompesse em pleno ar. e hoje, a nova surpresa de descobrir nos dois vasos recentes, tão pequeninos e quase só folhas caídas sobre a terra, as inflamações brotando, vermelhas. sempre me assusto com essa determinação de vida - inventando raízes, tingindo novas cores, obstinando em vencer o silêncio da terra: arrebatamento a meio caminho entre a boniteza e a ferida.
01 junho, 2012
alquimia
a palavra condimentos no meio da sentença acadêmica distrai o pensamento. pelo nariz passeiam cheiros: canela sobre o leite quente; cravo no doce-de-abóbora com coco cozinhando na panela de ferro; cominho na carne fritando; cardamomo no café recém-passado; louro fervendo no feijão preto; alecrim em meio a batatas assadas com casca; manjericão no tomate firme e fresco. e erva-doce quando perfuma o bolo de fubá. numa fração de segundo, todos os cheiros da casa quando viva - o sábado e domingo invadindo a sexta-feira. a palavra condimentos, por si mesma, põe toalha florida sobre a mesa-redonda. e deixa entrar, pelas frestas da tese, uma aragem de mato.
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