09 maio, 2008

Hoje, só amanhã

E eu estou aqui às voltas com o texto de qualificação, num parto longo e demorado mas que já está bem adiantado...

Por isso hoje, ainda que tenha alguns assuntos sobre os quais gostaria de escrever, só amanhã.

Só conto rapidinho uma conversa com o Rodrigo, às 7h da manhã. No meio da madrugada, o bichinho tinhado ficado com frio e tinha pedido vir para a nossa cama (ele ainda perdeu o sono, ficou me cutucando até umas 5h30, mas deixa para lá...). Então, às 7h escuto uma vozinha meio sussurrada: "quero mamaaaar, quero mamaaaar".

Levantei, dei mamá para ele e, como sempre, quando acabou ele ficou jogado no meu colo, rindo muuuito. Mas em seguida pediu a chupeta (um dia conto a saga da chupeta, tanto das razões de termos dado, quanto da dificuldade em ajudá-lo a se livrar do vício).

- Quero a chupeeeta (ainda deitado no meu colo).
- Ah, Rô. Não. Pra que chupeta, vamos tomar café.
- Mas mãe, eu tô com fooome de chupeeeta.

Essa foi nova!

E na hora de ir para a escola, ele resolveu que ia:
  • - de papetes do homem-aranha, usadas com meia;
  • - de luvas
  • - com o chapéu de caubói que ganhou do pai.
Aliás, ontem o Edu voltou, enquanto ele estava na escola. Quando fomos buscá-lo, o Edu comentou com ele que tinha trazido "um presentinho pro Rodrigo". Tá. Aí, antes de voltar para a casa, fomos buscar a Júlia. Quando o Rô viu que não estávamos indo pra casa, soltou:

- Não! Não quero buscar a Júlia. Quero ir para casa, ver meu presentinho.

Interesseiro?

Aí agora só quer saber do chapéu. De manhã, quando me comunicou que iria levar o chapéu na escola, comentou:
- Vou levar na escola, esse chapéu que é da minha casinha, pra mostrar pro pessoal. Eu vou deixar a A. L. e o P.G. brincarem, tá mãe?

Ai, ai. E não tem nem três anos...

07 maio, 2008

Poema

E como ando ouvindo meus CDs (ia dizer discos...) prediletos, hoje ouvia Ney Matogrosso cantando Poema, do Cazuza:

"Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
De um tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço, um consolo

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás"

Meu pai - II

O Rodrigo tem um livro de canções tradicionais, presente da Martina. E nesse livro tem uma parlenda que é assim: "Era uma vez, três...Ah! Esqueci. Posso contar outra vez?".

É tão bonita essa forma infantil de chamar de esquecimento o que é invenção e experimentação do que poderia ser verdade.

Logo que meus pais se separaram, meu pai se afastou. Acho que ele não sabia ser pai sem ser marido, e precisou de um tempo para aprender.

Eu sentia muito a falta dele. Porque mesmo que me contem histórias de como ele implicava comigo o tempo todo, eu me sentia a "filhota" do papai; me sentia querida por aquele homem desajeitado que eu não conseguia entender. Tanto assim que mentia encontros e presenças - inventava para diminuir a falta.

As más lembranças que tenho são do final do casamento, e não dele. Hoje eu sei.

Dele ficaram pedaços como: o gosto de ficar sozinho (com seus rocks); a inabilidade para cozinhar (sério, lembro dele fazendo uma sopa Maggi e não deu certo); a mágoa quase infantil quando cantávamos, eu e a minha irmã, "Jerônimo, filho de maria-mole" (era só uma brincadeira com a música tema da novela, mas a gente não compreendia o quanto a vó - Maria - era importante para ele); o gosto pela velocidade e pelo risco nas estradas; o senso de humor inteligente, que demorei muito tempo para começar a entender.

Era uma vez três...Posso contar outra vez?

Meu pai era incompreendido. Perdido numa família incapaz de reconhecê-lo; perdido na armadilha de não saber se dar a conhecer. E quando ele se afastou, o que era desconcerto e vontade de descoberta se transformou em abismo.

Um abismo que espero que tenhamos tempo para desfazer. Era uma vez três...Será possível contar outra vez?

06 maio, 2008

Pobre do homem que é amado por uma poeta


"Nem é justo, Dionísio, pedires ao poeta

Que seja sempre terra o que é celeste
E que terrestre não seja o que é só terra".
(Canto VIII, na voz linda de Olívia Byington)


Ainda não consegui escrever direito sobre o CD dos poemas da Hilda Hilst, musicados pelo Zeca Baleiro. Tenho algumas primeiras impressões, outras tantas segundas, terceiras e quartas...Mas está difícil transformá-las em palavras.

Deixo aqui então só um pedacinho do canto IV, cantado pela Jussara Silveira:

"Porque te amo, Dionísio,
É que me faço assim tão simultânea

Madura, adolescente

E por isso talvez
Te aborreças de mim"
, (Hilda Hilst, Canto IV, Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé)

Como já disse, adoro esses amores que despertam a imensa liberdade de se experimentar, de ser várias, de parecer outras.

E, anunciando uma primeira impressão, uma das sensações que tive escutando o CD pela primeira vez foi: pobre do homem que é amado por uma poeta. Porque ele pode se sentir escolhido, enaltecido pelas virtudes de quem está lhe amando. Mas o fato é que o amor está na poeta, à espera de objeto mas, em certo sentido, à despeito de qualquer objeto.

Os poemas da Ode Descontínua... falam mais sobre ausência e falta do que sobre a presença de Dionísio. Em parte porque foram escritos para um amor clandestino - biograficamente falando. Mas poeticamente falando, é a falta que dá impulso às palavras. O primeiro canto, aliás, diz:

"É bom que seja assim, Dionísio,
que não venhas",
(na voz de Rita Ribeiro)

E ela segue dizendo que, se o amado estivesse ali, presente, ela estaria com ele mas perderia o mundo. O próprio mundo que ela usa (em palavras) para se preparar, para estar sempre preparada quando ele vier.

E no canto II (Verônica Sabino):

"(...) Tu sabes,
Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira
Poeta".

E no canto III (Maria Bethânia), é como poeta que ela vai se inconformar com a ausência (igualada à falta de amor):

"A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla e argonauta

Por que recusas amor e permanência?"


A referência a si mesma como poeta é constante. Não é apenas uma mulher apaixonada que fala, louvando ou cobrando o amado. É a poeta que fala, é a poeta que ama, é a poeta que constrói um universo inteiro a partir de um amor que poderia nem existir de fato:

"E fingindo altivez digo à minha estrela
Essa que é inteira prata, dez mil sóis
Sírius pressaga

Que Ariana pode estar sozinha
Sem Dionísio, sem riqueza ou fama
Porque há dentro dela um sol maior:

Amor que se alimenta de uma chama
Movediça e lunada, mais luzente e alta

Quando tu, Dionísio, não estás".
(Canto VI, lindamente cantado pela Ná Ozzetti)

Essa mulher que aparentemente espera e suporta a ausência, é ativa na criação e na transfiguração da vida:

"Tenho meditado e sofrido (...)
Pensando

Que se a mim não me deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: a palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida".
(Canto IX, na voz da Mônica Salmaso).

Embora fale de falta, não há falta alguma: há sim a presença do amor, encarnado nas palavras e cantos. Uma preparação constante para um Outro, Dionísio; mas tanto faz se ele virá ou não porque se ele viesse, não apenas a poeta continuaria atuando, como se transfiguraria ela mesma em melodia:

"Se todas as suas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa

E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia"
(Canto X, na voz de Ângela Maria).

Se o amado estivesse presente, portanto, não lhe restaria alternativa a não ser se transformar também em poeta: o que essa mulher quer mesmo é ser transformada em pura poesia, consubstanciar-se com a palavra (e não com qualquer homem...).

Portanto: pobre do homem que é amado por uma poeta. Julga estar sendo amado por quem é, mas apenas merece amor por dar corpo ao imenso amor que na poeta sempre se prepara.

Bom. Não consegui ainda falar do CD propriamente dito. Mas já foi um começo...

* Este post é dedicado à Juliana B., meu anjo torto. Há muito tempo que não nos vemos, mas ela continua sendo minha companhia nessa beira de estrada, desse lado ensolarado que eu achei para caminhar.

Imagem: http://astronomia-algarve.blogspot.com/2007/04/o-sol-2.html

05 maio, 2008

Meu pai

Meu pai é desajeitado. Sempre me lembro dele assim. E um desajeito que não tem nada a ver com derrubar as coisas, quebrar copos ou pratos: é um desajeito para a vida e principalmente para o amor.

É raro falar dele - mas quando falo, sou obrigada a reconhecer o quanto o carrego dentro de mim: o orgulho de menina sentada na mesa do bar com ele; a pequeninice da minha própria voz cantando O Caderno em um dueto com ele; o desconcerto em vê-lo chorando quando lhe mostrei meus brincos novos.

Meu pai, gaúcho que nunca se achou em outro lugar, menino que nunca se achou em outra idade, homem que nunca se achou com mulher nenhuma. Meu pai é desajeitado. Mas mesmo há tanto tempo sem vê-lo, a coleção de cacos das pequenas lembranças que tenho dele resta intacta dentro de mim. É uma ausência que espeta, machuca, de vez em quando rasga: mas não a troco por nada-nada-nada.

* Eu realmente quase nunca falo sobre o meu pai. Não por falta de amor, mas porque não nos vemos há muito tempo e é mais fácil viver sem lembrar o tempo todo dessa distância. Mas o Carpinejar acaba de lançar uma reedição revista de Um terno de pássaros ao sul e lançou um desafio lá no blog dele, premiando quem escrever a lembrança mais tocante sobre o pai com o livro, autografado por ele. Então resolvi tentar escrever um bocadinho sobre o meu pai; não para ganhar o livro, mas para lembrar mesmo.

04 maio, 2008

Do Livro das Epígrafes - II



Com essa história de escrever quase todo dia, parece que vai ficando mais fácil encontrar os fios que a vida deixou soltos lá atrás para amarrá-los hoje, nesse esforço de - costurando passado, presente e futuro - consistir um pouco mais.

E então topei com esse pedacinho de poema do Gullar, que estava guardado lá no livro das epígrafes e que eu adoro:

Amigos morrem,
as ruas morrem,
as casas morrem.
Os homens se amparam em retratos.
Ou no coração de outros homens".
(Ferreira Gullar).

Sensação de gratidão e eternidade, olhando a trama, por amparar tanta gente no meu coração. E poder me sentir amparada também: nos olhos, braços, gestos e palavras daqueles que eu amo.

Imagem: http://www.overmundo.com.br/banco/patchwork

02 maio, 2008

Sinceridade é tudo

Hora do lanche, Rodrigo pedindo Coca-Cola:
- Quero Coca-Cola!
- Então espera que a Bia vai pegar outro copo.
Enquanto isso, Rodrigo fica fazendo bagunça com o copo de suco de soja que ele estava tomando. E eu digo para ele parar. Como ele não pára, aviso:
- Se você não parar agora, não vai tomar Coca-Cola. Um. Dois. Três. Não vai mais tomar.
Arrependido, ma non troppo:
- Desculpe, mamãe. Eu quero Coca-Cola.
- Mas você vai se comportar?
- Não.
Como disse a Júlia (a irmã do meio): Sinceridade é tudo.

Do livro das epígrafes - I


Eu tenho um caderno, há muito tempo abandonado, em que anoto trechos e passagens de livros que são tão perfeitos em si mesmos que me parecem passíveis de serem utilizados um dia como epígrafes. Na verdade, é minha coleção de preciosidades literárias.

O caderno tem nome: O Livro das Epígrafes. E é dedicado a duas pessoas: Walter Benjamin e Rodrigo Pereira.

Como hoje continuo trabalhando e não vou conseguir roubar uma horinha para escrever, deixo vocês com a Clarice, num texto tão bonito e certeiro que bem poderia servir de epígrafe para esses meus dias.

"Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes. Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir de modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém" (Clarice Lispector).

Imagem: M.C. Escher, Drawing Hands, 1948. Em
www.rockjwalker.com/.../Escher-DrawingHands.jpg

01 maio, 2008

Abismo

"irei à fronteira
olharei o abismo
então decidirei sobre o salto"
(Paulo Nubile)

E por que é que mesmo depois da decisão tomada me tenta a saudade da beirada, a saudade do impulso de pular?

E por que é que mesmo depois da decisão tomada e dos passos retrocedidos, parece mais é que estou em pleno vôo?
Há um certo desbalanço na maneira com que atualmente temos levado a vida: deixamos de marcar, ritualizar as celebrações de vida e assim ficamos com a incômoda impressão de que só há perdas e mortes a celebrar.

Ultimamente tenho sentido necessidade de revisitar alguns dos meus autores prediletos, entre eles o Walter Benjamin. E ontem me lembrei de um texto da Jeanne-Marie Gagnebin sobre os anjos nos textos do Walter Benjamin.

Lá nas "Teses sobre o conceito de história" aparece o comentário sobre o quadro de Klee, o anjo tosco e deformado, que tem os olhos voltados para o passado mas que é impelido vigorosamente pela tempestade do progresso na direção do futuro. É um anjo caído, mundano, que não vê sentido no passado porque não é capaz de estabelecer uma ruptura no presente, distinguindo um momento em que os acontecimentos se encadeiam, ganham sentido e humanidade.

Já em outro texto - Infância Berlinense - o anjo não é mais do que uma brisa que sopra, trazendo o "pressentimento de uma outra felicidade possível" que não esta que escolhemos para nós.

Ambos os anjos são impotentes uma vez que nesse mundo não há espaço para eles - por isso são toscos, incapazes de fazer cumprir a mensagem que vêm anunciar. Como a Jeanne-Marie sugere, radicalizando a sugestão de Benjamin, são os homens que precisam agora ajudar estes anjos a concluírem sua tarefa.

Esta mensagem celebra os seis anos de vida em comum entre Edu e eu. E por mais que seja estranho escrever uma mensagem de celebração falando de desequilíbrio e anjos impotentes, o início da convivência com o Edu - assim como os primeiros momentos de encontro com alguém que começamos a amar - tinha muito este caráter de brisa. Cada novo dia ao lado dele fazia pressentir uma felicidade plena, infinita e eterna.

Depois de seis anos, um mestrado e um doutorado a meio caminho, a perda de um pai, o nascimento de um filho e mais uma porção de pequenas e grandes coisas que se acumulam nessa vida em comum, bem...a felicidade plena parece um pouco distante. De vez em quando viramos nós mesmos o anjo de Klee, incapazes de sair da tempestade da linearidade do tempo, impotentes para ver com calma o que realmente importa.

Agora, nossa possibilidade de redenção parece novamente se concentrar nos ouvidos e nos olhos atentos, à espera de que uma brisa traga consigo o canto de um anjo, que abra de novo as portas do tempo e do espaço e deixe entrever outra felicidade possível - a realização das promessas dos tempos do começo.

Trazer o passado pro futuro, misturar transitório com eterno, acreditar que pequenas epifanias podem ser tão transformadoras quanto grandes acontecimentos, abrir espaço para celebrar os fatos da vida carregando de sentido a morte - Edu, querido: depois de seis anos, continuo querendo fazer tudo isso do teu lado, para que sejamos mais potentes que os anjos do Benjamin, para que sejamos mais humanos, para que a vida valha a pena, para que transbordemos as margens do possível e da morte.

* Este texto é de novembro do ano passado.
** Como é dia do trabalho, estou trabalhando. Por isso, hoje não tem texto novo. Quem sabe amanhã?
*** E o Edu me deu mesmo o CD com os poemas da Hilda Hilst musicados pelo Zeca Baleiro. Quero escrever sobre isso, mas desde já adianto que a Angela Ro Ro é mesmo tudo de bom nessa vida!

Imagem: Angelus Novus, Paul Klee