06 maio, 2011

ponto de fuga

No meio de tanta gente, meu olhar tateia, vagueia, para finalmente convergir em você. E o espaço se abre em amplitudes e as cores em intensidades. A vida inesperadamente adensada, em plena expansão.
Ao mesmo tempo me alegra e me confunde, sua comparência silenciosa e constante, esboçada em traços finos de lápis - sob risco da borracha, como se suspeita de erro.
O cansaço dos dias, as incertezas dos caminhos e a confusão dos tropeços borrados em torno dessa sua presença límpida e mansa. As linhas tortas finalmente reunidas em ilusória direção: caminho infinito à frente e alguém com quem caminhar em quietude.


Gosto de estar a teu lado,
Sem brilho.
Tua presença é uma carne de peixe,
De resistência mansa e de um branco
Ecoando azuis profundos.
(Mário de Andrade)

05 maio, 2011

fluxo

porque tem dia ou melhor tem dias assim no plural e unidos no mesmo fio da pressa em que o folêgo falta e atravessar as horas exige pernas fortes pulmão amplo coração acostumado à rapidez e esses tempos corridos não são nem cansativos porque cansar exige pausa e "quanto mais coisa a gente faz mais coisa consegue fazer" me disseram e logo depois um encontro com alguém que sinceramente não sei como pode tanta coisa o trabalho a escola o casamento o curso de línguas e eu me espanto porque não entendo tanta pressa escolhida eu se pudesse escolhia meu próprio tempo e ele é quase sempre lento que meu folêgo é curto e vira e mexe é preciso vir à tona e redescobrir o ar no meio da pressa as pessoas mesmo as mais queridas e interessantes se perdem viram ponto luminoso no horizonte e o mundo gira pro lado oposto e constrói distâncias onde a gente queria palmilhar um caminhozinho e esse desencontro me dói como uma perda um vislumbre de alegria enterrada na areia que escorre sem parar da ampulheta implacável como é que faz para virá-la começar de novo recordar e planejar e esquecer as mesas sempre empilhadas de livros e textos e tarefas nunca concluídas e a pia empilhada de xícaras e pratos e lembranças de refeições apressadas e o quarto empilhado de roupas usadas e não usadas esperando um lugar na preocupação e no armário tantas pilhas e a gente escorrendo por entre elas no meio delas já sem saber o que importa e eu te convido vamos fugir? a fuga difícil mas só a promessa já me tira do peito um peso já me infla uma esperança no oceano agitado ainda por algum tempo é preciso seguir a correnteza  ainda por algum tempo abandonar-se a ela deve ser isso o que chamam de ser adulto quando ser criança ainda era tomar o tempo em goles largos agora não sei que angústias as crianças de hoje espero que só as inescapáveis e eu perpendiculo as mãos em T e peço pausa digo não finco o pé porque daqui do meio do fluxo vejo um pouso que me interessa e então sei que é preciso interromper.

02 maio, 2011

Nós mesmos a sós*

Depois de ter escrito o último post (e de ter revisto o filme e escutado a trilha do Les chansons d'amours incontáveis vezes), fiquei pensando no amor e na solidão. Parece um pouco cinza dizer assim, como se eu andasse triste ou melancólica, mas não é bem isso: é mais um exercício de pensar que a beleza do filme se produz bem nesse interstício entre um amor duradouro, com todos os seus problemas, e certa solidão que nem mesmo a companhia parece fazer desaparecer. Ainda assim, se alguma chance de escapar existe, a aposta é ainda no amor - na presença de outro, que nos ama e a quem amamos, que nos toca, nos abraça, que modifica o mundo ao enchê-lo de sinais.

E depois de rever o filme, pensei também no conto-novela do Caio Fernando Abreu, "Pela Noite" (Estranhos Estrangeiros: São Paulo, Companhia das Letras, 2002), de que gosto tanto e que fala também de modo tão dolorido sobre desencontros e sobre a graça do encontro - reconhecimento e mergulho cego no outro, no corpo do outro. E que armadilha que, como nós, o outro também tenha um corpo por continente, um corpo vivo que pulsa, sangra e goza, mas que também muda de ideia e parte ou, exagero de abandono, morre.

Com todas essas coisas na cabeça, ainda fui ler O fuzil de caça, de Yasouchi Inoue. Quem me falou do livro havia mesmo comentado sobre a excessiva solidão da personagem, mas é realmente impressionante como Inoue - ao lançar mão das cartas para contar a história - nos coloca em uma posição de solidão parecida à de Josuke Misugi. Como a personagem, ficamos na mesma posição de ler e aceitar as decisões de três mulheres importantes em sua vida, que ao mesmo tempo em que escrevem para ele, escrevem apesar dele, escrevem para se livrar dele. É tão triste e tão exato que a personagem principal quase não apareça, senão do modo como as três mulheres o pronunciam.

O livro é de 1949 e os ecos da experiência da II Guerra aparecem aqui e ali. Não apenas por isso,  me fez lembrar, embora não imediatamente, do livro de Graham Greene, Fim de Caso. O livro de Greene é de 1951, e acabei me lembrando dele principalmente por conta de um elemento que - para mim - pareceu bastante estranho na narrativa de Inoue: a presença da ideia de pecado.

A indicação do livro de Inoue me foi feita em meio a uma conversa sobre literatura japonesa e também em meio a um comentário sobre o estranhamento provocado, numa mesa sobre desemprego e experiências de desempregados, pela apresentação de pesquisadores japoneses que apontavam a centralidade do sentimento de vergonha para a compreensão das experiências subjetivas dos desempregados japoneses. Participando da mesa, havia finlandeses, alemães, suecos... e eles eram visivelmente incapazes de compreender que fosse possível alguém sentir vergonha; culpa, certamente, mas vergonha? São matrizes de codificação moral bastante diferentes.

Por isso me espantou tanto a sedução que a ideia de pecado assume na narrativa de Inoue - algo que agrega ao "erro" o peso do segredo. O interessante é que é uma ideia de pecado ela mesma estranha (para nós, ocidentais), pois que à revelação não sucede nenhuma salvação; à revelação parece suceder a súbita compreensão justamente da inadequação da própria sensação de pecado. O peso não vai embora devido à  algo como uma expiação, mas porque é o próprio pecado que se dissipa.

A solidão, no romance de Inoue, parece vir do oco dos rituais, símbolos e códigos. A distância irremediável a que todos os personagens estão submetidos, em relação uns aos outros, marca um absoluto desencontro. E aquilo que podia assumir o caráter de ponte - as cartas honestas e claras dirigidas à Josuke Misagi - revela uma ruptura ainda mais intensa, dando realidade a uma solidão que já se inflitrava pelos poros daquela vida.

Muito diferente, portanto, da tensão e da angústia de Fim de Caso, em que o pecado nunca pode ser expiado, mas é amenizado por meio de uma distância artificialmente criada: solidão auto-infligida e imposta ao outro, visando uma salvação absolutamente mundana. O que diferencia radicalmente os dois livros, além dos sentires de raízes tão distintas, sem dúvida é a ideia de Deus - aceita como milagre ou recusada como absurda e sem sentido - presente em Fim de Caso. Em comum, além da época sombria em que foram escritas, ambos podem ser reflexões sobre solidão e amor, sobre essa espécie de inescapabilidade (existe essa palavra horrível?) da solidão e sobre as promessas e limites do amor para cutucar rachaduras onde a saída se reveste de pedra.

* verso de poema de Fernando Pessoa para Sá-Carneiro. "[...] porque ha em nós, por mais que consigamos/ Ser nós mesmos a sós sem nostalgia/ Um desejo de termos companhia [...]".

26 abril, 2011

maré

Parar para escrever não tem sido nada fácil. Já perdi a conta de quantas vezes cliquei em Nova Postagem, provocada pela vontade de colocar em palavras uma impressão, uma experiência ou mesmo a dificuldade de reservar um tempo para deixar a maré baixar e ficar à espreita do que emerge.

Escrever exige de mim um respirar mais lento. Um pouco de silêncio ou um pouco de música recém-descoberta em loop. É que tem música que ressoa tanto que amplia o silêncio, delineia  melhor os cantos por dentro da gente. A de hoje é essa aqui:



Quem me deu o filme foi o Mauricio. E estou morrendo de saudade do Mauricio. Mas me lembrei das músicas porque reencontrei a Monika no feriado e essa foi uma das coisas que ouvimos. Ouvimos também  (e contamos) histórias, desejos, cotidianos, descobertas... Reencontrei também a Mércia e a Tarsila, queridas e companheiras, tão suaves que demandavam a maciez do silêncio para não acordar as dores ainda cicatrizando.

E então a chuva e o frio e o cinza. A morte e a dor tão próximas dos que amamos. É do silêncio, portanto, que escrevo. Do vazio cavado à força, por dentro de um tempo roubado ao do relógio. Deveria estar trabalhando, terminando a declaração do IR, respondendo mensagens. E no entanto paro e escrevo para tentar segurar o mar com as pontas dos pés: o esforço inútil esquecido na brincadeira de cavar buracos na areia, de ver os pés se cobrindo de areia molhada - ampulheta sem redoma.

Por três vezes nas últimas semanas cruzei desconhecidos que pouco depois reencontrei - num outro andar, algumas ruas adiante, em frente ao mesmo elevador... Engraçado, né? A desconfiança de que as coincidências são pequenos sinais de alguma ordem oculta que governa o mundo...

Tão vendo? Desaprendi de escrever. Começo e não sei terminar. Espero a maré baixar, começo,  apenas para me abandonar no excesso de água e sal. Não vou me debater para não me afogar. Vou confiar, como o Quintana, que continuarei vindo "à tona de todos os naufrágios".

Então acho que por enquanto é isso: essas letras um tanto borradas, ainda úmidas e rescendendo à maresia. Um barulho indistinto que nem é silêncio, nem é conversa: é só o eco da saudade doída que a gente ameniza levando a concha aos ouvidos.

13 março, 2011

nesperança

faz um tempo que notamos a folhagenzinha verde que despontou: frágil, mas também decidida, foi crescendo, crescendo. mãe de um filho, sabia que o jeito era deixar crescer. mesmo sem saber o que era, mesmo sem pistas de como aparecera. do outro lado do vaso, outro brotinho igual a lhe fazer companhia.

hoje, mexendo nas plantas, descobri-lhe a identidade: é pé de nêspera, brotada de sementes há muito tempo lá depositadas, junto com a esperança de que pudessem renascer. com a revelação, uma felicidade infantil de quem se surpreende com a vida inesperada.

especialmente hoje, em que a dor que tem epicentro do outro lado do mundo me atinge e me inunda, que lindo ver a brotar duas nesperanças, para relembrar que do silêncio e do fim também se ressurge.

26 fevereiro, 2011

Do fundo do baú

Hoje tive que dar uma pequena arrumada no escritório, que está um caos de livros e papéis, e acabei encontrando um troço muito antigo, acho que do segundo ano de faculdade. Feito numa das noites de música, vinho Sinuelo e muita, mas muita conversa e risada que tínhamos na casa dela, um "teste vocacional para as ciências sociais". Escrito pela Tati, pela Ju e por mim, é só trocadilho bobo ao longo de todo o "teste", mas ainda dá para ouvir o eco das nossas descobertas e esperanças de antes dos vinte anos.

Então, "porque hoje é sábado", divido com vocês estas bobagens adolescentes.

Teste vocacional para as ciências sociais
(Diga-me quem sois e te direi quem és). 

DADOS PESSOAIS:
Nome:
(  ) próprio
(  ) alugado
(  ) financiado
(  ) clonado
(  ) irrelevante

Idade:
(  ) jovem
(  ) maduro
(  ) senil
(  ) ancião

Signo
(  ) próprio
(  ) somente ascendente
(  ) chinês, nê?
(  ) N.B.A.

Estado civil:
(  ) SP
(  ) solteiro
(  ) casado
(  ) indefinido

PERFIL

Quando você se olha no espelho, você vê alguém:
(  ) egocêntrico
(  ) etnocêntrico
(  ) antropocêntrico

Responda SIM ou NÃO:
- Você se acha maisque Weber?
- Você tem pés-francos (ou frankfoot, como eles dizem lá)?
- Você seria capaz de um hobbes a banco?
- Às vezes você se sente mauss ou menos?
- Durkheim na prova?
- Você já viu sua mãe de Bobbio?
- Você acha que A Oleira Ciumenta é um livro de auto-ajuda para mulheres com crise no casamento?
- Você toca baixo, alto Xingu ou não é o tipo de pessoa que classifica as coisas em um sistema binário?

Qual o tipo de abordagem do problema "Com quantos paus se faz uma canoa" se parece com você?
- marxista: qual a força de trabalho gasta para se fazer uma canoa?
- weberiana: qual o espírito dos homens que precisam de canoas para navegar?

SOBRE SEUS HÁBITOS:
- Você dorme de hobbes ou de pijama?
- Qual é o seu hobbes?

O mais interessante é que o teste acaba assim, abruptamente e sem nenhuma tipologia orientadora da leitura dos resultados. A única anotação ao final, com a letra da Ju, diz apenas "parem de xingar o meu vinho" :-)

25 fevereiro, 2011

às vezes*

E é tão bom querer e poder voltar para casa.

(Quadrinho de Fábio Moon e Gabriel Bá, tirado do 10 Pãezinhos; dica da Veronika)

*clique na tirinha para aumentar.

15 fevereiro, 2011

de passagem

Primeiro o homem, todo menino, no meio da rua. Os braços pensos para baixo, como quem devolve ao outro o enigma que foi incapaz de resolver. As mãos espalmando a pergunta. Depois a moça, toda antiga, emoldurada pela janela do quarto. Dura e distante, afirmando enfaticamente a resposta que o outro não quer ouvir. Por último a chuva, suspensa, recusando interromper e transformar a cena. Nos filmes românticos, o reencontro  sempre uma umidade de pingos grossos e lágrimas. Não ali. Não agora. Finda a história.

09 fevereiro, 2011

ao rés do chão

comprei na feira um quarto de melancia: linda, madura, de um vermelho fresco e vigoroso que põe água na nossa boca antes mesmo do primeiro bocado. cabe mal na geladeira. daí da ideia de transformá-la em suco, no meio da tarde quente e abafada. chego a pegar a jarra, mas me falta coragem. melancia bonita e doce assim não é de se saborear em pasta. não: coisas doces e suculentas assim só valem a pena inteiras - os pedaços estalando, o sumo escorrendo pelos cantos da boca, as sementes interrompendo e completando a fruição. que o bom da vida não é de se tomar aos goles, mas de se cravar os dentes.

02 fevereiro, 2011

Um livro

Primeiro pensei em colocar no Margens. Mas é tão bonito, tão bonito, que decidi colocar aqui mesmo, para dividir com as pessoas queridas que costumam vir me visitar :-)

"Um livro é produzido, evento minúsculo, pequeno objeto manejável. A partir daí, é aprisionado num jogo contínuo de repetições; seus duplos, a sua volta e bem longe deles, formigam; cada leitura atribui-lhe, por um momento, um corpo impalpável e único; fragmentos de si próprio circulam como sendo sua totalidade, passando por contê-lo quase todo e nos quais acontece-lhe, finalmente, encontrar abrigo; os comentários desdobram-no, outros discursos no qual enfim ele mesmo deve aparecer, confessar o que se recusou dizer, libertar-se daquilo que, ruidosamente, fingia ser.

[...]

Gostaria que um livro, pelo menos da parte de quem o escreveu, nada fosse além das frases de que é feito; que ele não se desdobrasse nesse primeiro simulacro de si mesmo que é um prefácio, e que pretende oferecer sua lei a todos que, no futuro, venham a formar-se a partir dele. Gostaria que esse objeto-evento, quase imperceptível entre tantos outros, se recopiasse, se fragmentasse, se repetisse, se simulasse, se desdobrasse, desaparecesse enfim sem que aquele a quem aconteceu escrevê-lo pudesse alguma vez reivindicar o direito de ser seu senhor, de impor o que queria dizer, ou dizer o que o livro devia ser. Em suma, gostaria que um livro não se atribuísse a si mesmo essa condição de texto ao qual a pedagogia ou a crítica saberão reduzi-lo, mas que tivesse a desenvoltura de apresentar-se como discurso: simultaneamente batalha e arma, conjunturas e vestígios, encontro irregular e cena repetível".

(Michel Foucault, no novo prefácio à História da Loucura na idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 2008).